segunda-feira, junho 29, 2015

ÉSQUILO, WILBER, VIEIRA, VILLA-LOBOS, HENRIQUETA, KIAROSTAMI, RUBENS, BINOCHE, EKATERINA & TOTH.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – A CULPA É DA DILMA - Lembro muito bem quando a atriz Berta Loran entrava em cena e a qualquer pergunta feita, ela respondia: - A culpa é do governo! E era mesmo. Pudera, a gente vivia uma ditadura braba, pega pra capar do estopô calango, neguinho (não só afrodescendente, mas mulato, cafuzo, branco, pardo, tudo) preso e desaparecido num piscar de olhos, e bastava qualquer sujeito biltre discordar de qualquer autoridade de carteirada, não dava outra: o Exército invadia de madrugada e pegava o cabra de pijama pelos fundilhos e dava destino certo pra tirar as medidas com missa garantida sete dias depois. Qualquer que fosse a petulância na reclamação de um direitozinho mínimo que fosse, oxe, o cara era taxado de comunista, subversivo e a chaga do cão sarnento! E não dava outra: ou desaparecia de nunca mais se ter notícia pela audácia da pilombeta, ou restava encardido por anos condenado no porão duma cadeia infecta e tão esquecido do quadro cair da parede pro resto da vida! E hoje? Tem quem ache que tá pior que isso, avalie. Na verdade, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988 – que o grande mestre Roberto DaMatta diz que foi feita pros franceses - e foi mesmo, afinal, ainda hoje tem uma tuia de gente que num sabe dum direito sequer -, que como sempre foi, só se aprende de goela adentro ou no reino da bofetada. Hoje a gente pode dizer que tudo é culpa da Dilma mesmo! Afinal foi ela que inaugurou o Fecamepa engalobando Cabral numa mutreta das grandes de chavecar os portugas pra invadir o Brasil em 1500 e ela ganhar uma comissão preta pra guardar nos bolsos; foi ela que recepcionou esses mesmo perós e ensinou a eles a afanar a Coroa lusitana, traficando 90% do que se explorava aqui e só mandando um restinho de quase 10% pra Corte; foi ela que roubou o ouro das Minas e de Serra Pelada pra usufruir quando sair dos 8 anos de governo; foi ela que numa tramoia cabeluda, reuniu igreja e maçonaria para induzir Pedro I para independência, ganhando propina das grandes no pagamento escuso pra Inglaterra; foi ela que deu uma lavagem cerebral nos positivistas e no Marechal Deodoro pra pisar a República de qualquer jeito; foi ela que trouxe a Carta del Lavoro pra ensinar Getúlio Vargas a ser o pai dos pobres; foi ela que num papel duplo se passando de esquerdista, manobrou um pool que fez com que a bronca da Petrobrás virasse golpe em 1964 – não bastando ela ficar virando a casaca, dedando todo mundo pros milicos e se passando de heroína pra botar os terroristas das esquerdas pra se escafeder; foi ela que fez o arrumadinho pra derrubar as Diretas Já e eleger Tancredo que não assumiria e, num golpe de mestre e de grandiosíssima eminência parda ensinar Sarney a como perder a caneta na assinatura dos decretos; foi ambiguamente contra o Real e ensinou FHC a privatizar, flexibilizar e terceirizar tudo; foi com um manto angelical pra se esconder da sua bruxaria que se tornou testa de ferro no governo Lula, pra findar Presidente! Enfim, digo mais: é dela a culpa da seca no Nordeste; do tornado no Sul, da chuva que cai alagando e inviabilizando São Paulo e todo país; de mandar na CBF, de ficar feliz com o fim do mundo que foi a lapada de 7 dos alemães, escalar Dunga e se lascar na Copa América; tudo isso e muito mais é culpa dela. Por isso, aí está legitimidade de se propor o seu impeachment! Agora ou nunca! Enquanto todo mundo cai de pau nisso tudo, parafraseando Xico Sá, eu digo que a coisa tá ruim mesmo e desde que nasci que ouço que a coisa tá ruim, cresci ouvindo de crise disso e daquilo e que tudo tava ruim pra burro, pra cachorro, pro diabo a quatro, e hoje não tá diferente. Descobri que a culpa é da Dilma: foi ela que estava aqui antes de eu nascer. A culpa é dela mesmo! Então vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: O Julgamento de Páris (1630), do pintor do Barroco flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640). Veja mais aqui e aqui.

