terça-feira, julho 27, 2010

A CIDADE, A URBANIZAÇÃO E AS ENCHENTES



 A URBANIZAÇÃO E AS ENCHENTES - O processo de urbanização brasileiro apresenta uma série de problemas detectados ao longo de seu desenvolvimento nas últimas décadas. Tais problemas urbanos têm acarretado outros tantos problemas que vão desde a ocupação desordenada da área urbana, bem como levado a ocorrências de alagamentos e enchentes que causam danos a população. È sob tal observância que o presente artigo aborda a questão da urbanização e das enchentes, tratando acerca da visualização de como ocorreu a urbanização no Brasil, no Nordeste e em Alagoas nas últimas décadas, para identificar a relação entre o processo de urbanização e as enchentes ocorridas. A urbanização, segundo Pedrosa (2010, p. 14) é “[...] caracterizada pela alta densidade demográfica, é reconhecidamente um processo histórico inevitável” e que pelas transformações ocorridas, tem apresentado inúmeros problemas para a coletividade. Tal fato se prende à observação de Peplau (2005, p. 1), ao assinalar que  Com a urbanização, intensificaram-se as transformações do uso e ocupação do solo, causando efeitos diretos sobre os recursos hídricos no meio ambiente antrópico, alterando o ciclo hidrológico. [...] O processo de ocupação urbana ainda resulta em aumentos da demanda por água e da carga poluidora, alteração na sedimentologia, rebaixamento de reservas subterrâneas e mudanças no micro-clima local. Verifica-se, portanto, que tais transformações ocorridas no processo de urbanização que antes vista pela distinção entre a distribuição populacional urbana e rural, passando à utilização da noção de população agrícola e urbana, constatando o processo migratório de trabalho rural com fixação de residência nas cidades. Nesse processo, a urbanização foi se formatando com o nascimento e crescimento das cidades na diversa área territorial brasileira, tendo a instalação de empreendimentos agroindustrial, como mola propulsora do desenvolvimento econômica nos setores primário, secundário e terciário. Nesse sentido, observa Brito et al (2010, p. 4) que: [...] as migrações internas fizeram um dos elos mais importantes entre as profundas mudanças estruturais e a expansão urbana [...] A análise da evolução da população urbana segundo os diferentes tamanhos de cidades contribui, decisivamente, para a explicação do grande ciclo da expansão urbana no Brasil, já que expressa não só o processo de crescimento da população urbana, mas, também a sua redistribuição entre cidades de diferentes tamanhos. Essa modernização rural flagrada nas mais diversas regiões agrícolas do país, procedeu um processo excludente com alijamento e expulsão da camada mais pobre da população, proporcionado a migração destes para as periferias das cidades. Por conseqüência, em razão da baixa absorção do setor industrial da mão-de-obra disponível por exigência de qualificação, o setor terciário por não apresentar garantia de estabilidade e baixa remuneração, tem contribuído com o inchamento das cidades que sofrem com a favelização, refugiando os que são estornados das atividades agroindustriais. Saliente Brito et al (2010, p. 4) que: O ciclo de expansão da urbanização pode ser compreendido dentro do processo mais amplo de constituição das grandes regiões metropolitanas [...] Essas regiões desde a sua criação, até os dias atuais, sofreram inúmeras transformações com a incorporação de novos municípios. Como esta decisão é da competência das Assembléias Legislativas, muitas vezes, a delimitação de uma região metropolitana obedece muito mais a critérios políticos. Esse movimento migratório tem aumentado de volume nas últimas décadas, quando uma população de excluídos passa a dar volume nas regiões periféricas do aglomerado urbano, que não dispõe de infra-estrutura como saneamento básico, escolas, sistema de transporte coletivo, serviços de saúde, energia, entre outros, provocando a pobreza no espaço urbano pela ausência de oportunidades. Tal quadro desfigura a cidade com moradias irregulares, muitas localizadas em terrenos íngremes ou às margens de charcos e córregos, e que acomodam o contingente migratório sem escolaridade nem qualificação profissional, que vivem de subempregos sazonais ou da informalidade. Neste sentido, entende Valente (2010, p. 3) que: [...] a urbanização desconectou o homem do seu ambiente natural e ele não sabe mais, como os antigos sabiam, que um pequeno