quinta-feira, março 07, 2013

HERÁCLITO




Imagem: Heraclitus, de Johannes Moreelse.

HERÁCLITO DE EFESO – Heráclito nasceu em Efeso, cidade da Jônia, de família que ainda conservava prerrogativas reais descendentes do fundador da cidade. Seu caráter altivo, misantrópico, e melancólico ficou proverbial em toda a antiguidade. Desprezava a plebe. Recusou-se sempre a intervir na política. Manifestou desprezo pelos antigo poetas, contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. Sem ter tudo mestre, ele escreveu um livro em prosa, no dialeto jônico, mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro. É por muitos considerado o mais eminente pensador pré-socratico por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, garmonia feita de tensões como a do arco e da lira.
Com Heráclito de Êfeso,a filosofia pré-socratica afirma-se na Ásia Menor. Heraclito, de raça jônica e de estirpe real, solitário desdenhoso e desprezador da azafama vulgar, mais moço do que Pitágoras, viveu entre o VI e V século, e expôs o seu sistema numa obra filosófica intitulada “Da natureza”, que existe apenas fragmentos algo extensos. A doutrina dele pode-se resumir nos princípios seguintes: 1º a essência, o elemento primordial, é o vir-a-ser, tudo se acha em perpetuo fluxo, a realidade está sujeita a um vir-a-ser continuo. O único principio estável da realidade é a lei universal do próprio devir, que Heraclito concretiza no fogo (racional) visto ser o elemento da realidade material mais adequado a representar o vir-a-ser. Unicamente a razão, que tem por objeto o universal, colhe esta lei do devir universal. 2º o vir-a-ser é antítese, luta, revezar-se de vida e de morte: a luta é regra do mundo e a guerra é a geradora e dominadora de todas as coisas. 3º este vir-a-ser e esta oposição são reconduzidos à estabilidade e à unidade pela harmonia, pela sabedoria universal, que determinam o acordo entre as oposições. A unidade do real está na lei dialética, racional, do vir-a-ser; a causa da diferenciação das coisas está no devir.
“Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida” – nessa frase muitos vêem uma das chaves para a decifração do pensamento de Heráclito. A apresentaçãoa forismática de seu pensamento e o estilo intencionalmente sibilino fazem dele um dos pensadora de mais difícil interpretação. Natural, portanto, que a história da filosofia apresente uma sucessão de verdades de seu pensamento dependentes sempre da perspectiva assumida pelo próprio interprete. Para a solução do problema heraclitiano dois pontos parecem oferecer as bases mais seguras. A primeira, o confronto das proposições dele com seu contexto cultural, o que o próprio filosofo parece indicar, na medida em que se apresenta como critico implacável de idéias e personagens de sua época ou da tradição cultural grega. A segunda, o estilo dele a revelar um uso peculiar da linguagem. Se há aforismos dele que não manifestam obscuridade são justamente os de cunho critico. Aristocrata, ele não afirma apenas que um só é dez mil para mim, se é melhor, como também faz acerbas acusações à mentalidade vulgar desses homens que não sabem o que fazem quando estão despertos, do mesmo modo que esquecem o que fazem durante o sono. A religiosidade popular é também vergastada: “Os mistérios praticados entre os homens são mistérios profanos”. E explica: “É em vão que eles se purificam sujando-se de sangue, como um homem que tivesse andado na lama e quisesse lavar os pés na lama”. Mas nem alguns dos nomes mais referenciados na época são poupados: “O fato de aprender muitas coisas não instrui a inteligência; do contrário teria instruído Hesiodo e Pitagoras, do mesmo modo que Xenofanes e Hecateu”. Noutro aforismo Pitágoras é acusado de possuir uma polimatia, conhecimento de muitas coisas que não passava de uma arte de maldade, enquanto Hesiodo, o mestre da maioria dos homens, os homens pensam que ele sabia muitas coisas, ele que não conhecia o dia ou a noite. Nem Homero escapa: “Homero errou em dizer? Possa a discórdia de extinguir entre os deuses e os homens”. Ele não via que suplicava pela destruição d universo; porque, se sua prece fosse atendida, todas as coisas pereceriam”. Em meio a tantas criticas, Heraclito abre, entretanto, uma exceção: para a Sibila, que com seus lábios delirantes diz coisas sem alegria, sem ornatos e sem perfume, mas que atinge com sua voz para além de mil anos, graças ao deus que está nela. Percebe-se, dessa maneira, que a adoção do estilo oracular é intencional nele, que encontra a via adequada – indireta, sugestiva – para comunicar seu pensamento: “O mestre a que pertence o oráculo de Delfos não exprime nem oculta seu pensamento, mas o faz ver através de um sinal”. O exemplo do deus de Delfos e da Sibila parece mostrar a ele a diferença que separa as palavras do pensamento (logos), a mesma que distancia a inteligência privada – o sono em que está imersa a mentalidade vulgar – da inteligência comum, a vigília daquele que se eleva acima dos muitos conhecimentos e reconhece que todas as coisas são um.
