domingo, maio 31, 2015

CHARB, WHITMAN, DAMRAU, PROSÉRPINA, ALLORI, BERNINI & TEATRO.


Imagem: Venere e Cupido (1570), do pintor histórico e retratista italiano Alessandro Allori – também conhecido como Alessandro Bronzino (1535-1607).


Curtindo Poesie (2011), com a seleção orquestral e operística do compositor e maestro do Romantismo alemão, Richard Strauss (1864-1949), pela soprano dramático alemã Diana Damrau com a Münchner Philharmoniker, liderada por Christian Thielemann.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino antecipando as comemorações de amanhã do Dia Mundial da Criança e aniversário da adoção da Declaração dos Direitos da Criança. Como sempre, o programa será realizado a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação pra lá de simpática de Isis Corrêa Naves. Na programação muitas atrações: Turma da Mônica, Banda Nova Estação Recife, Os Três Lobinhos, Farell Oliveira, Clarice Pacheco, Meimei Corrêa, Larissa Manoela, Sandra Fayad, Bita & Os Animais, Bob Zoom, Danny Pink, Eliana, Leandro & Leonardo & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. Para conferir online e ao vivo clique aqui ou aqui.

O RAPTO DE PROSÉRPINA/PERSÉFONE – Imagem: escultura O rapto de Prosérpina (1621-1522 – Galleria Borghese, Roma), do artista do Barroco italiano, Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) - Na mitologia latina Prosérpina; na mitologia grega Perséfone, a rainha do submundo (também relacionada com a deusa lusita Atégina). A filha de Júpiter e Ceres (Deméter, deusa das colheitas entre os gregos), estava colhendo flores quando foi raptada por Plutão (Hades entre os gregos), que a fez sua esposa, encantado com a sua beleza. Desesperada com o sumiço, sua mãe destruiu todas as plantações, arrando o mundo ao caos e à fome, exigindo que o deus devolvesse sua filha. Como ardil do deus, convencionou-se que a esposa passaria uma parte do ano que compreende o inverno e o outono no submundo, enquanto que na outra metade vai pra companhia da mãe, durante o verão e a primavera. Na data de hoje dá-se a culminância do Festival de Prosérpina entre os romanos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ESTA É A FORMA FÊMEA - O livro Folhas de Relva (Harbra, 2011), do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892), publicado primeiramente em 1855, reunindo apenas dose poemas, tendo sucessivas reedições até a sua edição de leito de morte em 1891-1892, com mais de quatrocentos poemas, sendo, pois, considerado pelo autor que cada edição era um livro próprio e distinto com alteração do conteúdo e da forma. Da obra destaco o poema Esta é a forma fêmea, traduzido por Geir Campos: Esta é a forma fêmea, /dela dos pés à cabeça emana um halo divino, / ela chama com ardente atração irrecusável, / sou absorvido por seu respirar como se não fosse mais / do que um vapor indefeso, tudo fica de lado / a não ser ela e eu, / os livros, a arte, a religião, o tempo, a terra sólida e visível, / e o que do céu se esperava e do inferno se temia, / tudo se acaba, / estranhos filamentos, incontroláveis renovos / aparecem fora dela, / e a ação correspondente também incontrolável, / cabelo, peito, quadris, curvatura de pernas, mãos displicentes / caindo todas difusas, difusas também as minhas, / maré de influxo e influxo de maré, carne de amor inturgescendo / e a doer deliciosamente, / inexauríveis jatos límpidos de amor quentes e enormes, / geléia de amor trêmula, alucinado sopro e sumo delirante, / noite de amor de noivo certa e maciamente laborando / no amanhecer prostrado, / a ondular para o presto e proveitoso dia, / perdida na separação do dia de carne doce e envolvente. / Eis o núcleo - depois vem a criança nascida de mulher, / vem o homem nascido de mulher, / eis o banho de origem, a emergência do pequeno e do grande, / e a saída outra vez. / Não vos vexeis, mulheres: em vosso privilégio tendes fechados / os outros e está a passagem dos outros, / vós sois os portões do corpo e sois os portões da alma. / A fêmea tem todas as qualidades e as tempera, / está no seu lugar e move-se com perfeito equilíbrio, / ela é todas as coisas devidamente veladas, / passiva