sexta-feira, maio 30, 2008

PROEZAS DO BIRITOALDO - XIX



XIX

Quando o cara num rega direito, o amanhã parece mais o aperto do dia de ontem


Anos se passaram. Não tantos assim. Uns cinco ou seis anos. Peraí... ah! exatos oito anos.
Na rodoviária, um dia de domingo ensolarado, desce Birito todo engomado, palitó e gravata, bigode saliente embaixo da venta, bíblia no sovaco, ereto, sisudo e pisando com firmeza.
A cidade para ele estava mudada, também, tanto tempo sem visitá-la, quase que sequer conhecia mais ninguém. Fitava nas fisionomias, outras tantas desconhecidas. Até que em sua caminhada sem ter, feito galinha choca, como achar canto para se aboletar, divisou um pavilhão antes de há muito conhecido e pediu um café pequeno. Esse pavilhão ele conhecia de perto, não muito, mas de vez em quando achegava-se ressacado para tirar a barriga da miséria lá. O dono estava mais velho, bem mais velho que esperava encontrá-lo. Não ousou falar, o homem estava ocupadíssimo, o pavilhão cheio de gente, entupido como sempre fora.
A lorota rolava solta: futebol, política, cachaça, tapa e gaia. Esses os principais assuntos matutinos, normalmente dos usos e abusos cometidos por algum munícipe na noite anterior. Era assim que atualizavam os disse-me-disse, as fofocas, a candinhagem, a queimação do filme de alguém. Não havia vacilo que eles não jogassem uma pedra certeira e com escárnio bravo.
Alguns ele conhecia de longe, não tinha aproximação. Outros, nunca vira nem doido em noite de lua cheia. Percebendo que ali não haveria futuro, decidiu sair. Pagou e rumou para a casa dos pais.
Quando adentrou na rua em que os genitores residiam, o coração apressou o passo, bateu-lhe um misto de pânico e prazer, chega quase desmaiar, trupicando no calçamento.
Chegando no local desejado, parou no portão, respirou fundo, retirou o ferrolho, chegou na grade da varanda e fez bater o cadeado com ela, avisando a chegada de alguém no recinto.
- Já vai! Já vai!
Era a voz de d. Táquia, sua mãe. Ela quando abriu a porta que se dirigiu para a varanda perguntou o que desejava, ao que ao vê-lo, ela freou-se, franziu o cenho, mirou-lhe direitinho e, finalmente, balbuciou meio trêmula.
- Onde você andava, seu cabra-safado?
- Na paz do senhor, minha mãe!
- Que paz do senhor que nada, a polícia ainda não se cansou de um dia pegar você.
- Sangue de Cristo tem poder!
Intrigada com a maneira como o filho se expressava, todo arrumado, abriu-lhe o cadeado e permitiu que entrasse ainda meio que sem jeito.
- Como vai, minha mãe? -, disse ele adentrando.
- De mal a pior! Seu pai, aboletado na cama, não pode sair do lugar desde o dia em que os capangas do seu sogro, aquele diabo, veio aqui atrás de você.
- O que houve?
- O que houve? Você ainda pergunta?
- Diga, mãe, o que houve?
- Ôxe, os caras vieram com o maior bafafá, deram uns catabís no seu pai dele ficar troncho até hoje. Eu mesmo num consigo mais parar de tremer. Mãe Nega trancou-se no quarto do quintal desde aquele dia, até hoje tá lá enfurnada.
- E meu filho?
- Aquilo é mais presepeiro que tudo no mundo. Depois que o avô foi preso, que tudo acabou-se, o menino tá por aí de calça rasgada e bunda de fora. Não quer saber de ninguém. Todo bandoleiro mais parece uma mortalha rasgada de tanta arterice que apronta. Puxou a quem? Puxou a quem, hem?
- E Munga?
- Ôxe, ela abestalhou-se pelo padre Bidião, deixou tudo e virou freira seguindo os passos dele. O maior escândalo na igreja. Aquele padre sempre foi safado e ela desarreda...
- E o pai dela?
- O velho? Inventou de ir pros Estadosunidos e quando chegou lá, mandaram ele volta e quando chegou no aeroporto de onde ele havia saído foi preso pela Chica e pela políça federal. Descobriram que o home que era podre de rico era bandido, ladrão, roubava caminhões de carga, traficava drogas, vendia armas por debaixo dos panos, só vendia roubo, tudo roubado, inda hoje apodrece na cadeia do fim do mundo.
- Eita!
- E tão atrás de você também. Faz oito anos que a Chica jurou botar você no xadrez. Ela é a delegada e a comandante da polícia daqui e só vive acoloiada com as políça federal. Seu pai mesmo já levou tanto imprensão para dizer onde você andava que hoje num pode levar um susto que se caga todo!
