sábado, outubro 31, 2015

PAULO FREIRE, DRUMMOND, KEATS, RAPHAEL RABELLO, LELOUCH, LARISSA, AROSA, PSICOLOGIA COMUNITÁRIA & SÓ PORQUE HOJE É SÁBADO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SÓ PORQUE HOJE É SÁBADO - Só porque hoje é sábado é um dia de comemoração. U-hu! É o dia que Vinícius fez o Dia da Criação só pra gente saber que ontem foi sexta de uma semana corrida e desalmada, e que amanhã é domingo, o dia em que o descanso nem sempre ou quase sempre nunca é de verdade. Mas só porque hoje é sábado, há de haver motivo suficiente para a felicidade, é ou não é? Eu mesmo não sei bem quê comemorar, mas se assim o é, podia ser, digamos, o dia em que uma dona de casa abriu os olhos pro seu cotidiano, como sempre bem cedinho quando a madrugada se vai despedindo pro reino do Sol, e foi invadida por umas ideias que lhe pareciam toscas e nada valiosas para si, no seu modesto modo de ver. Ela sentiu no corpo o peso da idade e da labuta, e ao se levantar ajeitando as vestes mal dormidas, nem imaginou que podia ser um sábado diferente enquanto atravessava o corredor e um monte de coisas lhe agitava o quengo sem que pudesse concatenar nada entre um bocejo e outro com os desafios da rotina no meio. De repente, viu-se encorajada a dizer asneiras: - Basta! Vida de pinica já era. E valeu-se, como sempre, da força da sua munheca para sobreviver! – Por que não tenho uma vida como a da novela da TV com final feliz e tudo o mais? -, indagou-se, sentindo-se estranha lá meio grogue, revestida de um poder nunca antes sentido. Aí disse não ao fogão, depôs o avental, deu baixa na cozinha, até sair aturdida no centro da sala e diante da televisão: - Lá vem você com esse papo só pra botar merda na minha cabeça! Meio zonza com tudo aquilo e sem saber o que fazer, olhou pros lados e ainda viu tudo limpinho e fruto do seu trabalho árduo de três cargas horárias, noitedia e de domingo a domingo, de dar-lhe um paroxismo a ponto da revolta incendiar tudo e ela não ver-se mais que um sapato velho jogado na lama. Ah, hoje é sábado, ora! E por isso ela podia pensar se apenas um dia e uma lei bastavam. E sentia na pele o que os maleducados cospem no cúmulo do desrespeito! Quanta gente maleducada! Gente escolada, granfina, metida a besta, parece mais que a escola fabrica débeis que pisam e chutam quem não é da turma pra ser jogado pra escanteio e a universidade diploma todo dia histéricos felizes, psicóticos simpáticos, perversos sorridentes, esquizofrênicos paranoides. Ué e eu? Onde ela nisso tudo? Só porque é sábado ela se deu ao luxo de mudar de vida e se recordar do dia em que nasceu Deus sabe onde, por certo num bolsão de carência e da lei do morro que ela nem se lembra mais, com todas as incertezas e interrogações que mais privam da razão do que mostram qualquer sinal de que algum dia tudo pode dar certo. E viu-se na quimera dos seus sonhos de uma infância feliz e repleta de sacis que cultuavam a Cumadre Fulôsinha porque só ela podia enfrentar o Boitatá – o bicho-papão – que tomavam meninas malcriadas pra comer-lhe o fígado em noite sinistra. Ela que nunca viu Papai Noel, não sabia se era melhor ser uma menina bonita e obediente do tipo anjinha do céu no reino da deusa Felicitas, ou se arretando de vez de corpalma numa deusa Morrígan, cultuando o mais patético fervor da crueldade da pobreza, das competições raivosas e das deteriorações ambientais, a catar de cada sujeito o que é de mais desumano e insignificante pro seu orgulho e autossatisfação. Feliz, até sorriu com tudo isso vingando no peito. Afinal, hoje é sábado! E ela podia até pensar no trocado que sobrou da passagem do ônibus virando uma bolada da loteria para abrir uma caderneta de poupança e acumular até o dia em pudesse ficar rica comprando uma casa própia na beira-mar, com um carro novinho em folha na garagem e a peidar contra o vento porque agora não fazia a menor diferença pensar no que sofreu na vida, nem o que apanhou de tudo quanto fosse adversidade, mangando daqueles que não conseguiram vencer na vida como derrotados migrantes da desgraça. Agora ela estava do outro lado e por isso podia mangar à bessa! Podia até estudar pra fazer um concurso pruma repartição pública e viver no bem-bom, salário certo no fim do mês, roupa da moda, festinhas nos finais de semana, conversa mole e não ter que fazer mais nada que manter o emprego e fazer a sua parte que era a de ser feliz e o resto que se dane! Tudo isso lhe passou à cabeça só porque hoje é sábado, o dia e a lei sumiram – bastaram? E ela teve de esfregar os olhos e ver qual sonho ou pesadela lhe atormentara àquela hora da manhã, vez que era mais um dia de branco como outro qualquer e ela foi tomar pé nos afazeres senão podia acabar embaixo da ponte sem ter com quem conversar nem o que fazer. E vamos aprumar a conversa aqui.


Imagem: Baigneuse, da pintora francesa Marguerite Arosa (1854-1903).


Curtindo o álbum póstumo Cry, my guitar (GSP, 1994-2005), do violonista brasileiro Raphael Rabello (1962-1995).