e ativa ao mesmo tempo, / é para conceber filhas bem como filhos / e filhos bem como filhas. / Assim como eu vejo minha alma refletida na Natureza, / como vejo através de um nevoeiro, Uma de inexprimível / plenitude, sanidade, beleza, / vejo de cabeça baixa e de braços dobrados sobre o peito - / a Fêmea eu vejo. / O macho não é mais nem menos do que a alma, / ele também está no seu lugar, / ele também é todo qualidades, é ação e força, / o fluxo do universo conhecido nele se encontra, / o desdém fica-lhe bem, ficam-lhe bem os apetites e a ousadia, / as mais fundas paixões, o maior entusiasmo / e a tristeza maior, ficam-lhe bem, o orgulho é para ele, / orgulho de homem, elevado ao máximo é calmante / e excelente para a alma, / fica-lhe bem o conhecimento, ele sempre o aprecia, / tudo ele chama à própria experiência, / qualquer que seja o valor, quaisquer que sejam o mar / e o vento, no fim é aqui que ele faz as sondagens. / (Onde mais lança ele a sua sonda, senão aqui?) / Sagrado é o corpo do homem, como é sagrado / o corpo da mulher, / sagrado não importa de quem seja - é o mais humilde numa / turma de trabalhadores? / É um dos imigrantes de face turva apenas desembarcados no cais? / São todos daqui ou de qualquer parte, da mesma forma / Que os bem colocados da mesma forma que vós, / cada um tem na procissão o lugar dele ou dela. / (E tudo uma procissão, o universo é uma procissão de movimento medido e perfeito). Sabeis tanto de vós mesmos para chamardes ignorante / ao mais humilde? / Julgai-vos com direito a uma boa visão, e ele ou ela / Sem direito a visão alguma? / Imaginais que a matéria se fez coesa do caos em que flutuava, / e o solo veio para a superfície, e as águas correm / e brotam as plantas, para vós só, para ele e ela nada? / Em leilão um corpo de homem / (antes da guerra vou amiúde ao mercado de escravos e assisto a venda) / e ajudo ao leiloeiro, o descuidado não sabe o seu negócio / nem pela metade. / Senhores olhem esta maravilha, / quaisquer que sejam os lanços dos lançadores / jamais serão bastante altos para isto, / para isto o globo levou quintilhões de anos em preparos / sem animal ou planta, / para isto os ciclos evolutivos desenrolaram-se de fato / e com firmeza. Esta cabeça o cérebro capaz de tudo, / nela e abaixo dela a argamassa dos herois. / Examinai estas pernas, vermelhas, pretas ou brancas, / trabalhadas em nervos e tendões, / deviam estar abertas para que as pudésseis ver. / Sentidos os mais finos, olhos acesos de vida, energia, vontade, / músculo do peito em flocos, pescoço e espinha flexíveis, / carne não flácida, pernas e braços de justo tamanho, / mais maravilhas lá dentro. / Lá dentro corre o sangue, / mesmo sangue antigo, o mesmo sangue em seu curso vermelho! / Se alguma coisa é sagrada o corpo humano é sagrado, / e a glória e doçura de um ser humano é o dom / da humanidade incorrompida, / e assim no homem como na mulher um corpo limpo, / forte, de boa fibra, é mais bonito do que o mais bonito rosto. / Ali pulsa e bombeia um coração, ali todas as paixões, desejos, / conquistas, aspirações. / (Imaginais que não estão ali, porque não são exibidas / Em parlatórios e salas de aula?) / Isto não é unicamente um homem, é um pai de outros / que a seu turno serão pais, / nele reside o princípio de populosos estados / e faustosas repúblicas, / ele encerra imortais vidas sem conta / com incontáveis encarnações e deleites. / Como sabeis quem surgirá do rebento do seu rebento / atravessando os séculos? (De quem vós mesmos descobriríeis que vindes, se pudésseis / seguir o vosso rastro pelos séculos passados?) / Um corpo de mulher posto em leilão: / ela também não é somente ela, é a pródiga mãe de mães, / é a portadora daqueles que hão de crescer e dar parceiros / para as mães. / Alguma vez amastes o corpo de uma mulher? / Alguma vez amastes o corpo de um homem? / Não percebeis que são exatamente os mesmos para todos / Em todas as épocas e nações em toda a terra? / Vistes o doido que estragou seu próprio corpo em vida? / e a doida que estragou seu próprio corpo em vida? / Pois eles não se escondem, nem a si mesmos / podem esconder. Veja mais aqui e aqui.

