quarta-feira, março 09, 2016

A FÚRIA DOS INOCENTES


Imagem: Black and violet (1923), do professor de Bauhaus, artista plástico e introdutor da abstração nas artes visuais russa, Wassily Kandinsky (1866-1944). Veja mais aqui.

A FÚRIA DOS INOCENTES

Luiz Alberto Machado

Amália tricotava singelamente as roupinhas das crianças, franzindo o cenho a cada mirabolante volteada que dava, caprichosamente, no traçado dos paninhos. Suas mãos enrugadas se ocupavam nessa tarefa todas as tardes após haver cumprido os afazeres da casa, encantando o ambiente com uma vozinha de criança, entoando uma cançãozinha infantil de antanho, que refletia a sua felicidade por tudo se encontrar no lugar devido e resplandecendo felicidade em sua vida. Os meninos àquela hora se encontravam na escola. O marido no chafariz. Todos no mundo e, por isso, uma placidez no ambiente, com o tricô salvando a solidão, post meridiem.

Cantava baixinho um acalanto qualquer e passava horas e horas assim no seu labor, consumindo as horas da sua existência. Às vezes recebia a visita de uma ou outra amiga, vizinha do bairro. A mais frequente delas era Luzia sua maneira hircina de ser e uma teimosia daquelas da mulher do piolho. Conversavam animadamente sobre muitas coisas, assunto era o que não faltava debulhando a vida de todo mundo do seu convívio, entretidas nas mais acaloradas novidades.

Leutério não simpatizava muito com as conversinhas das mulheres, pois, dizia ele, reunião de mulher só dá fuxico, motivo este evidente porque poucas de suas amigas ali se entretinham com Amália.

O traçado do tricô restituía sua paciência e clareava as ideias para aturar no crepúsculo uma zoada danada daquela que recebe a inestimável colaboração da algazarra, iniciada pelos meninos que vinham por demais sebosos do educandário escolar, até mesmo do marido sempre esbaforido e esfomeado devido um dia estafante e cheio de complicações que só os negócios sabem levar ao labirinto dos aborrecimentos e desgastes físicos e emocionais. Era a sua terceira prova de fogo do dia e de todos os dias de sua vida matrimonial.

Todo bafafá era iniciado logo nas primeiras horas dia com o café da manhã, depois na competição do almoço e, por fim, no jantar. E nisso ela era campeã, nunca desleixando nada, sempre aplicada, tática e estrategicamente disciplinada na sua função de retaguarda, na qual nenhum gol passava nem nada a tirava da vigilante posição de senhora do lar, alicerce forte do laço conjugal.

No intervalo desse inferno, vez em quando uma encomenda surgia valorizando seu entretenimento de linha e agulha no entardecer, encomendas essas sempre acompanhadas de elogios e uma presteza na entrega, dia e hora combinados.

A visitante mais assídua sempre trazia notícias do interesse dela ou de outras ávidas por adquirir toalhinhas, colchinhas, biquinhos, gorros, pulôveres, meias, sapatinhos e miudezas tão bem confeccionados e de muito bom gosto. Amália ficava a tarde inteira entretida com a narração detalhista e cheia de sensacionalismo de Luzia.

Numa dessas tardes mormaçadas, soaram umas palmas do lado de fora, atrapalhando a conversadeira. Era uma senhora por nome de Gertrudes que viera encomendar três peças. Mal chegara e já elogiava, insinuando perfeitas engenhosidades por mãos hábeis no tear e praticamente fechara o negócio marcado para outro dia vir apanhar. Logo partira com seu rosto acopitrino e suado, sardenta, enervada e com muita gesticulação. Chamara a atenção das duas mais por seu jeito atormentado que pela repentina chegada para aquisição do desejado.

- Não gosto nada da cara dessa mulher! -, asseverou Amália.

Luzia reprovou o jeitão da Gertrudes, parecia gente problemática e de má procedência.

- Sei não -, pensou ela -, acho que essa mulher deve ser catimbozeira ou coisa do gênero-, desconfiou Luzia deixando a pulga atrás da orelha.

