terça-feira, abril 26, 2016

GANHAR O MUNDO NO RUMO DAS VENTAS


GANHAR O MUNDO NO RUMO DAS VENTAS - Robimagaivi vivia insatisfeito com a sua vida. Pra ele, o sal não só se pisava na moleira, como a madrasta da sua existência devia de tê-lo enrolado na boca de um cururu inchado e ficar futucando com tridente de ferro em fogo vivo no pior vudu. Pra ele, tudo era injusto, não merecia aquilo. Não se dava por fracassado, porém, às vezes, arreava de quase num poder nem sair duma depressão braba. Tomava um cachaçada pra desarrumar o juízo e achar o caminho da casa de caixa pregos. Pronto, estava novinho pra enfrentar tudo e todos. Estudar, não pôde. E por duas razões. A primeira: tinha que ajudar no sustento da casa. Deixou a escola pra se meter nos afazeres que aparecessem para amealhar qualquer trocado. Era que sua mãe, uma lavadeira que vivia só de trabalhar da hora que acordava até a hora de dormir, tanto com os afazeres domésticos como com os compromissos com as trouxas de roupa dos fregueses na beira do rio, não parava de lhe puxar na responsa. Seu pai, um faz-tudo, puxou a ele. Não tinha emprego certo, consertava de penico a erros de cálculos nas construções. Reclamava de manhã, de tarde e de noite feito cantiga de grilo: - Arrumi sua vida, traste! Quem tem fi’baibado é gato, fidapeste! E o filho seguia o mesmo caminho, isso quando não dava na doida de inventar umas coisas imprestáveis que até funcionavam por um certo lapso de tempo pra tapeação dos bestas, depois travavam de um jeito de não terem serventia pra nada. A segunda, nem a escola, nem os professores lhes caíam nas graças. Nenhum conteúdo ministrado na sala de aula chamava a sua atenção: - Num sei praquê aprendê essas coisa, num vejo valia nenhuma na minha vida nem na de ninguém. O que era do seu interesse, não passava nem por perto do que era levado a sério pelos professores, coisas que, pra ele, eram da maior importância, mas que a escola não dava a mínima. É certo que ele vivia com a cabeça nas nuvens, envolvido com leituras sobre OVNIS, histórias de trancoso, literatura de cordel, enigmas de civilizações antigas e avançadas, milagres e reencarnações, vampiros e seres sobrenaturais, tragédias avassaladoras e ficção científica. Isso sim, pra ele, assunto que dava sustança nas ideias dele, de vê-se criativo e no meio delas. Como não estudou, não tinha profissão certa. O que aparecesse, ele traçava. E até que davam realmente certas. Nem tanto. De dez serviços feitos, o dobro de broncas por retorno. Tanto que apelidaram de recall: - Ô disgracento, aquela merda que tu fizesse, dexô o troço impancado lá em casa, visse? Tu vai reconsertá logo sinão a ziguizira comi pro teu lado! Tu num é rico pruquê é um rical da porra! É, o cara andava embroncado as vinte e quatro horas do seu dia, os sete dias da semana, todos os meses e anos seguidos nas décadas de sua existência. Não era só que ele fizesse nada que prestasse, não só isso, eram os recursos utilizados de procedência química lá da cabeça dele, de juntar alhos com bugalhos, como usar cuspe na condição de cola, arame como fiação, em suma, o rei da gambiarra. Emendava de tudo, sempre tudo na base do paliativo. Na horagá, se enrolava com seus improvisos. Casou-se duas vezes, não deu certo. a primeira, uma Xantipa, pior capota-choca, de empurrá-lo no abismo abaixo. A segunda, valha-me, pior que a primeira: pense num trubufu maldizente! Agora convivia com uma secretária aprumada que praticamente o sustentava, mas de vez em quando botava ele pra correr. Coisa incerta. De tanto aprontar e se engalfinhar com a vida, deu de tomar conta de si, na tentativa de aprumar a conversa e dar um rumo pras ventas. Mas fazer o quê? Olhava pros quatro cantos do mundo e não via saída. A mulher, o pai, os amigos, todo mundo só: - Vai arrumá o quifazê! Vai fazê um curso, se aperfeiçoá, se profissionalizá em alguma coisa na vida, homi! Deixa de sê imprestávi, procura tê serventia! Isso enchia o seu saco, estava já perdendo a paciência. – Eu vô é arrumá meus bregueços e caí no mundo, ora! Não via oportunidade ali, Alagoinhanduba era menor que os seus anseios. – Ele tá meio aluado! -, diziam. – Meio? -, asseverava o pai: - ele tá é todo, esse fi’da gangrena da boba torrero! E ele respondia: - De certeza, só a morte! Quaiqué viela é caminho pra quem num tem pronde ir! Ainda semana passada ele estava se despedindo do povo que ia pra São Paulo pela segunda vez, de pé. Da primeira, voltou irreconhecível quase um ano depois. E isso não tem nem dois anos. Hoje faz uma semana que ele desapareceu, parece que ganhou o mundo no rumo das ventas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

 Imagem: a arte do pintor francês Eugène Delacroix (1798-1863). Veja mais aqui.

 Curtindo a coleção de cds The Warner Recordings (Warner, 2014), da pianista francesa Hélène Grimaud interpretando diversos compositores.

PESQUISA
Estudando a obra Entre o mito & política (Edusp, 2001), do historiador, antropólogo e professor francês Jean-Pierre Vermant (1914-2007).

LEITURA 
Relendo o livro Diálogos com Leucó (Cosac & Naify, 2001), do escritor, crítico e tradutor Cesare Pavese (1908-1950).

PENSAMENTO DO DIA
Pra quem perdeu a bússola, o rumo da venta só leva pro caminho da casa da peste! (LAM)

Veja mais Brincarte do Nitolino, Ludwig Wittgenstein, Filippo Marinetti, Azar Nafisi, Eugène Delacroix, Nelson Freire, Dadá – Sérgia Ribeiro da Silva, Augustine, SoKo, John De Mirjian & Maria Iraci Leal aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nu, da artista plástica e ilustradora Caroline Vos.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.
 

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele ...