sexta-feira, abril 03, 2015

GRASS, SADE, HORNEY, CHICO BUARQUE, MARIA CLARA MACHADO, GARRISON, LUIZ EDMUNDO ALVES, MONICA & MONIQUE JUSTINO.

A NECESSIDADE NEURÓTICA DO AMOR - A psiquiatra e psicanalista alemã Karen Horney (1885-1952) sofreu na infância com o conservadorismo e ortodoxia luterana do pai que não admitia que ela estudasse para cuidar das lides domésticas, dedicando amor à mãe. Como todas as mulheres de sua geração, teve de enfrentar uma luta violenta para ter acesso à liberdade de fazer suas próprias escolhas. Apoiada pela mãe, conseguiu matricular-se na faculdade de medicina de Freiburg. Marcada pelo desentendimento parental e preocupada em escapar ao destino que lhe reservavam, manifestou sua revolta tendo muitas relações amorosas, escapando de uma depressão latente. Ao contrário das mulheres da época que preferiam liberdade à maternidade, ela demonstrou interesse em ter vários filhos. Casou-se com um rico industrial em Berlin, Oskar Horney. Numa análise feita com Karl Abraham descobriu nela sintomas de depressão à atração que ela sentia pelos homens fortes e uma admiração recalcada por seu pai, aplicando ao seu caso a tese da inveja do pênis. Desenvolveu uma tese em congresso, afirmando que as mulheres desejam inconscientemente ser homens porque, na sua infância, tivera inveja do pênis e desejavam ter um filho de seus pais. Essa interpretação simplista teve um efeito desastroso no seu treinamento, temendo ser submetida a uma transferência paterna, ela interrompeu a análise passou a desenvolver a autoanálise, considerando um insulto às mulheres a teoria da sexualidade feminina. Seu pai morreu quando ela estava grávida da primeira filha, atravessando um período de depressão acentuada. Perdeu a mãe logo depois do parto, para em 1912, apresentar um trabalho sobre a educação das crianças. Integrou-se ao movimento psicanalítico, sendo a primeira mulher a se tornar professora do Instituto Psicanalítico Berlinense e a primeira a criticar a tese freudiana, razão pela qual ela desenvolveu uma reformulação teórica completa no pensamento de Freud, redefinindo o materno, o feminino e uma critica do que era sentido como um poder masculino. Deixou o terreno do freudismo e migrou para o culturalismo, procurando fundamentar a psicologia da mulher sobre uma identidade própria, rompendo com a noção de universalismo da espécie humana. Para ela a sociedade masculina recalcava a inveja da maternidade dos homens, aproximando-se do pensamento de Wilhelm Reich e Erich Formm. Migrou, então, para os Estados Unidos obtendo a cidadania estadunidense, começando uma vida nova com novas ligações amorosas, até tornar-se companheira de Erich Fromm para escrever A necessidade neurótica do amor e começou a transgredir as regras do tratamento, tendo uma ligação com um de seus analisandos. Invejada pelos colegas, foi impedida de fazer a formação e obrigada a deixar a NYPS, fundando a Association for the Advancement of Psychoanalysis (AAP), admitindo dissidentes freudistas. A partir de então ela desenvolveu uma nova teoria, a autorrealização de si, que não deixava de ter relação com outras correntes do neofreudismo norte-americano, fundada na reconstrução do self ou na autonomia do eu. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Kneeling Nude, do pinto Larry Vincent Garrison (1923 – 2007).

Ouvindo o álbum Chico Buarque ao vivo – Le Zenith, Paris (RCA, 1990). Veja mais aqui.