- Sangue de Cristo tem poder!
- Sangue de Cristo tem poder prá gente direita, não para salafrário, viu? E agora é bode crente, é?
- Na paz do Senhor, minha mãe!
- Vixi, que é cada malabanhado que entra para a lei de crente que é um horror!
- Encontrei o caminho da Salvação, Jesus tocou no meu coração e mostrou o caminho, minha mãe.
- Vai dizer isso prá Comandante Chica que ela te arrebenta as fuças.
- Irei. Irei me apresentar e pagar pelos meus pecados. Hoje eu sou um cidadão do bem e só para Jesus eu vivo.
- O agiota da venda também é crente, vai se entender com ele, vai!
- Se assim é, ele está amarrado em nome de Jesus.
- Olhe, não embrome não, vá logo esticando a canela por aí que não quero que teu pai caia morto quando te ver. Bora, bora, a conversa tá boa, mas eu tenho o que fazer. E se teu pai se acordar, ele te quebra todinho de pau de tanta raiva.
- A bênção, minha mãe.
- Que deus te dê juízo, desgraçado e vê se sai logo que num quero pobrema com teu pai logo cedo não.
Quando ia sair, resolveu abrir os braços segurando a bíblia aberta numa das mãos e começou a orar em voz alta, berrando com toda a força dos pulmões e pedindo a deus para guardar aquele recinto sagrado dos seus pais, que nada acontecesse para eles e por aí vai....
- Isso não é hora de berrar alto assim, vai-te, sai-te, bora, bora!
- Adeus.
Com a exigência materna, deus as costas e saiu. Estava com os olhos rasos d'água. Saiu desmoronado, parecia mais que ele agora tinha sentimentos. Ele sai cabisbaixo tentando colocar alguma idéia fixa na cabeça.
- Onde fica a delegacia? - perguntou a alguém.
- Por ali.
- Obrigado. Que o irmão siga na paz do Senhor!
- Que o senhor seja sempre louvado.
Caminhou mais e depois de quase uma hora e meia de caminhada, perguntando onde ficava a delegacia, conseguiu atraverssar a porta e perguntar pela comandante.
- A comandante chega já. Só com ela?
- Sim, senhor. Eu aguardo.
- Se encoste logo ali que eu quero lhe revistar, bora!
- Eu só quero falar com a comandante.
- Ela pode demorar, do que se trata?
- É um recado que me mandaram entregar a ela sobre um certo Biritoaldo.
- Pode dizer. Você sabe onde ele está? Diga que vou prendê-lo agora!
- Desculpe, a mensagem foi mandada em código para ela e se eu lhe disser você não entenderá. Só ela saberá o que me disseram.
- Hum. Tem pantim no meio, tô sentindo. Tudo bem, sente ali e aguarde que ela chega já. Ei, menino, ajeita a cadeira aí pro indivíduo aqui se sentar que ele vai dar o paradeiro de presunto novo.
Foi aí que ele aboletou-se e levou o maior chá de cadeira de sua vida. Quase meio dia, a mulher chega mandona, virada no cão e bufando pelas ventas e saidências. Quando vê Birito, esbugalha os olhos, saca da arma e berra:
- Teje preso, seu safado! Mãos ao alto! Revista ele, logo! Vamos! Muitos anos que estou no encalço desse safado, sabia que ia pegá-lo. Abre a bíblia, deve ter arma dentro!
- Tem não, doutora. Eu vim me entregar.
- Recolhe ele no xadrez, logo, vai! Bora!
Sacudiram o cara numa cela apertada com mais de trinta presidiários. Tudo jagunçada de folha corrida para mais de quilômetros. Tudo meninos bons. Lá, se muito coubesse, caberiam dez. Haviam trinta. Quase que não cabe ele dentro de tão intupida. Foi jogado por cima dos que já estavam lá. O cacete comeu. Só ouvia o traque de lapada na carne. Tei bei! Tabefes ressoavam. Os que estavam dentro arriaram a lenha no Birito de quase matá-lo se a Chica num resolve tirá-lo da pendenga. Do jeito que entrou foi expectorado. Num se podia ficar nem em pé, arreado no canto.
- Esse já tá quase morto, arreia ele ali no corredor que fugir ele num pode! -, berrou Chica.
Estirado ali ficou um dia e meio até que acordou-se todo cheio de hematomas.
- Acordou-se? Vamos pro interrogatório lá dentro. Tragam-no!
Pegaram ele como quem pega coisa indesejável. Ela fitou-se dos pés à cabeça.
- Fala! Desembucha logo que num tenho muita paciência.
- Estou me entregando na paz do senhor!
- Deixa de pacutia, abre o jogo, conta a marmota que aprontasse e delata logo o safado do teu sogro que ele tá mofando na cadeia. Vai!