Curtindo Floresta do Amazonas (1958 - Actus Classics Works, 1993), do compositor e maestro brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), com a soprano: María Luisa Tamez e direção do maestro, violinista e compositor mexicano Enrique Arturo Diemecke & Orquesta Sinfónica Nacional de México. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O PROJETO ATMAN – O livro O projeto Atman: uma visão transpessoal do desenvolvimento humano (Kairós, 1988), do filósofo e pensador norte-americano Ken Wilber, o criador da Psicologia Integral e do Movimento Integral, que concentra as ideias básicas da integração de todas as áreas do conhecimento, trata acerca do desenvolvimento da evolução como transcendência com o objetivo de alcançar Atman, que é a Consciência de Unidade Essencial é só Deus. O autor considera que todos os impulsos servem a este Impulso, todos os desejos dependem deste Desejo e todas as forças subordinadas a esta Força. E é a este movimento, em seu conjunto, que o autor denomina de projeto Atman, o impulso de Deus para Deus, de Buda para Buda, de Brahman para Brahman, impulso esse originado no psiquismo humano e cujos resultados vão do enlevado até o catastrófico. Da obra destaco o trecho: Olhemos para onde olhemos - disse o filósofo Jan Smuts - só veremos totalidades. E não só simples totalidades, mas também totalidades hierárquicas; cada totalidade forma parte de uma totalidade maior que, por sua vez, está contida dentro de outra totalidade ainda mais inclusiva. Campos dentro de campos que se acham dentro de outros campos, campos que se estendem ao longo de todo o cosmos inter-relacionando assim todas e cada uma das coisas. Mas além disso - prosseguia Smuts - o universo não é um conjunto estático e inerte –o cosmos não é preguiçoso – e sim ativamente dinâmico e inclusive, diríamos, criativo. O cosmos tende teleonomicamente (hoje em dia não diríamos teleologicamente) para níveis de totalidade cada vez mais elevados, totalidades cada vez mais inclusivas e organizadas. O desenvolvimento deste processo cósmico global no tempo não é outro que a evolução e ao impulso que conduz a unidades cada vez mais elevadas Smuts o denominou holismo. Seguindo com esta linha de pensamento poderíamos supor que, dado que a mente ou o psiquismo humano é um aspecto do cosmos, é possível descobrir nela a mesma disposição hierárquica de totalidades dentro de totalidades, de conjuntos dentro de conjuntos, abrangendo uma ampla fila que vai dos mais simples e rudimentares até os mais complexos e inclusivos. E isto é, precisamente, o que descobriu, em geral, a psicologia moderna. Nas palavras de Werner, “qualquer desenvolvimento tem lugar desde um estado de relativa globalidade e indiferenciação a outro de diferenciação, articulação e integração hierarquicamente superior”. Jakobson, por sua vez, fala “desses fenômenos estratificados que a moderna psicologia descobre no reino da mente”, nos quais cada novo estrato está mais integrado e é mais inclusivo que o anterior. Bateson chega inclusive a apontar que até a mesma aprendizagem é hierárquica e que discorre através de uma série de níveis principais, cada um dos quais é «meta» com respeito a seu predecessor. Poderíamos concluir, pois, como aproximação geral, que o psiquismo – igual ao cosmos - está multiestratificado (é «pluridimensional») e está composto de totalidades, unidades e integrações sucessivamente supraordenadas. No psiquismo humano, a evolução holística da natureza -que produz em qualquer parte totalidades cada vez mais inclusivas- manifesta-se como desenvolvimento ou crescimento. Deste modo, o mesmo impulso que deu lugar aos seres humanos a partir das amebas é o que termina convertendo o menino em adulto. Quer dizer, o crescimento ou o desenvolvimento psicológico de uma pessoa da infância até a maturidade é simplesmente uma versão em miniatura da evolução cósmica ou, dito de outro modo, um reflexo microscópico do desenvolvimento global do universo e que aponta para seu mesmo objetivo, o desdobramento de unidades e integrações de ordem superior. E esta é uma das razões principais pelas quais o psiquismo está, em realidade, estratificado. Do mesmo modo que ocorre com as formações geológicas, o desenvolvimento psicológico avança estrato a estrato, nível a nível, estágio a estágio, e o novo nível se sobrepõe sobre o anterior até chegar a incluí-lo (ou, como diria Werner, “envolvê-lo”) e transcendê-lo. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