OS EMBRULHOS – A peça teatro em um ato Os embrulhos (1970), da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001), fundadora da escola de teatro O Tablado, acontece num cenário que envolve um casal de velhos, uma criada jovem, um homem e figurantes-maquinistas. Do texto destaco o trecho: (Ouve-se o som de uma Caixinha de música. A Velha procura com rapidez no meio dos pacotes. Acha-a. Coloca-a dentro de outra caixa e embrulha com muito jornal até abafar a música.) VELHA - Tem ainda barbante branco, Neguinho? (O Velho entrega uma cesta cheia de barbantes.) Quanto barbante eu colecionei, santo Deus! Também, tantos anos! VELHO (sai e"volta com os álbuns de fotografias) - Como estão cheios de poeira, veja, Neguinha, os álbuns. VELHA - Ah, os "álbuns! Os álbuns! (Folheando.) Você tinha um cabelo preto... Ah! aquela cadelinha chamada Zefa. .. morreu... eu acho, não éNeguinho? VELHO - Morreu. Que retrato bem tirado! (Apanha na estante uma máquina fotográfica antiga.) Com esta máquina aqui, lembra? (O Velho sobe na cadeira, faz que vai bater uma foto. Há um segundo de imobilidade, enquanto a Velha cobriu o rosto, rindo, atrás do álbum.) VELHA - Embrulha bem ela, senão estraga a lente. (O Velho embrulha a máquina, enquanto a Velha folheia o álbum. Subitamente, arranca uma foto do álbum e joga no chão:) VELHA (mexe a cabeça como se dissesse não) Você deixou isto aqui de propósito,·só para me fazer maldade. VELHO (apanha a fotografia) Ele ainda era um menino, Neguinha! VELHA - Não quero levar ele, não quero VELHO Então a gente não leva. VELHA - Não quero ... (Pausa.). Veja mais aqui e aqui.
A FILOSOFIA NA ALCOVA – O romance Filosofia na alcova (La Philosophia. dans le boudoir – Companhia das Letras, 1992), do escritor libertino francês Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (1740-1814), trata da história de um debate filosófico entre a Madame de Saint Ange, a jovem Eugenia, o cavalheiro de Mirvel e Dolmancé, com narrativas filosóficas e eróticas. Destaco do livro o prefácio do autor denominado Aos libertinos: Voluptuosos de todas as idades e de todos os sexos, é a vós somente que dedico esta obra; alimentai-vos de seus princípios que favorecem vossas paixões; essas paixões que horrorizam os frios e tolos moralistas, são apenas os meios que a natureza emprega para submeter os homens aos fins que se propõe. Não resistais a essas paixões deliciosas: seus órgãos são os únicos que vos devem conduzir à felicidade. Mulheres lúbricas, que a voluptuosa Saint-Ange seja vosso modelo; segui seu exemplo, desprezando tudo quanto contraria as leis divinas do prazer, que dominaram toda sua vida. Jovens, há tanto tempo abafadas pelo liames absurdos e perigosos duma virtude fantástica, duma religião nojenta, imitai a ardente Eugênia; destruí, desprezai, com tanta rapidez quanto ela, todos os preceitos ridículos inculcados por pais imbecis. E vós, amáveis devassos, vós que desde a juventude não tendes outros freios senão vossos desejos, outras leis senão os vossos caprichos, que o cínico Dolmancé vos sirva de exemplo; ide tão longe quanto ele, se como ele desejais percorrer todas as estradas floridas que a lubricidade vos prepara; convencei-vos, imitando-o, de que só alargando a esfera de seus gostos e suas fantasias, e, sacrificando tudo ã volúpia, o infeliz indivíduo, conhecido sob o nome de homem e atirado a contragosto neste triste universo, pode conseguir entremear de rosas os espinhos da vida. Veja mais aqui e aqui.

