sábado, abril 09, 2016

UMA LEMBRANÇA PERDIDA NO HORIZONTE

UMA LEMBRANÇA PERDIDA NO HORIZONTE (Imagem: As horas, da artista plástica Inês Dourado)- Manoel Solidão odiava os livros: - Se soubesse quem inventou escola, eu matava! Não há vantagem alguma em estudar! Não vale nada; o que vale é dinheiro no bolso e só! Essa a sua ideia de vida. Fez o primário e concluiu o ginasial a pulso. Escolheu o curso de torneiro mecânico, seu sonho: operário da usina de Alagoianduba. Ah, já se via no macacão, capacete, maleta de ferramentas e assediado pela Mulher da Sombrinha. Não deu: perdeu o polegar da mão esquerda, na hora de um descuido na guilhotina. – Que é que fui fazer naquela guilhotina? Arrependia-se. Não perdoava Deus nem ninguém. Amargo, tudo na base da Lei de Talião: - Se desaforo vier, volta no mesmo tanto. Brinque não! -, ameaçava. Se alguém sorrisse: - Que alegria é essa? Segura o cacarejo, ora! Se ouvisse uma oração: - Pra que isso? Se Deus existisse atendia seus pedidos na hora! Se visse felicidade por algo: - Nunca vi nada que chegue e num se acabe! De tão chato de galocha, ninguém suportava o seu estraga prazeres. A antipatia fê-lo só. Nesse meio tempo, não se sabe como, enamorou-se por Dordília. Já na meia idade, intragável como era, inimaginável conquistar o coração de mulher que fosse. - Qual doida aguentaria uma trepeça dessa? -, apontavam. Mas foi. – Só uma desalmada que não tivesse um pingo de amor próprio pra viver com um cara desse! -, asseveravam. Pois é, pra tudo no mundo existe jeito. E ela, de tão calada, parecia muda. Só nos afazeres de casa e pronta pra satisfação dele. Nunca um reclamo, uma careta, sequer um muxoxo, pigarro, tosse, ou coisa do tipo. Do jeito que acordava, ela ralava o dia todo e quando a noite imperava, dormia o sono dos anjos sem esboçar qualquer reação que fosse de ser vivo. Parecia invisível, não opinava, sempre ocupada e só. Pariu do mesmo jeito que engravidou: sem um suspiro, sem carinho, nem palavra. Só se soube porque o menino chorou na hora do parto. Ela sozinha, a criança nos braços. Ocupado em seus afazeres e a arengar com o mundo, Manoel nem viu o bruguelo crescer e chegar a hora de ir pra escola. – Esse menino não precisa de estudar, tem que ser feito o pai: bruto de nascença. Escola é perda de tempo. E nessa pacutia não viu nem o garoto crescer, de chegar o dia de sua formatura na faculdade. – Que faculdade? -, perguntou o pai quando viu o convite. Puxando a mãe, o menino nem falava. Por isso o pai nem dera conta de que já era um rapaz formado em Pedagogia, se preparando para um mestrado na universidade da capital. – Pra onde? Alguns finais de semana o pai só via o menino pelas costas. – E já foi? A mulher não perdia tempo em responder, sempre ocupada nas lides domésticas. Um dia Manoel viu um sorriso nela: abraçada com o filho. – Olhe esses mimos! Não quero viadagem aqui em casa, esse menino tem que ser homem que nem o pai! Negócio de abraços e beijos, é coisa de viado. Nem deu tempo dele saber que o menino estava se doutorando na Europa. Só chegou a vê-lo quatro anos depois. – Cabeludo? Isso é coisa de viado! Logo que desconfiei que essa mulé estava botando esse menino a perder. E saiu. Lá pras tantas quando retornou ao lar, procurou a mulher e o canto estava mais limpo. Não havia sinal dela. Chamou por ela pela primeira vez, perda de tempo, ora, se nos últimos quase trinta anos ela nunca deu um pio, não haveria de responder ao seu chamado agora. Vasculhou a casa. – Essa mulé tá brincando de se esconder comigo, é? Foi no quintal, atravessou a cozinha, entrou no quarto das catrevagens, passou no quarto do filho, abriu a porta do banheiro, pelo quarto do casal, na sala e foi até a rua. – Alguém viu minha mulher? Ninguém viu, ninguém sabia. É possível que pelo gênio dele, mesmo que soubessem, nada diriam. Ele mesmo não deixava ninguém falar, rechaçando qualquer diálogo com quem quer que fosse. Saiu cheirando a casa, aguçando o faro, ver se descobria o paradeiro dela. Sentiu-se só pela primeira vez na vida. Não sabia do paradeiro, nem de familiares, nem de nada além do nome da mulher. Quase trinta anos de convivência e nunca procurou saber nem do sobrenome dela. Não tinha do que reclamar: roupa passada, comida sempre pronta na hora que chegasse, casa limpíssima, tudo organizado e disponível antes até dele imaginar qualquer solicitação pra ela. Sem ninguém, ele nem se lembrava mais que dia é hoje. Tanto faz se ontem ou amanhã. Pra ele, é tudo a mesma coisa. Aliás, sempre foi. Agora, de diferente, só a ausência dela, uma lembrança perdida no horizonte. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: a arte da pintora chinesa Mary Qian.

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