quarta-feira, setembro 19, 2012

XIMÊNIA, A PRINSPA DO COITÉ



XIMÊNIA, A PRINSPA DO COITÉ




Ximênia, menina do mato, moreninha brejeira, matutinha acesa com olhos bem vivos dos dias reais de sol, nasceu nos rincões do cafundó de Judas, lá na beira das matas, morros e grotões, no meio da vida com seus rios, árvores, brejos, aves e bichos.

Nasceu filha de Zé-do-pente, um bóia-fria que não tinha paradeiro, e Judinalva, uma ticoqueira das plantações de cana.

O pai saía de casa e só voltava seis meses depois. Agora mesmo, por causa da entresafra canavieira ali, está no sul, cortando cana para buscar seu sustento.

A mãe quando não tinha serviço na roça, lavava roupa das famílias ou servia de faxineira nas casas onde fosse requisitada.

Avós? Parentes? A sua árvore genealógica parava nos pais, vez que os avós maternos e paternos eram todos ignorados na certidão de nascimento.

Moravam ali, nem Ximênia sabia onde era. Cresceu danadinha a dar carreira na rodagem, a pular corda, porteira, mata-burro e idade. E quanto mais crescia mantinha aquela ingênua infantilidade de promissora parideira.



Moça feita, taluda, uma maravilha! Reboladeira, perna torneada, quartuda, jeitão faceiro, quanta faceirice! O olhar penetrante, peitinhos miúdos e duros, e aquele aroma feminil contagiando o ar e o coração dos matutos. 

De manhã, acordava embalada com a voz do locutor de sua predileção no rádio. Como suspirava.

No mormaço da tarde, folheava revistas gastas com as fotos dos galãs de seus devaneios.

No breu da noite, fixada nas novelas da única televisão local, acompanhando um a um todos os capítulos de todas as novelas mais dramáticas e depois se deitava com o sonho de ver-se contemplada pela visita inesperada do seu príncipe encantado que viria, não se sabe de onde, montado no seu cavalo branco.

Esse príncipe fabricado nas suas idéias reunia todas as belezuras fisionômicas e corporais dos seus ídolos mais devotados. O mais lindo de todos os homens, o mais corpulento, espadaúdo, gigantesco em fortaleza e lindo de morrer. E esse seu Apolo perseguia seus mais demorados sonhos e fantasias nas horas minguadas de toda sua existência. Coitada, como esperava. Nem aceitava namorar com ninguém, alegando que o seu namorado morava longe e qualquer dia a levaria dali.

Os enamorados se enciumavam e zangados já taxavam por fantasminha essa sua fixação oculta.

Os anos se passaram, Ximênia esborrava a casa dos vinte e já beirando os trinta desabrochava em maior e cada vez mais formosura. E quando ela botava o pé na rua, parecia que o sol brilhava mais espetacular e todas as coisas se tornavam verdadeiros encantamentos fantásticos. Não havia quem não se encantasse com o seu fascínio. E ela sonhando com aquele lindão que viria fazê-la feliz remexendo as entranhas por baixo do seu vestido de chita, carregando essa idéia fixa guardada na calcinha, descontrolando sua tremedeira e vitalidade, descortinando seus mistérios de águas caudalosas e profundas.

Sonhava tanto de ficar com a fonte molhadinha, com os bicos dos peitos duros feito um pitoco proeminente a querer saltar fora, com as pernas inquietas e trepidantes e resfolegando abrasada.

Já mais de trinta anos de espera e a fantasia não dava um por cento sequer de descontos, mantida a todo custo em sua carne, alma e desejos.

Vão-se os dias e as noites e ela delirantemente apaixonada por uma idéia que só existia no que era de seu. E era o mais importante justo porque era só seu. Sabia que existia em qualquer lugar ignoto e, desesperada, chegava a se perguntar a razão de ainda não ter vindo alentar sua agonia.

Tanto esperou de quase ficar mais que impaciente, endoidada, rezando a todo instante para que seu salvador aparecesse e, cada vez mais, pedir, suplicar, implorar aos céus e a tudo que fosse possível. Elegia tudo como santificado, desde galho, árvores, passarinhos, cruzes, sinais, tudo, e nada dele apontar no horizonte.



Aquilo já transfigurava seu modo de ser, a ponto de só de pensar nele já alcançava múltiplos orgasmos, embolando na cama afogueada. E foi justo num desses momentos de delírio exagerado, ninguém em casa, eis que de fora ouviram-se os gemidos aperreados dela.

Nessa hora alguém acudiu e ela ao tentar abrir os olhos no meio do espasmo, enxergara aquele que visitara sempre e a todos os momentos, os seus pensamentos. Ela, então, fora de si e incontida de felicidade agarrou-se com força naquele que a socorria no meio da mais insana das loucuras de amor e, despudoramente, integralmente, enlouquecidamente fez-se de comida boa regada pelo prazer.

Nesse dia fez-se festa no seu coração, no seu corpo todo e em sua alma. Foram momentos de delícia em que ela conseguiu mergulhar na mais das exageradas entregas.

Quando veio a si, horas e horas depois, certificou-se que esse príncipe sonhado, não passava de um cabôco brôco das grotas vizinhas, um xucro atarracado que sequer passara, nem de longe, pela sua preferência, mas, mesmo assim, não conseguia se arrepender. Estava feito, estava tratado. Tinha que casar, era a ordem dali. E assim foi numa tarde de domingo sem muita graça, levada pela simplicidade e penúria para o altar da capelinha do Padre Bidião que, em nome do pai, do filho e do Espírito Santo, deu posse abençoada ao nubente cristão de sua mais nova propriedade. E assim foi que Ximênia, a ditosa prinspa do coité, se encontrava de agora e para todo o sempre, com juramento de fidelidade e doação até que a morte os separasse, casada com Zé Bilola, um matuto ogro das brenhas mais fechadas.

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