ZUNS ZUM ZOOM – O livro Zuns zum zoom (Anome, 2012), do poeta, editor, videomaker e psicólogo baiano-mineiro, Luiz Edmundo Alves, reúne uma série de seus poemas resultantes de atividades com a sua poesia, incluindo performer e palestrante. Após publicar em 2010 a biografia do grande artista plástico mineiro Rui Mineiro, ele nos premia com esse excelente livro, no qual destaco: um poema se faz com ideias / um poema se faz com palavras / um poema se faz com um / brilho repentino de / suor / e / sal / um poema se faz com paixão / um poema se faz sem paixão / um poemas se faz com coisas / esquisitas, coisas esquisitas tão / bonitas que não confortam / um poema se faz pelo prazer / em fazer poemas e depois chorar. E também este poema: [...] escrevi silêncio saliência sal só sol solstício. / escrevi no muro no namoro namorada na morada normalmente. Ih foi / assim que me repeti, na moral, assim que me deslumbrei com / palavras incomuns, com paisagens incomuns, com pessoas incomuns, / com viagens incomuns, com batidas incomuns: pra buscar o incomum / reescrevi expectativas, redesenhei linhas desalinhei conteúdos, / extrapolei. Ei, ei eu sei onde extrapolei, ei eu senti ei eu falei o que / escrevi, recitei, murmurei, escrevi tudo bem. Não! Não quero mais. / quero mais! Não! Não quero mais assim / eu quero mais por aí, é meu álibi, ali meu alivio / escrevi, é assim que estou aqui: escrito e finito... Veja mais aqui.


ROCK AND ROLL & DESENHOS – O belíssimo blog das irmãs Monica & Monique Justino traz sempre muitas novidades como poemas de Fernando Pessoa e de Manuel Bandeira, também músicas e desenhos, a exemplo da excelente banda One Republic, entre outras. Nesse blog fui agraciado com um lindo poema, Meu Corvo, da Monique Justino: Um corvo me chama / Num sonho sombrio / Minha alma descansa, / Na eternidade de meus sonhos / Quando te vejo, e vou te ver para sempre. / Eu sou um corvo em busca da escuridão da noite fria / A brisa bate no meu rosto que se mistura com minhas lágrimas vazias. / Queria poder despertar de um pesadelo, mas tenho que tentar viver assim, Enxergando tudo através da escuridão de minha alma, num pesadelo sem fim. Veja mais aqui.

O TAMBOR – O romance de critica social O tambor (Die Blechtrommel, 1959 – Círculo do Livro, 1986), do escritor, dramaturgo, artista plástico alemão e ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1999, Günter Grass, conta a história de Oskar, um menino que se recusa a crescer criticando o mundo dos adultos e da burguesia da época, com sua voz vitrícida bate no tambor para quebrar vidraças e derrubar objetos. Da obra destaco o trecho: [...] Desde sempre tinha estado ai, inclusive no pó efervescente de aspérula, por muito inocente que fosse sua verde espuma; em todos os guarda-roupas em que então me acocorava, ela também se acocorava. Mais tarde tomou emprestada a cara triangular de raposa de Luzie Rennwand e devorava cachorros-quentes e levou os Espanadores ao trampolim – restou apenas Oskar, que contemplava as formigas porque sabia: esta é a sua sombra, que se multiplicou em insetos negros e procura o açúcar. E todas aquelas palavras: bendita, dolorosa, bem-aventurada, virgem entre as virgens... e todas aquelas pedras: basalto, tufo, diábase, ninhos em calcário conchífero, alabastro tão brando... e todo o vidro partido com a voz, vidro transparente, vidro fino como o hálito... e os gêneros alimentícios: farinha e açúcar em saquinhos azuis de uma libra e meia. Mais tarde, quatro gatos, um dos quais se chamava Bismark, o muro que teve de ser caiado de novo, os poloneses na exaltação da morte, e os comunicados especiais, quem afundava o quê, quando, as batatas que caiam rolando da balança, o que se estreita em direção ao pé, os cemitérios em que estive, as lajes sobre as quais me ajoelhei, as fibras de coco sobre as quais me estendi... tudo misturado ao cimento, o suco das cebolas que arranca lágrimas dos olhos, o anel no dedo e a vaca que me lambeu... Não perguntem a Oskar quem ela é? Já não lhe restam palavras. Porque o que outrora se sentava na minhas costas e beijos minha corcunda está agora, agora e para sempre, diante de mim e vem se aproximando: Negra, a Bruxa Negra sempre esteve atrás de mim. / Agora também está me encarando de frente, negra! / Vira pelo avesso a capa e a palavra, negra! / Pague-me com dinheiro negro, negra! / Enquanto as crianças cantam e deixam de cantar: / A Bruxa Negra está aí? Sim, sim, sim! A obra foi adaptada para o cinema em 1979, com direção de Volker Schlöndorff e música de Maurice Jarre, destacando-se a interpretação da atriz alemã Angela Winkler. Veja mais aqui.



