quinta-feira, janeiro 10, 2008

A POESIA DE BOCAGE



BOCAGE: AQUELE QUE VIVEU INTENSAMENTE


O poeta português Manuel Maria Barbosa l´Hedois du Bocage (1765-1805) foi o maior representante do arcadismo lusitano. Teve uma vida atribulada apesar do mistério que paira sobre a sua biografia. Dele ficaram sonetos, sátiras e outros estilos poéticos que até hoje são recitados. No entanto, o que lhe valeu mais fama foram os seus versos venenosos. Exemplo disso, eis alguns deles sobre os médicos:


Uma terra dizem que há
Onde a fome acerba e dura
Cabo dos médicos dá.
Por que é isto? É porque lá
Pagam somente a quem cura.

Certo enfermo, homem sisudo,
Deixou por condescendência
Chamar um doutor, que tinha
Entre os mais a preferência.
Manda-lhe o fofo Esculápio
Que bote a lingua de fora,
E envia dez garatujas
À botica sem demora.
“Com isto (diz ao doente)
a sepultura lhe tapo”.
Replica o pobre a tremer:
“Aposto que não escapo”.

Para curar febres podres
Um doutor foi se chamar,
Que feitas as cerimônicas,
Começou a receitar.
A cada penada sua
O enfermo arrancava um ai.
“Não se assuste (diz Galeno)
que inda desta se não vai”.
“Ah, senhor! (torna o coitado,
como quem seu fado espreita.)
da moléstia não me assusto,
assusto-me da receita”.

A Morte foi sensual
Quando ainda era menina:
C´o pecado original
Teve cópula carnal
E pariu a Medicina”.

“Aqui jaz quem não jazera,
se jazesse a Mdicina”.

Doutra feita, também deixou das suas sobre mulher feia:


Da feia mulher Andrônio
Com zelos arde e rebenta;
Nisto o não julgo bolônio:
A mulher é um demônio,
Porém o demônio tenta.

Uma das suas mais famosas é a que se fala dos privilegiados narigudos:


Nariz, nariz e nariz,
nariz, que nunca se acaba;
nariz, que se ele desaba,
fará o mundo infeliz;
nariz que Newton não quis
descrever-lhe a diagonal;
nariz de massa infernal,
que, se o calculo não erra,
posto entre o Sol e a Terra
faria eclipse total!

Também aos idiotas e tolos, deixou a uma máxima que vale ser registrada:


(..) Os tolos só dizem
o que ouvem dizer
.

E no final de um dos seus sonetos eróticos, “Soneto de todas as putas”, ele dá um conselho final à mulher:

Todas no mundo dão a sua greta:
não fique pois, oh Nise, duvidosa,
que isto de virgo e honra é tudo peta
”.

Por fim, trago aqui a sua própria auto-crítica e o seu epitáfio:


Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida fidalga, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.

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