córrego vem "daquela cabeceira", ou seja, os cursos d'água não têm origem em si mesmos e são produtos de uma parte da superfície, chamada bacia hidrográfica. Cada um tem a sua, pro menor que seja. Este contingente populacional se torna vulnerável às ocorrências ambientais, enfrentando o risco de desmoronamento e enchentes nos períodos chuvosos. Em conseqüência disso, Peplau (2005, p. 8) chama atenção para o fato de que: Com a ocupação urbana, o sistema natural de drenagem fluvial e pluvial da localidade é modificado, necessitando adequações. Essas intervenções deveriam ser projetadas levando em consideração a integração geral do sistema de infraestrutura urbano, a partir do mais elementar compartimento, como o lote, por exemplo. De modo geral, a ocupação da maioria das cidades, ocorreu sem um planejamento eficaz, que contemplasse satisfatoriamente a questão da eficiência da drenagem das águas pluviais e fluviais urbanas. Este é um quadro resultante da rápida urbanização brasileira que tem por conseqüência o aumento do tamanho dos subúrbios dentro do processo de conurbação, formando um cenário excludente e carregado de problemas que provocam a ineficiência do poder público na satisfação de atendimento dos serviços públicos necessários para essa concentração populacional. Diferente não é o quadro da realidade do Nordeste brasileiro, registrado por Manuel Correia de Andrade (apud FERNANDO, 2010, p. 1) As cidades surgiram nas encostas, pois se procuravam a proximidade com os rios, temiam a invasão das águas durante as enchentes, enchentes sempre violentas pela rapidez com que se apresentavam e pela excessiva oscilação do débito dos rios, de vez que estes, tendo a maior extensão dos seus cursos nas áreas semi-áridas do Agreste e Sertão, possuem a irregularidade típica dos rios de caatinga. Irregularidade expressas pela ausência d’água no leito durante o estio e pelo transbordamento para a várzea, alagando e encharcando os canaviais, na estação das chuvas.
A URBANIZAÇÃO NO NORDESTE - A região nordestina, a exemplo de toda realidade territorial brasileira, não apresenta quadro diferente, tendo como supremacia econômica a instalação de empreendimentos destinados ao setor sucroalcooleiro e a agroindustrial. Nesta região, entende Para Lubambo et al (2010, p. 1) que: [...] no Nordeste um processo de urbanização de rapidez e intensidade significativas. No entanto, os processos de crescimento econômico e de desenvolvimento social dessa mesma região têm sido profundamente heterogêneos e descontínuos entre as áreas que atingem. [...] Por resultante, caracteriza- se um novo espaço regional, onde se distinguem os eixos diferenciados, marcados por aglomerações e centros com dimensões e perfis urbanos os mais variados, além de novas tendências no desenho da rede de cidades.
A URBANIZAÇÃO EM ALAGOAS - O Estado de Alagoas está dentro desta realidade nordestina, configurando o seu quadro de urbanização, identicamente problemático pelo quadro que se apura com a revisão da literatura realizada. Os diversos municípios alagoanos apresentam problemas que são detectados na grande rede municipal brasileira, sofrendo com as mudanças ocorridas no processo de urbanização brasileiro, sintomaticamente vítimas das ocorrências ambientais que provocam desmoronamentos e enchentes que levam a tragédias noticiadas nos últimos anos pela imprensa nacional.
AS CONSEQUENCIAS DAS ENCHENTES – As consequências das enchentes mereceram considerações de Peplau (2005, p. 17) que se expressou: As inundações urbanas, cuja principal causa é a má gestão do espaço urbano, trazem consigo uma série de problemas associados a diversos fatores influentes no cotidiano da população. O ciclo dos prejuízos é grande e de difícil mensuração, afetando grande número de pessoas, atividades produtivas, bens capitais e meio ambiente. No entanto, sem parâmetros de mensuração ou escala de valor está a vida de milhares de pessoas que faleceram e virão a sucumbir vítimas das enchentes, este configurado como o quadro (figura 6) mais dramático e triste do problema, pois a maioria dessas mortes poderiam de alguma forma ser evitadas. As ocorrências das enchentes se dão, conforme o autor mencionado, acarretando a invasão do passeio público, ruas, avenidas, casas, propriedades ou pelas as encostas desprovidas de proteção; causando transtornos e prejuízos diversos, tanto pela força da água pluvial e das chuvas, quanto pela sua contaminação. Essas