domingo, novembro 30, 2014

POEMAS DE BERTOLT BRECHT


ELOGIO DA DIALÉTICA

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E nunca será: ainda hoje.

PERGUNTAS A UM OPERÁRIO LETRADO

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas.

DIFICULDADE DE GOVERNAR

Dificuldade de Governar 1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

CITAÇÃO

Assim falou o poeta Kin:
Como escrever obras imortais, se não sou célebre?
Como responder, se ninguém me interroga?
Por que perder tempo com versos que o tempo perde?
Escrevo as minhas propostas em forma duradoura.
Com medo que muito tempo corra sem que elas se cumpram.
Para atingir o que é grande há que passar por grandes transformações.
E as pequenas transformações são inimigas das grandes transformações.
Tenho inimigos. Logo devo ser célebre.

DA VIOLÊNCIA

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.

POEMAS RELACIONADOS COM O MANUAL DE GUERRA ALEMÃO

Diz o pintor:
Quanto mais canhões houver
Mais duradoura será a paz.
Logicamente, deveria dizer-se:
Quanto mai sementes se semearem
Menos cereais haverá.
Quanto mais gado for morto
Menos carne teremos.
Quanto mais neve se derreter nos montes
Menos águas correrá nos rios.

Não vamos discutir se
Quando o tínhamos tiramos
Algum partido do poder
- Agora que já o não temos
Não vamos discorrer
Sobre a necessidade ou não da violência – agora
Que a violência nos deitou por terra.
O lavrador lavra a terra
Quem
Recolherá a colheita?

Muitas coisas aumentarão com a guerra
Aumentarão
As posses dos poderosos
E a pobreza dos que nada têm
Os discursos dos governantes
E o silêncio dos governados.

Se se dividirem as terras dos Junkers
Não há necessidade nenhuma de conquistar as terras dos camponeses da Ucrânia.
Se se conquistarem as terras dos camponeses da Ucrânia
Mais terras terão os Junkers.

Os que estavam em guerra contra o próprio povo
Fazem agora a guerra aos outros povos
Aos antigos escravos
Outros devem juntar-se.

Sob as árvores da aldeia as raparigas
Escolhem os namorados
A morte
Também escolhe
É possível
Que nem as árvores sobrevivam.

Noite.
Os casais
Vão para a cama. As jovens
Mulheres parirão órfãos.

Os que vão envelhecendo vão
Depositar dinheiro nas caixas econômicas.
Diante delas carros estacionam:
Vão buscar o dinheiro
Para as fábricas de material de guerra.

Para quê conquistar mercados para as novas mercadorias
Que os operários fabricam?
Os operários
De bom grado ficariam com elas.

O Führer dir-vos-á: a guerra
É para quatro semanas – no outono
Já estareis de volta. Mas
O outono virá e passará
E de novo há-de vir e muitas vezes ainda há-de passar
Sem que de volta estejais.
O pintor dir-vos-á: as máquinas
Encarregar-se-ão de tudo – muito poucos
Serão os mortos. Mas
Vós morrereis às centenas de milhares, tantos
Que em tempo algum, ou terra alguma, se viu morrer assim.
Quando eu ouvir dizer que estais no Cabo Norte
Ou na Índia, ou no Transval, saberei apenas
Em que lugar poderão um dia ser encontrados os vossos túmulos.

A PROPÓSITO DA NOTICIA DA DOENÇA DE UM PODEROSO ESTADISTA

Se este homem insubstituível franze o sobrolho
Dois reinos periclitam
Se este homem insubstituível morre
O mundo inteiro se aflige como a mãe sem leite para o filho
Se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia
Não acharia em todo o império uma vaga de porteiro.

A METAMORFOSE DOS DEUSES

Os antigos deuses pagãos -- isto é segredo --
Foram os primeiros cristãos convertidos
Iam através dos bosques de carvalhos pardos, ao encontro das multidões,
Resmungando orações populares e fazendo o sinal da cruz.
Ao longo de toda a Idade Média
Instalavam-se como que distraídos nos nichos  das casas de Deus
De todas as populações necessitadas de figuras divinas.
E no tempo da Revolução Francesa
Foram os primeiros a usar as máscaras douradas da razão pura:
Soberanos conceitos,
Pairavam, velhos sugadores de sangue e falsificadores de ideias,
Sobre o dorso curvado da multidão trabalhadora.

QUANDO NO QUARTO BRANCO DA CHARITÉ

Quando no quarto branco da Charité
Acordei de manhã
E ouvi cantar o melro, entendi
Muitas coisas. Muito havia
Que a noite não temia por saber
Que nada mais me faltaria se
Eu próprio me fartava. Nesse instante
Cheguei a alegrar-me até
Com o canto dos melros após a minha morte.

O ANALFABETO POLÍTICO

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

*

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis


BERTOLT BRECHT – O dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), antes de ser um expoente da arte dramática e poética do século XX, estudou medicina e trabalhou como ordenança em hospitais durante a Primeira Guerra Mundial, exilado em vários países, impedido de entrar na sua pátria, forçado a mudar de nacionalidade, vítima e testemunha de duas grandes guerras. Por isso, além do teatro, dedicou-se aos estudos sobre sociologia e marxismo, defendendo que a forma época é a única capaz de apresentar as determinantes sociais das relações inter-humanas. Iniciou-se no teatro moderno em Berlin onde encenou suas primeiras peças. O seu teatro tornou-se um retrato do tempo e da posição engajada do autor. Foi premiado com o Prêmio Lênin da Paz, em 1954. Várias de suas peças tornaram-se clássicos do teatro planetário. E com a sua atuação, escreveu o livro “Estudos sobre teatro”, traduzido por Fiama Pais Brandão. Nesta obra ele questiona se o mundo poderá ser reproduzido pelo teatro, questionando peças e representações, óperas, teatro recreativo, teatro didático, efeitos de distanciamento na arte dramática chinesa, as cenas de rua, a nova técnica da arte de representar, a obra clássica intimidada, o Pequeno Organon para o teatro e a dialética no teatro. Na segunda parte ele aborda questões acerca da práxis no teatro, Sófocles, a utilização de um modelo, a contribuição da música para o teatro épico, a música-gesto e uma carta a um ator.



FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

_______. Poemas. Lisboa: Presença, 1970. Veja mais aqui e aqui.




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