- Meu coração foi tocado pelo Senhor dos Céus, arrependi-me e vim pagar os meus pecados.
- Óoooooóooooo!
- Na justiça de Deus já fui perdoado, quero cumprir minha sina na lei dos homens.
- Iiiiiiiiihhhhhhhhh!
- O senhor é meu pastor, nada me faltará.
- Peraí, ô meninos, dá uma sarrabuiada nesse sujeito que ela engrolando o depoimento.
Ôxe, levaram o distinto para um quarto fechado de só se ouvir o gemido dos apertos. Educados de forma peculiar, despelaram, encarcaram e golpearam de tabique, cabo-de-aço e e imprensada de deixá-lo mais bambo que espantalho desapregado.
- Como é? -, gritou Chica.
O cara nem sinal de vida. Vôte, parece mais que morreu! Num bole nem os pêlos!
- Deixá-lo aí, mais tarde eu desenterro esse desgramado.
Saiu Chica e lá se foi a noite, um dia, dois dias, várias tardes e o cabra lá. Quando conseguiu mover uma palha, levantou-se e o primeiro que encontrou fez aquele sermão, pregando pelas almas perdidas, desencaminhas, desencontradas. Qualquer alma sebosa que aparecesse ele descambava nos salmos e nas exortações religiosas, apelando para Deus salvar alma perdida. Chica engicou-se com aquela discurseira e largou maior homilia para a banda dele.
- Um cafajeste da sua laia se passando por devoto abusado, tenha jeito, sujeito!
- Que o senhor esteja convosco! Ele está no meio de nós!
- Isso é estória-prá-boi-dormir! Você está desacatando autoridade, maloqueiro! Ô menino, num tem vaga em nenhuma cela, não? Pois bem, leva essa mula lá para minha casa e sacode ele naquele quarto do fundo quintal todo amarrado, que eu quero ver ele se mofar de nunca mais ter jeito na vida!
Os diligentes araques, cheleléus plantonistas e chumbetas arvorados, já espremiam o cara rua afora. Era tanta futucada dele não tocar uma só vez o solado do pé no chão. Só das infincadas ele ficava no vento. Piso mesmo só viu uns oitocentos metros depois quando caiu dum baque feio num quarto abandonado num quintal duma casa. Não teve nem tempo de averiguar o recinto, desmaiou por dias, semanas. Quando deu por si, foi quando uma aranha se divertia no seu furico. Era uma caranguejeira. Lembrou-se de Munga e do seu criatório. Teve que fazer esforço para se livrar da medonha. A das patas e a mulher. Balançou a cabeça que nem doido para que ela desaparecesse dos seus pensamentos. E foi quando caiu sobre um monte de vela. Mãe Nega veio-lhe à lembrança. Mãe Nega, boa, distinta, protetora. Sempre protegia-lhe das mandingas. Uma boa recordação. Enquanto repassava os bons momentos vividos com a avó, delineava o ambiente chegando a encontra uma mesa com pano bordado. Dona Taquia, a mãe dele, fazia bordados maravilhosos. E como cuidava dele, hoje envergonhada com suas trapaças. O pai, nossa, esse deveria estar mordendo de raiva. É muita falta de sorte. E se machucava, martelava forte sua repulsa com o que fizera ao longo da vida, desdizendo de tudo. Por que não nasci piloto de Fórmula 1? Artista de televisão? Filho de senador? Rico, por que não nasci rico? Nada disso teria acontecido. Não, nasci para penar, para ser essa nódoa feia na sociedade. E quanto mais se penalizava, mais rezava alto, orava aos céus, pedia perdão, babava todos os santos dos céus, todos os arcanjos, todos os anjos, e chorava e sorria e enlouquecia sem nem saber. Delirava na sua febre santificada.
A porta bateu de repente de um canto a outro com estardalhaço. Não sabia há quanto tempo estava ali. Quando a tudo se escancarou fechou os olhos por causa da claridade. Sabia que algo viria para castigá-lo mais ainda. Por um bom tempo nada aconteceu. Com os braços sobre os olhos não poderia identificar de quem se tratava. A luz que tanto lhe fazia falta, agora encandeava. Sabia que havia alguém ali, pronto, certo, já para dizimar-lhe o pelanco de vida que lhe restava. Mas seria a sua remissão, se morresse, com certeza, estaria pagando todos os seus pecados e gozaria nas hostes celestiais ao lado de todos os santos de sua predileção e de seu fanatismo exacerbado.
Um longo tempo e nada acontecera. Acostumando-se com a luz, foi abrindo os olhos e mirando Chica autoritária na sua frente.
