quarta-feira, julho 02, 2008

A POESIA & ARTE DE ALÊ CAVAGNA


MUSA DA SEMANA: Alessandra Cavagna além de uma linda mulher é atriz, poeta, autora teatral, diretora artística da Impávida Troupe de Teatro Popular e da Cooperativa Paulista de Teatro.

LUZIMENTO

Espasmos deslumbrantes
de luzes que cintilam no horizonte
onde fogos de artifícios
misturam-se à ribalta.
Sirenes estridentes
e buzinas dilacerantes
entrecortam o silêncio
desta noite chuvosa.
Garoa fina,
como de tantas noites.
Passos rápidos, muito rápidos,
de pedestres que vão vem e voltam
para lá e cá e além.
Gritos, gargalhadas e sussurros
choros, teses, debates
bate-papos num botequim do Bixiga.
Esta cidade cinza
salpicada de verde e vermelho...
És mãe amorosa
de braços longos
recebendo filhos de tuas entranhas e outras.
És carrasca
a arrebatar frágeis
a sufocar humildes
com ostentações e misérias
És puta fogosa
parindo incessantemente
e vomitando seus ovários
sobre sua prole.
Mas acima de tudo és bela.
Como és bela!
com tuas luzes cintilando no horizonte
onde fogos de artifícios
misturam-se à ribalta.

URBANÓIDES

O rato ronda rastejante pelas ruas enraizadas do centro.
Asfalto,
concreto,
cimento,
restos de restos de comida, latrinas entupidas
odor de urina podre misturada à fumaça do cachimbo do craqueiro,
em becos escuros e calçadas molhadas,
em córregos sujos e entulhos fétidos
nos lamaçais das enchentes e nos cofres públicos.
Prostitutas de lábios rubros
desfilam seus pares de coxas
carnudas e roxas de heróicas picadas.
Ouve-se uma sirene.
Alguns se escondem,
outros picam o cartão de ponto que inicia a nova jornada.
Amanhece,
e o sol trás consigo o cheiro do café fresco
e o periódico matinal
exibindo entre outras coisas
as sangrentas tragédias urbanas banais,
as mesmas que serão servidas mais tarde
no almoço e depois no jantar
acompanhadas por deliciosos assados
e um bom filet ao molho pardo.
E o rato prossegue sua ronda,
sendo empurrado ao seu destino
como passageiros em trens lotados.
Como todos, é engolido pela lastimável paisagem
que nenhum artista até hoje ousou modificar.
Talvez porque dentre as tintas
faltasse a principal:
A dignidade.


ABSTRAÇÕES

Se sexo fosse feio, sujo ou ruim, a humanidade já teria se extinguido.
Somos a prova viva do prazer. Apesar de muitos de nós termos sidos feitos nas coxas ou sermos filhos de masturbação.
Eu por exemplo: fui feita no portão.

ENCONTRO

Inferno? Conheço!
Já estive ali várias vezes.
É! Essa vida de vindas e voltas!
Tantas voltas o mundo envolta.
Céu? Também conheço!
Estive lá várias vezes.
Talvez o desejo de lá ficar
entornou-me direto para ali.
É! Essa vida de vindas e voltas!
Tantas voltas o mundo revolve
Talvez o eixo não encaixe ali,
nem lá
Talvez o eixo seja...
o meio... termo
...em...
mim


REFLEXÃO

Eu vago por versos frágeis
- Não sou poeta -
Escrevo porque minh’alma clama, insiste
Estou triste!
Agarro-me à realidade
como alguém em um penhasco
se agarra aos cascalhos e raízes
para não cair.
Mas que realidade é essa?
A minha ou a dos outros?

LIÇÃO DE FÍSICA Nº 3: ÓTICA

Este amor,
que tanto bem me fez
e tanto mal também
Espelho de Narciso,
Reflexos de Górgonas,
Cabelos de ser pentes.
Meu corpo luta
para não ceder a transformação
em pedra, matéria bruta
rocha concreta,
o mesmo material
que vi refletido em seus olhos,
em sua alma.
Meu amado já não é o que amei,
Imagem que criei ou que criaste:
Reflexão, holograma,
ilusão de ótica,
apenas imagem imortalizada
na fotografia que minhas retinas
revelaram na menina dos meus olhos.
Menina estúpida e ingênua,
que um dia acreditou
que o Amor poderia existir.
E Pode...


ÉROS MAL-CRIADO

Quem sabe o que é Amor?
Acaso existiu este deus cego e ingênuo, com cara e atos de criança mal criada, sempre a nos pregar peças?
Querêmo-lo livre, nos sufoca,
Querêmo-lo puro, embriaga-nos,
Querêmo-lo perto, repudiá-nos,
Querêmo-lo longe, nos persegue,
Inconstante, inconveniênte, impávido,
Anda por aí acertando-nos com suas flexas,
sem restrições, sem licença.
Não avisa quando chega,
Não sai sem estardalhaço.
Acaso Amor é punição? prisão? dor?
Éros mal-educado,
Minha psiquê tá de mal de você.