enchentes, conforme Pedrosa (2010, p. 19), causam diversos problemas e prejuízos à população urbana: Os prejuízos com as enchentes estão muito longe de ser a soma dos valores dos objetos da população, atingidos pela inundação. Na literatura nacional há registros de diversos casos de enchentes, com elevados prejuízos em vidas humanas e econômicos. As enchentes das áreas ribeirinhas são ricamente documentadas nos textos técnicos de hidrologia, constatando-se que a ocupação do leito maior do rios,por vezes, torna-se bastante amarga para as populações que ali residem. Registra, portanto, o autor, que as enchentes marcantes nos processos hidrológicos urbanos se dão por causa do processo de urbanização, dando-se por conta do aumento da quantidade de sedimentos e lixo, resultando no assoreamento dos canais, galerias e sarjetas, alteração da qualidade das águas pluviais e dos corpos receptores do sistema de drenagem, problemas com água potável e alteração dos parâmetros climáticos. Considera mais Pedrosa (2010) que as enchentes ocorrem por um processo natural, mas que por ocupação da várzea traz grandes prejuízos aos moradores locais, além de elevar os níveis das enchentes a jusante, decorrentes da obstrução do escoamento natural. As razões dessas ocorrências, segundo Peplau (2005, p. 1), porque: As enchentes acontecem naturalmente de modo periódico, devido a chuvas intensas aliadas a condições favoráveis de solo e conformação morfológica, levando os rios e canais preferenciais de escoamento a extravasarem o seu leito menor inundando as várzeas e depressões. [...] Devido à impermeabilização dos solos, as respostas hidrológicas nas áreas urbanas são sensivelmente modificadas, sendo os principais efeitos o aumento do escoamento superficial (vazão máxima e volume), a antecipação dos picos de vazão e a diminuição da infiltração, acarretando inundações e alagamentos. Consequência disso, foi o desastre trágico ocorrido ultimamente na Zona da Mata de Alagoas e Pernambuco, que, segundo Fernando (2010), ocorreu por razões que envolvem questões ambientais degradadas pelos fatores socioeconômicos que se encontram no latifúndio canavieiro e no empobrecimento da população causada pela concentração de terras e rendas. Em nota assinada pela Associação dos Geógrafos Brasileiros (FERNANDO, 2010), as enchentes ocorridas atingiram municípios pernambucanos e alagoanos, alguns deles ainda hoje em estado de emergência e outros em calamidade pública. A catástrofe provocou transbordamento de rios, sangramento de barragens, destruição de cidades e plantações, interrupção do fornecimento de energia elétrica, serviços hospitalares, telefone, segurança e abastecimento de água, entre outros serviços essenciais. Marques (2010) registrou o posicionamento do chefe do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o professor Ricardo Sarmento Tenório, ao afirmar que a chuva não teria força para causar a destruição vista nas cidades alagoanas. Registra mais que na visão do pesquisador, a tragédia alagoana poderia ser evitada se não houvessem construído as cidades e efetuada a sua urbanização no leito de rios que possuem hoje bacias totalmente degradadas. No entanto, a respeito Dias et al (2002, p. 23) se expressa: Os impactos ambientais negativos da ocupação humana sobre áreas problemáticas representada por áreas de riscos ambientais sobre potenciais para expansão urbana refletem na qualidade do ambiente que o homem habita e dele depende, resultando num problema de ecologia urbana com impactos socioeconômicos graves. Estes impactos afetam os parâmetros básicos (solos, geomorfologia, geologia, declividade, etc.), bióticos (vegetação e fauna) e antrópicos (infraestrutura urbana). As atividades humanas, transformando o ambiente natural em ambiente construído, têm resultado em desequilíbrios ambientais, acarretando impactos ambientais nos ecossistemas. Mediante todo exposto, atribuem os engenheiros anteriormente mencionados, conforme Fernando (2010, p. 1), que esta tragédia tem por causa: [...] o resultado de uma desigual ocupação do espaço, aliado aos fatores sociais, a falta de investimentos nas cidades da zona da mata, bem como a não existência de uma articulada rede de prevenção de catástrofes naturais no território nacional, capaz de prevenir fenômenos meteorológicos com mais precisão e eficiência, dando tempo à defesa civil alertar e divulgar medidas cautelares aos moradores das cidades