quinta-feira, abril 02, 2015

SHAKESPEARE, ZENÓBIA, ZOLA, CASANOVA, EMMYLOU, FELLINI, ANDERSEN, MAGREB & MAX ERNST.


CONTOS DE MAGREB – Na coletânea Contos árabes (Cultrix, 1962), organizada por Jamil Almansur Haddad, encontrei entre os contos de Magreb – histórias populares contadas nas praças da região compreendida entre Marrocos, Argélia e Tunísia -, a História da jovem que nasceu de uma maçã, na tradução do organizador em parceria com José Paulo Paes: Era uma vez uma mulher que nunca tinha tido filhos. Seu marido, que desejava muito que ela os tivesse, dirigiu-se um dia à casa de um feiticeiro e disse: - Minha mulher é estéril. Eu quero um remédio que a cure. O feiticeiro deu-lhe duas maçãs e disse: - Fazei-a comer estas maçãs e ela ficará gravida, porem tu não podes comer. Levando as maçãs achou-as tão belas e tão odorosas que não resistiu à tentação e comeu uma. Depois deu outra à sua mulher. Imediatamente ela ficou grávida: mas à medida que seu ventre aumentava, a perna do seu marido se intumescia e tomava proporções enormes. Enfim, chegou o termo do nono mês: a mulher deu à luz um filho. Quanto ao marido, no mesmo momento as dores o tomavam na perna e de vergonha foi ocultar-se na solidão do deserto. Ao mesmo tempo que a sua mulher dava à luz a seu filho, sua perna fendeu-se e dali saiu uma menina bela como o dia. Ela tinha cabelos tão longos que cobriam inteiramente seu corpo. Sem mais ocupar-se dela, ele a abandonou ali e voltou para casa. Ora, uma gazela seguida dos seus pequenos que ela aleitava, passando por lá, ouviu os vagidos da criança. Aproximou-se, fê-la mamar e adotou-a. a menina cresceu com as pequenas gazelas. Um dia um rei que caçava percebeu o rebanho de gazelas e espantou-se ao ver esse animal estranho que parecia uma menina e vivia em pleno deserto. Fez preparar dois pratos de cuscuz, um com sal e outro sem sal e fê-los depositar perto da fonte onde as gazelas bebiam. E pensou: - Se este ser for humano, comerá o cuscuz salgado; se é uma jenniya comerá a comida sem sal porque os jenniyas não comem comida salgada. No dia seguinte, foi ver o que havia comido esse ser estranho e quando se certificou de que se tratava de um ser humano, procurou caçá-la. Agarrando-a depois, levou-a para casa, vestiu-a de suntuosos vestidos, fez construir um palácio para ela e desposou-a. mas suas outras mulheres, em numero de seis, ficaram muito ciumentas da nova desposada. Mostraram-se, no entanto, muito amigas para afastar dela toda a desconfiança e a atraiam frequentemente para as suas casas. Um dia o rei, vendo reinar concórdia em sua casa, decidiu visitar seus estados e recolher impostos. Recomendou às suas mulheres de bem se entenderem entre elas e partiu. Então elas combinaram a perda da jovem esposa. Um dia elas lhe disseram: - Vem que te pentearemos. A jovem sentou-se perto delas e deixou-se pentear. Mas sucessivamente cada uma delas lhe plantou um alfinete na cabeça e, instantaneamente, a pequena rainha foi metamorfoseada em pássaro e voou sob a forma de pomba. Ora, o rei, antes de sua partida, tinha começado a construção de um pavilhão no jardim e recomendado aos seus trabalhadores que o terminassem antes da sua volta. Mas a partir desse dia, a pomba vinha pousar sobre a parede construída durante a jornada e cantava: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Quando terminou sua queixa, voou e logo o muro, sobre o qual ela havia pousado, ruía. Os pedreiros ficaram muito infelizes e queriam agarrar o pássaro, o que lhes era impossível. Enfim o rei voltou. Quando chegou em casa dirigiu-se logo aos aposentos da jovem rainha que o amava. Achou-o vazio e as mulheres disseram: - Após a tua partida ela foi reunir-se às gazelas. Então o rei quis retirar-se para o pavilhão que havia mandado construir no jardim, e ficou surpreso ao achá-lo inacabado e no mesmo estado em que estava quando de sua partida. Chamou o chefe dos pedreiros e lhe disse: - O que acontece aqui? Merece que te faça cortar a cabeça. Eu havia ordenado terminar a construção quando da minha volta. Nesse momento, a pomba chegou ao muro e pôs-se a cantar: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Depois voou, o muro ruiu e o chefe dos trabalhadores disse ao rei: - Viste a razão. Isto vem acontecendo todos os dias após a tua partida; trabalhamos o dia inteiro e à tarde vem a pomba que canta a sua canção, e o muro tomba. Queríamos agarrá-la mas ela se esquiva e eu nada pude fazer. Então o rei disse: - Num dos quartos que terminaram, ireis pôr todos os grãos que agradam aos pombos, e deixarás as janelas e as portas abertas para que essa pomba possa entrar e alimentar-se. Depois colocou no interior do quarto dois guardas perto de cada entrada, com ordem de fechar as portas e janelas logo que o pássaro entrasse ali. E no dia seguinte ele próprio veio para apanhar a pomba. Mas ela, que o havia percebido na véspera, deixou-se apanhar sem dificuldade. Quando o rei a prendeu, ele pôs-se a chorar e a acaricia-la, e a pomba também cantou sua canção. De repente, passando-lhe docemente a mão pela cabeça, o rei encontrou seis alfinetes e arrancou-os. Logo a pomba retomou a forma de donzela, em toda a sua beleza. O rei apanhou-a nos braços e ambos choraram lágrimas de felicidade. Depois o rei lhe disse: - Conta-me o que houve. E quando ela terminou ele disse: - Decide da sorte delas. Farei o que quiseres. Então ela pediu: - Quero que a primeira seja transformada em trave da entrada do meu quarto, para que eu pise nela todos os dias. A segunda, em cadeira para as abluções para que eu me sente nela todos os dias. A terceira, em outra viga que eu pisarei no banheiro. A quarta, para o mesmo objetivo na cozinha. A quinta, a mesma coisa no estábulo. E a sexta, em tábua para o meu leito. Isto foi feito e ela viveu longos dias felizes com o rei... e minha história acabou. Veja mais aqui.