Ainda nem eram cinco horas da tarde e Luzia se despedia, se retirando com a aparição dos meninos cheios de estardalhaços, causando a maior zoadeira dentro de casa. Este escarcéu perduraria até a hora da ceia. Poucos minutos depois chegara Leutério, apressado, tirando a camisa e depositando na primeira poltrona encontrada, sapatos e meias jogadas de lado, cinturão solto da abotoadura da calça, expondo sua pança enorme e já se sentando à mesa para degustação do que lhe apetecia nos pratos devido variadas iguarias expostas. Era uma fome de derrubar caminhão. Uma barulheira medonha. Após a janta os meninos se esgueiravam para brincar na rua, as meninas colaboravam na cozinha e Leutério se atolava na poltrona para assistir televisão. Arrotava e peidava ele o inhame ingerido com carne de sol, além do café com dois pães à base de manteiga de garrafa, queijo de coalho, bolacha e bolo, fazendo um BG estranho enquanto se fixava nas notícias do jornal nacional. Antes das vinte e uma horas se recolhiam todos ao leito e o ronco dominava a noite.

Esse era o panorama consuetudinário na vida de Amália, só tendo exceção aos sábados, dia de feira, quando a casa era invadida por parentes de todas as bandas. Eram compadres, afilhados, primos, tios, cunhados, aderentes e amigos próximos que só se despediam depois do almoço. Ou aos domingos quando todos se enfileiravam perfilados com destino à igreja, na missa dominical, comungando na remissão dos pecados praticados durante a semana. Leutério aproveitava a ocasião invocando preces variadas, orações ardentes e uma promessa para Nossa Senhora da Conceição manter sua família unida, tranquila e incólume das tentações que se dissipam na vida, trazendo os mais indesejáveis dissabores e decepções travosas capazes de destronar o sujeito de bom senso. Não esquecia Leutério também de rezar para outras Nossas Senhoras como a do Desterro, de Fátima, Aparecida, das Dores, além de Santo Antônio, Padre Cícero Romão Batista e Frei Damião Bozano. Devoção mesmo dele era para o Santo Antônio dos Caminhantes.

Terminado o prazo acertado entre Amália e Gertrudes, a requerente apareceu como de costume, à porta, adentrou apressadamente para buscar o solicitado, fazendo-se o acerto ali mesmo.

- Que bonitinho, eu sabia que ia ficar uma gracinha, muito bonito, pode embrulhar.

- Em papel de presente ?

- Sim. Que fofinho que ficou, parabéns, Amália.

- Obrigado, aqui está!

- Em quanto ficou a encomenda?

- Bem querida, dá...deixa ver... dá duzentos reais tudo!

- Quanto ?

- Duzentos, baratinho, não?

- Oxente, é de ouro é ?

- Não é disso mesmo que você está pegando...

- Então, tá muito caro!

- Não senhora, olhe só o trabalhão, veja os detalhes...

- Mas isso é um assalto, só dou cem por estes três paninhos mixurucas, por duzentos é um roubo!

- Pode deixar, não enferruja, não! Outro compra, pode ir, fica no prejuízo, não faço mais negócio com gente encrenqueira da sua laia, nunca mais, destá!

Gertrudes saiu violentamente quase arrancando a porta, levando as compras e sem pagar. Sequer agradeceu. Soube-se, então, depois, tratar-se de umas dessas maldizentes mulheres que chiam sempre na hora do dinheiro aparecer, achegadas a um arrego, uma cortesia, uma gentileza gratuita. Era uma dessas que compram mundos e fundos, acham tudo maravilhoso, bancam a maior amabilidade para comprar as coisas já que são as maiores produtoras do consumo, agradam uns e outros, agora, quando é para pagar, oxe, é um bicho, na moleza se apropriam do que é dos outros, enrolam, esnobam, afanam, pidonas que são angariam molezas e só vivendo do me empresta aquilo, me ajeita isso. Pois é, é com esse tipinho de gente mesmo, não escapole nada, nem remédio. Amália que não dava o braço a torcer, desprezara a situação como uma esmola, uma causa perdida. Ignorava, todavia, o que estava por vir.

- Olhe, Luzia, razão tem Leutério em não admitir coisinhas com certo tipo de gente. Não sei onde eu estava para aceitar fazer esse negócio, não sei mesmo.

- Não se aperreie, Amália, são coisas da vida. Se fosse eu, dava na cara dela, dizia um bocado de desaforo para ela aprender a não fazer engicamento com ninguém.

Nem bem passava das nove horas da noite, ouviu-se uma gritaria na calçada e uns estalidos no telhado da casa. Leutério assustado abriu o basculante que dava para a rua e enxergou uma mulher desgrenhada a dispensar passes malfazejos e a jogar, conforme disseram depois, terra de cemitério sobre o teto de sua residência.