Veja mais sobre:
O Brasil na festa do Fecamepa, a música de Marlos Nobre, a literatura de Anna Bolecka, a arte de Adriana Varejão & Sophia Monte Alegre aqui.

E mais:
Numa roda de choro, Chorinho brejeiro de Dalton Trevisan, Almanaque do choro de André Diniz da Silva, a música d’O Charme do Choro, a pintura de Marina Bonifatti & Sérgio Marques da Silva Júnior aqui.
O jacaré & a princesa, Catxerê, a mulher estrela, a Metafísica de Immanuel Kant, Lolita de Vladimir Nabokov, a música de Bach & Yehudi Menuhin, o teatro de Thomas Stearns Eliot, o cinema de Éric Rohmer, a arte de Mae West. a pintura de Paul Sieffert, Domingo com Poesia & Natanael Lima Júnior aqui.
Aurora nascente de Jacob Boehme, a Teoria Quântica de Max Planck, o teatro de William Shakespeare, a música de Pixinguinha, o cinema de Michael Moore, a pintura de Marcel René Herrfeldt, a arte de Brigitte Bardot & a Biopoesia de Silvia Mota aqui.
Educação & direito ambiental porque todo dia é dia da terra aqui.
Eu & ela naquela noite todas as noites aqui.
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Educação Infantil, a psicologia de Abraham Maslow, a música de Sergei Rachmaninoff, a poesia de Nauro Machado, a pintura de Edgar Leeteg, A pesca das mulheres, a arte de Luz del Fuego & Lucélia Santos aqui.
O teatro de William Shakespeare, a literatura de Émile Zola & Hans Christian Andersen, Casanova de Fellini, a música de Emmylou Harris, a escultura de Harriet Hosmer, a Rainha Zenóbia, a pintura de Max Ernst & Contos de Magreb aqui.
Até onde o amor levar, Sidarta Gautama, o teatro de Constantin Stanislavski, a música de Maria Rita, a escultura de Carlos Baez Barrueto, a pintura de Clare Rose, Luciah Lopez & a poesia de Ieda Estergilda de Abreu aqui.
Da vida, meio a meio, O suicídio de Karl Marx, a poesia de Mário Quintana, a música de Girolamo Frescobaldi & Jody Pou, A estrutura do todo de Andras Angyal, a fotografia de Mário Cravo Neto, a pintura de Mario Zanini & Arna Baartz aqui.
O poema nasce na solidão, a poesia de Adélia Prado, a psicanálise de Carl Gustav Jung, a psicologia educacional de David Ausubel, a arte de Salvador Dali & Cristiana Reali, a música de Cynthia Makris, a pintura de Catherine Abel & Luciah Lopez aqui.
Andejo da noite e do dia, O caminho interior de Graf Dürckheim, A cultura da educação de Jerome Bruner, a poesia de Giuseppe Ungaretti, a música Ricardo Tacuchian, a fotografia de Ana Carolina Fernandes, a coreografia de Célia Gouvêa, a pintura de Tess Gubrin & Kerry Lee aqui.
Nunca fui e quando inventei de ir não era pra ter ido, A pedagogia do sonho de Paulo Freire, O narratário de Vitor Manuel de Aguiar e Silva, a literatura de Tessa Bridal, a música de Quinteto Violado & Dominguinhos, a escultura de Pedro Figueiredo, a arte de Marcela Tiboni & a pintura de Victoria Selbach aqui.
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