Imagem: Pleiades (1920), do pintor e escultor do Surrealismo alemão Max Ernst (1891-1976)

Ouvindo Red dirt girl (Nonesuch/Warner Broos, 2000), da cantora e compositora estadunidense Emmylou Harris.



A LITERATURA DE ANDERSEN – Uma das leituras que povoou a minha infância foi a do escritor dinamarquês de histórias infantis Hans Christian Andersen (1805-1875), que iniciou sua carreira literária escrevendo poesias, publicando o seu primeiro romance Inspirador, em 1837, seguindo-se toda a obra dedicada ao universo infanto-juvenil de grande sucesso até hoje. Veja detalhes aqui e aqui.

SONETOS DE SHAKESPEARE – No livro Sonetos (Martin Claret, 2006), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), destaco dois deles, o primeiro: Dos seres ímpares ansiamos prole / para que a flor do belo não se extinga, / e se a rosa madura o tempo colhe, / fresco botão sua memória vinga. / Mas tu, que com os olhos teus contrais, / nutres o ardor com as próprias energias / causando fome onde a abundância jaz, / cruel rival, que o próprio ser crucias. / Tu, que do mundo és hoje o galardão, / arauto da festiva natureza, / matas o teu prazer inda em botão / e, sovina, esperdiças na avareza. / Piedade, senão ides, tu e o fundo / do chão, comer o que é devido ao mundo. O segundo soneto: Dois amores – de paz e desespero - / e tenho que me inspiram noite e dia: / meu anjo bom é um homem puro e vero; / o mau, uma mulher de tez sombria. / Para levar a tentação a cabo, / o feminino atrai meu anjo e vive / a querer transformá-lo num diabo, / tentando-lhe a pureza com a lascívia. / Se há de meu anjo corromper-se em demo / suspeito apenas, sem dizer que seja; / mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo / que o anjo no fogo já do outro esteja. / Nunca sabê-lo, embora desconfie, / até que o meu anjo se contagie. Veja mais aqui.