SERMÃO DO BOM LADRÃO – O livro O sermão do bom ladrão (1655) do escritor, religioso, filósofo e orador português da Companhia de Jesus, Padre Antônio Vieira (1608-1697), foi proferido na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), perante a corte de D. João VI, atacando e criticando aqueles que se valiam da máquina pública para enriquecimento ilícito e denunciando escândalos no governo, riquezas e venalidades de gestão fraudulentas. Indignado com a desproporcionalidade das punições, ele adverte quanto ao pecado da corrupção passiva e ativa, além da cumplicidade do silêncio permissivo, numa crítica ao comportamento imoral da nobreza. Da obra destaco o trecho: [...] Levarem os reis consigo ao Paraíso ladrões não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno. E se isto é assim, como logo mostrarei com evidência, ninguém me pode estranhar a clareza ou publicidade com que falo e falarei, em matéria que envolve tão soberanos respeitos, antes admirar o silêncio, e condenar a desatenção com que os pregadores dissimulam uma tão necessária doutrina, sendo a que devera ser mais ouvida e declamada nos púlpitos. Seja, pois, novo hoje o assunto, que devera ser muito antigo e mui frequente, o qual eu prosseguirei tanto com maior esperança de produzir algum fruto, quanto vejo enobrecido o auditório presente com a autoridade de tantos ministros de todos os maiores tribunais, sobre cujo conselho e consciência se costumam descarregar as dos reis. [...] Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam. O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só. [...] Veja mais aqui e aqui.

LÁBIOS QUE NÃO SE ABREM & AMARGURA DE MULHER – No livro Poesia Geral (1985), da poeta brasileira Henriqueta Lisboa (1901-1985), destaco, inicialmente o seu poema Amargura: Eu chegarei depois de tudo, / mortas as horas derradeiras, / quando alvejar na treva o mudo / riso de escárnio das caveiras. / Eu chegarei a passo lento, / exausta da estranha jornada, / neste invicto pressentimento / de que tudo equivale a nada. / Um dia, um dia, chegam todos, / de olhos profundos e expectantes. / E sob a chuva dos apodos / há mais infelizes do que antes. / As luzes todas se apagaram, / voam negras aves em bando. / Tenho pena dos que chegaram / e a estas horas estão chorando... / Eu chegarei por certo um dia... / assim, tão desesperançada, / que mais acertado seria / ficar em meio à caminhada. Também merece destaque o seu poema Modelagem/Mulher: Assim foi modelado o objeto: / para subserviência. / Tem olhos de ver e apenas / entrevê. Não vai longe / seu pensamento cortado / ao meio pela ferrugem / das tesouras. É um mito / sem asas, condicionado / às fainas da lareira / Seria uma cântaro de barro afeito / a movimentos incipientes / sob tutela. / Ergue a cabeça por instantes / e logo esmorece por força / de séculos pendentes. / Ao remover entulhos / leva espinhos na carne. / Será talvez escasso um milênio / para que de justiça / tenha vida integral. / Pois o modelo deve ser / indefectível segundo / as leis da própria modelagem. Por fim o seu lírico poema Lábios que não se abrem, lábios: Lábios que não se abrem, lábios / com seu segredo / calado / Segredo no ermo da noite / resiste à rosa dos ventos / alado. / Flauta sem a vibração / do sopro. / Luar e espelho, frente a frente, / em calada / vigília. / Fria espada unida / ao corpo. / Resto de lágrimas sobre / lábios / calados. / Borboleta da morte / em sorvo / pousada à flor dos lábios / calados / calados. Veja mais aqui.

