terça-feira, julho 21, 2009

LITERATURA DE CORDEL – É COISA DO MEU SERTÃO, PATATIVA DE ASSARÉ




É COISA DO MEU SERTÃO

Patativa de Assaré

Eu sei que dizendo assim,
Eu não tou falando à toa,
Meu sertão tem coisa boa
E também tem coisa ruim;
Umas que fede a cupim
Ôtras que chera a melão,.
De tudo eu sei a feição
Pois conheço uma por uma.
Vou aqui dizê arguma
Das coisas do meu sertão.

Querendo fazê fartura,
Cheio de esperança e prano,
Já quage no fim do ano,
Se um caboco faz figura
Caando na terra dura
Com grande disposição
Prantando mio e feijão
Mode espera prazentêro
As chuvada de janêro,
É coisa do meu sertão.

Um corajoso vaquêro,
De côro todo trajado
Correndo intusiasmado
Nas mata do tabolêro
Atrás do boi mandinguêro
Que não respeita oração,
Derrubá o bicho no chão
Dentro da jurema preta,
Amarrá e botá careta,
É coisa do meu sertão.

Quando uma seca inclemente
Assola o nosso Nordeste
Dexando a mata e o agreste
Tudo triste e deferente,
Que viaja a pobre gente
Pra São Paulo e Maranhão,
Dexando o caro torrão
Onde contente vivia
Trabaiando todo dia
É coisa do meu sertão.

Em junhoo, o festivo mês,
V~e uma dança animada
Debaxo de uma latada
Pelo dia vinte e três
E a turma de camponês
Na foguêra de São João,
Um ao ôtro dando a mão
Numa fulia pacata
Assando mio e batata,
É coisa do meu sertão.

Que seja inverno ou istio,
Se tratando de adjunto,
Um dos animado assunto,
Se as caboca em desafio
Pilando o arroz e o mio
Na mais doce animação,
Joga tum-tum no pilão
De madêra jatobá;
Tum tum tum , tum tum tum pá,
É coisa do meu sertão.

O pobrezinho agregado
No seu vive de rocêro
Sem tê no borso dinhêro
Nem onde comprá fiado,
Se achando desarrumado,
Desprevenido sem pão,
Vende na fôia argodão
Por bem pequena quantia
Pra comê mais a famia,
É coisa do meu sertão.

A camponesa, coitada,
Sofrendo pra tê criança,
Se acabá sem esperança,
Sem tê ricuço de nada,
Saí toda amortaiada,
Numa rede ou num caxão
Pra dromi no frio chão
Proque fartou um dotô,
Esta passage de horrô
É coisa do meu sertão.

Vê os caboco gritá
Tudo alegre e sacodido,
Na fofoca do partido
Da campanha in leitorá
E quando o dia chega
Entrá na repartição,
E de caneta na mão
Argum garrancho fazê
E votá sem sabê lê
É coisa do meu sertão.

Dá prova de cabra macho
Com o coração maguado
Andando desesperado
Por rio, grota e riacho
Serra arriba e serra abaxo,
De bacamarte na mão
Mode atirá no ladrão
Que desmantelou a vida
De sua fia querida,
É coisa do meu sertão.

É COISA DO MEU SERTÃO – Poema recolhido do livro Cante lá que eu canto cá – Filosofia de um trovador nordestino (Vozes, 1984) o poeta popular, compositor, cantor e improvisador Antônio Gonçalves da Silva, mais famoso como Patativa do Assaré (1909-2002). Veja mais aqui, aqui e aqui
 



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