sábado, setembro 15, 2012

CRÔNICAS PALMARENSES - AS PRESEPADAS DE MARQUINHOS E MARCELO


AS PRESEPADAS DE MARQUINHOS E MARCELO



Éramos os três sebosos cavaleiros do após carito assado, os três patetas do mosquiteiro nas paradas: eu, Marquinhos e Marcelo – o trio de trastes pariceiros da boba-torrêro. E com essa dupla ducarulho eu aprontei de tudo na infância e adolescência.

Contava eu com a buliçosa idade de 4 anos, quando fui desexilado: é que por causa do nascimento da minha irmã Aninha, tive que ser jogado pros meus avós paternos no Engenho Badalejo, em Agua Preta, até ela tomar corpo e eu não matá-la com meus mimos exagerados. Nesse exílio eu virei o roliúde: roliço de gordo, tamburete-de-zona e criador de mentiragem.

Pois bem, tudo começou com a minha volta de filho pródigo, levado para aprender as primeiras letras com a prima-tia Sônia Cabral. Toda tarde lá ia eu pra casa de Pai Lula e Carma, meus avós maternos, me alfabetizar (e reinar!). E quando chegava o finalzinho da tarde, Marquinhos e Marcelo davam as caras ao largarem da escola. Aí que começava o trupé. Eu era só: - Maikin, Matchelo, vamo brincá?! Eu menor que eles, virava a bola da vez até tarde da noite.

Era na casa deles que eu me sentia verdadeiramente no meu lar. A acolhida de Carma, meritória de todas as minhas homenagens, era aprazível demais, além de me deixar guardado na cabeça aquele seu sorriso lindo como o melhor momento da minha vida toda.

Pai Lula, chegando do trabalho cheio de pacotes, logo a me chamar com presentes e todo dia eu era agraciado sempre com brinquedos da minha preferência. Todo santo dia ele marcava presença com um brinde, afora suas brincadeiras de bulir comigo e me chamar de inheto, porque eu não parava quieto com nada.

Na casa deles eu tinha espaço para as maiores peraltices com meus parceiros.

Maikim-ôio-de-ximbra era o maior, parecia mais o Jeguim do Lobisomem Zonzo. Todo xerife, era quem mandava, desmandava, arredava e desarredava. Pagava e passava troco. Eu e Matchelo éramos suas cobaias.

Foi assim que deu de Maikim e Tchelo chegarem de manhazinha lá em casa pra gente sapecar trelosidades no quintal. Muitas e muitas de manhã lá em casa, de tarde na casa deles.

Tudo ia bem até o dia que os dois me deram corda de colocar em prática minha mania de super-herói. Assim foi: com uma toalha de algodão aos trapos amarrada no pescoço como capa e um guarda-chuva quebrado como arma, fui me atrepar no pé de goiaba e lá de cima gritei: - Maikin, Tchelo, sou super-herói! Vou voar!

- Sai daí, desgraçado, tu morre! -, gritava Maikin todo mandão.

Eis que eu todo maluvido, abri o guarda-chuva e gritei: - Vou descer de pára-quedas!

Teibei.

Lasquei o quengo no chão de quase quebrar o pescoço e todos os ossos. Horas e horas no balão de oxigênio, desmaiado.

– Tais vendo tu? Eu num disse!? – Implicava Maikim.

Esse foi o motivo de minha mãe parar com a bagunça e não deixar mais eu brincar com eles, mesmo com minhas insistentes e chorosas súplicas para eles ficarem. Até reclamar eu ia pra Carma:

- Maínha num deixa, Carma! Num deixa!

Por isso eu fugia todo dia e o dia todo pra casa deles. Minha mãe enlouquecia sem saber meu paradeiro: estava eu nas travessuras com a dupla. Não tinha jeito.