ribeirinhas vem prejudicar mais gravemente os trabalhadores e os mais pobres que vivem na região. É com este pensamento e avaliação que nós, da Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Recife, nos solidarizamos ao povo Pernambucano e Alagoano apontando o real culpado pelo os estragos, o latifúndio da cana de açúcar e não apenas a grande quantidade de chuvas. Entre as causas podem ser assinaladas também a ausência de gestão e planejamento urbano, ausência do serviço de defesa civil nos municípios, gerenciamento das bacias hidrográficas, entre outras. Na busca por soluções, Valente (2010, p. 5) aponta: Nas áreas urbanas, a parte da chuva que inevitavelmente se transforma em enxurrada, pode ser retida por meio de caixas de coleta em casas, prédios, galpões industriais, para uso posterior em limpeza, irrigação de jardins etc,; coleta de enxurradas ao longo de estradas; piscinões. Se tais soluções são meras utopias, tudo bem, restando-nos aceitar, com resignação, as repetidas notícias anuais sobre danos à vida e ao patrimônio, como se tudo fosse mera fatalidade! Por esta razão, assinala Peplau (2005, p. 1) que:  O desafio ante as enchentes provocadas pela urbanização requer do poder público ações planejadas e integradas com o aparelhamento urbano, com intervenções estruturais (obras de melhoramento em geral) e não-estruturais (práticas de gerenciamento com políticas e ações para uma melhor convivência com as enchentes) de modo a prevenir, disciplinar e mitigar inadequações de uso e ocupação do solo urbano. Como medidas preventivas, Brasil (2010) tem procurado informar a população dos vários tipos de inundações, suas causas e conseqüências danosas, atribuindo, pontualmente, a questão urbana como uma das causadoras das enchentes, carecendo de educação popular e mudança na cultura da gestão urbana, com a elaboração de Plano Direito de Desenvolvimento Municipal, fiscalização das áreas inundáveis e de risco, elaboração de plano de evacuação com sistema de alarme, implantação de esgotamento de águas servidas e coleta de lixo domiciliar, indicação de áreas seguras para construção com base no zoneamento, bem como planejamento, fiscalização eficiente e eficaz com base na criação de um corpo legal que contemple tais incidências. Observa-se pelo estudo realizado, que a população urbana alagoana vem sendo de forma intermitente vítima das enchentes, a exemplo do que ocorreu em São José da Lage, em 1969, e que vem se repetindo ano após ano vitimando o espaço urbano, especialmente as populações ribeirinhas. Tais acontecimentos exigem a instalação de uma equipe multidisciplinar, envolvendo profissionais especialistas das áreas de urbanização, meteorologia e hidrografia, visando apresente um diagnóstico capaz de possibilitar uma leitura geral do problema e apresente o seu respectivo prognóstico.
CONCLUSÃO - Observou-se com o estudo realizado que a causa das enchentes que ocorreram em Alagoas e Pernambuco são causadas, entre outros fatores, pelo processo desordenado de urbanização que ocorreu nas últimas décadas em todo país. Neste sentido, se faz necessário que se envidem esforços na gestão urbana dos municípios, baseada em ações de planejamento que possibilitem coibir ou erradicar o problema em Alagoas.
REFERENCIAS
BRASIL. Inundação: conheça o desastre. Brasília: Ministério de Integração Nacional. Secretaria Nacional de Defesa Civil, 2010.
DIAS, José Eduardo; GOMES, Olga; COSTA, Maria Sandra; GARCIA, José Miguel; GOES, Maria Hilde. Impacto ambiental de enchentes sobre áreas de expansão urbana no município de Volta Redonda/Rio de Janeiro. Revista Biociências,Taubaté, v.8, n.2, p.19-26, jul.-dez.2002.
FERNANDO, Robson. As causas reais das enchentes da zona da mata nordestina. Arauto da Consciência, 2010.
LUBAMBO, Cátia; CAMPELLO, Ana Flávia; ARAÚJO, Maria do Socorro; ARAÚJO, Maria Lia. Urbanização recente na região Nordeste: dinâmica e perfil da rede urbana, 2010.
PEDROSA, Valmir. O controle da urbanização na macrodrenagem de Maceió: Tabuleiro dos Martins, 2010.
PEPLAU, Guilherme. Influência da variação da urbanização nas vazões de drenagem na bacia do rio Jacarecica em Maceió – AL. Recife: UFPE, 2005.
BRITO, Fausto; HORTA, Claudia; AMARAL, Ernesto. A urbanização recente no Brasil e as aglomerações metropolitanas. NRE/SEED/PR, 2010.
MARQUES, Maikel. Origem da destruição. Gazeta de Alagoas, 2010
VALENTE, Osvaldo. Enchentes e urbanização. IETEC, 2010; Veja mais aqui.