EVOLUÇÃO E SENTIDO DO TEATRO – No livro Evolução e sentido do teatro (Zahar, 1964), do educador, professor e crítico de teatro e mitologia Francis Fergusson (1904-1986), destaco o trecho A sensibilidade histriônica: a percepção mimética da ação: [...] Sei que a maior parte da teoria contemporânea – seja de arte ou de conhecimento ou de psicologia – não dá margem ao conceito de ação ou de imitação da ação. Provavelmente é o seu realismo primitivo que é inaceitável, tanto para os que querem reduzir todo o conhecimento a fatos e conceitos abstratos como para os que tentam manter o absolutismo da arte. As objeções dos semânticos à epistemologia de Aristóteles baseada no nous, ou inteligência aperceptiva, não são muito convincentes, mas representam um hábito mental contemporâneo importante e resistente. Aristóteles não é tão desavisado como pensam; o que ele tem, que eles não tem não é a credulidade ingênua, mas o reconhecimento de que percebemos coisas e pessoas antes da doutrinação, como ele diz. A sensibilidade histriônica, a percepção da ação, é uma dessas tomadas de consciências primitivas diretas. As teorias contemporâneas de arte que omitem ou rejeitam o conceito da imitação da ação resultam mais inquietantes do que as teorias pseudocientíficas, devido à compreensão que nos possibilitam da obra real do artista em nosso tempo. Elas nos lembram como é difícil – depois de trezentos anos de racionalismo e idealismo, com os tipos tradicionais de comportamento perdidos ou desacreditados, como torna-se difícil ver qualquer ação que não seja a nossa própria. Eliot, por exemplo, provavelmente o mais realizado poeta vivo, não parece achar a fórmula aristotélica válida ou útil. Sugere então que o proposito do poeta é encontrar equivalentes objetivos para seus sentimentos. A expressão equivalentes objetivos parece enfatizar o famoso classicismo de Eliot. Entretanto, ela não se refere às visões do poeta, mas ao poema que ele está fazendo; e leva a supor que é apenas um sentimento o que o poeta deve transmitir. Assim, a fórmula está mais perto da noção romântica de arte como expressão de sentimento ou paixão, do que da doutrina de imitação. A ênfase no poema e sua forma, até à exclusão do que ele representa, reconhece apenas um dos instintos que Aristóteles considerava as raízes da poesia em geral, o instinto para a harmonia e o ritmo. Talvez essa ênfase na característica diferenciadora da arte – o que a separa de outras percepções de ação – seja necessária para reafirmar a existência da arte. Talvez seja estratégia pobre para um poeta preocupar-se, no momento da composição, com a verdade em qualquer sentido, exceto a verdade para com seus sentimentos. E pode ser que, em nossa época perturbada, o poeta tenha apenas uma inspiração patética; e que se não se agarrar à univocidade da paixão divinatória esteja em perigo de não ter mais nada com que trabalhar. Poesia, diz Aristóteles, como reconhecendo as limitações de sua própria teoria, implica ou um dom feliz da natureza ou um esforço enlouquecedor. No primeiro caso, o homem pode tomar a forma de qualquer personagem; no segundo, se desprende de seu próprio ser. Tais considerações recordam-nos o mistério do ato criador em qualquer arte; recordam-nos nossa dependência dos mestres, e a dependência dele da cultura circundante. Entretanto, a noção do drama como imitação da ação é possível para nós e muito valiosa. De certa forma nós temos realmente percepção direta da vida mutável da psique antes de qualquer doutrinação; antes mesmo de imitá-la por meio de palavras ou sons musicais. Quando percebemos diretamente a ação que o artista pretende, podemos compreender a objetividade de uma visão,s eja como for que ele tenha chegado a ela; e em consequência a própria forma de sua arte. Só assim pode alguém captar as analogias entre representar e escrever para teatro, entre várias formas de drama e entre o drama e outras artes. Veja mais aqui e aqui.