- Veio me interrogar denovo, pode me condenar. Eu sou culpado. - disse ele, mediante o mutismo dela. -, pode me arrastar, me ferrar, sacudir minha vida, estou entregue a deus e estou salvo. Na lei dos homens estou condenado e pagarei até a última dívida. Pode me esfolar, estarei pronto para o castigo.
Chica nada falava. Estava calada, altiva, fitando o desprezível ser que se arrastava pelo quarto. Ela acendeu a luz e pode ver-lhe melhor. Não disse nada. Arrastou uma cadeira e sentou-se enquanto ele se entregava ao chão como um indefeso. Dava para ouvir o bufado dela, a reprovação, o asco que sentia por ele. Ele chorava desmedidamente. Parece que aquele choro tocou fundo na alma dela. Inerte permaneceu enquanto ele se esgoelava. Sujeito fraco esse, disse à sua própria imaginação, não conseguindo pronunciar nada para desespero do condenado. Ele finalmente um local onde se recostar, sentou-se, ficou com a cabeça entre as pernas, encolhido a si próprio.
- E aí? -, disse rispidamente Chica.
- Nada a declarar. Tudo você já sabe. Use a lei, faça o que quiser.
O banana estava tão desolado que entregava a alma de bandeja. A ternura, pela primeira vez, passou num átimo nos sentimentos dela. Pensando só para si que aquele era o cara que morria de loucuras por ela, que jurava amor, que queria ser seu marido, um frangalhos daquele.
- Levante-se, cabra!
Nem forças ele tinha para se levantar. Ela, após esperar um longo tempo, resolveu espancar-lhe, arrastando-o pelos cantos do local. Ele não reagia, era empurrado para os lados até cair. Ela espancou-lhe, rasgando-lhe a camisa deixando o tronco dele à mostra. Arrancou-lhe as calças e a cueca samba-canção à força de resultar-se aos farrapos, deixando-o nu, deitado e de papo para cima. Chica batia-lhe com prazer; esmurrava-lhe como se por dentro o gozo a satisfizesse. Estirado no chão, os braços e as penas abertas, nenhuma força lhe restava.
- Olhe para mim, sujeito!
Birito fez um esforço e fitou-lhe. Chica, enraivecida, desabotou o primeiro botão da blusa demoradamente. Depois, o segundo. Até, lentamente aberta insinuando-lhe os seis apetitosos. Desafivelou o cinturão, correu o zíper até embaixo, afrouchou-se toda e já se insinuava na sua rispidez um jeito afracesado de cafanga, não escondendo o pé-de-pato que sempre lhe virara a pá. Ela se lhe mostrava estrosa, aquela roxura provocando um prurido nele do seu menbro dar sinal de vida. Ela com aquela farda horrorosa, conseguia naquele instante, ser ainda mais sensual. Não dava para adivinhar que embaixo daquela indumentária rude, haveria um corpo que ele sempre desejara e que tudo ainda estava no devido lugar. Mas rejeitou aquela feitura linda, malgalante começou a balbuciar umas orações nos lábios apertados, sussurrando. A cada verso dito da reza ela se insinuava desnudar: a jaqueta removida, a blusa desabotoada, a calça arreada. Num esforço pessoal ela se livrou das botas e só de calcinha se mostrava. Soltou os cabelos, mexendo a cabeça de um lado para outro, mostrando a beleza de sua cabeleira mais fêmea. De pau ereto, ele colocou as mãos sobre as vistas para não ver-lhe o corpo bem talhado, robusto, vitaminado. Ferrou-se, cara, empenou-se no seu peadouro. Aquilo, que antes era a sua cobiça, agora um só castigo. Era uma verdadeira corta-brocha num silêncio enviezado. Uma homilia para a sua agora santa alma. A brancura dela era superior à sua crença, enfeitosa, batibarba. Deus e o diabo em plena disputa. Ela se aproximou jeitosa e contornou-lhe o corpo com as pernas abertas até alcançar a altura. Ele deitado; ela em pé. Sentiu-lhe o perfume do corpo quando ela começou vagarosamente a se acocorar sobre o seu ventre. Talvez fosse, pensou ele, o último dos castigos. Ele desconfiava porque ela jurou capá-lo se o pegasse vivo. O que fazer? Que ela fizesse. Sentiu ela sentada no seu ventre com um remexido lento, jeitoso, esfregando suas intimidades na espada rija dele. Ela fechava as pernas com prendendo seu caralho. Ele enlouquecia, ela ensandeceu. Enquanto ele tremia nas orações, ela arrotava palavras de ordem. Enfim, travaram batalha. Capitularam. Renderam-se. Entregaram-se.