PENSANDO A ATENÇÃO À SAÚDE SISTEMICAMENTE – No livro Psicologia na comunidade: uma proposta de intervenção (Casa do Psicólogo, 2006), organizado por Carmen Leontina Ojeda Ocampo Moré e Rosa Maria Stefanini Macedo, encontro a introdução intitulada Pensando a atenção à saúde sistemicamente, assinada por Rosa Maria Stefanini Macedo, da qual destaco os trechos a seguir: Aos ricos, suavemente chamados descompensados, estressados, ou surtados, as clínicas psiquiátricas e psicológicas de primeira linha e tratamentos com as mais moderns técnicas psicoterápics e medicamentosas; aos pobres, loucos, doido varridos, os hospícios ou as enfermarias de saúde mental nos hospitais públicos e tratamentos com os remédios tradicionais (“mansa-leão”) ou participação em grupos de pesquisa com novas drogas: essa é a situação mais comum na política de saúde mental entre nós. [...] Para lidar com tal situação é necessário que o profissional tenha uma visão global das relações pessoas-contexto, seja psicólogo, psiquiatra, enfermeiro ou assistente social, para poder contribuir efetivamente para a mudança da sensação de desamparo, ajudando a fortalecer a autoestima e a crença em si mesmo dos consultantes. A pessoa do profissional é peça chave dessa relação “empoderadora” e, para isso, ele deve ser introduzido, antes de qualquer coisa, aos demais funcionários do serviço, seja hospital, posto de saúde, repartição pública onde vai atender, para que aí deIxem de predominar preconceitos comuns em relação a ele, sobretudo se for psicólogo, ao qual em geral, são encaminhados todos aqueles que chegam aflitos, descontrolados, nervosos, sem uma queixa clara e/ou orgânica. [...] Os cursos de formação também precisam alargar sua visão, procurando modificar o currículo mais baseado em testes psicológicos e técnicas psicoterapêuticas voltadas para os aspectos intrapsíquicos do individuo. As mudanças políticas, sociais e econômicas urgem por atualização nas teorias e práticas que valorizem cada vez mais a pessoa como cidadão participante na construção da sociedade, na qual não pode ser ignorado, sob pena de causar grandes prejuízos aos cofres públicos. Saúde e educação são primordiais além de moradia e saneamento básico e a falta de investimento nesses setores volta como gastos para o governo em proporção geométrica, como tem sido fartamente demonstrado pelos estudos econômicos do desenvolvimento. Para as dores da alma não há elixir que cure, mas apoio que consola e modos de ver o mundo que constRoem esperança. [...] Termino essa introdução com as palavras de Paulo Freire, o melhor companheiro para esta útil e maravilhosa empreitada: “O utópico não é o irrealizável. A utopia não é o idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e a de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia também im compromisso histórico”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A DOIDA – No livro Contos de aprendiz (José Olympio, 1973), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), destaco o conto A doida: A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado.  E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não mandava capiná-la? Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados. Não explicavam bem quais fossem esses benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandade. E isso não comovia ninguém. A loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar a doida, isolada e agreste no seu jardim. Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado, numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera. Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de 60 anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavravam o corpo). Corria, com variantes, a história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento, uma festa estrondosa; mas na própria noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e empurrou-a, no calor do bate-boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se. Os dois nunca mais se viram. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro grosso e estava custando a morrer – mas nos racontos antigos abusava-se de veneno. De qualquer modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto. Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável. Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar em casa da doida, passou a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão. Vinte anos de tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa penalidade. Depois, por prazer. Finalmente, e já havia muito tempo, por hábito. Como a doida respondesse sempre furiosa, criara-se na mente infantil a idéia de um equilíbrio por compensação, que afogava o remorso. Em vão os pais censuravam tal procedimento. Quando meninos, os pais daqueles três tinham feito o mesmo, com relação à mesma doida, ou a outras. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se interessavam. E daí – explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação – toda cidade tem seus doidos; quase que toda família os tem. Quando se tornam ferozes, são trancados no sótão; fora disto, circulam pacificamente pelas ruas, se querem fazê-lo, ou não, se preferem ficar em casa. E doido é quem Deus quis que ficasse doido... Respeitemos sua vontade. Não há remédio para loucura; nunca nenhum doido se curou, que a cidade soubesse; e a cidade sabe bastante, ao passo que livros mentem. Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. A pedra batia no caixilho ou ia aninhar-se lá dentro, para voltar com palavras iradas. Ainda haveria louça por destruir, espelho, vaso intato? Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado. O chefe reservou-se um objetivo ambicioso: a chaminé. O projétil bateu no canudo de folha-de-flandres enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. As paredes descascadas, sob as trepadeiras e a hera da grade, as janelas abertas e vazias, o jardim de cravo e mato, era tudo a mesma paz. Aí o terceiro do grupo, em seus 11 anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Não só podia atirar mais de perto na outra janela, como até, praticar outras e maiores façanhas. Os companheiros, desapontados com a falta do espetáculo cotidiano, não, queriam segui-lo. E o chefe, fazendo valer sua autoridade, tinha pressa em chegar ao campo. O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado? ...E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem, e o melão-de-são-caetano se enredava entre as violetas, as roseiras pediam poda, o canteiro de cravinas afogava-se em erva. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins, cabecinha móbil e suspicaz. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois em atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul (tinha sido azul) que fechava a varanda da frente. Era um ponto que não se via da rua, coberto como estava pela massa de folha gemo A cancela apodrecera, o soalho da varanda tinha buracos, a parede, outrora pintada de rosa e azul, abria-se em reboco, e no chão uma farinha de caliça denunciava o estrago das pedras, que a louca desistira de reparar. A lagartixa salvara-se, metida em recantos só dela sabidos, e o garoto galgou os dois degraus, empurrou cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução. Recuou um pouco e olhou para a rua: os companheiros tinham sumido. Ou estavam mesmo com muita pressa, ou queriam ver até aonde iria a coragem dele, sozinho em casa da doida. Tomar café com a doida. Jantar em casa da doida. Mas estaria a doida? A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma caçarola no chão, e a pedra que o companheiro jogará. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou o peitoril, pisou indagador no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve, entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro. No outro cômodo a penumbra era mais espessa parecia muito povoada. Difícil identificar imediatamente as formas que ali se acumulavam. O tato descobriu uma coisa redonda e lisa, a curva de uma cantoneira. O fio de luz coado do jardim acusou a presença de vidros e espelhos. Seguramente cadeiras. Sobre uma mesa grande pairavam um amplo guarda-comida, uma mesinha de toalete mais algumas cadeiras empilhadas, um abajur de renda e várias caixas de papelão. Encostado à mesa, um piano também soterrado sob a pilha de embrulhos e caixas. Seguia-se um guarda-roupa de proporções majestosas, tendo ao alto dois quadros virados para a parede, um baú e mais pacotes. Junto à única janela, olhando para o morro, e tapando pela metade a cortina que a obscurecia, outro armário. Os móveis enganchavam-se uns nos outros, subiam ao teto. A casa tinha se espremido ali, fugindo à perseguição de 40 anos. O menino foi abrindo caminho entre pernas e braços de móveis, contorna aqui, esbarra mais adiante. O quarto era pequeno e cabia tanta coisa. Atrás da massa do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para a frente, na investigação do rumor insólito. Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada. Ele encarava-a, com interesse. Era simplesmente uma velha, jogada num catre preto de solteiro, atrás de uma barricada de móveis. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo. Mas os dedos desceram um pouco, e os pequenos olhos amarelados encararam por sua vez o intruso com atenção voraz, desceram às suas mãos vazias, tornaram a subir ao rosto infantil. A criança sorriu, de desaponto, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido. Como a criança não se movesse, o som indistinto se esboçou outra vez. Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida, e todo desejo de maltratá-la se dissipou. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se canhestramente, o confirmavam. O menino aproximou-se, e o mesmo jeito da boca insistia em soltar a mesma palavra curta, que entretanto não tomava forma. Ou seria um bater automático de queixo, produzindo um som sem qualquer significação? Talvez pedisse água. A moringa estava no criado - mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber. Fazia tudo naturalmente, e nem se lembrava mais por que entrara ali, nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria idéia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo. Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem. Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam. Teve que abraçar-lhe os ombros – com repugnância – e conseguiu, afinal, deitá-la em posição suave. Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio... Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de aquiescência. Ficou perplexo, irresoluto. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer, e isso ele sabia que não apenas porque sua mãe o repetisse sempre, senão também porque muitas vezes, acordando no escuro, ficara gelado por não sentir o calor do corpo do irmão e seu bafo protetor. Foi tropeçando nos móveis, arrastou com esforço o pesado armário da janela, desembaraçou a cortina, e a luz invadiu o depósito onde a mulher morria. Com o ar fino veio uma decisão. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LA BELLE DAME SANS MERCI & OUTROS POEMAS - Na obra poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821), começo por destacar a tradução do poema La belle dame sans merci (1819), do estudo O feminino erótico encontrado na obra do poeta romântico John Keats, de Antonio Fernandes Lima Sobrinho, Diane Savier de Sousa e Fernanda Cardoso Nunes, do qual destaco os trechos: IV - Uma dama nos prados encontrei, / Todo-formosa, filha de uma fada: / A cabeleira longa, os pés ligeiros, / A vista descuidada. V - Tomei-a em meu corcel de passo lento, / E o dia inteiro nada mais vi, não; / Pois pendida de lado ela cantava / De fada uma canção. VI - Eu fiz-lhe uma grinalda para a fronte, / E pulseiras e um cinto redolente; / Ela me olhou com ar de quem amasse, / Gemendo suavemente. VII - Procurou para mim raízes doces, / Orvalho de maná e mel do mato; / E numa língua estranha murmurou: "Eu amo-te de fato" X - Guerreiros, e reis pálidos, e príncipes, / Todos, de morte pálidos, eu vi, / E me diziam: - "Pôs-te em cativeiro La belle Dame sans merci". XI - Com o negro aviso, seus famintos lábios / Vi escancarar-se à sombra vespertina; / E despertando me encontrei aqui, / No frio da colina. XII - E este é o motivo pelo qual eu me acho / Aqui, vagando pálido e sozinho, / Malgrado, seco o junco à beira-lago, / Não cante um passarinho. Também o poema Esta mão viva: Esta mão viva, agora quente e pronta / Para um sincero aperto, se estivesse fria / E no silêncio gélido da tumba, / Viria de tal forma te obsedar os dias / E esfriar-te as noites sonhadoras / Que quererias esgotar o sangue de teu coração / Para que em minhas veias - / Pudesse inda uma vez correr a vida rubra / E tranquila tivesses a consciência: / - Vê-a, aqui está, estendendo-a para ti. Mais o poema Mulheres, vinho e rapé: Dê-me mulheres, vinho e rapé / Até que grite “Chega!” / Pode fazê-lo sem objeção / Até o dia da ressureição; / Abençoe minha barba pois esta é / Minha adorada Trindade. Por fim um dos seus poemas Sem título: Repousando sobre os belos seios do meu amor / Sentir para sempre seu suave enrijecer / E abrandar para sempre acordado em um doce despertar / Imóvel, imóvel para ouvir o seu delicado respirar / Brilho da minha paixão, / Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente / Não suspenso da noite com uma luz deserta. Veja mais aqui e aqui.

DE O DEFUNTO AO QUINTA DAS JANELAS – A trajetória da jovem e bela atriz Larissa Maciel começou quando ela tinha apenas nove anos de idade, atuando nas mini-peçs de teatro do seu colégio, fato que a levou a se apresentar no espetáculo Um conto de inverno (1996). Neste mesmo ano ela atua na peça O defunto. No ano seguinte foi estudar Artes Cênicas na UFRGS, o que a levou a atuar em diversos curtas e séries para a televisão gaúcha. Seguiram-se então a sua participação nas peças Barão das árvores (1998), Um gosto de mel (1999), Zona contaminada (1999), O menino maluquinho (1999), Não culpem ninguém (2000), Todos que caem (2004), Os sobreviventes (2005), Hotel Rosa Flor (2006), Aquelas mulheres (2010), A Eva futura (2011) e a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém (2012). Em 2006 ela estreia no cinema no filme A festa de Margarete, seguindo-se Vazio Coração (2012) e Quinta das Janelas (2012). Ao mesmo tempo ela atuou em comerciais, minisséries e em novelas na televisão. Esse um nome promissor da arte cênica brasileira. Veja mais aqui.

UM HOMME ET UNE FEMME – O filme Un homme et une femme (Um Homem, uma Mulher, 1966), dirigiro pelo cineasta, argumentista, produtor e realizador francês Claude Lelouch, conta a história de um piloto de corridas que está viúvo e encontra-se por acaso com uma bela mulher também viúva, ao visitarem seus filhos num colégio interno e isso se repete todos os finais de semana. Eis que num desses inesperados encontros no colégio de seus filhos, ela perde o trem e ele oferece uma carona de volta a Paris. Por causa disso, tornam-se amigos muitos chegados e, nesse vai e vem, finalmente se apaixonam um pelo outro, mas percebem que as lembranças dos seus cônjuges falecidos são ainda muito fortes entre eles. O destaque do filme vai para a sempre bela e premiadíssima atriz francesa Anouk Aimée. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004).

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .


sexta-feira, outubro 30, 2015

POUND, VALÉRY, PERLS, HAHN, CONSUELO DE CASTRO, CHITOVSKY, BRAQUEHAIS, ALDINE & DESPERTAR.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DESPERTAR - É com o sol da manhã que me voo pro dia que me faz vida. E saboreio poder viver mais um dia e ser-me o que sou pra ser melhor em mim. E sou maior a cada dia, mesmo que não me dê conta disso. Mas sou maior e melhor, apesar de ver-me no charco dos miseráveis. E sinto que sou maior que as coisas que vejo no dia a dia, coisas deprimentes, malsinadas. Sou coisas tristes, então, e fico triste. Sou o noticiário, as manchetes, as tragédias e tudo é muito triste. Quero me libertar disso tudo, mas tudo é muito triste e me deixa ainda mais triste, fragmentado, desvinculado, porque há divisões, dissensões, violência, destruição. A sobrevivência por um prato de comida, a coexistência por um favor a mais, jeitinhos, grifes e o luxo, tudo se amontoa no lixo. E isso me deixa muito mais triste porque na solidão só há indiferença, a força do apego e o poder da possessão. Eu sei, o mundo me deu tudo, conforto, progresso, ambição, mas não me fez feliz, não me autorrealizei porque me rendi a todas as contradições, sou feito de atos pendulares, ora vou, ora volto. E quantas vezes fui e me arrependi. E quantas vezes não fui e me autoflagelei. Ah, meus desencontros. Poderia trocar meus acertos pelos erros e não sei, na prova dos nove, o que valeria, não há retorno, muito embora eu tenha sempre que voltar. E não encontro lugar no mundo para descansar a cabeça, não há esse lugar neste mundo. Oriento-me para emergir de tudo com as duas asas do pássaro na cabeça para a encruzilhada evolutiva. Eu voo. Escolho o meu destino e vou pelo campo no jogo dos espelhos e provando da água de todos os rios. Meu coração é o espelho. Sigo na curva e vivo pelo presente eterno, meu pensamento é ato, um com o universo: silêncio e paz. Uma gota que se funda no oceano. Lá onde sou para que todos sejam. Lá onde estou para que todos estejam. Eu voo. Olho o que me olha e percebo que tudo é o que é e não outra forma ou coisa. E o antigo oscila no novo, moderação e autocontrole. E tudo se entrecruza, mútua e instantaneamente. E o novo confirma o antigo. Vejo o que vejo e sou o que sou. E eu posso ser feliz pra que todos sejam felizes e tenham paz. E vamos aprumar a conversa aqui.

