segunda-feira, março 07, 2016

O TRAUMA DA MOÇA

O TRAUMA DA MOÇA (Foto Acervo LAM) – Brunilda acordou feliz com as suas dezesseis primaveras. Ela ganhou de presente nesse aniversário aquilo que desejava como a razão pra sua própria vida: um telefone celular novinho. Era o desejo de um aparelho sofisticado e assim o foi. Custou os olhos da cara do pai, mas sua vontade foi satisfeita. Agora ela podia conversar, filmar, fotografar, ouvir música, baixar e enviar arquivos, enfim, era tudo que precisava para ser feliz. A sua felicidade dependia disso. Agora sim, ela podia dizer que estava à altura das amiguinhas, não mais a última do grupinho a se atualizar na moda. De certa forma, entendia porque o pai, quando estava em casa nos últimos dias, fazia contas e mais contas. Devia de ter comprado numa valsa interminável de não sei quantas prestações, isso não importa, não vem ao caso, o que importa mesmo é que estava exultante por estar na moda e agora esquiparada às colegas do seu rol de amizade. Já se sentia excluída, infeliz e um nada de gente. Agora não, agora era gente de verdade. E foi se arrumar com suas roupas de grife combinado com aquela novidade. Podia agora estufar o peito e dizer: estou na onda. E se arrumando já pensava em como chegar pra turma da classe e exibir-se com aquilo que a traria de volta à imponência de ser gente de posse, gente fina e não uma pé rapado como estava se sentindo nos últimos tempos. Agora sim, agora ela podia ir fazer o trabalho escolar com dignidade e altivez, aproveitaria para mostrar pra turma do colegial o seu presente. O trabalho era uma coisa que desgostava, porém era o seu momento de se mostrar. Trabalho em equipe, hummmmm, isso lhe causava certa antipatia e mal-estar. Por que? Ninguém até agora lhe explicou direito a razão de se estudar literatura e ter que ler um texto de mais de cem anos, um tal de O espelho, de um certo escritor Machado não sei que lá, que ela não sabia quem era e que vivia num tempo que não era o dela, não tendo nada que ver com a sua vida, nem com seus sonhos. Ela já não gostava de ler e vinha essa obrigação forçosa de que tinha que ler e interpretar! Coisa mais sem propósito para ela isso de ter que ler, pensar e adivinhar o que o tal escritor queria dizer, isso é muito chato pra ela. Ficava aborrecida com isso, mas destá, ela preferia que fosse uma letra de música para decorar, principalmente se fosse de um funck novo, ou alguma poesia romântica. Mas os da escola? Tudo chato. Pra que estudar? Para que ler literatura, tudo uma velharia, passado, ela queria viver o presente, isso sim. Essas coisas do colégio são tudo chatas, os professores uns porres e os assuntos piores ainda. O que tinha a ver com a vida dela equações, fórmulas, leis, essas coisas tudo uma chatura da braba. O que é a vida? Para ela, com certeza, a vida não era nenhum dos conteúdos ministrados na sala de aula. Pra ela, viver é cantar, dançar, comprar, passear, ficar, curtir os amigos no shopping ou no cinema, nos barzinhos, nas festinhas e, sobretudo ficar e, se der certo e firme, namorar com um garoto lindo que será seu príncipe encantado para sempre. Antes disso, só beijar na boca e ficar muiiiiiiito. Ah, ela resolveu dar um chute na chateação e se arrumar melhor pra mostrar o seu presente pra galera, desfilando suas grifes, se mostrando presente e no ranking da moda. Foi aí que ajeitou-se toda, pôs o par de fones no ouvido e saiu dando um tchau breve pra mãe. Apressada, abriu e fechou a porta, livrou-se do portão e já na calçada saiu embalada com o som que rolava nos fones, curtindo o último lançamento dos funkeiros. Lá se ia contente e maravilhada na calçada da rua pro ponto pegar a condução, acompanhando a marcação da música, quase já coreografando com o andar a dança do seu universo, seu mundo, não via ninguém nem nada, só a música, seus sonhos, seu momento de felicidade. Nem deu conta de uma motocicleta parando ali perto, quase na sua frente e o passageiro descer da garupa e se dirigir até ela, assustando-se com a aproximação. Nem deu conta da mãozada que lhe deu de deixá-la estendida no chão. Três dias depois acordava ela na cama de um apartamento de hospital: afundamento craneano, duas costelas e o braço esquerdo fraturados, o olho esquerdo fechado e o pau da venta inchadíssimo, hematomas e escoriações. Quando tomou conta da situação viu sua mãe chorosa, seu pai aos pés da cama, seus dois irmãos encostados na parede, tudo muito triste. Ela olhou para cada um, olhou do lado e quando ousou falar, sentiu dificuldade. Conseguiu balbuciar esforçando-se: - Cadê meu celular? Ah, foi aí que tomou ciência: fora assaltada e espancada. E o seu presente de aniversário, no assalto, o dono levou. Um pranto inconsolável encheu o ambiente. (Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

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Imagem: a arte da pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui e aqui.

E veja mais: É pra ela, Carlos Gomes, Silviane Bellato, a lenda munduruci Quando mandavam as mulheres, Neila Tavares, Heloneida Studart, Maria Esther Maciel, Monica Bellucci, Giuseppe Tornatore, Piet Mondrian, Edwin Landseer & Meimei Corrêa aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem Nu, do pintor do Neoclassicismo francês Alexandre Cabanel (1823-1889).
Veja aqui e aqui.