O que diz o Logos, do qual Heráclito se faz enunciador e em nome do qual condena o torpor da multidão ou a polimatia dos supostos sábios, é isto: a unidade fundamental de todas as coisas. Essa é a natureza que gosta de se ocultar. Mas a noção de unidade fundamental, subjacente à multiplicidade aparente, já estava expressa pelo menos desde Anaximandro de Mileto. A Heraclito – e que lhe permite julgar tão duramente seus antecessores e contemporâneos – está, na verdade, em considerar aquela unidade de tensões opostas. Esta teria sido, sua grande descoberta: existe uma harmonia oculta das forças opostas, como a do arco e a da lira. A razão (logos) consistiria precisamente na unidade profunda que as oposições aparentes ocultam e sugerem: Os contrários, em todos os níveis da realidade, seriam aspectos inerentes a essa unidade. Não se trata, pois, de que o Um ao Multiplo, como Xenofanes e o eleatismo: o Um penetra o Multiplo e a multiplicidade é apenas uma forma da unidade, ou melhor, a própria unidade. Daí a insuficiência do uso corrente das palavras: somente o logos (razão-discurso) do filosofo consegue apreender e formular – não ao ouvido mas ao espírito, não diretamente mas por via de sugestões sibilinas – aquela simultaneidade do múltiplo (mostrado pelos sentidos) e da unidade fundamental descortinada pela inteligência desperta em vigília. Proclama Heráclito: “É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que todas as coisas são Um”. O Logos seria a unidade nas mudanças e nas tensões, a reger todos os planos da realidade: o fisico, o biológico, o psicológico, o político, o moral. É a unidade nas transformações: “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, superabundância-fome; mas ele assume formas variadas, do mesmo modo que o fogo, quando misturado a aromatas, é denominado segundo os perfumes de cada um deles. Por isso Homero errara em pedir que cessasse a discórdia entre os deus e os homens: “O que varia está de acordo comigo mesmo”. A harmonia não é aquela que Pitágoras propunha, de supremacia do Um, nem a verdadeira justiça é a que Anaximandro havia concebido, ou seja, a extinção dos confins e das tensões através da compensação dos excessos de cada qualidade-substancia em relação a seu oposto. A justiça não significa apaziguamento. Pelo contrário: “O conflito é o pai de todas as coisas: de alguns faz homens; de alguns, escravos; de alguns, homens livres. Mas ver a realidade como fundamentalmente uma tensão de opostos não significa necessariamente optar pela guerra, no plano político; guerra, neste ultimo sentido, é apenas um dos pólos de uma tensão permanente. E essa tensão, que constitui a verdadeira harmonia, necessita, para perdurar, de ambos os opostos. Numa serie de aforismos, Heraclito enfatiza o caráter mutável da realidade, repetindo uma tese que já surgira nos mitos arcaicos e, com dimensão filosófica, desde os milesianos. Mas nele a noção de fluxo universal torna-se um mote insistenetemente glosado: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. O imperio do Logos em sua feição física aparece então como as transformações do fogo, que são em primeiro lugar, mar; e a metade do mar e terra e a outra metade vento turbilhonante. O logos-fogo exerce uma função de racionalização nas trocas substanciais análoga à que a moeda vinha desempenhando na Grecia desde o séc. VII: “Todas as coisas são trocadas em fogo e o fogo se troca em todas as coisas, como as mercadorias se trocam por ouro e o ouro é trocado por mercadorias”. Todavia, as transformações que integram o fluxo universal não significam desgoverno e desordem; pelo contrário, o Logos-Fogo é também Razão universal e, por isso, impôs medidas ao fluxo: “Este mundo (...) foi sempre, é e será sempre um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”. A regularidade e a medida são garantidas pela simultaneidade dos dois caminhos de transformação que compõem o fluxo universal: é ao mesmo tempo que ocorre a troca do fogo em todas as coisas, de todas as coisas em fogo, pois “o caminho para o alto e o caminho para baixo são um mesmo”. Isso permite então afirmar: “(...) e a metade do mar é terra, a metade vento turbilhonante”. Assim, o que garante a tensão intrínseca às coisas é aquilo mesmo que as sustenta: a medida imposta pelo Logos, essa harmonia oculta que vale mais que harmonia aberta. A consciência da fugacidade das coisas gera uma nota de pessimismo que atravessa o pensamento de Heráclito: “O homem é acendido e apagado como uma luz no meio da noite!. Mas o pessimismo advem, sobretudo, de reconhecer o torpor em que vive a maioria dos homens, ignorantes da lei universal que tudo rege. Por isso o discurso (logos) do filosofo, embora pretendendo ser a manifestação da razão universal (logos), exprime-se como um solitario mono-logos acima dos homens comuns, “esses loucos que quando ouvem são como surdos”.

FONTES:
ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1994.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Atica, 2002.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luis. Historia da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
PESSANHA, José Américo Motta (Org). Os pré-socraticos. São Paulo: Abril, 1978.
SOUZA, José Cavalcante. Os pré-socrático. São Paulo: Abril, 1978.   Confira mais aqui e aqui




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