PROMETEU ACORRENTADO – A tragédia grega Prometeu Acorrentado (452aC), faz parte da trilogia do dramaturgo e poeta trágico Ésquilo (525-466aC), trata da condição humana e da criação da cultura por meio do mito antigo em que Zeus, o maior dos deuses, decide acorrentar um ex-aliado: Prometeu, acusado de muitos crimes, um deles fora roubar dos deuses e dar ao homem o fogo. Porém, Prometeu guarda um grande segredo que bravata o poder de Zeus. Como insiste em não revelar, é condenado a um castigo muito mais bárbaro. Na mitologia, Prometeu era filho de Jápeto e de Ásia, irmão de Atlas, Epimeteu e Menoécio, e se tornou o progenitor de Deucalião. Muito amigo de Zeus, o ardiloso Prometeu ajudou o deus supremo a driblar a fúria de seu pai Cronos, o qual foi destronado pelo filho. O dom da imortalidade não o impediu de se aproximar demais do Homem, concedendo a este o poder de pensar e raciocinar, bem como lhes transmitiu os mais variados ofícios e aptidões. Mas esta preferência de Prometeu pela companhia dos homens deixou o enciumado Zeus colérico. A raiva desta divindade cresceu cada vez mais quando ele descobriu que seu pretenso amigo o estava traindo. Ao se dar conta de que estava sendo ludibriado, Zeus se enfurece e subtrai da raça humana o domínio do fogo. É quando Prometeu, mais uma vez desejando favorecer a Humanidade, rouba o fogo do Olimpo, pregando uma peça nos poderosos deuses. Zeus decidiu punir Prometeu, decretando ao ferreiro Hefesto que o prendesse em correntes junto ao alto do monte Cáucaso, durante 30 mil anos, durante os quais ele seria diariamente bicado por uma águia, a qual lhe destruiria o fígado. Como Prometeu era imortal, seu órgão se regenerava constantemente, e o ciclo destrutivo se reiniciava a cada dia. Isto durou até que o herói Hércules o libertou, substituindo-o no cativeiro pelo centauro Quíron, igualmente imortal. Zeus havia determinado que só a troca de Prometeu por outro ser eterno poderia lhe restituir a liberdade. Como Quíron havia sido atingido por uma flecha, e seu ferimento não tinha cura, ele estava condenado a sofrer eternamente dores lancinantes. Assim, substituindo Prometeu, Zeus lhe permitiu se tornar mortal e perecer serenamente. Da obra destaco o trecho: [...] PROMETEU - Dia virá em que Zeus se há de humilhar, a despeito de toda a arrogância de seu coração, por efeito das bodas que se apresta para celebrar. Essa união o derrubará, aniquilado, do poder e do trono. Então estará cumprida plenamente a praga rogada por Crono, seu pai, ao cair do trono secular. Nenhum deus senão eu poderia ensinar-lhe de modo claro como arredar de si tamanha desdita. Eu sei qual é e como conjurá-la. Assim, pois, pode ele entronar-se seguro de si, fiado nos estrondos que troam nas alturas quando brande nas mãos o dardo chamejante. Eles não lhe valerão nada para evitar a vergonha duma queda insuportável, tão potente é o adversário que ele agora para si mesmo apresta, um portento invencível, que inventará fogo mais forte que o raio e estrondo formidável maior que o trovão, e despedaçará o tridente, a lança de Posidão, flagelo marinho que abala a terra. Quando ele der de encontro com essa desgraça, conhecerá quanto vai de reinar e servir. CORO - Vamos lá! Tuas ameaças a Zeus não são mais do que desejos teus. PROMETEU - Predigo o que será e é também o meu desejo. CORO - Devemos esperar que alguém dê ordens a Zeus? PROMETEU - Sim, e que sofra penas mais pesadas que estas. CORO - Como ousas proferir semelhantes palavras? PROMETEU - Nada tenho que temer; não estou fadado à morte. CORO - Mas ele pode infligir-te suplício ainda mais doloroso que este. PROMETEU - Pois que o faça; nada me