Fui então matriculado na escola da Fraternidade Palmarense para evitar nossos encontros e lá logo me ocupei de paixonite aguda pela professora Hilda Galindo Correia. No meio das tarefas, eis que os gazeteiros Maikim e Matchelo botavam a cara na janela da escola: estavam pulando no pó-de-serra da serraria vizinha. Oxe, quando findava a aula, a gente se juntava e danava a trelar. Era jogar pedra, plantar bananeira, timbungar no Riacho dos Cachorros, apostar carreira com o cata-corno, virar bundacanasca, o escambau. Até que a gente brigava um com o outro: eu apanhava de Maikim e me vingava no Matchelo, esse o saco de pancada, apesar de ser mais alto que eu. Não que ele fosse tão molenga, nada disso. Era que ele não tinha jeito mesmo pra briga e, ainda por cima, medo da minha mãe. Mais a segunda que a primeira.

Nessa maloqueragem toda, fui crescendo e com um bigodinho ralo embaixo da venta aos 10 anos, fui iniciado no vício de beber e fumar com meus comparsas de traquinada. A gente estava tomando jeito de gente adulta. Maikim logo me apresentou à música de Woodstock, Rita Lee, rock pauleira e MPB. Ficávamos a tarde toda nós três fumando e bebendo no quarto de Sonia, Deínha e Fátima, a caçula. Coitadas. Até que fomos expulsos por Sônia, deixando uma inhaca de cigarro, bebida, peidos e chulé, delas não dormirem de noite. Resultado: reservaram o último quarto pra nós três. Era um misto de dormitório com despensa, almoxarifado e local de monturo pra brebotes e tralhas gerais. Era isso mesmo que a gente era: o descarte do imprestável.

Ah, verdade: Maikim tinha um chulé da porra, chega Matchelo que passou a se chamar Marcelo Puara, viver tísico e lívido. Não sei como ele não morreu logo disso, deixou pra um acidente automobilístico anos mais tarde já quando a gente era adulto. Além disso, fumávamos os três. De tudo: de pascaio de fumo de corda até outras não apropriadas puxadelas às baforadas.

Maikim também foi graduado na Universidade de Tó Zeca: Mentirologia. E apois: o cabra mentia chega o cu dele apitava. E eu que era achegado a umas petas e patranhas, me tornei discípulo do discípulo: a gente se lascava de rir com os nossos próprios embustes inocentes. Era cada lorota da gente findar acreditando mesmo. Dávamos como tido e acontecido. Pilhéria de incorrigíveis mitômanos.

Marcelo também tinha um vício feio: peidar e tocar fogo. Era. A flatulência fedia como a praga, parecia mais o borborigmo da hecatombe. Razão pela qual fora recomendado insistentemente a se tratar à base de suco de graviola pra não empestar ambientes nem causar danos à saúde de ninguém. Por causa disso ele na horagá já empunhava isqueiro pra aplacar a fedorenta bufa: riscava fogo. Arrepara só. Não deu outra: um dia por acidente me inspirou a noveleta Tocha Humana. Isso sem contar com as leseiras de chistes e anedotas herdadas de Pai Lula, inventando de chamar todo mundo de Puara até ser homenageado em vida com criação de um bloco carnavalesco.

Passamos a adolescência no meio de verdadeira olimpíada da cachaçada: Marcelo na loja o dia todo com conversa mole e miolo de pote, amolegando a pêia, tirando catota da venta, mangando do povo e criando neologismos insensatos e risíveis. E Marquinhos enrolado com mulheres e bandas, já cantava e sumia da loja, a ponto de Paulo Roberto me dizer: - Marquinhos saiu cinco minutos antes de chegar. Se quiser se esconder dele, fique aqui. Era o que repetiam os irmãos Beco-professor-Pardal e Zinho-meu-cumpade. Não conto às vezes que Paulo saiu comigo para buscá-lo na casa de caixa-pregos, metido com meio mundo de meninas que desmaiavam com seus olhos verdes e cantarolando canções e pulhas.

E eu? Depois de uma atrapalhada formação profissional de carimbador oficial e registrador de sentenças no tombo do cartório da família, virei bancário de meia-tijela e defenestrado para tapar buraco numa emissora de rádio, virar gerente ad-hoc em revenda de automóveis e me desaprumar o resto da vida na minha sem serventia para nada que prestasse.

Pois é. Saudades de Marcelo Puara, esteja em paz. Saudades do Maikim: sucesso procê, mermão. Vamos juntos. O coração segue pro futuro com vocês todos dentro dele.




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