domingo, setembro 06, 2015

VILLA-LOBOS, DALTON, PUSHKIN, CASPAR DAVID, JUVENAL GALENO, ARAGONÉS, FOR ALL, O QUINTAL DOS MILAGRES & BRINCARTE DO NITOLINO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O QUINTAL DOS MILAGRES – Na minha infância da beira do rio havia um quintal. Aprisionado na cadeira por ser muito pequeno, eu não podia ir pra lá, mas ficava fitando tudo dali: frutas, raízes, folhas e flores, principalmente uma goiabeira e um cajueiro que seriam no futuro meus melhores amigos, algumas bananeiras e muitos pés de não sei que. De verdade, o primeiro quintal em que pude me esgueirar de mesmo, foi na casa da minha vó Benita. Era lá que o milagre acontecia. Era grande e tinha por limite um brejo que eu adorava ficar atiçando suas águas com meus pés. Brincava de atravessá-lo, mas não ia além da outra margem porque me ensinaram que do outro lado havia todo um mundo de terrores e horrores: bichos selvagens, seres do outro mundo. Foi quando me ensinaram a ter medo: bicho-papão, Cumade Fulosinha e outras malsinadas criaturas que nos ensinavam a ficar quieto em casa para não enfurecê-los. Então, eu me restringia àqueles limites, no meio de pés de abacate, caju, cajá, sirigoela, carambola, cana, pinha, pitomba, manga, goiaba, laranja de todo tipo, limões, maracujá, pitanga, acerola e uma ruma de folhas e flores, troncos e raízes. Cada pé de planta era um amigo que me ouvia e me entendia. Quando não me respondiam ou não me compreendiam, eu mudava de amizade e logo estava em confidências com outro amigo e que eram muitos dentro da minha predileção. Era lá que os milagres verdadeiramente aconteciam e eu ficava surpreso com os acontecimentos: se chegasse doente, ficava bom na hora com todo tipo de chá, banhos, meizinhas, xaropes, unguentos, extratos, essências, sucos, infusões e bálsamos. Tanto que minha tia chamava o quintal de farmácia. Também se chegasse com fome, oxe, era só pegar a primeira fruta à mão e encher o bucho com o que fartava. Havia também a passarinhada solta e afinada que fazia a trilha sonora do dia: sabiás, canários, papa-capins, guriatãs, caboclinhos, azulões, além de outros intrusos como lagartixas, aranhas, borboletas, gafanhotos, muriçocas, maruins, insetos mil. Ali desfrutei mais de dois anos até voltar pra casa, era tempo de ir pra escola. Voltando pra casa pude melhor me arranchar no meu quintal que tanto desejara invadir e armar as maiores estripolias. Chovesse ou tivesse Sol, eu estava lá – o que não me eximia de umas lapadas boas por perder a noção do tempo e ficar de maluvido ignorando os chamamentos da minha mãe. Foi quando conheci o quintal da casa de Pai Lula e Carma: era maior, mais plantas e piso de barro batido que em dia de chuva nem podia chegar lá de tão escorregadio pras quedas. E eu, como sempre desajeitado, findava com a bunda no chão sempre, todo melado e pronto para umas pisas boas para tomar jeito de não ser desmiolado. Até que conheci o quintal da casa da tia Bia, nossa! Ah, que mundão! Imenso, tinha de tudo. Ali eu soltava asas à imaginação e pelejava com tudo até findar farto de aventuras e empanzinado com a oferta de sabores da horta e pomar. Oxe, como eu adorava tudo isso. Foi aí que pelos nove anos de idade, de tanto conversar e confidenciar com esse universo natural de pés e plantas, que um dia me toquei de saber como seria a vida deles de verdade, afora a minha. E saí tocando cada ramo de cada uma delas e me perguntando da vida delas. Aquilo remexia nas catracas do meu quengo infantil. Então tive a compreensão dos estudos da escola de que elas viviam para fornecer oxigênio e comida para nossa sobrevivência e para embelezar a nossa vida com o colorido diverso de sua expressão. Assim, elas cumprem a missão delas: dar condições para que possamos viver. E nós cumprimos a nossa missão? Eu não saberia dizer, era apenas um menino treloso da beira do rio. Veja mais aqui e aqui

 Imagem: Woman in front of the Setting, do pintor alemão Caspar David Friedrich (1774-1840)


Curtindo o álbum Villa-Lobos & os Brinquedos de Roda (MCD, 2003), do Grupo de Percussão da UFMG & Coral Infantil da Fundação Clóvis Salgado, produzido por Eugênio Tadeu, professor do Curso de Artes Cênicas da Escola de Belas Artes da UFMG, membro do Duo Rodapião e idealizador do Pandalelê - Laboratório de Brincadeiras.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de mais uma edição do programa Brincarte do Nitolino, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação animadíssima de Isis Corrêa Naves. Na programação: Paul Eluard, Nitolino chamando a meninada, Bébé Lilly, Llona Mitrecey, The Crazy Frogs, Loulou, Madeline, Tchoutchoua, Sebasto, Bézu, Nita, Meimei Corrêa & muito mais brincadeiras, versos, dicas e informações pras crianças de todas as idades. E no blog, muitas dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e Adolescentes, Literatura, Teatro e Música infantis, afora dicas e informações diversas. Para conferir online e ao vivo clique aqui ou aqui.