LE MEILLEUR DE LA VIE – A comédia Le Meilleur de la vie (1985), realizado pelo diretor, roteirista e ator francês Reinaud Victor (1946-1991), conta a história de dois amantes que brigam por sua condição econômica: ela rica, alegre, sensível e independente, ele pobre, possessivo, violento e introvertido. Eles se casam, têm um filho e divergem das amizades e do estilo de vida diferente de cada um, tomando a vida deles guinada inesperada. O destaque da película vai para a premiadíssima atriz e diretora francesa Sandrine Bonnaire. Veja mais aqui

IMAGEM DO DIA
Charge do caricaturista, cartunista e jornalista francês Charb – Stéphane Charbonnier (1967-2015), assassinado no massacre do jornal satírico francês Charlie Hebdo, no qual era diretor, extraída do livro Marx, manual de instruções (Boitempo, 2013) do filósofo, professor e dirigente da Quarta Internacional, Daniel Bensaid (1946-2010).

Veja mais no MCLAM: Hoje, logo após o programa Brincarte do Nitolino é dia do Programa Domingo Romântico com a reprise de toda programação da semana, a partir do meio dia, no blog do Projeto MCLAM, com a emocionante apresentação de Meimei Corrêa. Para conferir online clique aqui

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Aprume a conversa aqui.


CANTO A MIM MESMO, DE WALT WHITMAN


Imagem: Walt Whitman Throw Pillow by Robert Lacy

CANTO A MIM MESMO

Walt Whitman

Celebro a mim mesmo, e canto a mim mesmo,
e o que eu assumo deveis assumir,
pois cada átomo que me pertence a vós pertence também.

Folgo e convido minha alma,
deito-me e folgo à vontade vendo uma lança de capim no estio.
Minha língua, cada átomo do meu sangue,
formado deste solo, deste ar,
nascido aqui de pais aqui nascidos de pais semelhantes nisso
e os pais deles também,
eu, agora com trinta e sete anos, começo em plena saúde,
contando não parar até à morte.

Crenças e escolas em potencial,
afastadas um pouquinho que basta para o que são,
embora não esquecidas,
dou guarida ao bem e ao mal,
permito-me falar em qualquer circunstância,
natureza seu confronto com a força original.

Folga comigo na grama, afrouxa o nó da garganta,
nem palavras nem música nem rimas estou querendo, nem
costume nem lição, nem mesmo do melhor,
quero só o acalanto, o murmúrio de tua voz valvar.
Eu creio em ti minha alma, o outro que sou não deve
rebaixar-se a ti, e nem precisas rebaixar-te ao outro.
Penso em como uma vez nos espichamos
deitados certa manhã de verão transparente,
como forçaste a cabeça nos meus quadris
e gentilmente te viraste sobre mim
e me rasgaste a camisa no osso do peito
e enfiaste a língua em meu coração nu
e foste assim até sentir-me a barba
e foste assim até sentir-me os pés.

Docemente cresceu e em torno a mim se espalhou a paz
E conhecimento além de todo argumento da terra,
e eu sei que a mão de Deus é a promessa da minha,
e sei que o espírito de Deus é o irmão do meu
e que todos os homens já nascidos também são meus irmãos,
e as mulheres irmãs e amantes minhas,
e que um reforço da criação é o amor,
e ilimitadas são as folhas secas ou caindo nos campos,
e acastanhadas formigas n0s buraquinhos por baixo delas,
placas de limo na cerca bichada, pilhas de pedras,
flores silvestres, musgo e espinheiro.

Alguém terá julgado uma sorte ter nascido?
Apresso-me a informar a ele ou ela que sorte igual é morrer,
e isto sei eu.
Eu passo a morte com os que estão morrendo
e o nascimento com os bebês recém-lavados,
e não me sinto contido entre o chapéu e os sapatos,
e manuseio objetos de diversas formas,
nem dois iguais e cada qual melhor,
a terra boa e boas as estrelas, bom tudo o que vai por elas.

Não sou uma terra nem função de terra alguma,
sou o colega e companheiro de pessoas,
todas elas tão imortais e inesgotáveis como eu próprio
(não sabem quão imortais, mas eu sei).