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A comilança do Zé Corninho, Oscar Wilde, Leila Pinheiro, Henri Lebasque, Jacob Matham, A psyche japonesa, Psicossomática & a Psicologia da dor aqui.

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quinta-feira, maio 29, 2008

AS TRELAS DO DORO - TESTAMENTO DE BOCÓ



TESTAMENTO DE BOCÓ


O trio maloqueiro - Doro, Robimagaive e Zé Corninho -, passou pela maior humilhação. Já dá para se imaginar a besteirada.
É o seguinte: por ser a única candidatura presidencial clandestina mas levada a sério pelos postulantes, possuía um candidato com dois vices e meio mundo de leseira, já se davam com mais votos nas pesquisas que o segundo colocado e menos que o primeiro. Quer dizer: garantidos no segundo turno onde iam deslanchar de vez. Bote pabulagem nisso.
Esses parceiros das porcarias conseguiram, pasmem, ser a vitima do próprio feitiço: fecamepa!
Ôxe, contavam com milhões mas chegando a ter apenas dois dos três votos certos. Resultado:
- Aiguém de noisis num votô em noisis
Danou-se. Doro estava fulo. Os olhares de desconfiança pairavam sobre Zé Corninho, o mais broco da trupe. E a pressão? No grau. De Zé Corninho ter um troço: morre mas num morre. Vote! Robimagaive no pé da cama, vigilante. Maior esculacho.
- Ocê vai ter que cuspir verdade, cabra-safado! Se morrê mordendo a língua eu te mato de novo, fi´-duma-égua!
Aí era que Zé Corninho dava de morrer de verdade.
Doro providente para matá-lo do coração insinuou fazer-lhe um testamento ainda em vida. Tomou de umas folhas de papel para que o de cujus redigisse a sua carta sigilada de próprio punho, voluntariamente compulsório, intato, sem vícios, sem suspeita, nulidade ou falsidade, depois autenticá-lo em lavratura de oficial público, devidamente registrado, arquivado e cumprido a sua última vontade.
Como o Zé era desprovido de alfabetização, Doro mesmo garranchou sua vontade.
- Como é mermo o nome desse apaideguado?
- Quem sabe. Bota aí Zé Corninho mermo.
- Pronto.
- Afiliação?
- Ôxe, tu inda qué saber da vida regressa desse sujeitim mais amaldiçoado. Bota aí, como é mermo?
- Ingrinorados.
- Isso, ingrinorados. F´io de chocadeira.
- Bem, agora vumo dar uma partilhada nos bem dele -, asseverou Doro.
- Agora é qui vai cumeçar o estrupício. Ele só tem dele mermo é muita gaia. Mais nada
Contudo, no levantamento constou dois penicos, um radinho de pilha mudo, uma prótese dentária rachada, um cachorro guenzo murcho e cheio de carrapato, meia bisnaga de dentifrício de marca nunca dantes descoberta, uma cueca samba-canção com um buraco enorme no furico, uma coleção de calendários de anos passados com mulheres nuas, um brasão com o escudo do Flamengo, um Padre Cícero impresso, três pule do bicho de anteontem, uma espingarda soca-tempeiro sem gatilho, um prato plástico, uma colher torta, um caneco de alumínio desgastado, um crucifixo envergado e sem corrente, um comprimido vencido, um farrapo de calção, duas camisas bufentas e uma carteira plástica com um ou dois documentos comprobatórios da existência dele. Isso sem contar com o sapo cururu véio de estimação coaxando nada. Vasculhado tudo, nenhum centavo nem mais teréns.
- Vamo começá o serra-véia. Os penico fica com quem?
- Essas coisa de nada de imprestáve devia de dá nem prá pobre de Jó. Só quem qué isso é o lixo! Joga fora essas catrevagem.
Ôxe, Zé Corninho se agoniava. Dava ataques de quase num ter quem controlasse a apertura espremida do cara.
- S´acalme, frebento, tu vai morrê pro bem ou pro mal. Diga logo sua vontade finá. As única coisa que tu tem demais é gaia, isso ninguém qué! Vamo repartir as tranqueiras bem certinho.
Na verdade, além das gaias, Zé Corninho tinha uma coleção de mulher, ao todo catorze, ou melhor, dezesseis, com uma penca de menino buchudo, tudo filho dele - isto é, nunca se passou na sua cabecinha tola de fazer um teste de DNA. Melhor assim, com certeza, morreria do coração com a participação de anônimos muitos na confecção de sua prole. Robimagaive mesmo já dizia o resultado: pai não identificado.
Como Zé Corninho num se pronunciava, Doro, de comum acordo com Robimagaive e na presença de mais três testemunhas catadas na rua, saiu presenteando alheios e, depois de lido, relido e confirmado à força, tascou a impressão digital do Zé, assinando ele e o Robimagaive a rogo, mais as três testemunhas.
Pronto, testamento cerrado, foi aí que Zé Corninho botou prá chorar o maior pranto desolador.
- Tome, disgraçado! Castigo em gente é pió do que em bicho. Isso é pr´aprendê! Se num morrê dessa, a gente interra vivo mermo.
Num teve quem controlasse o desespero dele de se ver divorciado de seus preciosos e estimados teres. Nem as mulheres e nem os bruguelos todos doíam distanciar-se. Dos pertences? Ora, tudo tido na maior conta da sua estimação. Era como roubar a sua alma. Por isso fez um último esforço e se justificou:
- Eu vortei, maisi a máquina lá do voto, cancelô tudo. Eu quiria era votá só n´eu. Num achei meu retrato lá. Danei o dedo nas tecras. A máquina imbucetô tudo. Num deu, bufe. Apagaru tudo e disseram que meu voto era de um tá de nulo, sei lá quem é esse fi´o-da-peste, fiquei brabo e fui ispulso do locá. A gente tem qi si vingá desse nulo, esse desaforado que votô pru eu.
Héhéhéhéhéhé.