- Vocês vão sentir a fúria de Ferrabrás nos seus domínios, lote de gente safada! -, maldizia Gertrudes desgrenhada na calçada. Vociferava com insinuações de maus presságios, dando gargalhadas soltas e sinistras, até se esboroar por ai sob protestos os mais descabidos. Toda assanhada, a mulher estava irreconhecível, conseguindo, com isso, reunir muita gente em frente da residência de Leutério, que depois soube tratar-se de Gertrudes catimbozeira, a maior criadora de problemas da comarca.

- Que droga que essa mulher tem, Amália?

- É uma encrenqueira safada, queria comprar umas rendas e pregou um calote em mim.

- Eu já num disse para você não....

- Eu sei, Leutério, eu sei, ela foi que veio com desaforo dentro da minha casa e ainda levou minhas prendas de graça.

- Ela, todo mundo sabe, é gente ruim.

- Deus nos livre!

Uma situação dessas era de dar vexame em qualquer cristão desprotegido, deixando meio mundo de gente abismado e com os olhos arregalados, um verdadeiro espetáculo na calçada dele, prevendo que alguma coisa mal estava por acontecer, partindo daquela endiabrada senhora trazendo agouros que, com certeza, estariam predestinados a ocorrer.

Trinta dias se passaram do sucedido com a malvada e já se detectava o revide da fortuna arremedando tropeços, determinando o sortilégio do recinto cheio de apreensões, um verdadeiro momento aziago no começo de tudo, causando todo abalo das emoções. Sob informação sigilosa e no meio do maior enredamento, soube Amália, em que situação nefasta estava se metendo. Logo, logo chegou ao seu conhecimento, sob deduções de candinhagem, que Leutério mantinha uma outra mulher, a qual, inclusive, já tivera um filho seu. A constatação não demorou muito com as usuais maneiras de se descobrir aquilo. Certificada da veracidade, Amália tornou-se uma heroína de adversidades, principalmente pela pecaminosa mancebia do marido. A discórdia já havia se instaurado apesar da insistente negativa dele, porém as evidências eram inegáveis. A concubina achando pouco a descoberta dela ainda foi fazer desfeita, desaforando-a com uma promessa de surra, no meio de um bate boca dos grandes. O lar virara uma violenta tormenta. A outra atendia pelo nome de Dulcelene e era dessas da zona do baixo meretrício, levada por um apaixonado amante para morar numa casa própria, adquirida por ele, exclusivamente para a manutenção do emancebamento. Também soubera que ela era dada a um catimbó e crendices outras, meios pelos quais, diziam, prendera Leutério com seu feitiço. O vínculo entre as duas mais se acirrava com troca de insultos, ameaças e amaldiçoamento de ambas as partes. Ardilosa, a catimboseira passou das contas: fez uma oração do credo às avessas, se apoderando de um gato preto sem sinal nenhum, cortando a ponta de sua cauda e furando os olhinhos do bichano até arrancá-los. Depois cortou três unhas do pé esquerdo do felino, ajuntando sete pitadas de cova de cemitério, mais chique-chique, pimenta da costa, pimenta malagueta, vinte centímetros de morim, apondo o nome de Amália num sino Salomão além de preparar um caixão, deitar tudo dentro e enterrando numa encruzilhada jamais descoberta. Não bastando ainda fez mais: juntou umas folhas de comigo-ninguém-pode, mais um punhado de pólvora, cinza, mel de abelha, azeite dendê, salva, folha de urtiga, casca de ferida perebenta, pó de chifre de boi, misturou tudo numa panela de barro e jogou na correnteza do rio. Pronto.

- Agora ela vai ver com quantos paus se faz uma jangada. Nunca mais vai ter sossego na vida. O sal dela está se pisando!

Amália fora cientificada por Luzia do despacho de Dulcelene e da mandinga de Gertrudes. Elas fizeram dois trabalhos enviesadores na vida da coitada Amália, recebendo da informante o seu sermonário para que, entrando em contrição, pudesse amainar sua sina, resignando-se em penitências. Luzia propôs ainda que ela fizesse um serviço numa encruzilhada com um catimbozeiro de respeito, buscado a peso de ouro em Cachoeira ou São Félix, na Bahia, senão ela morreria devagarinho. Amália que era descrente com relação a isso, reagiu por não fazer alguma coisa porque Leutério, se sabedor disso, recriminaria sua atitude, pois que ele não acreditava nessas coisas também, até abominava. Mesmo assim, instruída pela amiga providenciou logo uns banhos de sal, pimenta e água benta pela casa.

A essa altura do campeonato a situação estava ficando preta. Leutério passou a discutir muito com Dulcelene e, por retaliação, se desligou dela definitivamente. A cólera da mandingueira deu de se assanhar mais ainda fazendo um catimbó pesado para ele: apanhou um sapo, prendeu-o pelo pé, de cabeça para baixo numa árvore do quintal e todo dia dava uma pisa no batráquio. Depois escreveu o nome dele no bucho do anuro, dando nele até morrer.

