segunda-feira, janeiro 09, 2012

O SOL NASCE PARA TODOS


Imagens da série Vôo, fotos de Luiz Alberto Machado.

O SOL NASCE PARA TODOS


É janeiro e o sol contempla todas as manhãs no maior exemplo de justiça que se possa imaginar. É assim como eu vejo, podendo não ser esta a mesma ótica de outros, interpretando, então, cada qual a seu modo. Este é o meu olhar.

Mesmo que leve oito minutos e meio para tocar a pele e brozeando nossas mentes, o disco alado, indiscriminadamente, reluz para brancos, pretos, cafuzos, mamelucos, crioulos, mulatos, arianos, caboclos, mongóis, germanos e cores várias. Seja católico, batista, pentecostal, confucionista, judeu, quackers, budistas, anti-semitas, ateus; seja que sexo for: homo, hetero, trans, hermafrodita ou assexuado; seja flamenguista ou de que time for, ou ainda iconoclasta; seja, enfim, rico, pobre, emergente, descamisado, bem-aventurado, burguês, desafortunado, aristocrata, quem quer que seja, o seu fulgir nos dá o privilégio de constatar a maior e mais verdadeira liberdade.


Seja através do prisma de Newton ou nas citações da Cidade de Campanela, aprendemos que "o amor à coisa pública aumenta na medida em que se renuncia ao interesse particular... ninguém deve apropriar-se das partes que cabe aos outros". E mesmo sob as vicissitudes inopinadas, do etéreo brilhante devemos ter a mesma atitude de Manco Capac, o inca primeiro, que abriu os olhos e inquiriu das criaturas da ignomínia, o que esperavam de tal vileza quando o sol dava vida para serviço dos homens e vegetais e tudo do mundo.

Ou como os Maias e a bela lição de modéstia de vigoroso astro, fazendo do ser humano um ser subalterno e acidental. Fábulas maias pregam que se se nasce de noite, só se realiza ao alvorecer.

  
Irradiante, pois, nos ensina que os deuses são matinais para honrar a alma, indo, com sua majestade, do oriente ao ocidente a caminho da constelação de Lira. E eu, curaca silente, tiro minhas sandálias para sentir o chão, voltado para o leste, aplaudindo o espetáculo dos clarões da aurora dourando a vida de todos. Beijo, na catarse do momento, os primeiros raios e os guardo no meu relicário para entregá-los às mãos puras que "contemplam-no como a imagem de Deus, chamam-no de excelso rosto do Onipotente, estátua viva, fonte de toda luz, calor, vida e felicidade de todas as coisas".

Por isso, sigo fiel contrito pelas supremas hierofanias solares, colhendo no Livro dos Mortos: "o ontem me criou. Eis hoje. Eu crio amanhãs".

  
PS: “NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO”

Uma coisa é um pássaro que voa. Outra é um avião. [...] Em minha mão.... não tinha o peito de amianto. Não voaria mais, como o avião nos longos túneis de cristal do espaço”. (Vinicius de Moraes, Soneto com Pássaro e Avião).

O meu sonho nasce na vigília. A minha lucidez já é pura alucinação, isso no meio do meio dia. É o mesmo que a metafísica de Fernando Pessoa: de nada, o sonho.
Desde menino que meus olhos são oníricos: como Galileu, vivia a investigar os céus pra projetar minha odisséia de Archytas, construindo meu próprio pombo mecânico e alçar vôo, gritando como Arquimedes a descoberta da flutuação dos objetos. E chegava às conclusões de Roger Bacon numa pipa chinesa ou na carruagem aérea do rei Supama, ou nos veículos aéreos do Ramayana para chegar às alturas como Ramado do Sri Lanka até Ayodhaya, pousando em Uttakosala, ou fazendo a viagem espacial de Arjuna e alcançar a cidade de Kuvera. E ao contrário de João de Almeida Torto, voar como no vôo de Mirita. A minha cabeça é o vento no ninho das quimeras. Minhas orelhas são asa-delta, então. Entre onde eu vivo e a galáxia, não há distância.