LEI DAS PROPORÇÕES MÚLTIPLAS - O químico e físico inglês, John Dalton (1766-1844), foi o fundador da teoria atômica moderna. Em 1803, ele apresenta a sua obra Absorção de gases pela água e outros líquidos, estabelecendo os princípios básicos de sua teoria. E a partir da sua obra Novo sistema de filosofia química, apresentada em 1808, partindo das investigações sobre a composição dos diferentes óxidos de nitrogênio e estabelecendo a lei das proporções múltiplas, conhecida também como a Lei de Dalton. Para formular esta lei, ele se baseou na teoria atômica, fundamentando-se no princípio de que os átomos de determinado elemento eram iguais e de peso invariável. Essa teoria pode condensar-se nos seguintes princípios: os átomos são partículas reais, descontinuas e indivisíveis de matéria e permanecem inalterados nas reações químicas; os átomos de um mesmo elemento são iguais e de peso invariável; os átomos de elementos diferentes são diferentes entre si; na formação dos compostos, os átomos entram em proporções numéricas fixas; e o peso do composto é igual à soma dos pesos dos átomos dos elementos que o constituem. Essa teoria revolucionou a química moderna. Já em 1817, baseado na lei das tríades de Johan Wolfgang Döbereiner e com a disposição sistematica de Mendeleev e Moeyer dos elementos químicos, John Dalton lista os elementos, cujas massas atómicas eram conhecidas, por ordem crescente de massa atômica, cada um com as suas propriedades e seus compostos, daí surgindo a Tabela Periódica. Veja mais aqui.

O TURBILHÃO DE NEVE – Na obra em prosa do poeta, dramaturgo e fundador da moderna literatura russa Alexander Pushkin (1799-1837), encontrei o conto O turbilhão de Neve (Cultrix, 1960), conforme transcrito a seguir: Em fins de 1811, um período memorável para nós, o bom Gavril Gavrilovitch R... vivia na sua propriedade de Nenaradova. Era conhecido em todo o distrito pela sua hospitalidade e simpatia. Os vizinhos visitavam-no com frequência: uns para comer e beber; outros para jogar o “Bóston” a cinco copeques com a mulher, Praskovia Petrovna; outros ainda para verem a filha, Maria Gavrilovna, uma menina de dezassete anos pálida e esguia, considerada um rico partido que muitos desejavam para si próprios, ou para os filhos. Maria Gavrilovna tinha sido educada à base dos romances franceses e consequentemente estava apaixonada. O objecto da sua escolha era um pobre segundo tenente do exército que por essa altura estava a gozar uma licença na sua aldeia natal. Escusado será dizer que o jovem retribuía aquela paixão com igual ardor e que os pais da sua amada, ao perceberem aquela mútua inclinação, proibiram a filha de pensar nele e recebiam-no ainda pior do que a um ajudante despedido. Os nossos amantes correspondiam-se e viam-se todos os dias a sós no pequeno pinhal ou perto da velha capela. Aí trocavam juras de amor eterno, lamentavam o seu cruel destino e faziam vários planos. Correspondendo-se e conversando desta maneira, chegaram naturalmente à conclusão seguinte: Se nós não conseguimos viver um sem o outro e a vontade de pais de coração duro nos barra o caminho da felicidade, por que é que não havemos de passar sem eles? Escusado será dizer que esta feliz ideia nasceu no espírito do jovem e que estava muito de acordo com a imaginação romântica de Maria Gavrilovna. O Inverno, que chegara, pôs fim aos seus encontros, mas a troca de correspondência tornou-se ainda mais frequente. Em todas as cartas Vladimir Nikolaievitch implorava-lhe a ela que se lhe entregasse, para casarem secretamente, ficarem escondidos durante algum tempo e depois lançarem-se aos pés dos pais, que, sem dúvida, se comoveriam finalmente com a heróica constância e infelicidade dos amantes e infalivelmente lhes diriam: “Vinde a nossos braços, queridos filhos!” Maria Gavrilovna hesitou durante muito tempo e vários planos de fuga foram rejeitados. Por fim consentiu: no dia combinado não jantaria e retirar-se-ia para o seu quarto sob o pretexto de uma dor de cabeça. A criada estava metida na trama; desceriam ambas para o jardim pela escada das traseiras e ao fundo do jardim encontrariam um trenó já pronto para as levar directamente para a igreja de Jadrino, uma aldeia a cerca de cinco verstás* de Nenaradova, onde Vladimir estaria à sua espera. Na véspera do dia decisivo, Maria Gavrilovna não conseguiu dormir toda a noite; embrulhou e atou as roupas e outros artigos de adorno, escreveu uma longa carta a uma jovem sentimental, sua amiga, e outra a seus pais. Despedia-se deles nos termos mais comoventes, insistia na força invencível da paixão como justificação para o passo que ia dar e terminava assegurando-lhes que consideraria o momento mais feliz da sua vida aquele em que lhe seria permitido lançar-se aos pés dos seus queridos pais. Depois de lacrar ambas as cartas com um sinete que tinha gravados dois corações em chamas com uma legenda adequada, atirou-se para cima da cama pouco antes do amanhecer e dormitou um pouco: mas mesmo nessa altura era constantemente acordada por sonhos terríveis. Primeiro, pareceu-lhe que no exacto momento em que se sentava no trenó para ir casar-se, o pai a