 Imagem La sieste, do artista plástico russo Lev Chitovsky (1902-1969).


Curtindo o álbum Concertos para Violino (2001), da violinista estadunidense Hilary Hahn com a Academy of St. Martin in the Fields, conductor Neville Marriner, interpretando obras de Igor Stravinsky & Johannes Brahms.

O TEMPO – No livro Ego, fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud (Summus, 2002), do psicoterapeuta e psiquiatra Friedrich Perls (1893-1970, também conhecido por Fritz Perls), destaco trecho do capítulo Tempo: Tudo tem extensão e duração. Medimos extensão em comprimento, altura e largura; duração em tempo. Estas quatro dimensões são medidas utilizadas pelo homem [...] Enquanto tomamos pontos fixos (aC., dC., a.m e p.m), para medição objetiva, o ponto-zero psicológico é o eterno presente, alcançando, de acodo com nossa organização, adiante e atrás [...] Tão logo esqueçamos que somos eventos no tempo-espaço, ideias e realidades se chocam. Exigências de emoções duradouras (amor eterno, felicidade) poderiam leva à decepção, ao desaparecimento da beleza e à depressão. Pessoas que perderam o ritmo do tempo logo se tornarão obsoletas. [...] O tempo avança! O tempo que está voando, ou se arrastando, ou mesmo se mantendo imóvel denota o desvio de mais e menos. Tal julgamento contem seu oposto psicológico; nós gostaríamos que o tempo que voa diminuísse a velocidade e se apressasse quando está se arrastando. A concentrações em coisas como no tempo-espaço é experienciada como paciência. Aparentemente, neste caso, a imagem existe meramente como extensão, o componente tempo sendo dividido como impaciência. Desta forma, a awareness deo tempo, ou o sentido de tempo, entra na vida e na psicologia humana. Einstein é de opinião que o sentido de tempo é uma questão de experiência. [...] Quanto maior o atraso da satisfação do desejo, maior a impaciência, quando a concentração se mantém sobre o objeto de satisfação. A pessoa impaciente quer a união imediata, atemporal de sua visão com a realidade. [...] Alguém foi convidado a explicar a teoria da relatividade Einstein. Respondeu: quando você passa uma hora com sua garota, o tempo voa; uma hora parece um minuto; mas quando lhe acontece de sentar sobre um fogão quente o tempo se arrasta, os segundos parecem horas. Isto não se ajusta à realidade psicológica. Numa hora de amor, se o contato é perfeito, o fator tempo não se insere no quadro de forma alguma. Contudo, se a garota se torna um aborrecimento, se o contato com ela é perdido e o tédio se estabelece, então você poderia começar a contar os minutos até se livrar dela. O fato tempo também será experienmciado se o tempo for limitado e você quiser ocupar tanto quanto possível os minutos à sua disposição. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A LITERATURA E A POESIA – No livro ABC da Literatura (Cultrix, 1977), do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972), destaco o trecho: Vivemos numa era de ciência e de abundância. O amor e a reverencia pelos livros como tais, próprios de uma época em que nenhum livro era duplicado até que alguém se desse ao trabalho de copiá-lo a mão, não respondem mais, obviamente, às necessidades da sociedade ou a preservação do saber. Precisa-se com urgência de uma boa poda, se é que o Jardim das Musas pretende continuar a ser um jardim. O método adequado para o estudo da poesia e da literatura é o método dos biologistas contemporâneos, a saber, exame cuidadoso e direito da matéria e continua comparação de uma lamina ou espécime com outra. Nenhum homem está equipado para pensar modernamente enquanto não tiver compreendido a história de Agassiz e do peixe: Um estudando de cursos de pós-graduação coberto de honrarias e diplomas, dirigiu-se a Agassiz para receber os ótimos e últimos retoques. O grande naturalista tomou um peixinho e pediu-lhe que o descrevesse. Estudante: - Mas este é apenas um peixe-lua. Agassiz: - Eu sei disso. Faça uma descrição dele por escrito. Depois de alguns minutos o estudante votou com a descrição do Ichtus Heliodiplodokus ou outro termo qualquer, desses usados para sonegar do conhecimento geral o vulgar peixe-lua: família dos Hellinchtherinkus, etc., como se encontra nos manuais sobre o assunto. Agassiz pediu ao estudante que descrevesse de novo o peixe. O estudante perpetrou um ensaio de quatro páginas. Agassiz então lhe disse que olhasse para o peixe. No fim de três semanas o peixe se encontrava em adiantado estado de decomposição, mas o estudante sabia alguma coisa a seu respeito. Foi desse método que nasceu a ciência moderna e não da perspectiva estrita da lógica medieval suspensa no vácuo. [...] Na Europa, se pedimos a um homem que defina alguma coisa, sua definição sempre se afasta das coisas simples que ele conhece perfeitamente bem e retrocede para uma região desconhecida, que é a região das abstrações progressivamente mais e mais remotas. Assim, se lhe perguntarmos o que é o vermelho, ele responderá: uma cor. Se lhe perguntamos o que é uma cor, dirá que cor é uma vibração ou uma refração da luz ou uma divisão do espectro. E se lhe perguntarmos o que é uma vibração, obteremos a resposta de que é uma forma de energia, ou qualquer coisa dessa espécie, at´w que cheguemos a uma modalidade do ser ou do não-ser, ou, de qualquer modo, penetremos no terreno que está além do nosso alcance e além do alcance do nosso interlocutor. [...] Para começar do começo, vocês provavelmente sabem que há uma linguagem falada e uma linguagem escrita, e que há duas espécies de linguagem escrita, uma baseada no som e outra na vista. [...] A palavra ou ideograma chinês para vermelho é baseado em algo que todos conhecem. (Se o ideograma se tivesse desenvolvido na Inglaterra, os escritores teriam certamente usado um pintarroxo visto de frente ou qualquer coisas menos exótica do que um flaming0). Fenollosa explicava como e porque a linguagem escrita dessa maneira simplesmente tinha que permanecer poética; simplesmente não podia deixar de ser e de permanecer poética num sentido em que uma coluna tipográfica inglesa poderia muito bem não permanecer poética. Ele morreu antes de chegar à publicação e à proclamação de um método. Este é, contudo, o meio certo de estudar poesia ou literatura ou pintura. É, de fato, o meio pelo qual os membros mais inteligentes do público em geral estudam pintura. Se vocês querem entender alguma coisa de pintura, vão à National Gallery, ao Salon Carré, ao Brera ou ao Prado e olhem para quadros. Para cada leitor de livros de arte há 1 000 pessoas que vão ver os quadros. Graças a Deus! Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CEMITÉRIO MARINHO – No livro Cemitério marinho (Max Limonad, 1984), do filósofo, escritor e poeta simbolista francês Paul Valéry (1871-1945), destaco essa tradução de Darcy Damasceno e Roberto AIvim: Esse teto tranqüilo, onde andam pombas, / Palpita entre pinheiros, entre túmulos. / O meio-dia justo nele incende / O mar, o mar recomeçando sempre. / Oh, recompensa, após um pensamento, / Um longo olhar sobre a calma dos deuses! / Que lavor puro de brilhos consome / Tanto diamante de indistinta espuma / E quanta paz parece conceber-se! / Quando repousa sobre o abismo um sol, / Límpidas obras de uma eterna causa / Fulge oTempo e o Sonho é sabedoria. / Tesouro estável, templo de Minerva, / Massa de calma e nítida reserva, / Água franzida, Olho que em ti escondes / Tanto de sono sob um véu de chama, / - Ó meu silêncio!... Um edifício na alma, / Cume dourado de mil, telhas, Teto! / Templo do Templo, que um suspiro exprime, / Subo a este ponto puro e me acostumo, / Todo envolto por meu olhar marinho. / E como aos deuses dádiva suprema, / O resplendor solar sereno esparze / Na altitude um desprezo soberano. / Como em prazer o fruto se desfaz, / Como em delícia muda sua ausência / Na boca onde perece sua forma, / Aqui aspiro meu futuro fumo, / Quando o céu canta à alma consumida / A mudança das margens em rumor. / Belo céu, vero céu, vê como eu mudo! / Depois de tanto orgulho e tanta estranha / Ociosidade - cheia de poder - / Eu me abandono a esse brilhante espaço, / Por sobre as tumbas minha sombra passa / E a seu frágil mover-se me habitua. / A alma expondo-se às tochas do solstício, / Eu te afronto, magnífica justiça / Da luz, da luz armada sem piedade! / E te devolvo pura à tua origem: / Contempla-te!... Mas devolver a luz / Supõe de sombra outra metade morna. / Oh, para mim, somente a mim, em mim, / Junto ao peito, nas fontes do poema, / Entre o vazio e o puro acontecer, / De minha interna grandeza o eco espero, / Sombria, amarga e sonora cisterna / - Côncavo som, futuro, sempre, na alma. / Sabes tu, prisioneiro das folhagens, / Golfo roedor de tão finos gradis, / Claros segredos para os olhos cegos / Que corpo a um fim ocioso me compele, / Que fronte o atrai a tal rincão de ossadas? / Um lampejo aqui pensa em meus ausentes. / Sacro, encerrando um fogo sem matéria, / Pouca de terra oferecida à luz, / Prezo este sítio, que dominam tochas, / Composto de ouro, pedras e ciprestes, / Onde mármores tremem sobre sombras. / O mar lá dorme, fiel, sobre meus túmulos. / Cadela esplêndida, afugenta o idólatra! / Quando, sorriso de pastor, sozinho / Apascento carneiros misteriosos / - Branco rebanho de tranqüilos túmulos - / Afasta dele as pombas temerosas / Os sonhos vãos, os anjos indiscretos. / Aqui vindo, o futuro é indolência. / Nítido inseto escarva a sequidão; / Tudo queimado está desfeito e no ar / Se perde em não sei que severa essência, / Faz-se a amargura doce e claro o espírito. / Os mortos estão bem, sob esta terra / Que os aquece e resseca seu mistério. / O meio-dia no alto, o meio-dia / Quedo se pensa em si e a si convém. / Fronte completa e límpido diadema, / Eu sou em ti recôndita mudança! / Eu, somente eu, contenho os teus temores! / Meus pesares, limitações e dúvidas / São a falha de teu grande diamante... / Em sua noite grávida de mármores, / Entanto, um povo errante entre as raízes / Tomou já teu partido, lentamente. / Dissolveu-se na mais espessa ausência; / Bebeu vermelho barro a branca espécie; / Passou às flores o dom de viver. / Dos mortos, onde as frases familiares, / A arte pessoal, as almas singulares? / Tece a larva onde lágrimas nasciam. / O riso agudo de afagadas jovens, / Olhos e dentes, pálpebras molhadas, / O seio ousado desafiando o fogo, / Sangue a brilhar nos lábios que se rendem, / Últímos dons e dedos que os defendem / - Tudo se enterra e ao jogo outra vez volta. / E tu, grande alma, acaso um sonho esperas, / Despido, então, das cores de mentira / Que a estes meus olhos a onda e o ouro mostram? / Cantarás, quando fores vaporosa? / Tudo flui! Porosa é minha presença; /A sagrada impaciência também morre. / Magra imortalidade negra e de ouro, / Consoladora com horror laureada, / Que seio maternal fazes da morte / - O belo engano, a astúcia mais piedosa! / Quem não conhece e quem não repudia / Esse crânio vazio, o riso eterno? / Pais profundos, cabeças desertadas, / Que sob o peso de tantas pàzadas / Terra sois, confundindo os nossos passos! / O verdadeiro verme, irrefutável, / Não para vós existe, sob a lousa / Ele de vida vive e não me deixa. / Amor, talvez? Talvez ódio a mim mesmo? / Seu dente oculto está de mim tão próximo / Que qualquer nome, acaso, lhe convém. / Que importa!... Ele vê, quer, sonha, ele toca: / Minha carne lhe agrada, e até no leito / Vivo de pertencer a este vivente. / Zenão, cruel! Zenão, Zenão de Eléia! / Feriste-me com tua flecha alada, / Que vibra, voa e que não voa nunca. / O som engendra-me e a flecha me mata! / O sol... Ah, que sombra de tartaruga / Para a alma, Aquiles quedo e tão ligeiro! / Não, não!... De pé! No instante sucessivo! / Rompe meu corpo, a forma pensativa! / Bebe meu seio, o vento que renasce! / Esta frescura a exalar-se do mar / A alma devolve-me... Ó, poder salgado! / Corramos à onda para reviver! / Sim, grande mar dotado de delírios, / Pele mosqueada, clâmide furada / Por incontáveis ídolos do sol, / Hidra absoluta, ébria de carne azul, / Que te mordes a fulgurante cauda / Num tumulto ao silêncio parecido, / Ergue-se o vento! Há que tentar viver! / O sopro imenso abre e fecha meu livro, / A vaga em pó saltar ousa das rochas! / Voai páginas claras, deslumbradas! / Rompei vagas, rompei contentes o / Teto tranqüilo, onde bicavam velas! Veja mais aqui e aqui.