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quarta-feira, maio 28, 2008

A POESIA DE MARIZA LOURENÇO



MUSA DA SEMANA: Mariza Lourenço é uma linda escritora, advogada criminalista e consultora conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher da cidade de Valinhos-SP, onde vive. É feminista e mãe. E acredita que, um dia, ainda escreverá um poema decente. Integra a Antologia Saciedade dos poetas vivos, vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino. É uma das editoras da Germina - Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas. Ela hoje é a musa da semana do Tataritaritatá!! Veja abaixo a arte literária de Mariza Lourenço.



LÁ VEM A NOIVA
(porque a gente pensa que sabe tudo)

— Menina! Não seja teimosa. Pare de comer em panela, senão chove no dia do casamento.
Tia Firmina era mesmo assim, planejadora de casamentos e fazedora de enxovais. Quando comecei a namorar Roberto, mocinha ainda, a primeira providência de minha tia foi comprar tecido para o vestido de noiva. Ri muito. Lamentei tanto depois.
Meu grande dia havia chegado regado à tempestade, raios e trovões. Do lado de fora da Capela as crianças gritavam pra fazer pirraça:
— Sol e chuva casamento de viúva. Chuva e Sol casamento de espanhol.
Na porta, após estapear um dos moleques, tia Firmina olhou-me zangada, como se aquele fosse um mau presságio e eu, a responsável. Mas como? Eu havia feito tudo direitinho. Deixara de comer em panela. Virara a imagem de Santo Antônio de cabeça pra baixo e, por Deus! Ainda era virgem!
Não fiz caso e comecei a percorrer a Nave — toda orgulhosa — procurando meu noivo no altar. E foi aí que me deparei com os olhos mais negros de que já havia tido notícia. Eram olhos de lobo arrancando-me toda a roupa, intumescendo meus seios de menina, deixando meus pêlos à deriva dos maus pensamentos.
— Lá vem a noiva, toda de branco e debaixo da saia um tesão...
Não conseguia. Não me lembrava mais da brincadeira das primas.
Que vontade de correr daqueles olhos, daquela boca.
Que vontade de dar-me inteira, de desmaiar dentro daqueles braços e nunca mais ser eu mesma. Aqueles não eram os olhos azuis de Roberto, sempre tão bondosos e previsíveis. Eram negros, de fome declarada, passado nebuloso, futuro incerto, viagem sem volta. Olhos de aventura, de mar aberto, onde eu poderia navegar sem meus recatos de moça séria, onde a minha nudez seria selvagemente comemorada como o mais febril dos presentes.
Qual o quê! Outros olhos aguardavam-me ansiosos. Pra toda vida. Eram azuis.
Esqueci-me das brincadeiras, dos sonhos recém-adquiridos e tão cedo abortados. Escolhi o caminho sem riscos, o porto seguro que me aguardava sorridente ao lado do Padre.
Os olhos, aqueles negros, continuaram seu louco e despudorado passeio através do meu corpo virgem, enquanto eu, pobre de mim, uivava, sem saber que aquela queimação entre as pernas seria, para o resto da vida, a mais fiel das companhias.