Cada espécie por si e para si mesma,
para mim macho e fêmea,
para mim os que já foram meninos e amam mulheres,
a mim o homem que tem seu orgulho e sabe como doi
ser desconsiderado,
a mim a namorada e a virgem velha,
as mães e as mães de mães,
a mim os lábios que já deram riso,
olhos que já deram lágrima,
a mim crianças e criadores de crianças.
Descubram-se!  Não são culpados, para mim,
nem maus Nem postos à margem,
vejo através da roupa de lã ou de algodão se sim ou não,
e fico em volta, pertinaz, aquisitivo, infatigável,
e não posso ser mandado embora.
Vinte e oito moços tomando banho na praia,
vinte e oito moços e todos tão amigáveis;
vinte e oito anos de uma vida de mulher e todos tão solitários.
E dona da linda casa na subida do barranco,
ela se esconde simpática e bem vestida
por detrás das bandeiras da janela.

Qual o moço de que ela gosta mais?
Ah o mais caseiro de todos para ela é o mais bonito.
Para onde ides saindo, minha senhora?
Pois eu vos estou vendo, mergulhais naquelas águas,
apesar de parada feito um pau em vosso quarto.

Dançando e rindo na linha da praia vem o banhista
vigésimo-nono, os demais não a entreviram
mas ela os viu e adorou.

As barbas dos homens moços brilhavam de gotas d'água,
caindo-lhes dos compridos cabelos,
pequenos fios d'água lhe escorriam pelo corpo todo.
Uma invisível mão também passava pelos corpos deles,
descendo trêmula das frontes e quadris.
Os moços nadam de costas, claras barrigas ao sol, sem
indagarem quem estende a mão para eles,
eles não sabem quem enche o peito
e desiste de sobrancelhas curvadas e vacilantes,
nem lhes ocorre que estejam salvando alguém
com a água que respingam.

Estes são realmente os pensamentos de todos os homens
Em qualquer tempo e lugar, não são originais meus,
se eles não são tão vossos quanto meus
não querem dizer nada, ou quase nada,
se não forem a pergunta e a solução da pergunta,
não significa nada,
se não se põem tão perto quanto distantes parecem,
não valem nada.

Esta é a relva que cresce onde quer que haja terra e haja água,
este é o ar comum que banha o globo.
Com música forte eu venho,
com minhas cornetas e meus tambores,
não toco marchas só para os vencedores consagrados,
toco marchas também para pessoas batidas e conquistadas.
Já não ouviste dizer que era bom ganhar o dia?
Eu digo que perder também é bom, batalhas são perdidas
com o mesmo espírito com que são ganhas.

Rufo e bato pelos mortos,
sopro nas minhas embocaduras o que de mais alto
e de mais alegre posso por eles.
Vivas àqueles que fracassaram!
E àqueles cujos navios de guerra afundaram no mar!
E àqueles que em pessoa afundaram no mar!
E a todos os generais que perderam nas manobras e foram
todos heróis!
E ao sem número dos heróis desconhecidos
equivalentes aos heróis maiores que se conhecem!

Quem é que vai por aí - inquieto, tosco, místico, nu?
Como é que eu extraio força da carne que como?
Que é um homem, afinal?  Que sou eu?  Que sois vós?
Tudo que aponto de meu podeis tomar como vosso,
não sendo o tempo perdido a escutar-me.
Não choro aquilo que o mundo chora demais,
que os meses sejam de vazio e o chão de lama e podridão.
Gemendo e se acovardando cheio de pó para inválidos,
o conformismo fica bem para os de quarto grau;
eu ponho como quero o meu chapéu, portas adentro ou fora.
Por que haveria eu de rezar?
Por que haveria de exibir respeito e fazer cerimônias?
Tendo inquirido até os estratos, analisado até um fio de cabelo,
consultado doutores e calculado de acordo,
eu não encontro substância mais doce do que a ligada
com meus próprios ossos.

Em toda pessoa eu vejo a mim mesmo,
nem mais nem menos um grão de cevada,
e o bem ou mal que digo de mim mesmo eu digo deles.
Sei que sou sólido e são,
para mim convergindo fluem perpetuamente coisas do universo,
todas estão escritas para mim e tenho de saber
o que a escrita significa.