detinha, a arrastava pela neve com terrível rapidez, e a atirava para um escuro abismo sem fundo, onde ela se precipitava de cabeça para baixo com um indescritível aperto no coração. Depois viu Vladimir estendido sobre a relva, pálido e manchado de sangue. No seu último suspiro ele  implorava-lhe numa voz penetrante que se apressasse a casar com ele… Outras visões fantásticas e sem sentido passavam uma após outra a flutuar à sua frente. Por fim, levantou-se, mais pálida do que habitualmente, e com uma dor de cabeça real. Seu pai e sua mãe notaram aquela sua agitação, e a sua terna solicitude e as incessantes perguntas: “O que é que tu tens, Masha? Estás doente, Masha?” cortavam-lhe o coração. Tentou sossegá-los e parecer alegre, mas em vão. Chegou a tardinha. A ideia de que este seria o último dia que passaria no seio da família, pesou-lhe no coração. Estava mais morta do que viva. Despediu-se secretamente de toda a gente, de todos os objectos que a rodeavam. Serviram o jantar; o coração começou a bater-lhe violentamente. Com a voz a tremer, disse que não queria jantar e depois despediu-se do pai e da mãe. Eles beijaram-na e deram-lhe a sua bênção, como de costume e ela dificilmente reteve as lágrimas. Ao chegar ao quarto, deixou-se cair numa cadeira e desatou a chorar. A criada pediu-lhe que tivesse calma e coragem. Estava tudo pronto. Dentro de meia hora Masha abandonaria para sempre a casa dos pais, o seu quarto e a sua feliz vida de menina… Lá fora no pátio a neve caía com força; o vento assobiava, as portadas das janelas batiam e matraqueavam e tudo lhe parecia pressagiar desgraça. Em pouco tempo a casa ficou, toda ela, silenciosa; toda a gente dormia. Masha embrulhou-se num xaile, vestiu um casaco quente pegou na sua pequena caixa e desceu pelas escadas das traseiras. A criada seguia-a com dois embrulhos. Desceram até ao jardim. A tempestade de neve não tinha amainado; o vento soprava-lhes na cara, como se quisesse deter a jovem criminosa. Com dificuldade chegaram ao fundo do jardim. Na rua estava um trenó à espera delas. Os cavalos, meio gelados com o frio, não conseguiam estar quietos; o cocheiro de Vladimir andava de um lado para o outro em frente deles, tentando refrear-lhes a impaciência. Ajudou a jovem senhora e a criada a subirem para o trenó, pôs a caixa e os embrulhos dentro do veículo, pegou nas rédeas e os cavalos arrancaram. Confiada que foi a jovem senhora aos cuidados do destino e à destreza do cocheiro Tereshka, regressemos agora ao nosso jovem amante. Vladimir tinha passado o dia todo a andar de um lado para o outro. De manhã fez uma visita ao pároco de Jadrino e depois de chegar, com grande dificuldade, a um acordo com ele, foi procurar testemunhas entre os agricultores da vizinhança. O primeiro a quem se apresentou, um alferes aposentado de cerca de quarenta anos de idade, de nome Dravin, aceitou com prazer. A aventura, declarou ele, fazia-lhe lembrar os seus tempos de rapaz e as suas brincadeiras nos Hussardos. Convenceu Vladimir a ficar para jantar com ele e assegurou-lhe que não iria ter dificuldade em encontrar as outras duas testemunhas. E de facto, imediatamente após o jantar, apareceu o agrimensor Schmidt, de bigode e esporas, e o filho do capitão da polícia, um rapaz de dezasseis anos, que se tinha recentemente alistado nos Uhlans. Todos aceitaram não só a proposta de Vladimir mas até juraram que estavam prontos a dar a vida por ele. Vladimir abraçou-os arrebatadamente e voltou para casa para deixar tudo preparado. Já escurecera há algum tempo. Despachou o fiel Tereshka para Nenaradova com o trenó e com pormenorizadas instruções, mandou arranjar para si próprio um pequeno trenó de um só cavalo e partiu sozinho, sem cocheiro, para Jadrino, onde Maria Gavrilovna devia chegar dentro de cerca de duas horas. Ele conhecia bem a estrada e a viagem não devia levar mais do que vinte minutos. Mas ainda mal tinha saído do cercado para o campo aberto levantou-se um tal vento e tal tempestade de neve que ele não conseguia ver nada. Num minuto a estrada ficou completamente invisível; todos os objectos à volta desapareceram num denso nevoeiro amarelado, do qual caíam os brancos flocos de neve; terra e céu confundiam-se. Vladimir encontrou-se no meio do campo e tentou em vão descobrir outra vez a estrada. O cavalo andava ao acaso e muitas vezes pisava um monte de neve ou tropeçava num buraco, de modo que o trenó se virava constantemente. Vladimir tentava não perder a direcção certa. Mas parecia-lhe que já passara mais de meia hora e ele ainda não tinha chegado ao bosque de Jadrino. Passaram-se mais dez minutos — e continuava a não se avistar qualquer bosque. Vladimir atravessou um campo cortado por fundas valas. A tempestade de neve não abrandava, o céu não clareava. O cavalo começou a ficar cansado e a transpiração caía-lhe em grandes gotas apesar de estar constantemente a ficar meio enterrado na neve. Por fim Vladimir apercebeu-se de que estava a seguir uma direcção errada. Parou e começou a pensar, a recordar, e a comparar e ficou convencido de que devia ter virado à direita. Virou agora para a direita. O cavalo conseguiu avançar. Já