A PROVA DE FOGO – A peça teatral Prova de fogo (1968), da dramaturga e roteirista Consuelo de Castro Lopes, foi escrita durante o período que estudou Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, quando participou ativamente do movimento estudantil. A peça foi proibida e em 1974 é premiada pelo Serviço Nacional de Teatro, com o título A invasão dos Bárbaros, só sendo encenada em 1993, por Aimar Labaki. Da obra destaco o trecho: [...] (Ana entra) ANA – Gente. Atenção. Eu tenho notícias... Saí de lá agora. Desde as oito, que foi quando me pegaram, que estão me interrogando. Consegui bancar o débil mental. Me fiz de cururu, eles perguntaram uns troços, e me deixaram sair. Soltaram cinqüenta. Os outros cem vão ficar presos até segundas determinações. A polícia vem vindo pra cá. A intenção deles não é matar, nem nada, mas se houver resistência eles atiram. Têm ordens. Ordens de encanar todos vocês. ANA - Tenho a lista aqui. VILMA – E o Luís? E o Luís? ANA - A lista está com os nomes dos soltos e feridos. Foi um custo conseguir isto... ZÉ – Você sabe da Júlia? Fala, Ana. Fala, tudo o que você sabe... ANA – A Júlia... estava lá. Eu vi ela. ZÉ – E daí?Ela estava bem? Torturaram ela? ANA - Torturaram sim. Não sei o que fizeram com ela. Sei que foi torturada. Não sei se arrancaram as unhas dela, se deram choque elétrico, se espancaram...sei que foi torturada. E abortou. Teve uma violenta hemorragia. Quando eu saí de lá ela estava passando muito mal. Custei a conseguir informação sobre ela na enfermaria. Ela perdeu sangue à beça. Por isso eles disseram que ela não escapa. Mas quando eu saí de lá ela não tinha morrido ainda. Não fiquei sabendo de mais nada. ZÉ – E espancaram...trituraram ... como se ela fosse um porco. Ela vai morrer, sim. Vai morrer, na mão daqueles açougueiros. Vai morrer ensangüentada como uma vaca no matadouro. Fizeram o aborto por ela. Pois sabiam que ela queria ter o filho. Nem perguntaram se queria ou não! Não respeitaram a vontade dela, porque...não existe vontade. Existe violência, só isso. Carniceiros. ANA – Vilma...O cara baleado...Foi confirmado...foi o Luís. VILMA – E ele morreu? Ana, ele morreu? (Ana abraça Vilma. Vilma corre em direção à escrivaninha e pega um revólver) VILMA – Vamos ficar. Vamos ficar aqui, todos nós. Eles vão se esbaldar. Vão se empanturrar...Vão vomitar de tanto sangue. Somos seis agora. Seis animais pro matadouro deles. Todo mundo vai ficar aqui. Atiremos neles. Atiremos neles e eles atirarão em nós. Claro, não? Não, Freitas? Todossaberão que seis jovens de vinte a vinte três anos foram almoçados como porcos. Quem sair daqui leva bala, ouviram TODOS? Agora quem manda aqui sou eu. Nós vamos vingar o Luís e a Júlia. Ninguém sai daqui. Vamos resistir. Resistir. CEBOLA – (Olhando pela janela) Agora são eles. Três brucutus! Três brucutus!  