NOITE VADIA

Me leve para dançar esta noite,
em uma dessas casas noturnas,
e lá, ao me agarrar, indecente,
sorria atrevido a quem me cobice com fome.
Pague-me então uma bebida gelada,
finja calor, desabotoe a camisa
e peça ao garçom que coloque outra música.
Depois, afague-me as coxas, paquere com todas.
Trate-me assim, como se não se importasse;
confunda meu nome, me chame de Lúcia.
Deixe que eu ensaie um começo de briga,
gargalhe - insolente - e me sirva outra cuba.
E quando não mais agüentar de vontade,
peça a conta e, ao ouvido, me fale bobagens.
Sorrateiro, arraste-me para um canto escuro,
e sem aviso ou cuidados me erga o vestido.
E nessa hora perca de vez a cabeça,
me prometa o céu, diga que sou sua fêmea,
que no mundo não existe mulher mais gostosa.
Me lamba, brinque com meu delta, me beije,
e ao sentir que de mim nada restou,
a não ser um grito saciado de gozo,
diga que é tarde, que precisa ir embora.
E não ligue para a minha cara de espanto,
deixe de lembrança seu lenço, um nome,
e a jura de que um dia qualquer você volta.

DIÁRIO DAS HORAS
I
bateram duas vezes à porta e minha disposição em abri-la é tão miúda quanto a certeza de que sobreviverei a mais um processo de desconstrução. não quero coadjuvantes. minha dor é egoísta. solitária. aguda.
e de dor eu entendo como ninguém.
II
sou mulher de prantos.
choro por tudo e nada. e o nada tem sido bem mais que tudo. choro manso pra despistar os demônios. choro baixo pra enganar meus fantasmas. ninguém desconfia de nada. e o mundo segue - presumivelmente - feliz.
sem mim.
III
sinto faltas essenciais: de algum amor, de alguma paixão, de algum sexo. e de tempestades. o que antes era profuso agora é reto. e esta linearidade me apavora. não estou preparada para viver em calma perpétua. quase morta.
ainda não.
IV
passei metade da vida levantando bandeiras e tentando compreender meus abismos. passei a vida inteira carpindo a dor alheia e perdendo meus sonhos em qualquer lugar.
logo eu, que nunca soube advogar em causa própria, apostei todas as fichas no mesmo jogo.
e perdi.
V
confesso que fui muitas sem ser nenhuma. confesso que me apaixonei demais e amei de menos. confesso que não me lembro de alguns cheiros. de algumas carícias. e do meu primeiro beijo.
se, hoje, vomito lembranças é pra justificar esta minha condição de puta.
de um homem só.
VI
entre meus dedos, o terço - presença física de minhas crenças - queima. ando esquecida dos mandamentos. e já não sei onde foi parar meu último pecado. aquele do qual nunca me arrependi.
a imagem da Virgem me enxerga, entende e consola.
ah!, Senhora, estou nua. tem piedade de mim.
VII
foi por minha conta e calculado risco que me meti em claustro (mais uma vez) e calei a boca (mais uma vez).
batem novamente à porta. (estou assustada). do lado de lá esperam pela mulher de sempre. pelo riso fácil. pela boca pródiga em contar histórias.
do lado de lá esperam por respostas que não tenho.
nem pra mim.



POEMA ORDINÁRIO

Os dias são suportáveis,
mas as noites, meu senhor,
é que são elas:
sozinha nesta cama,
coração se faz de morto,
o corpo gela.
E qualquer coisa
além desta infeliz constatação,
se não dá letra de samba,
meu senhor,
que dirá um poema.


APELO

Faça em mim um carinho
que me acorrente à vida
sem me prender, em demasia,
a alma:
quero-a livre
para pousar em qualquer canto
desde que seja
en'canto e calma.



EXAUSTA

Calem
Calem o tempo
Despenquem do céu
Todas as estrelas
Encharquem-me a pele
Todas as línguas
Engolidos sejam
Meus espantos
Violados
Meus sonhos mais insanos
Abracem-me todas as ondas
Cavalguem-me, sem dor, as marés
E que, sob a minha vulva,
Mostre-me o mar
Toda a sua fúria.
Silenciem
Silenciem as horas
Deixem que desabe
Em qualquer colo
O despudor vermelho
Do meu corpo
Deixem
Que eu verta todo o sangue
Chore todas as lágrimas
Ria, trema e goze
Deixem-me
Porque hoje estou faminta
e
Exausta



VOCÊ VINHA

Você vinha e toda vez era a mesma coisa eu tremia feito vara verde daquelas de marmelo que mãe costumava pelar pra dar castigo na perna da gente e você vinha sempre assim com um jeito enrabichado de olhar me deixando com vontade de andar de roda-gigante só pra sentir gastura de tanto olhar as estrelas e assim você vinha cheio de música decorada da rádio só pra impressionar meu ouvido de moça acostumada com canto de igreja e era assim que sempre sempre você vinha trazendo sonho da padaria da esquina só pra me ver lamber os dedos e o creme que deixava escorrer de propósito pelo queixo e você vinha e vinha sempre fazendo barulho no portão só pra me ver abrir a porta e pulando no seu colo feito cabrita lhe dar beijo macio com gosto de doce de cidra e quando era noite de chuva então daquelas de trovoada você vinha e me arrastava para um canto escuro da varanda e sem pedir licença se enfiava entre as dobras da minha saia e era assim que você vinha e veio tantas e tantas vezes que já nem sei das contas de quantas luas me perdi nesse seu jeito de vir.