No dia seguinte passava pela rua principal a procissão do senhor morto e Amália fez questão de acompanhar, preocupada com tal infausto. Ao voltar do cerimonial ela começou a se queixar de diminuição das vistas, enxergando muito pouco, se dizendo estar ficando cega. Tudo se embaraçara na sua visão, foi ficando tísica, com uma cegueira gradativa. Não teve dúvidas e passou a ingerir tisanas e unguentos, distribuindo defumadores pela casa, defumador de espinho guandu, banhos de sal com liamba e arruda, tudo orientado por Luzia. Leutério notando a cegueira que se agravara fez levá-la a um médico. No hospital, esperaram hora e horas numa fila imensa que estava por ser atendida na sua frente, várias fichas despachadas, a dele fora justamente a última. Após muitas horas de espera, o doutor José Paz chegou para atendê-la e quando a viu pegou-lhe logo pelo pulso, nervosamente, respirou fundo e começou a dizer palavras incompreensíveis num dialeto desconhecido. O médico apressou-se e fez chegar ali um copo de água, limpando o birô ligeiramente e nele forrando uma toalha branca, sentando-se de lado e apertando a mão dela, fazendo muxoxos, caretas, trejeitos, contorcendo-se todo, virando os olhos até que repentinamente se acalmou.

- Está vendo alguma coisa ?

- Estou.

- Que cor é a camisa do seu marido?

- Bege.

- O que tenho na mão?

- Um isqueiro.

- Tem tomado algum remédio?

- Não.

O doutor José Paz logo prescrevera uns medicamentos acrescidos de uns banhos, orações do testamento kardecista, passes, defumadores na casa toda, umas pílulas para acalmar os nervos e liberou o casal. Leutério aproveitou e consultou-se com o médico sobre um problema que estava azucrinando seu juízo. Era que quando ia mijar, aperreava-se todo da bimba ficar doendo que só, queimando, espremendo-se de chorar.

- Isso é sério, compadre -, disse o médico já sabendo do que se tratava. - Tome isso! -, e deu uns cachetes sob recomendações. - Pode ir.

O homem até que saiu satisfeito do consultório, de braços dados com Amália pela rua afora, fato que não ocorria há mais de vinte anos. Ao se aproximarem da casa notaram que o doutor José Paz se aproximara com o seu automóvel, parando para cumprimentá-los. Numa pabulagem solta em frente à residência deles, quando, inexplicavelmente, se sucedeu: o veículo do médico começou a incendiar, reduzindo-se às cinzas em poucos minutos. A cegueira dela piorara ali, ela não via mais nada. Tendo uma vertigem, ela se escorou no marido, alegando que ia desmaiar. O médico atormentou-se e pulava de um lado pro outro feito louco.

- O negócio é pesado!

Doutor José Paz, meio que desconsertado, empurrou os dois para o interior da residência deles, avexado, recorrendo à mesa da janta, exigindo um copo d'água e um pano branco, forrou tudo, colocou o copo no centro da mesa e foi passando uns passes espíritas. Ainda meio tresloucado, soltou uns suspiros violentos e depois se esgueirou rua afora. Amália, desamparada, se consumia degradantemente, ficando de juízo mole, sofrendo alucinações, definhando, agonizando, a ponto de sentir-se a hora da morte que estava sendo aguardada com agonia. Oxe, benditos e excelências explodiram na sala. E nem bem esperava, o último suspiro pesava tragicamente no ambiente. Foi uma correria. Quando deram conta já se encontravam ao lado do leito mortuário. Serenos, todos entoavam aquelas toadas lamurientas, repetindo-se lancinantemente numa vigília de piedade. As cantadeiras não permitiram suspender as orações por via de Nossa Senhora poder se levantar... já extrema unção. Amália se sentiu bem, falava mas ninguém ouvia, todos contritos e ternos na cerimônia.

- O que está havendo ?

Amália reclamava de todos, não ouviam sua inquirição, sem receber a menor atenção dos comparecentes. Estavam, para ela, todos loucos. Ela estava vivíssima. Teria ficado invisível? Não se sabe, apenas que mesmo sepultada ainda hoje ronda a residência de Leutério.

Tudo isso foi o que me contaram, já quase amanhecendo, numa roda de caçadores na varanda da casa do engenho, depois de uma noite de causos e acontecidos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: A arte do pintor Norman Engel.

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