estava a andar há mais de uma hora. Jadrino já não podia estar muito longe. Mas continuava a andar, a andar e não se vislumbrava o fim do campo — apenas montes de neve e valas. O trenó estava constantemente a virar-se e ele constantemente a endireitá-lo outra vez. O tempo passava: Vladimir começou a ficar seriamente preocupado. Por fim apareceu qualquer coisa escura ao longe. Vladimir dirigiu-se nessa direcção. Ao aproximar-se viu que se tratava de um bosque. — Graças a Deus! — pensou ele — Agora já não estou muito longe. Foi andando ao longo da orla do bosque na esperança de acabar por entrar na sua bem conhecida estrada ou de ladear o bosque: Jadrino ficava exactamente por detrás do bosque. Em breve descobriu a estrada e embrenhou-se na escuridão do bosque, agora despido de folhas pelo Inverno. O vento não rugia aqui; a estrada era macia; o cavalo recobrou o ânimo e Vladimir sentiu-se seguro. Mas andou, andou, andou e nunca mais conseguia avistar Jadrino; o bosque não tinha fim. Vladimir descobriu horrorizado que se tinha embrenhado numa floresta desconhecida. O desespero apossou-se dele. Chicoteou o cavalo; o pobre animal começou a andar a trote, mas em breve abrandou o passo e passado cerca de um quarto de hora mal podia arrastar as patas umas após outras, apesar de todos os esforços possíveis do infeliz Vladimir. Pouco a pouco as árvores começaram a ficar cada vez mais espaçadas e Vladimir saiu da floresta; mas Jadrino não estava à vista. Devia ser agora cerca da meia-noite. As lágrimas começaram a correr-lhe dos olhos; continuou a andar ao acaso. Entretanto a tempestade tinha amainado, as nuvens dispersaram e ele tinha diante de si uma planície coberta de um tapete branco ondulante. A noite ficou aceitavelmente clara. Viu, não muito longe, uma pequena aldeia com umas quatro ou cinco casas. Vladimir dirigiu-se para lá. Na primeira cabana, saltou do trenó, correu direito à janela e bateu. Minutos depois, a portada de madeira abriu-se e um velho de barba grisalha pôs a cabeça de fora. — Que deseja? — Jadrino é muito longe daqui? — Se Jadrino é muito longe daqui? — Sim, sim! É muito longe? — Longe, não; mais ou menos dez verstás. A esta resposta, Vladimir pôs as mãos na cabeça e ficou imóvel como um homem condenado à morte. — Donde é que o senhor vem? — continuou o velho. Vladimir não teve coragem de responder à pergunta. — Ouça, senhor — disse ele — pode arranjar-me cavalos que me levem a Jadrino? — Acha que nós podíamos ter coisas dessas, como cavalos? — respondeu o camponês. — Posso arranjar um guia? Eu pago-lhe quanto que ele quiser. — Espere — disse o velho, fechando a portada, — vou mandar-lhe o meu filho aí fora falar consigo; ele indica-lhe o caminho. Vladimir esperou. Mas mal passara ainda um minuto começou a bater outra vez. A portada abriu-se e a barba apareceu outra vez. — Que deseja? — Então o seu filho? — Vai já sair, está a calçar as botas. O senhor está com frio? Entre e aqueça-se. — Obrigado. Mande cá o seu filho depressa. A porta rangeu: um rapaz saiu, com um cajado, e começou a caminhar à frente, às vezes indicando a estrada, outras procurando-a entre os montes de neve. — Que horas são? — perguntou-lhe Vladimir. — É quase dia já — respondeu o jovem camponês. Vladimir não disse mais palavra. Os galos cantavam e já era dia quando chegaram a Jadrino. A igreja estava fechada. Vladimir pagou ao guia e dirigiu-se ao pátio da casa paroquial. O seu trenó não estava lá. Que notícias o esperariam!… Mas voltemos aos dignos proprietários de Nenaradova para ver o que lá está a acontecer. Nada. Os pais acordaram e foram para a sala de estar, Gavril Gavrilovitch com um gorro de dormir e gibão, Praskovia Petrovna com uma roupão acolchoado. Trouxeram o samovar para a mesa e Gavril Gavrilovitch mandou uma criada perguntar a Maria Gavrilovna como é que ela estava e como tinha passado a noite. A criada voltou dizendo que a jovem senhora não tinha dormido muito bem, mas que agora já se estava a sentir melhor e que ia já descer. E de facto a porta abriu-se e Maria Gavrilovna entrou na sala e deu os bons-dias ao pai e à mãe. — Como é que está a tua cabeça, Masha? — perguntou Gavril Gravilovitch. — Melhor, papá — respondeu Masha. — Muito provavelmente inalaste o fumo do carvão ontem — disse Praskovia Petrovna. — Muito provavelmente, mamã — respondeu Masha. O dia passou-se bastante bem, mas à noite Masha adoeceu. Mandaram chamar um médico da cidade. Ele chegou á tardinha e encontrou a doente a delirar. Depois veio-lhe uma febre violenta e durante duas semanas a pobre doente esteve à beira da morte. Ninguém da casa sabia da sua fuga. As cartas que ela escrevera na véspera tinham sido queimadas; e a criada, temendo a ira do patrão, não tinha dito a ninguém uma palavra sobre o assunto. O padre, o alferes reformado, o agrimensor de bigode e o pequeno Uhlan foram discretos, e não sem alguma razão. Tereshka, o cocheiro, nunca deixou escapar uma palavra a mais sobre o assunto, nem mesmo quando estava bêbado. Assim, se manteve o segredo de mais de meia dúzia de conspiradores. Mas a própria Maria Gavrilovna revelou o seu segredo durante as suas divagações