Dez carros da policia e a cavalaria. Tudo o que havia na passeata. Meu Deus! ZÉ - Vamos nos preparar e ver o que eles vão dizer. Se for o caso todo mundo se entrega sem se mexer. DARTAGNAN – Eles vêm vindo pra cá, já estão na esquina. ANA – Zé, você tinha razão. Vamos nos entregar ou morreremos todos. Alguém tem que segurar ela, Zé. Alguém tem que segurar a Vilma. Ela vai fazer uma besteira. Ela vai atirar! MÁRIO – Não se atira merda nenhuma aqui, ouviram bem? VILMA - Cada um no seu posto. Quando eles chegarem de vez, atirar. Atiras as bombas, os explosivos, e metralhar um por um! Sem medo e sem remorso. Como eles fizeram com o Luís, a Júlia e todos nós! Exatamente na mesma moeda! ZÉ – Não enlouqueça, Vilma! VILMA – Zé, você sabe melhor do que eu. Mataram o Luís e devem ter matado a tua Júlia. Nós precisamos atirar neles, Zé. É um testemunho. O povo saberá que existe a violência. Que ela não é ilusão, conversa fiada, poesia. Em todos os cantos, a violência, Zé... E em nós. Ela não podia deixar de existir em nós. Atiremos neles. O massacre vem de todos os lados. ZÉ – O suicídio é reacionário, Vilma! VILMA – Eu preciso resistir. Eu preciso matar todos eles. VOZ EM OFF – ESTUDANTES, SAIAM SEM RESISTÊNCIA! TEMOS ORDENS PARA ATIRAR AO MENOS SINAL DE PROVOCAÇÃO POR PARTE DE VOCÊS! EVACUEM A ESCOLA PACIFICAMENTE E NADA LHES ACONTECERÁ... VILMA – Fascistas! Carniceiros! Nós não nos entregaremos! VOZ – SAIAM EM FILA COM AS MÃOS PARA O ALTO! SAIAM PACIFICAMENTE COM AS MÃOS PARA O ALTO! SE HOUVER RESISTÊNCIA, HAVERÁ MORTOS! (Mário, Ana, Dartagnan e Cebola começam a sair com as mãos na cabeça) VILMA – Companheiros! Voltem, companheiros! Isso não é suicídio, não! É um ato histórico! O sangue precisa ser visto senão ninguém saberá que estamos sendo massacrados! ZÉ – Nós vamos sair também. Não atirem! VILMA – Nós vamos ficar! Vamos ficar! VOZ - JOSÉ FREITAS! VOCÊ E ESTA MOÇA QUE ESTÁ COM VOCÊ! ENTREGUEM-SE SEM RESITÊNCIA! AO MENOR SINAL DE VIOLÊNCIA, TEMOS ORDENS PARA MATAR... ISTO É UMA ADVERTÊNCIA! ZÉ – Nós vamos nos entregar. Estamos saindo, estamos saindo. (Vilma sobe na escada e aponta a arma pra rua) VOZ - NÃO QUEREMOS FAZER MAIS MORTOS! ESTAMOS DEFENDENDO A ORDEM E A TRANQUILIDADE DA NAÇÃO! ESTAMOS CUMPRINDO ORDENS! ZÉ – Que ordem é esta que vocês estão defendendo? Que ordem nojenta é esta que vocês estão defendendo? VILMA – Atire neles, ZÉ... (Rajada de metralhadora corta atinge Vilma) VOZ – ENTREGUE-SE ZÉ FREITAS, SENÃO ATIRAREMOS EM VOCÊ TAMBÉM. TEMOS ORDENS PARA MATAR. PARA MATAR. PARA MATAR. ENTREGUEM-SE TODOS COM AS MÃOS AO REDOR DO PESCOÇO. (Zé sai com as mãos na cabeça). Veja mais aqui

IMPÉRIO DO DESEJO – O filme Império do desejo (1981), dirigido e roteirizado por Carlos Reichenbach, inicialmente era intitulado Anarquia sensual, conta a história de uma viúva que descobre o paraíso da vida depois da morte do marido e da descoberta da sua casa de praia ocupada por invadores. É quando ela resolve dar uma carona a um casal de hippies extemporâneos. Trata-se de uma comédia erótica que versa sobre liberdade e amor, temas que eram bastante relevantes na época e com todos os erros, desacertos e desvarios, de forma irada, irônica e apaixonada. O destaque vai pra atriz Aldine Muller que já realizou mais de quarenta filmes e inúmeros trabalhos na televisão. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do fotógrafo francês Bruno Braquehais (1823-1875)
Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .


BANDEIRA, MONTELLO, AMIEL, VIVEIROS DE CASTRO, GAL COSTA, KANDINSKY, MINAMI KEIZI, BETO GUEDES, CONFERÊNCIA DE CULTURA & CAETÉS

O QUE SEI DO QUE APRENDI - Imagem: Aviso em dois, do pintor russo Wassily Kandinsky (1866-1944) - Há muito tempo que eu estudo, gosto de ...