Sei que não tenho morte,
sei que esta minha órbita não pode ser riscada
por um compasso de carpintaria,
sei que não hei de passar assim como verruga de criança
tirada à noite com alfinete queimado.
Eu sei que sou soberbo,
não perturbo meu espírito para mostrar seu valor
ou para ser entendido,
vejo que as leis elementares nunca apresentam desculpas.
(Eu reconheço que, afinal de contas, não procedo com orgulho
além da altura a que ergo minha casa.)
Existo como sou, isso é bastante;
se nenhum outro no mundo toma conhecimento,
eu me sento contente,
e se cada um e todos tomam conhecimento,
eu me sento contente.

Há um mundo que toma conhecimento e que é de longe o
maior para mim - o mundo de mim mesmo;
se a mim mesmo eu chegar hoje, ou daqui a dez mil ou a dez
milhões de anos,
posso alcançá-la agora bem disposto
ou com igual disposição posso esperar.
O lugar para meus pés está lavrado e ajustado em granito;
eu me rio do que chamais dissolução,
conheço bem a amplitude do tempo.
Eu sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
as delícias do céu estão em mim
e os horrores do inferno estão em mim,
o primeiro eu enxerto e amplio em meu redor,
o segundo eu traduzo em nova língua.

Eu sou o poeta da mulher assim como do homem,
e digo que tanta grandeza existe no ser mulher
como no ser homem,
e digo que não há nada maior do que a mãe de homens.
Canto o cântico da expansão e orgulho,
já tivemos esquivanças e críticas suficientes,
eu demonstro que tamanho é apenas evolução.
Já ultrapassastes os outros?  Sois acaso o Presidente?
Que ninharia: farão mais do que chegar
e ainda passarão à frente.

Eu sou aquele que vai com a noite tenra e crescente,
invoco a terra e o mar meio tomados pela noite.
Aperta mais, noite de peito nu!
Aperta mais, noite nutriz magnética!
Noite dos ventos do sul - noite das poucas estrelas grandes!
Noite ainda a se curvar - alucinada noite nua de verão.
Sorri, ó terra voluptuosa de hálito frio!
Terra das árvores dormentes e líquidas!
Terra do pôr-de-sol longe - terra dos montes cobertos de névoa!
Terra do vítreo gotejar da lua cheia apenas tinta de azul!
Terra do brilho e do sombrio encontro nas enchentes do rio!
Terra do límpido cinza das nuvens mais brilhantes e claras
Por meu gosto!
Terra dos grandes lances encontrada - rica terra
de peito de maçã!
Sorri, pois vem chegando teu amante.
Pródiga, amor me tens dado - portanto eu te dou amor!
Oh indizível apaixonado amor.
Interminável desdobrar das palavras dos tempos!
Por mim uma palavra bem moderna - a palavra Massa.
Uma palavra da fé que nunca se altera,
aqui ou daqui em diante é sempre a mesma,
entendo o Tempo em termos absolutos.

Ela é a única sem mancha, envolve e completa tudo,
a surpreendente maravilha mística sozinha completa tudo.
Aceito a Realidade e não ouso interrogá-la,
impregnação de materialismo do princípio ao fim.
Viva a ciência positiva!  Viva a experiência exata!
Tomai a planta da pedra junto com cedro e ramos de lilás,
aqui está o lexicógrafo, aqui o químico, aqui o que fez
uma gramática de velhos pergaminhos,
aqui marujos que levaram seu navio por mares perigosos
e ignorados, aqui o geólogo, aqui o que maneja o bisturi,
e aqui um matemático.

Cavalheiros, são sempre para vós as honras iniciais!
Vossos feitos são úteis, e, embora eles não me digam respeito,
apenas entro para perto deles sem sair da área
que me diz respeito.
Menos os que recordam propriedades
contaram palavras minhas,
e mais os que recordam a vida não-expressa, a liberdade
e o extravasamento,
e pouco levam em conta os neutros e as castrações,
e favorecem homens e mulheres inteiramente equipados,
e fazem ressoar o gongo da revolta, e fazem ponto
com os fugitivos e os que tramam e conspiram.

Ser de uma forma - que é isso?
(Giramos e giramos, todos nós, e estamos sempre de volta.)
Se nada houvesse mais evoluído,
a ostra em sua calosa concha deveria bastar.
Não sou de concha calosa,
tenho instantâneos condutores por mim todo,
esteja andando ou parado,
aprendem cada objeto e o levam sem dano através de mim.
Eu simplesmente me animo, tateio, sinto com os dedos,
e sou feliz, tocar com minha pessoa a de outrem
é quase tanto quanto eu posso resistir.