pode surpreender. CORO - Sábio quem se prosterna diante da Adrastéia. PROMETEU - Venera, implora, bajula tu o poderoso do dia. A mim me importa Zeus menos que nada. Que se avie, que exerça como quiser o seu poder de curta duração, pois não reinará sobre os deuses longo tempo. Eis à vista, porém, o correio de Zeus, o serviçal do novo tirano; por certo, vem comunicar-nos alguma novidade. HERMES - (entrando) Tu aí, velhaco, o mais intratável dos intratáveis, que lograste os deuses pondo os seus privilégios ao alcance dos seres efêmeros – estou me referindo ao ladrão do fogo – meu pai ordena que reveles qual casamento, segundo alardeias, o derrubará do poder. E nada de enigmas; fala ponto por ponto pelos termos próprios. Não me vás obrigar a uma segunda viagem, Prometeu; não é com rodeios, bem vês, que hás de aplacar Zeus. PROMETEU - Essa fala impertinente, cheia de soberba, é bem a linguagem dum lacaio dos deuses. Vós sois moços; recente, o poder que exerceis; imaginais, por isso, viver numa torre acima dos sofrimentos; já não vi eu dois reis expulsos dela? O terceiro, o atual reinante, eu o verei também cair de maneira ignominiosa e rápida. Pensas que temos os novos deuses e me encolho diante deles? Para isso falta muito; melhor, falta tudo. Desanda ligeiro o caminho por onde vieste, que de mim nada saberás do que indagas. HERMES - Semelhantes insolências já te trouxeram a ancorar neste suplício. PROMETEU - Pois saibas sem sombra de dúvida que eu não trocaria minhas misérias pela tua servidão; acho preferível estar escravizado a este penhasco a ser o mensageiro fiel de Zeus teu pai. A injúrias responde-se assim, com injúrias. HERMES - Pareces orgulhoso da tua situação. PROMETEU - Orgulhoso? Orgulhosos assim tomara visse eu os meus inimigos – e incluo-te nesta conta. HERMES - Culpas a mim também de teus desastres? PROMETEU - Francamente, odeio todos os deuses; devem-me favores e pagam-me com iniquidade. HERMES - Ouço palavras de louco, e a moléstia é grave. PROMETEU - Moléstia será, se odiar os inimigos for insânia. HERMES - Serias insuportável, se houvesses triunfado. PROMETEU - Ai de mim! [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

COPIE CONFORME – O filme Copie conforme (Cópia fiel, 2010), do premiadíssimo cineasta, poeta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano Abbas Kiarostami, conta a história do encontro entre um autor britânico que acabou de fazer o lançamento do seu livro, e uma mulher francesa que é dona de uma galeria de arte numa pequena aldeia da Toscana. Destaque para a lindíssima atriz francesa Juliette Binoche que arrebatou com este filme o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2010. Durante a premiação ela protestou chorando contra a prisão do diretor Jafar Panahi pelo governo do Irã, em 2010, influenciando o governo a soltá-lo dois meses depois. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Imagem: a arte do cartunista, ilustrador e desenhista de animação estadunidense Alex Toth (1928-2006)

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Além da entrega mais que tardia, Papoulas de julho de Sylvia Plath, Literatura de vanguarda de Guillermo de Torre, a pintura de Artemísia Gentileschi & Tom Wesselmann, a música de Sky Ferreira, a arte de Jean Cocteau & Luciah Lopez aqui.

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Caraminholas do miolo de pote, Escritos de Guillaume Apollinaire, O homem pós-orgânico de Paula Sibilia, a literatura de Antoine de Saint-Exupéry, a música de Diamanda Galás, a pintura de Marie Fox, a fotografia de Jim Duvall & a arte de Luciah Lopez aqui.
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