NANA – O livro Nana: história natural e social de uma família sob o segundo império (Hemus, 1982), do escritor naturalista e libertário francês Émile Zola (1840-1902), é o nono volume da coleção Les Rougon-Macquart, conta a história de uma medíocre artista de teatro que faz fortuna por possuir um corpo de Vênus voluptuosa e vulcânica e se torna uma prostituta de luxo e cortesã da sociedade francesa, atraindo, corrompendo e arruinando ricaços e poderosos que se enfeitiçam por sua beleza. Da obra destaco o trecho: [...] Era ainda a mesma voz avinagrada, mas agora ela to­cava tanto a corda, não diremos sensível, mas sensual do público, que arrancava dele, por momentos, um leve estremecimento. Naná escondera o sorriso, que lhe iluminava a pequena boca vermelha, e resplandecia nos seus grandes olhos, de um azul muito claro. Em certos versos um pouco arrebatados, uma gulodice lhe arrebitava o nariz, cujas narinas róseas palpitavam, enquanto uma chama lhe passava nas faces. Ela continuava a balançar-se, não sabendo fazer mais do que isso. E já não achavam aquilo mau de todo, pelo contrário; os homens assestavam os binóculos. Quando ia terminar a copla, a voz faltou-lhe por completo, e percebeu que não poderia chegar ao fim. Então, sem se inquietar, sa­racoteou as ancas, que desenharam uma forma redonda sob a sua fina túnica, enquanto, de busto dobrado, o pescoço estirado para trás, estendia os braços. Rebentaram aplausos. Imediatamente ela se voltou, tornando a subir, deixando ver a nuca, onde os cabelos ruivos se ordenavam como no velo de um animal; os aplausos tornaram-se furiosos. O final do ato foi mais frio. Vulcano queria esbofetear Vénus. Os deuses estavam em concílio e decidiram proceder a uma sindicância na Terra, antes de atenderem os maridos enganados. Era ali que Diana, surpreendendo as palavras ternas entre Vénus e Marte, jurava não lhes tirar os olhos de cima durante a viagem. Havia também uma cena em que o Amor, representado por uma garota de doze anos, respondia a todas as perguntas: "Sim, mamãe... Não, mamãe...", num tom choramingas, com os dedos no nariz. Depois, Jú­piter, com a severidade de um professor que se enfada, fechava o Amor num quarto escuro, ordenando-lhe que conjugasse vinte vezes o verbo amar. O final agradou imenso, um coro em que a companhia e a orquestra se saíram brilhantemente. Mas descia o pano, e a claque tentou em vão obter uma volta; toda a gente se levantara, dirigindo-se já para as portas.Veja mais aqui.

CASANOVA DE FELLINI – O aventureiro e escritor italiano, Giovani Jacopo Casanova (1725-1798), envolveu-se em inúmeras intrigas e aventuras com jogatina e libertinagens, desde o seu interesse pela carreira eclesiástica, findou expulso do seminário de Veneza. Depois tornou-se secretário de um cardeal, soldado, violinista, viajante, sendo, então, adotado por um rico senador, empenhando-se na busca da pedra filosofal. Com novas viagens finda preso e condenado pela Inquisição por magia, impiedade e maçonaria. Encerrado na prisão dos Piombi, consegue, ao cabo de cinco meses de maquinações, uma espetacular fuga para Paris onde introduziu a loteria e torna-se financista, quando faz grande fortuna até montar uma fábrica de tecidos que lhe arruína. Passa então a viajar por toda Europa, adotando o nome de Chevalier de Seingalt até ser expulso novamente de Veneza, fixando-se no castelo de Dux como conservador da biblioteca, aonde escreve suas famosas memórias. Tornou-se autor de versos, libretos de ópera, trabalho de matemática e filologia. Nas suas memórias ele descreve a vida dissoluta que levou e o mundo que conheceu. Pelo grande número de conquistas amorosas que narra, seu nome tornou-se tão provençal quanto o de Don Juan. Essas memórias foram publicadas em alemão, em 1882. Foi considerado por muito tempo como um autor pornográfico, obtendo reconhecimento posterior de grande escritor, pelo destaque de suas memórias que apresentam um retrato vivo da vida e dos costumes da Europa no sec. XVIII. Em 1976, o cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) realiza o filme contando sua história, com roteiro do próprio diretor e de Bernardino Zapponi, e música de Nino Rota. Veja mais aqui e aqui.


HOMENAGEM DO DIA
RAINHA ZENÓBIA
Imagem: Zenobia in Chains (1859) da escultora estadunidense Harriet Hosmer (1830-1908)

A bela, guerreira e digna Zenóbia (Bat-Zabbai, sec. III), rainha de Palmira que foi derrotada, levada prisioneira para Roma pelo Imperador Aureliano. Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

E mais:
Dalzuíta: o infortúnio da prima da Vera aqui.
Os pipocos da loucura de Robimagaiver aqui, aqui e aqui.
A paixão avassaladora quando ela é a terrina do amor aqui.
Brincarte do Nitolino, O calor das coisas de Nélida Piñon, a poesia de Augusto dos Anjos, a música de Igor Stravinski, a pintura de Joan Miró, o teatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farme, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabús aqui.
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Na avenida Jatiúca, Maceió, O império do efêmero de Gilles Lipovetsky, a História da feiúra de Umberto Eco, o Deserto do real de Slavoj Žižek, Moema, a música de Quinteto Armorial, a poesia de Juareiz Correya, a pintura de Victor Meirelles & Felicien Rops, o cinema de Michael Winterbottom & Anna Louise Friel aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
Mais que tudo o amor, a poesia de Pablo Neruda, o teatro de Antonin Artaud, o pensamento de Pierre Gringore, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, Mariza Lourenço & Luciah Lopez aqui.
Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
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