terça-feira, janeiro 05, 2010

O FLAGELO



I

Na volta do disse-me-disse, cada um que proteja seus guardados.




Meu pai lá: Seja hômi, cabra! Um zoadeiro de trovão no pé do maluvido, reverberando qual sentença lavrada todo santo dia. Ali, em cima da bucha. E sempre que de esguelha pra minha banda, sapecava com ar de lei irrevogável: Seja hômi com “H” maiúsculo, sujeito! Eu tremia na base com as pernas bambas no meio da maior tontura. Arreda ou desarreda! Era o jeito dele, vetusto, austero. Fosse até conversa mole, ele alertava pra pariceiro ou estranho: Tem que ser hômi no tanto das coisas. Quando não resmungava seu édito exclusivo: Pra ser macho tem que enrretar, senão desenrrete! E eu ficava cá comigo questionando sempre a cada imperativa intervenção dele. O hômi macho bate martelo no cuião sem careta nenhuma. Vôte! Quem é doido? E reiterava com toda a força da autoridade dele, não tirando um cabelinho de sapo daquilo que me dava uma agonia nas idéias. Eu não sabia de nada, aquilo era dito e pronto. Até que um dia alguém teve a petulância temerosa de saber o que significava e ele, no riste da afronta, meteu as catanas e esbravejou peremptoriamente: Fazê o certo, pruquê o hômi macho num deixa rastro de bosta, nem caga na vela e sigura in riba da fivela toda rudia sem trastejar nem cum chuva de canivete! Intendeu? Ou qué qui assoletre nos conformemente? No vupe da coisa, quem desdizia? Dito e manjado, deu fé. E eu bufando de pabo, fechando a cara e estufando o peito de empáfia: este é o meu pai. Um exemplo a seguir de probidade e isenção. Não arriava o badalo um segundo sequer. Ali, exato. Nunca que vi dele uma mínima licenciosidade que fosse, sempre com um cascudo admoestador pra cretinice, incerteza ou chacota. Um exemplo de herói na minha predileção. E eu ratificando por dentro: fazer o certo. O certo? A curiosidade de menino me levou pro pai dos burros onde descobri que era o verdadeiro, o inquestionável, o infalível, o evidente. Parecia mesmo com meu pai. Talqualzinho. E eu ainda mais cá comigo ficava indagando se haveria na face da terra um ser desse jeito. Não conseguia igualar um sequer para autenticação cartorária. Só meu pai. Inimitável. Único. Um desafio pra mim, impossível ser daquele jeito, nem nunca que vi ninguém tão firme assim no meio da minha franzinice de estatura e voga. Aquilo era só ele na face da terra. Ninguém por clone. Eu cresci com aquilo. De menino fui me fazendo homem feito e jogado no mundo só comigo. Amadurecendo com o tempo e a vida, tudo às avessas e eu meio dia em ponto no meio do turbilhão das tramóias, perfídias e decepções e com todas as conseqüências nefastas que tais imundícies castigam no toitiço de qualquer cristão. Primeira lição.





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