BONITINHA...MAS ORDINÁRIA

Mergulhei, me afoguei me perdi
no mar dos teus olhos, me perdi.
Perdi tanto dinheiro e falí.
Fugi pra Cochabamba e Parí,
Brás, Brasília, Brasiléia e subi
ao Monte Caucáso me prendi.
Saltei no precipício e descri.
Comi buchada de bode e sushi.
Parti pensando em você, eu menti.
Sem perceber eu menti
Menti a mim mesma, eu menti.
Talvez por medo eu menti.
Agora senti
que nada vale sem ti.


PSICOTRÓPICOS

Não me esconda,
Conta!
As contas do seu colar.
Argolas
me enrolam,
me faz delirar!
As contas, os doces, as bolas,
o exctase da paixão.
Tesão
A mão desliza na pele
branca,
arranca de um só golpe
o coração.
Matou,
Sangrou,
Aqui um jazz,
um tiro,
o vício,
assusta demais a emoção.
Penetra,
Adentra,
Estraçalha a vida,
destrói a mente
Mente,
Simplesmente
a útima!
Nunca mais, então.
Mas jaz na veia,
o pó na narina,
a dor do 'quero mais'.
Não mais,
Já Elvis
Elis e Cassia Eller,
A dose dessa vez foi demais.

RASCUNHOS

Patético pensamento instantâneo
condensado nas paginas de um caderno.
O duto condutor de grafiti-petróleo.
Quantos já morreram por ele?
Castelos infláveis interferem minha visão.
Abro janelas e a persepção se esvai.
Sinto, logo desisto de pensar.
A cada instante paredes mudam de posição.
Interfiro intrisecamente nas entranhas da solidão.
Parte de mim acomoda-se
Outra parte incomoda
a vizinha do setenta e quatro.
Do elevador sente-se o cheiro
de ópium e gasolina,
o botão do gás ligado.
Agora é só acender a luz
Passando a limpo
passado, presente e futuro
passado a limpo
poucos instantesme separam
daquilo que fui
do que poderia ter sido
dentro em breve
o silêncio
e o nada.


SAUDADES DE QUE???

Então descobri-me só
abri a janela e te vi
em cada nota,
em cada estribilho,
em cada gota de chuva.
Infernal platonicidade
de ter-te só em pensamento.
Nem sequer um beijo,
Nem sequer um afago,
Nem teu suor,
Nem teu corpo e o meu...
Nem teu cheiro,
pra deixar em meus sentidos
um pingo de saudade
do que nem sequer se fez

ABSTRAÇÕES

Se sexo fosse feio, sujo ou ruim, a humanidade já teria se extinguido.
Somos a prova viva do prazer. Apesar de muitos de nós termos sidos feitos nas coxas ou sermos filhos de masturbação.
Eu por exemplo: fui feita no portão.

ODE A MORPHEUS

Morpheus, me leve
em seus braços
enquanto a chuva cai
e refresca minh’alma incandescente!
Morpheus, me leve a Netuno
no meio do mar azul!
Me deixe voar nas asas de Ícaro
e beber o néctar de Baco!
Morpheus, me ajude
a enfrentar o Minotauro
no labirinto de meu ser
e desenrolar o fio de Ariadne!
Morpheus, me leve ao Monte Cáucaso!
O abutre não pode permanecer
devorando o fígado de Prometeu.
Deixe-me desatá-lo!
Morpheus,
quero quebrar o espelho de Narciso
e fechar a caixa de Pandora
antes que o primeiro mal se liberte!
Morpheus, deixe-me dormir em seus braços,
e acordar sem você.


Foto W. Pellegrini

ODE A CHRONOS

Cronos,
Senhor dos destinos,
que engole as horas.
Meus dias lentos,
minhas noites curtas!
Cronos, implacável!
Destrói e renova a vida.
Desgasta a pedra
que vira areia
com que brinca a ampulheta.
Cronos,
Senhor que dita as regras,
Senhor do inesperado.
Transforma tudo,
Modela-me ao seu molde,
Presenteia-me com seus ciclos!
Quero-te diáfano,
“entorpecido de vinho e vida”.
Nas linhas da sua mão
Escritos de um mar morto.
Dispa-se do temor que te encobre.
É tão belo teu corpo nu!
Devias andar somente nu.
Espalhei tinta na tela
Espelhei uma aquarela
pra prender o seu olhar

quero a paz...
a douçura do fruto colhido no pé
o riso da criança estampado em meu rosto.
simples e completo.
as coisas belas tronaram-se fúteis com o tempo.
a conteplação perdeu lugar para a violêcia.
o almoço em frente a tela sangrenta
enquanto sabereamos deliciosos assados.
o amor, a amizade, o respeito são coisas cafonas e antiguadas,
mas a droga que uso e me consome...isso é o que há!
contradições...

mas EU...EU QUERO O AMOR, A PAZ, A BELEZA, E A CONTEMPLAÇÃO.


Ale Cavagna também edita o blog Noites de Insônia, confira.

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MUSA DA SEMANA



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora comemorando a festa do Tataritaritatá! (Arte Ísis Nefelibata)
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