Estão todas as verdades à espera em todas as coisas,
nem apressam o próprio nascimento nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps obstetrício do cirurgião,
e o insignificante é para mim tão grande como tudo
(o que é menos ou mais do que um contacto).
Sermões e lógicas jamais convencem,
o peso da noite cala muito mais profundo em minha alma.
(Só o que se prova a qualquer homem ou mulher, é que é;
só o que ninguém nega, é que é.)
Um minuto e uma gota de mim me resolvem o cérebro,
eu acredito que torrões de barro
podem tornar-se em amantes e lâmpadas,
e um compêndio de compêndios é a carne
que alimenta um homem ou mulher,
e num ápice ou flor lá está o sentimento de um pelo outro
e devem ramificar-se além das fronteiras dessa lição
até que isso passe a todos
e até que um e, todos nos possam deleitar, e nós a eles.

Agora eu conto o que aprendi no Texas em minha juventude
(não contarei a tomada de Alamo,
não escapou ninguém para contar a tomada de Alamo,
aqueles cento e cinquenta ainda estão mudos em Alamo):
esta é a história do assassínio a sangue frio
de quatrocentos e vinte homens moços.

Em retirada tomaram a formação de um quadrado vazio, com
as bagagens como parapeitos,
nove centos de vidas do inimigo que agora os sitiava,
nove vezes o que tinham em número,
foi o preço que cobraram adiantado,
o coronel deles fora ferido e a munição terminara,
negociaram capitulação honrosa, receberam papel lacrado
e escrito, depuseram as armas e marcharam
prisioneiros de guerra.

Eram a glória da raça dos rangers,
sem rivais em montaria, rifle, canção, repasto, galanteio,
enormes, turbulentos, generosos, orgulhosos e amáveis,
barbudos, peles tostadas de sol, trajados
à maneira livre dos caçadores,
nenhum deles passava dos trinta anos de idade.
No segundo domingo de manhã foram tirados em grupos e
massacrados, era uma linda manhã de verão,
a faina começou por volta das cinco e meia e às oito havia
acabado.

Nenhum deles acatou a ordem de ajoelhar,
alguns tentaram correr doida e inutilmente, alguns ficaram
duros em pé firmes,
alguns poucos tombaram de uma vez, com tiros na fronte
ou no coração, vivos e mortos estirados juntos,
os mutilados e desfeitos cavacando o chão,
os recém-vindos viam-nos ali,
uns meio mortos tentavam sair de rastos,
esses eram despachados a baionetas ou esmagados a coronhas
de espingardas,
um jovem com não mais de dezessete anos agarrou seu algoz
até dois outros virem afrouxá-lo,
e ficaram os três todos rasgados e cobertos de sangue do rapaz.
Às onze horas começou a queimada dos corpos.
É essa a história do assassinato dos quatrocentos e vinte
homens moços.

É tempo de eu me explicar - vamos ficar de pé.
o que é conhecido eu deixo,
chamo todos os homens e mulheres para a frente comigo
pelo Desconhecido.
O relógio indica a hora - mas o que é que indica a eternidade?
Assim temos esgotado trilhões de verões e invernos,
existem trilhões à frente, e trilhões à frente deles.
Berços trouxeram-nos riqueza e variedade,
mais berços hão de trazer-nos riqueza e variedade.
Não digo que um é maior e um é menor,
o que preenche bem seu tempo e seu lugar
é igual a qualquer outro.

Ter-se-á mostrado a espécie humana ciumenta ou assassina
para contigo, irmão meu, minha irmã?
Por ti lamento, não se mostram assassinos ou ciumentos a mim,
todos têm sido cordiais para comigo,
não faço conta de lamentações.
(Que iria eu fazer com lamentações?)
Eu sou um vértice de coisas feitas, um cercado de coisas
Por fazer.
Meus pés batem num topo do topo das escadas,
feixes de idades em cada degrau,
e feixes maiores entre os degraus,
tudo de baixo devidamente galgado, e eu subo e subo ainda.
Aurora após aurora atrás de mim os fantasmas se curvam,
em baixo longe eu vejo o grande Nada inicial,
sei que estive lá mesmo,
eu aguardava sem ser visto e sempre,
e entre a bruma letárgica eu dormia,
e aproveitei meu tempo,
e nenhum mal me fez o fétido carbono.
Por longo tempo eu estive enrolado - longo mais longo.
Imensas haviam sido as preparações de mim,
confiantes e amistosos os braços que me ajudaram.
Ciclos fizeram navegar meu berço, remando e remando sempre
como alegres barqueiros,
para me darem lugar estrelas desviaram-se das órbitas,
mandaram influências espiar o que haveria de ficar comigo.
Antes de sair eu do ventre de minha mãe,
gerações me orientaram,
meu embrião jamais esteve entorpecido,
coisa nenhuma podia cobri-lo.