delirantes. Porém as suas palavras eram tão incoerentes que a mãe, que nunca deixou a sua cabeceira, só conseguiu compreender que a filha estava profundamente apaixonada por Vladimir  Nikolaievitch e que provavelmente o amor era a causa da sua doença. Consultou o marido e alguns dos seus vizinhos e finalmente foi unanimemente decidido que aquele era evidentemente o destino de Maria Gavrilovna, que uma mulher não consegue afastar-se do homem que foi destinado para seu marido, que a pobreza não é crime, que uma pessoa não casa com a riqueza mas com um homem, etc., etc. Os provérbios morais são extremamente úteis nestes casos em que pouco podemos inventar para nossa própria justificação. Entretanto a jovem senhora começou a recuperar. Há muito tempo que Vladimir não era visto em casa de Gavril Gavrilovitch. Receava a habitual recepção. Resolveram mandar procurá-lo e dar-lhe uma inesperada boa notícia: o consentimento dos pais de Maria ao seu casamento com a filha. Mas qual não foi o espanto do proprietário de Nenaradova quando em resposta ao seu convite receberam dele uma carta meio louca. Informava-os de que nunca mais poria os pés na casa deles e pedia-lhes que esquecessem uma criatura infeliz cuja única esperança era a morte. Dias depois souberam que Vladimir se tinha alistado de novo no exército. Era o ano de 1812. Durante muito tempo não tiveram coragem de contar isto a Masha que estava agora convalescente. Nunca mencionava o nome de Vladimir. Alguns meses mais tarde, ao descobrir o nome dele na lista daqueles que se tinham distinguido e tinham ficado gravemente feridos em Borodino, desmaiou e temeu-se que ela viesse a ter outro ataque de febre. Mas, graças a Deus, aquele desmaio não teve consequências graves. Outra infelicidade a abalou: Gavril Gavrilovitch morreu, tornando-a herdeira de todos os seus bens. Mas a herança não lhe serviu de consolo; partilhou sinceramente a dor da pobre Praskovia Petrovna, jurando que nunca a abandonaria. Ambas deixaram Nenaradova, cenário de tantas recordações tristes, e foram viver para outro estado. Os pretendentes pululavam à volta da rica herdeira mas ela não dava a nenhum deles a mais leve esperança. A mãe por vezes tentava convencê-la a fazer uma escolha; mas Maria Gavrilovna abanava a cabeça e ficava pensativa. Vladimir já não existia: tinha morrido em Moscovo na véspera da entrada dos franceses. A sua memória parecia ter-se tornado sagrada para Masha; pelo menos guardava como tesouros tudo aquilo que lho fizesse lembrar: os livros que ele tinha lido, os seus desenhos, as suas notas e as poesias que ele tinha copiado para ela. Os vizinhos, sabendo de tudo isto, ficavam estupefactos com a sua constância e esperavam com curiosidade o herói que por fim viria a triunfar sobre a fidelidade melancólica daquela virgem Artemisa. Entretanto a guerra tinha terminado com glória. Os nossos regimentos voltaram do estrangeiro e as pessoas vieram para a rua esperá-los. As bandas tocavam as canções da vitória: “Vive Henri-Quatre”, valsas tirolesas e árias da “Gioconda”. Os oficiais que tinham ido para a guerra quase meninos, voltavam já homens feitos, com um ar marcial e o peito coberto de medalhas. Os soldados tagarelavam alegremente uns com os outros, misturando constantemente palavras francesas e alemãs. Um tempo a não esquecer nunca! Um tempo de glória e entusiasmo! Como palpitavam os corações russos à palavra “Pátria!” Que doces eram as lágrimas do encontro! Com que unanimidade nós juntávamos os sentimentos de orgulho nacional com o amor pelo Czar! E para este — que grande momento! As mulheres, as mulheres russas estavam então incomparáveis. A sua habitual frieza desapareceu. O seu entusiasmo era verdadeiramente inebriante, quando gritavam “Hurra!” ao receber os conquistadores e atiravam os chapéus ao ar. Qual o oficial desse tempo que não confessasse que devia às mulheres russas a melhor e mais preciosa recompensa? Neste brilhante período Maria Gavrilovna estava a viver com a mãe na província de—, e não viu como as duas capitais celebraram o regresso das tropas. Mas nos distritos e nas aldeias o entusiasmo geral era, se possível, ainda maior. O aparecimento de um oficial nesses lugares era para ele um verdadeiro triunfo, e um amante vestido à civil sentia-se muito pouco à vontade perto dele. Já dissemos que, apesar da sua frieza, Maria Gavrilovna andava, como antes, rodeada de pretendentes. Mas todos se viram obrigados a recuar para segundo plano quando apareceu no castelo um ferido, o Coronel Bourmin dos Hussardos, com a Ordem de S. Jorge no botão da lapela, e com uma “interessante palidez”, como as jovens senhoras das vizinhanças observaram. Tinha cerca de vinte e seis anos de idade. Tinha conseguido uma licença para visitar a sua propriedade, que era contígua à de Maria Gavrilovna. Maria prestou-lhe especial atenção. Na presença dele, o seu habitual ar pensativo desaparecia. Não se pode dizer que ela andasse a flertar com ele, mas um poeta, observando o seu comportamento, teria dito: “Se amor non è, che dunque?” Bourmin era de facto um jovem encantador. Tinha aquele espírito que agrada extraordinariamente às mulheres: um espírito de decoro e de observação, sem quaisquer pretensões, sem lhe faltar contudo uma ligeira tendência para a sátira descuidada. O seu comportamento para com Maria Gavrilovna era simples e franco, mas a sua alma e os seus olhos seguiam fosse o que fosse que ela dissesse ou fizesse. Parecia ter um temperamento calmo e modesto, embora corresse a ideia de que fora em tempos um terrível libertino; mas isto não lhe deixava qualquer mácula na opinião de Maria Gavrilovna, que — como todas as jovens de uma maneira geral — desculpava com prazer as loucuras que revelassem um temperamento ousado e ardente. Mas mais do que tudo o resto — mais do que a sua ternura, mais do que a sua agradável conversa, mais do que a sua interessante palidez, mais do que o seu braço ao peito — era o silêncio do jovem Hussardo que excitava a sua curiosidade e imaginação. Ela não podia deixar de confessar que ele lhe agradava muito; provavelmente também ele, com a sua percepção e experiência já se tinha apercebido de que ela o distinguia dos outros; e então como é que ela ainda não o vira a seus pés nem ouvira uma sua declaração? O que é que o impedia? Seria timidez, inseparável do verdadeiro amor, ou orgulho, ou o flerte de um namoradeiro astucioso? Era um enigma para ela. Após longa reflexão, chegou à conclusão de que era apenas a timidez a causa daquilo e resolveu encorajá-lo prestando-lhe uma maior atenção e, se as circunstâncias o tornassem necessário, demonstrando-lhe mesmo alguma ternura. Preparou um desfecho muito inesperado e esperou com impaciência o momento da explicação romântica. Um segredo, qualquer que fosse a sua natureza, exerce sempre grande pressão sobre o coração feminino. O seu estratagema teve o sucesso desejado; pelo menos Bourmin caiu em tal devaneio e o seu olhar pousou nela com tal ardor que o momento decisivo parecia iminente. Os vizinhos falavam em casamento como se fosse uma questão já decidida e a boa Praskovia Petrovna rejubilou por a filha ter finalmente encontrado um amante digno dela. Uma ocasião a velha senhora estava sentada sozinha na sala de estar, entretida com um baralho de cartas quando Bourmin entrou e logo perguntou por Maria Gavrilovna. — Está no jardim — respondeu a velha senhora. — Vá ter com ela que eu ficarei aqui à vossa espera. Bourmin foi e a velha senhora benzeu-se e pensou: “Talvez a questão fique resolvida hoje!” Bourmin encontrou Maria Gavrilovna ao pé do lago, debaixo de um salgueiro, com um livro nas mãos e de vestido branco: uma verdadeira heroína de romance. Após as primeiras perguntas e observações, Maria Gavrilovna deixou propositadamente morrer a conversa, aumentando desta maneira o seu mútuo embaraço, do qual não havia saída possível, a não ser com uma súbita declaração decisiva. E foi isto que aconteceu: sentindo a dificuldade da sua situação, Bourmin declarou que há muito procurava uma oportunidade para lhe abrir o coração e pediu-lhe um momento de atenção. Maria Gavrilovna fechou o livro e baixou os olhos em sinal de aceitação do pedido. — Eu amo-a — disse Bourmin, — amo-a apaixonadamente… Maria Gavrilovna corou e baixou ainda mais a cabeça. — Eu agi imprudentemente ao habituar-me ao doce prazer de a ver e ouvir diariamente… — Maria Gavrilovna recordou a primeira carta de St. Preux. — Mas agora é tarde demais para resistir ao meu destino. Lembrar-me de si, da sua querida e incomparável imagem vai ser daqui para a frente o tormento e a consolação da minha vida, mas ainda me falta cumprir um sério dever: revelar-lhe um terrível segredo que levantará entre nós uma barreira intransponível… — Essa barreira sempre existiu — interveio Maria Gavrilovna muito depressa: — Eu nunca podia ser sua mulher. — Eu sei — respondeu ele calmamente. — Sei que a senhora outrora amou, mas a morte e três anos de luto… Querida, boa Maria Gavrilovna, não tente privar-me da minha última consolação: a ideia de que consentiria fazer-me feliz se… — Não fale, por amor de Deus, não fale. O senhor tortura-me. — Sim, eu sei, eu sinto que a senhora teria sido minha, mas… eu sou a criatura mais miserável da terra… já sou casado! Maria Gavrilovna olhou para ele estupefacta. — Já sou casado— continuou Bourmin. — Sou casado há quatro anos e não sei quem é a minha mulher, nem onde ela está, nem se alguma vez a verei de novo! — Que diz? — exclamou Maria Gavrilovna. — Que coisa mais estranha! Continue: eu depois conto-lhe… Mas continue, peço-lhe. — No princípio do ano de 1812 — disse Bourmin, — dirigia-me apressadamente para Vilna, onde estava estacionado o meu regimento. Como uma noite cheguei tarde a um dos postos, mandei que me preparassem os cavalos o mais depressa possível, quando surgiu uma terrível tempestade de neve e o chefe do posto e os cocheiros aconselharam-me que esperasse até a tempestade passar. Eu segui o seu conselho, mas apossou-se de mim uma inexplicável inquietação: parecia que alguém me estava a impelir para avançar. Entretanto a tempestade de neve não abrandava; não consegui aguentar aquilo por mais tempo, mandei sair os cavalos outra vez e parti no meio da tempestade. O cocheiro teve a ideia de seguir o curso do rio, o que