L´AMOUR

Começou a acordar com dores no peito — um certo desejo de morte — e antes que morresse de vez, sentiu ânsia de escutar canto de pássaro, de riacho desembocando no rio. Rumou para longe e foi morar numa casinha de roça. Comprou muda de flor e deixou aberta a janela para passarinho pousar.
Mas a dor retornou — sempre ela, a maldita — e nada dava cabo de tanta tristeza, nem riacho, passarinho ou flor.
— Isso é falta de amor, seu doutor. Isso é falta de amor!
Virou trapo de gente. Começou a ver anjo tirando leite das cabras. Era anjo mirrado, seis, sete anos, não mais.
Apaixonou-se e de paixão já não fazia mais nada.
Louco de dor, tomou decisão: colheu flor para coroar a cabeça do anjo.
O anjo assustado, seis, sete anos, não mais:
— Tio, assim me machuca.
Dos braços adultos não havia maneira de escapar. E com aquele delírio, só mesmo um, dois, mais de dez tiros puderam acabar.
E o amor terminou assim: sangrando no chão, sem dores no peito, sem visagens de anjos.
Como uma flor encarnada e aberta no ventre.



ESCRAVA

Teu poema, inclemente, me encarcera,
umedecendo, de gozo, os meus versos.
Espancando, com a pena, as minhas rimas,
se assanha, feito bicho, entre meus seios.
Teus dedos em tuas mãos; ágeis tentáculos,
aprisionam de vez minhas vontades,
deixando-me à mercê dos teus domínios,
amarrando-me os pulsos, como escrava.
O ar que me vem é da tua boca.
Meus gemidos quem sufoca é tua língua.
Teu verbo, desconexo aos meus ouvidos,
me faz louvar - indecente - o teu nome.
Em minha barriga, passeia impune o teu falo.
Sob teu corpo, o meu, é prazer e desgoverno.
Entre minhas coxas tu desenhas tua fúria,
em teu pescoço cravo dentes de poesia



ESCLAVE

Jurei nunca mais procurá-lo. Não, enquanto vivesse. Mas tenho vivido o suficiente para desistir de minhas juras.
de promessas e bons propósitos meu inferno está cheio.
Encontrei-o dormindo. Meu escravo. E, por Deus, não havia notado aquele jeito bonito de se espalhar pela cama. Tão vulnerável e à mercê de meu corpo posseiro.
como desejei ser apenas esquecimento. Esquecimento e perdão.
Despi-me de toda a roupa e em seu corpo rocei minha mágoa. E ele nem precisou abrir os olhos para reconhecer a saudade úmida que o tocava.
como ansiei ser somente boca. Boca e língua.
Vali-me de seu sono, admito, para cavalgar sua eterna disposição de macho. Ele sorriu. Ele gemeu. E eu o flagelei com os dentes, com a vulva. Com o verbo. Meu homem-objeto.
Sobre a pequena mesa deixei o envelope pardo. Sem nome. Lacrado. Em seu interior a quantia de sempre.
para o inferno com todas as juras. Ele me dá tudo o que quero...
O meu amado.



FIM
(pra nunca mais falar disso)

No começo era doce, feito delicada sobremesa que se saboreia com gosto e desliza garganta abaixo, aveludada e macia.
Mas a receita desandou sob as mãos pesadas de tanto mexer panelas. E os ouvidos, como os de um mercador, acostumaram-se à cantilena irritante de vincos tortos e colarinhos amassados.
Os olhos ficaram baços e os lábios perderam o brilho, esquecendo-se do primeiro beijo e dos agarramentos ao pé da escada.
E o que era doce acabou-se em travo, de fruto verde e amargo.
A casa, outrora alegre, abria-se agora aos conselhos de tia Dita, que, a pretexto de visita, só sabia contar do casamento desfeito de uma prima. E de como, na família, mulher largada tornava-se propriedade coletiva.
E o que era doce acabou-se em medo.
Todas as vontades de recomeços se perderam nos vãos ordinários das madrugadas e o que restou, foi lembrança pequena e morta, sepultada de qualquer jeito sob a lápide, muda, de um colchão de molas.
E o que era doce... acabou-se em nada...



O trabalho dela pode ser visto no seu blog Proseando com Mariza.



Também como Poeta do Mês no Guia de Poesia.



Ou na revista Germina Literatura.



Ou, ainda, no sítio Escritoras Suicidas.


Mas hoje é o aniversário dela. Daqui o nosso efusivo PARABENS, MARIZOCA!!!!



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