Para isso a nebulosa sustentava-se em órbita,
os longos estratos lentos amontoavam-se para aninhá-la,
plantas enormes davam-lhe sustento,
sáurios monstruosos o transportavam na boca
e o pousavam com cuidado.
Tôdas as forças foram prontamente usadas
para me completarem e para me deleitarem,
agora neste ponto eu me levanto com minha alma robusta.
Tenho dito que a alma não é mais do que o corpo,
e tenho dito que o corpo não é mais do que a alma,
e que nada, nem Deus, para ninguém é maior
do que a própria pessoa,
e quem anda duzentas jardas sem vontade anda fazendo o
próprio funeral vestido em sua mortalha,
e eu como vós sem um tostão no bolso posso comprar o que
o mundo tem de melhor,
e dar uma vista de olho ou mostrar uma vagem no seu galho
confunde o aprendizado de todos os tempos,
e que não há profissão ou emprego que o homem moço
seguindo não seja herói,
e que não há coisa alguma tão mole
que não sirva de cubo às rodas do universo,
e digo a qualquer homem ou mulher:
- Deixai que vossas almas se levantem tranquilas e bem postas ante um milhão de universos.
E digo à humanidade:
- Não sejas curiosa sobre Deus,
pois eu que sou curioso sobre todas as coisas de Deus
não sou curioso.
(Não há palavras que logrem dizer quanto me sinto em paz
perante Deus e a morte.)
Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora não entenda
Deus nem um pouquinho,
assim como não entendo que possa alguém ser mais maravilhoso
do que eu.
Por que deveria eu querer ver Deus melhor do que neste dia?
Eu vejo algo de Deus a cada uma das vinte e quatro horas,
e a cada momento delas,
nos rostos dos homens e das mulheres eu vejo Deus, e no meu
próprio rosto pelo espelho,
acho cartas de Deus caídas pela rua e todas assinadas
com o nome de Deus,
e as deixo onde elas estão, pois sei que aonde quer que eu
outras hão de chegar pontualmente sempre e por todo o sempre.

O malhado gavião cai sobre mim e me acusa, sente-se mal
com a minha conversa e o meu andar à toa.
Também não sou nem um pouquinho acomodado,
e também sou difícil de entender,
faço soar meu bárbaro dialeto sobre os telhados do mundo.
o último passo do dia demora por minha causa,
puxa a imagem de mim depois que para e é fiel como todas
nas sombras desfiguradas,
vai-me levando para o vapor e a treva.
Eu parto que nem ar, sacudo os cabelos brancos
ao sol que está indo embora,
derramo minha carne em remoinhos e a deixo flutuando
em pontas rendilhadas.
Eu me planto no chão para crescer com a relva que eu amo,
se de novo me quiserdes buscai-me embaixo das solas dos
vossos sapatos.

Dificilmente sabereis quem sou ou o que significo,
mas apesar de tudo para vós serei boa saúde
purificando e dando fibra ao vosso sangue.
Deixando de encontrar-me ao primeiro momento,
conservai a coragem:
perdendo-me em um lugar, ide procurar-me em outro;
em algum ponto eu hei de estar parado a esperar por vós.

WALT WHITMAN – O livro Folhas de Relva (Harbra, 2011 – tradução de Geir Campos), do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892), publicado primeiramente em 1855, reunindo apenas dose poemas, tendo sucessivas reedições até a sua edição de leito de morte em 1891-1892, com mais de quatrocentos poemas, sendo, pois, considerado pelo autor que cada edição era um livro próprio e distinto com alteração do conteúdo e da forma.


Veja mais aqui.