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segunda-feira, julho 26, 2010

VADE-MÉCUM – ENQUIRÍDIO, UM PREÂMBULO PARA O AMOR



 Imagem: arte de Tara McPherson.

VADE-MÉCUM


Enquirídio: um preâmbulo.

Uma vez e ela apareceu. Primeiro como a indomável Lilith que saiu irada e nunca mais voltou. Depois, como a servil Eva, que emergiu da minha costela para roubar da maçã o pecado original e causar todos os males humanos.

Uma vez e outra, ela decaída Madalena e ao mesmo tempo a serpente Nachásh. Ou ela uma das nove musas, ou como a sanguinária Anath, em Canaã. Ou como a cantada na Ars Amatória de Ovídio. Ou mesmo como uma das ninfas, ou a paciente Isis no Egito, ou Ishtar, a sagaz deusa do amor na Babilônia. Ela a mãe da terra como Dêmeter, bela e cruel como Semíramis, ou como uma serva de Afrodite.

Nem outra vez se dera, ela já hetaira, exímia cortesã bem-sucedida e influente na Grécia. Ou ela a sabotadora Messalina, a auianime no México, harimtu na Babilônia ou a jovem dos aposentos verdes da China.

Uma outra vez e de outra vez ela, a Esfinge que devora quem não decifra. Ela praticante da arte da Câmara de Dormir ou mesmo dama da corte, ou adúltera descarada.

Vez e outra ela a giyán em Bagdá ou como madona bizantina na mariolatria. Ou mesmo como tríbade, ou eríneas, ou parcas, moiras, harpias, prostituta do templo ou filha do prazer.

Outra de outra vez, ela a virgem descarnada e amedrontada ou uma daquelas vingativas femmes fatales. Ela, como a fuga de Helena de Tróia, como o sacrifício de Ifigênia, como o suicídio de Fedra, como a tragédia de Medeia, desejada Barbarela, ousada Norma Benguel, desencantada Maysa, leve e linda Joyce, filósofa Marilena Chauí, ou Claudia Bomtempo no devaneio da minha loucura noturna, ou Íris Bustamante na miragem da minha ilha deserta, ou mesmo como uma dessas celebridades efêmeras das bundas fugazes do reality show.

Uma vez, outra e mais outra ela a trabalhadora insone com todas as horas de batente extrapolando a vida. Ou mesmo como uma desolada pra titia se espremendo em rezas pro Santo Antonio. Ela, a resignada esposa cristã reclusa e privada de gozar. Ou aquela que se cansou de ser apenas objeto para reprodução. Ela, a concubina maldita com o sexo disponível na mancebia pro amante, destruindo lares e famílias. Ou aquela adolescente privada de afeto seduzida pelo primeiro carinho. Ela que sangra, ri e chora e que no seio aplaca a fome do menino. Nas coxas, segura o prazer do homem. No corpo, carrega o açúcar e o fel do que é. Na alma, a premonição e a compreensão superior. Ela que traz a vida e por ela se deixa levar.

De outra, ela comprada na feira, abominada por misóginos, propriedade paterna, do marido e dos filhos, subjugada, cantada, cuspida, adorada. Ela ninfomaníaca acendendo a vida, ela viúva ardendo na noite. Ela, Mata-Hari, ela Evita Perón. Ela a mais singular pedinte da esquina, ela rainha na Inglaterra.

E de vez outra ela, caça do macho adorada como estatueta de Vênus. Ela que já foi o mar parindo céu e terra, semeando ventres e heroína de todos os encômios. Ela vítima de crimes passionais, tal lâmina que depila como a navalha nos pulsos, o fogo no ventre, a dor de parir, o vir a menstruar. É ela. E digo que é ela a minha vida e o meu amor. É ela. Cuidado. Muito cuidado. Todo cuidado é pouco.

Primeira advertência: se não bate um coração (o amor é via de mão dupla), não use. Por favor, não abuse: é frágil. Não é descartável, nem vem com manual de instrução.

Atente para as exigências, ela encanta pela maravilha que é: mulher com toda pujança divina nas linhas do rosto, todo fausto e glória da beleza na sua herança de deusa que eu venero com a minha língua em riste no seu corpo nu espalmado no meu desejo, como espetáculo da natureza que faço versos com meu sexo na sua alma assaltada, onde tudo é belo, tudo é verdadeiro e me acrescenta e em dobro vive no meu canto: mulher.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.






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