encurtaria a nossa viagem em três verstás. As margens estavam cobertas de neve: o cocheiro avançou para lá do sítio onde devíamos tomar a estrada e assim fomos parar a uma parte desconhecida do país… A tempestade não passava; vi uma luz ao longe e mandei o cocheiro dirigir-se para lá. Chegámos a uma aldeia; havia luz na igreja de madeira. A igreja estava aberta. Cá fora estavam vários trenós e havia pessoas a entrar e a sair a porta. “Por aqui! Por aqui!” exclamavam diversas vozes. Eu mandei o cocheiro seguir. “Por amor de Deus, onde é que tem andado?” disse-me alguém. “A noiva já desmaiou; o padre não sabe o que fazer e nós já estávamos a preparar-nos para ir embora. Venha o mais depressa possível.” Saltei do trenó sem dizer uma palavra e entrei na igreja, que estava fracamente iluminada por dois ou três círios. Uma jovem estava sentada num banco num canto escuro da igreja; outra massajava-lhe as têmporas. “Graças a Deus!” disse esta, “o senhor finalmente chegou. Quase que ia matando a menina.” O velho padre avançou para mim e disse: “Quer começar?” “Comece, comece, senhor padre,” respondi eu distraidamente. Ajudaram a jovem a levantar-se. Não me pareceu nada feia… Impelido por uma leviandade incompreensível e imperdoável, coloquei-me a seu lado em frente do altar; o padre apressou-se a continuar; três homens e uma criada de quarto amparavam a noiva e apenas se preocupavam com ela. Casámos. “Beijem-se!” disseram-nos as testemunhas. A minha mulher ofereceu-me a sua pálida face. Quando eu fiz menção de a beijar, ela exclamou: “Oh! Não é ele! Não é ele!” e caiu sem sentidos. As testemunhas olharam-me alarmadas. Eu dei meia volta e saí da igreja sem que alguém me impedisse, saltei para o kibitka e gritei “Toca a andar!” — Meu Deus! — exclamou Maria Gavrilovna. — E o senhor não sabe o que foi feito da sua mulher? — Não sei — respondeu Bourmin; — nem sei o nome da aldeia onde casei nem o posto de onde parti. Nessa altura, eu dava tão pouca importância às minhas brincadeiras de mau gosto que depois de sair da igreja adormeci e só acordei na manhã seguinte depois de chegar ao terceiro posto. O criado, que então me acompanhava, morreu durante a campanha de modo que não tenho esperança nenhuma de alguma vez descobrir a mulher a quem preguei partida tão cruel e que agora está tão cruelmente vingada. — Meu Deus! Meu Deus! — exclamou Maria Gavrilovna agarrando-lhe a mão, — então foste tu! E não me reconheces? Bourmin empalideceu… e lançou-se a seus pés. Veja mais aqui e aqui.

A CABOCLA & POBRE FELIZ – No livro Lendas e canções populares (1865), do poeta cearense Juvenal Galeno (1838-1931), encontro dois poemas, o primeiro deles A cabocla: Cabocla faceira, requebros, encantos, / doou-te a natura! Que porte garboso... / Tu és feiticeira! / Teu seio donoso, / me enleva... me perde, / cabocla faceira! / Teus olhos, teus cílios têm cores da noite... / Teu colo é veludo... teu braço, roliço.... / tu és feiticeira! / Me mata o feitiço, / que bebo em teus olhos, / cabocla faceira! / É um jambo em teu roso... auroras, as faces / teus lábios são bagos de fresca romã... / Tu és feiticeira! / Tu és tão louçã... / me encantas... me perdes, / cabocla faceira! / Teus longos cabelos são negros, lustrosos; / os pés, pequeninos; as mãos, delicadas... / Tu és feiticeira! / Que gestos de falas... / me encantas... me perdes, / cabocla faceira! / Que ardentes enleios... que doces cismares, / mirando teus mimos, que poucos não são... / Tu és feiticeira! / Possuis um condão... / me encantas... me perdes, / cabocla faceira! E também o seu poema O pobre feliz: Sou pobre, mas sou ditoso, / de ninguém inveho o fado. / Me falta, sim, o dinheiro, / mas, de minha Rosa ao lado, / Não me falta amor constante, / sossego, mimoso agrado. / Sou pobre, mas sou ditoso, / meu Deus! / Ao lado de minha Rosa, / cercado dos filhos meus! / Quando vi a minha Rosa, / mais que depressa fiquei / todo, todo apaixonado, / banzando como... nem sei! / Depois... por via das dúvidas, / eu com ela me casei. / Sou pobre, mas sou ditoso, / meu Deus! / Ao lado de minha Rosa, / cercado dos filhos meus! / Era então como hoje, pobre, / pois nunca fui abastado, / Rosa apenas trouxe em dote / duas sais de riscado, / dois cabeções, um rosário / e seu crucifixo dourado: / Sou pobre, mas sou ditoso, / meu Deus! / Ao lado de minha Rosa, / cercado dos filhos meus! / Que belo almoço! Sorrindo / comigo conversa Rosa, / José pede mais paçoca, / a filha chora dengosa, / ri-se o Joãozinho dos outros... / que vida deliciosa! Sou pobre, mas sou ditoso, / meu Deus! / Ao lado de minha Rosa, / cercado dos filhos meus! / Findo o almoço começam / nossas lides – ao roçado / de foice ao ombro, ou enxada / marcho a cantar entoado / cá, nos arranjos caseiros, / deixo Rosa sem cuidado. / Sou pobre, mas sou ditoso, / meu Deus! / Ao lado de minha Rosa, / cercado dos filhos meus! / Ao meio-dia, o trabalho / se largo pra descansar, / ao colo de minha Rosa, / venho a cabeça deitar, / vendo meus filhos contentes, / no seu constante folgar / Sou pobre, mas sou ditoso, / meu Deus! / Ao lado de minha Rosa, / cercado dos filhos meus! / Veja mais aqui.

