terça-feira, maio 20, 2008

AS TRELAS DO DORO - A CAPOTADA DO GUARDA



A CAPOTADA DO GUARDA


Andei estranhando a ausência de Doro nos últimos dias. Onde andará aquela cabecinha tola? Sumir assim, hem? Carece de cuidados, senão, a coisa sobra pra minha banda e eu não estou a fim de encarar boca de caieira nem tão cedo. Mas que estranhei, estranhei.
Logo ele que é achegado a carnaval dar uma desaparecida dessa, tem coisa, tenho certeza que tem coisa. E teve.
Pois bem, passada a semana carnavalesca, foi quando vim tomar pé do que ocorrera com o inditoso.
Acontece que, como sempre e isso sua alma sebosa jamais se livrará, numa penúria da gota, Doro andava batendo biela, apertando o juízo e procurando a luz no fim do túnel, para não perder, de jeito maneira, de participar do desfile do bloco d´A Onça Cagada, bloco tradicional das puladas e frevadas abundantes da região. Negócio pra cinema mesmo de tanta macacada.
É preciso esclarecer, de antemão, que o bloco nasceu de uma lenda. Foi, dizem.
Contam de uma senhora de estatura mediana que era casada com um político afamado nas locas e grotões nordestinos, daqueles de deixar um folclore enorme como herança, apenas.
Insinuam ter sido ele lobisomem e que, vítima de um ataque de priaprisma, foi enterrado de pau duro nas terras do famigerado.
Até hoje, na redondeza, dizem que corre bicho toda sexta-feira de lua cheia. E asseveram que é o coronel Cara de Onça que sai atacando as desavisadas e perdidas.
Por causa disso, um mistério encobria a vida diurna e noturna de D. Onça que, segundo dizem, atormentada toda noite pelo defunto tarado do marido, andava a abusar da bebedeira, podendo vê-la quase sempre completamente embriagada.
Certa feita, então, D. Onça assumiu cargo importante na administração municipal - um daqueles arrumadinhos de compadrio só para enfeitar o cabide de emprego público -, onde passou a ser requisitada pela sua irreprimível força de tomar providências as mais cabeludas.
Se realmente tomava providências, não sei. Mas que a bruaca era virada na capota choca e braba, ah! isso era mesmo! Mulher-macha mesmo, como diziam todos.
Num dia lá de confraternização, diz-se que depois das doze badaladas noturnas, a D. Onça fora surpreendida pelo defunto do marido que queria pegá-la a pulso ali mesmo.
O que foi? Que rebuliço é esse, hem? Ninguém sabia, só se via a mulher endoidada.
Foi um corre-corre, dela findar devidamente cagada na presença de todos. E o pior: ela na festa, nem aí.
Desse incidente, poucos dias depois, a mulher morreu e, sabe-se que depois de sua morte, passou a atormentar a vida dos casados, solteiros, viúvos e abestalhados toda sexta-feira de lua cheia.
Quem sentisse fedor de bosta na redondeza, tinha de correr porque a Onça Cagada arrastava o sujeito vivinho para uma cova no cemitério para nunca mais saber de notícias dele. Assim é, há anos.
Até o dia que inventaram o bloco d´A Onça Cagada em homenagem a tão insólito acontecimento na redondeza.
No bloco, como de costume, os homens saem vestidos de mulher; e a mulher, de homem. Tudo com cara de onça e melado de bosta. Aquela fedentina da peste no meio da rua em dia de desfile. Uma tradição de anos. E Doro, como de resto toda a população, todo doido para participar do desfile daquele ano. Mas, cadê saída para comprar a camiseta do bloco e garantir os passos no calçamento no sábado de Zé Pereira? O cabra estava aperreado, tudo na vida dele era um revertério, nada de dar certo nunca.
Destá! Depois de cafungar no pescoço de todas as ocasiões, achou ele a saída.
Havia um recrutamento sendo convocado pelo banco de sangue, onde o prêmio era um lanche e uma camisa do famigerado bloco, habilitando o apaideguado que fosse, a dar seus pinotes no frevo.
Ôxe, ele nem pestanejou, saiu na carreira, sendo o primeiro a chegar no estabelecimento.
Prontificado a fazer o que quisessem, aí ele se dispôs a enfrentar o inopinado.
Lá chegando, tomou ciência que era um recrutamento para tomar posse na vigilância do citado banco, tendo em vista que da semana que precede o carnaval até a quarta-feira de cinzas, o negócio ali, é correria braba. Eita, pão no queijo. Porém, depois de se vestir a rigor, antes de assumir, ele tinha que fazer a doação de sangue. Fez. Só que, no meio desse ato de solidariedade, ele viu-se secando todo, vendo ir embora a última gota de sua vitalidade.
- Ei, d. Maria, eu tô me secando todo, tô vendo as coisa rodando e pareci qui vou arriar mermo!!
Ali em pé secando, as enfermeiras acorreram em seu socorro, deitaram-no mais para que se sentisse melhor. Pior, foi aí que ele começou a se agoniar.
- Eu vô morrê, dona! Eu vô morrê!!
Vôte, foi uma correria. O médico veio, examinou-lo, tirou pressão, fez eletrocardiograma, pintou o sete. O cara, segundo o entendimento do profissional, estava bonzinho da silva e não entendia aquela agonia toda.
- Eu vô morrê, doutô! Eu vô morrê!!
- O que você está sentido?
- Tô sintindo uma gastura ôca aqui pru dento do estombo, uma coisa ruim remoendo pru dento d´eu todo, vô morrê dotô! Vô morrê doutô!!!!
- Mas, segundo meus conhecimentos profissionais, você não tem nada, está tudo normal, pressão, batimentos cardíacos, tudo normal, ora.
- Vô morrê dotô! Vô morrê, dotô!
Daqui a pouco começou a sentir uma inhaca braba, uma daquelas de bosta fedorenta de não ter quem agüentasse.
- Ôxe, e o bloco já saiu foi?!
Nada, era o Doro todo cagado, lívido, delirando e caindo da maca.
- Segura o homem que ele tá endoidando!!!
Parou todo o movimento do hospital só para atendê-lo na sua agonia. Resultado: foi dispensado do emprego por completa inaptidão, mas ganhou a camiseta do bloco para satisfazer sua vontade de frevar.
Contudo, por causa do injuriamento provocado pelo seu despropósito, num pôde nem botar a cara na porta, vez que uma cambada de enfermeiro fez plantão justo na sua porta, com o fito de angariar doadores para o banco durante todo carnaval.
- Isso é uma porra, armei e me dei mal. Num posso nem pular a cerca que os cara tão de vigilança! Me ferrei! Tô freiado.
Por causa disso, Doro passou toda semana pré até a quarta-feira trancado dentro de casa para num armar mais seboseira nenhuma pra cima de ninguém. Perdeu o carnaval e só agora deu as caras. Pode?

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.  



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