  
 “[...] Sou vinte na maquina que suavemente respira, entre placas estelares e remotos sopros de terra, sinto-me natural a milhares de metro de altura, nem ave nem mito, guardo consciência de meus poderes, e sem mistificação eu vôo, sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas, ligados à terra pela memória e pelo costume dos músculo, carne em breve explodindo”. (Carlos Drummond de Andrade, Morte no avião).

Tal como Ícaro, anseio por alturas. Não esqueço o conselho de Dédado. Vou-me Antoine de Saint-Exupéry: “Nós não pedimos para ser eternos, mas apenas para não ver os atos e as coisas perderem subitamente seu sentido. O vazio que nos rodeia faz-se então sentir”. E sonho como Leonardo da Vinci com seu ornithopter: “[...] depois que alguém voa, passa o resto dos seus dias olhando pra cima querendo voltar pra lá”. Por isso mesmo, nada satisfeito, me mando na passarola de Bartolomeu de Gusmão que já era a máquina voadora de Emanuel Swedenborg para que eu repetissse dele: “[...] Temos provas suficientes e exemplos na natureza que voar sem perigo é possível, embora quando as primeiras tentativas sejam feitas, possivelmente teremos que pagar pela experiência com um braço ou uma perna”. E me atrepo na vida feito a dupla Jean-François de Rozier e François d´Arlandes no vôo com o balão de ar quente dos irmãos Etiene e Joseph Montgolfier. E faço um verso como quem vai no aeróstato dirigível e no balão motorizado de Henri Giffard. E entoando a canção vôo como quem sobrevoa no planador do Sir George Cayley. E se cheguei ou me perdi de mim, sigo sem rumo no monoplano do inventor neozelandês Richard Pearse que logo vira o biplano de Hiram Maxim e já transmuda no aerodrome de Samuel Langley para que eu aterrisse no 14-Bis de Santos Dumont para zoar do Flyer dos irmãos Wright. Não erro da terra e já me dou no hidro-aeroplano de Henri Fabre e o meu mundo aos rodopios no girocóptero de Juan de La Cierva, aprumando a conversa com o ekranoplano do russo Alexeev Rostislav Evgenievich. Estou sempre na imensidão, pés no chão de Anteu, decolo no helicóptero de Paul Cornu, me dano feito o supersônico concorde de Chuck Yager, dou carreira no foguete R.7 da missão Sputnik e me vejo Yuri Gagarin na Vostok para sacar que a terra é azul. E me refaço como Alan Shepard no foguete Radstone e eu já sou Neil Armstrong na Apolo 11 seguindo incólume feito o Hubbel rumo à direção da venta.

  
 “[...] Quem ama vive a sonhar. Voar é do homem”. (Djavan, Boa noite)

As asas da imaginação – O meu brevê sempre foi a imaginação. Tal como Julio Verne, maior viagem. Feito curtir uma peça de rock progressivo, tipo Close to the edge do Yes, êxtase catártico no epílogo. Ou o Concierto de Aranjuez nos teclados de Tomita: agora eu vou sair de mim. Ou, melhor, Clair de Lune de Debussy. Virei Fernão Capelo Gaivota. E também o piloto das Ilusões de Richard Bach. Acho que esses sonhos o Freud explica: eu Blériot atravessando o canal da mancha com meu aeroplano. Como nada é previsível no sonho, lá vou eu na maior doidice com a musa mecânica (que é a Anne Moss nuínha da silva) no aerobanquete futurista de Marinetti: “No avião, sentado sobre o tanque de gasolina, com o ventre aquecido pela cabeça do aviador, eu senti a inanidade da velha sintaxe herdada de Homero”. Com isso vou até a ascensão da Zona de Apollinaire e pelos júbilos de Kafka com os aeroplanos em Brescia e o vôo de D´Annunzio com o piloto Curtis (nessa hora, com certeza, estarei ao lado da sedutora Anneliese van der Pol). E como dissera o general romano Pompeu, o Grande, reiterado por Plutarco, Petrarca e Fernando Pessoa: “navegar é preciso, viver não é preciso”.





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