OS SIGNOS DO TEATRO – No livro O signo teatral: a semiologia aplicada à arte dramática (Globo, 1977), de R. Ingradem, P. Bogatyrev, J. Honzl e T. Kowzan, encontro Os signos do teatro, de Petr Bogatyrev, do qual destaco os seguintes trechos: [...] O discurso do ator em cena é um sistema de signos muito complexo. Ele contem quase todos os signos do discurso poético e, além disso, faz parte da ação dramática. Vamos esclarecer outros signos ainda no discurso do ator, discurso destinado a caracterizar as personagens dramáticas. O falar cotidiano é um sistema de numerosos e diferentes signos. Aquele que fala manifesta, através do que diz, seu estado de espírito, mas ao mesmo tempo, seu discurso (suas expressões dialetais ou de gíria, seu vocabulário, etc) é o signo de seu nível cultural e social. Todos esses signos são utilizados pelo dramaturgo e pelo ator para exprimir o meio social ou a nacionalidade da personagem representada. Nesse sentido, utiliza-se seguidamente um vocabulário especial, um tom especial, para designar um homem desta ou daquela classe, um vocabulário diferente, uma pronúncia, formas e construções diferentes da linguagem comum para designar um estrangeiro. Um ritmo de elocução particular, às vezes mesmo um vocabulário particular, designam um velho. Em certos casos, a função dominante do discurso dramático de uma personagem não é o próprio conteúdo do discurso, mas simk os signos linguísticos que caracterizam a nacionalidade, a classe, etc., daquele que fala. O conteúdo do discurso é então expresso por outros signos dramáticos, tais como o gesto. O diabo, por exemplo, no teatro de marionetes, emite apenas gritos convencionais que exprimem suas emoções e o caracterizam como diabo; em outras peças ele, em vez de falar, realiza uma pantomima que subnstitui os monólogos e diálogos. A manifestação linguística de um ator em cena carrega em geral uma série de signos. O discurso de uma personagem, por exemplo, que fala cometendo erros, designa não somente um estrangeiro, mas muitas vezes também uma figura cômica. É por isso que o ator que faz o papel trágico de um estrangeiro ou do representante de um outro povo, como o Shylock de Shakespeare, e que se esforça para apresentar o mercador de Veneza como um personagem trágico, deve muitas vezes renunciar ao sotaque judeu, ou reduzi-lo ao mínimo, já que o sotaque daria um matiz comico às passagens mais trágicas do papel. No teatro popular, há casos em que certas cenas cheias de gravidade recebem uma nota cômica quando há personagens judeus. Estes deformam a língua corrente de maneira tradicionalmente própria ao teatro popular. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

FOR ALL – Um filme que muito me chamou a atenção foi a comedia romance For All - O Trampolim da Vitória (1997), dirigido por Buza Ferraz e Luiz Carlos Lacerda, e contando a história que ocorre durante a II Guerra Mundial, quando os norte-americanos instalam uma base militar estratégica na pacata cidade de Natal. A chegada de centenas de soldados promove uma revolução cultural na região, mudando a vida de um casal e atraindo multidões em busca de dólares. Amplamente elogiado pela critica, a película recebeu os prêmios de melhor filme, melhor roteiro, melhor trilha sonora, melhor direção de arte e melhor filme do júri popular no Festival de Gramado, e melhor filme, melhor ator e melhor direção de arte no Festival de Miami. A película é reveladora trazendo um momento da história em que o Brasil serviu de base estratégica para os norte-americanos e, por consequência, os costumes potiguares foram corrompidos e substituídos por alheias e sedutoras formas de vida dos invasores. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Charge Louder than words, do cartunista espanhol Sérgio Aragonés.

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico, a partir ddo meio dia no blog do Projeto MCLAM, com a reprise de toda programação da semana e a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. E para conferir online acesse aqui.

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ESPINOZA, AHMADOU KOUROUMA, TOULOUSE-LAUTREC, PSICANÁLISE & DIREITO, GERUSA LEAL, CLARA REDIG, OVÍDIO POLI JÚNIOR & LAJEDO

COMO QUEM ESPERA E JÁ FOI – Imagem: The Hangover , do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). - Como quem espera tal pedra...