quinta-feira, maio 29, 2008

AS TRELAS DO DORO - TESTAMENTO DE BOCÓ



TESTAMENTO DE BOCÓ


O trio maloqueiro - Doro, Robimagaive e Zé Corninho -, passou pela maior humilhação. Já dá para se imaginar a besteirada.
É o seguinte: por ser a única candidatura presidencial clandestina mas levada a sério pelos postulantes, possuía um candidato com dois vices e meio mundo de leseira, já se davam com mais votos nas pesquisas que o segundo colocado e menos que o primeiro. Quer dizer: garantidos no segundo turno onde iam deslanchar de vez. Bote pabulagem nisso.
Esses parceiros das porcarias conseguiram, pasmem, ser a vitima do próprio feitiço: fecamepa!
Ôxe, contavam com milhões mas chegando a ter apenas dois dos três votos certos. Resultado:
- Aiguém de noisis num votô em noisis
Danou-se. Doro estava fulo. Os olhares de desconfiança pairavam sobre Zé Corninho, o mais broco da trupe. E a pressão? No grau. De Zé Corninho ter um troço: morre mas num morre. Vote! Robimagaive no pé da cama, vigilante. Maior esculacho.
- Ocê vai ter que cuspir verdade, cabra-safado! Se morrê mordendo a língua eu te mato de novo, fi´-duma-égua!
Aí era que Zé Corninho dava de morrer de verdade.
Doro providente para matá-lo do coração insinuou fazer-lhe um testamento ainda em vida. Tomou de umas folhas de papel para que o de cujus redigisse a sua carta sigilada de próprio punho, voluntariamente compulsório, intato, sem vícios, sem suspeita, nulidade ou falsidade, depois autenticá-lo em lavratura de oficial público, devidamente registrado, arquivado e cumprido a sua última vontade.
Como o Zé era desprovido de alfabetização, Doro mesmo garranchou sua vontade.
- Como é mermo o nome desse apaideguado?
- Quem sabe. Bota aí Zé Corninho mermo.
- Pronto.
- Afiliação?
- Ôxe, tu inda qué saber da vida regressa desse sujeitim mais amaldiçoado. Bota aí, como é mermo?
- Ingrinorados.
- Isso, ingrinorados. F´io de chocadeira.
- Bem, agora vumo dar uma partilhada nos bem dele -, asseverou Doro.
- Agora é qui vai cumeçar o estrupício. Ele só tem dele mermo é muita gaia. Mais nada
Contudo, no levantamento constou dois penicos, um radinho de pilha mudo, uma prótese dentária rachada, um cachorro guenzo murcho e cheio de carrapato, meia bisnaga de dentifrício de marca nunca dantes descoberta, uma cueca samba-canção com um buraco enorme no furico, uma coleção de calendários de anos passados com mulheres nuas, um brasão com o escudo do Flamengo, um Padre Cícero impresso, três pule do bicho de anteontem, uma espingarda soca-tempeiro sem gatilho, um prato plástico, uma colher torta, um caneco de alumínio desgastado, um crucifixo envergado e sem corrente, um comprimido vencido, um farrapo de calção, duas camisas bufentas e uma carteira plástica com um ou dois documentos comprobatórios da existência dele. Isso sem contar com o sapo cururu véio de estimação coaxando nada. Vasculhado tudo, nenhum centavo nem mais teréns.
- Vamo começá o serra-véia. Os penico fica com quem?
- Essas coisa de nada de imprestáve devia de dá nem prá pobre de Jó. Só quem qué isso é o lixo! Joga fora essas catrevagem.
Ôxe, Zé Corninho se agoniava. Dava ataques de quase num ter quem controlasse a apertura espremida do cara.
- S´acalme, frebento, tu vai morrê pro bem ou pro mal. Diga logo sua vontade finá. As única coisa que tu tem demais é gaia, isso ninguém qué! Vamo repartir as tranqueiras bem certinho.
Na verdade, além das gaias, Zé Corninho tinha uma coleção de mulher, ao todo catorze, ou melhor, dezesseis, com uma penca de menino buchudo, tudo filho dele - isto é, nunca se passou na sua cabecinha tola de fazer um teste de DNA. Melhor assim, com certeza, morreria do coração com a participação de anônimos muitos na confecção de sua prole. Robimagaive mesmo já dizia o resultado: pai não identificado.
Como Zé Corninho num se pronunciava, Doro, de comum acordo com Robimagaive e na presença de mais três testemunhas catadas na rua, saiu presenteando alheios e, depois de lido, relido e confirmado à força, tascou a impressão digital do Zé, assinando ele e o Robimagaive a rogo, mais as três testemunhas.
Pronto, testamento cerrado, foi aí que Zé Corninho botou prá chorar o maior pranto desolador.
- Tome, disgraçado! Castigo em gente é pió do que em bicho. Isso é pr´aprendê! Se num morrê dessa, a gente interra vivo mermo.
Num teve quem controlasse o desespero dele de se ver divorciado de seus preciosos e estimados teres. Nem as mulheres e nem os bruguelos todos doíam distanciar-se. Dos pertences? Ora, tudo tido na maior conta da sua estimação. Era como roubar a sua alma. Por isso fez um último esforço e se justificou:
- Eu vortei, maisi a máquina lá do voto, cancelô tudo. Eu quiria era votá só n´eu. Num achei meu retrato lá. Danei o dedo nas tecras. A máquina imbucetô tudo. Num deu, bufe. Apagaru tudo e disseram que meu voto era de um tá de nulo, sei lá quem é esse fi´o-da-peste, fiquei brabo e fui ispulso do locá. A gente tem qi si vingá desse nulo, esse desaforado que votô pru eu.
Héhéhéhéhéhé.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

VEJA MAIS:


Veja mais sobre:

Rio Una, Henri Bergson, Heitor Villa-Lobos, José Lins do Rego, Cora Coralina, Nelson Freire, Viola Spolin, Grande Otelo, Manuel da Costa Ataíde, Humor e alegria na educação & Dia do Pintor aqui.

E mais:
A mulher fenícia & Big Shit Bôbras: Inhame cura aqui.
As trelas do Doro: A vingança aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o bicho leva um puxavanque da vida, para baixo todo santo ajuda numa queda só: tei bei! Era uma vez, hem hem.... aqui.
A biblioteca nossa de cada dia, Nicole Krauss, Carles Riba, Lloyd Motz, Filipe Miguez, Yasujirō Ozu, Carla Bruni, Shima Iwashita, Mauro Soares, Tributo & capacidade contributiva, Diagnóstico e tratamento na aprendizagem aqui.
A música e a poesia de Bee Scott aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora comemorando a festa do Tataritaritatá!
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.