quinta-feira, maio 12, 2016

ENFERMEIRA & A DOR DE SER MULHER


ENFERMEIRA & A DOR DE SER MULHER (Imagem: A musa chora sobre a coluna, da artista plástica Nanduxa) - O coração doi, como o meu nome: Das Dores. A dor sempre, convivência. Doía mais quando entrei na profissão. Tudo começou quando terminei o segundo grau e fui fazer um curso de primeiros socorros. Descobri o que era de gosto, foi isso que escolhi. Sempre adorei cuidar de gente, todo tipo, principalmente crianças e velhos. As crianças me enchiam de satisfação, a índole maternal. Pras pessoas de idade avançada, eu me envolvia numa atração apaixonante entre afeto e comiseração. Era a minha forma natural de ser caridosa, sempre ao auxílio de quem necessitasse. Comecei estagiando num posto de saúde num bairro próximo à minha casa. Foi daí que pude, então, começar a fazer um curso técnico. Mais dois anos, passei no vestibular e iniciar o curso superior. Cinco longos anos entre o atendimento e a formatura. Não foi fácil, muitas vezes tive de virar a noite em claro, entre estudos e emergências. Durante essa caminhada, fui contratada para trabalhar num hospital particular de uma cidade vizinha. Foi quando conheci todo universo de gente estropiada. Confesso que chorei muito ao longo desses anos, quantos problemas, quanta gente doente. No hospital a coisa era mais complicada: doenças, acidentes, crimes. Aquilo não era o mundo de paz e harmonia que eu sonhara, não era nada do que pensava ser a vida. O inferno estava a cada segundo da noite ou do dia, em cada porta que abria, em cada corredor que passasse, em cada lágrima escondida no banheiro. Gente doente com falta de ar, ou a face desfeita e inchada por pauladas muitas, ou balas, facadas, escoriações, amputações, fraturas expostas, desilusões depressivas, enlouquecimentos, enfermidades tantas. Meus sentimentos foram se moldando com o passar dos tempos, perdi o afeto, tive de perder a compaixão. A vida ensina. O pior era que ainda por cima tinha de encarar os lobos maus de branco com apalpadelas, cantadas, promessas e injúrias. Caísse na antipatia deles, estava ferrada. Todos eram de uma forma ou de outra parentes ou achegados dos sócios donos do hospital. Uma panelinha pronta para quem caísse na berlinda, uma arapuca sem saída. Um dos donos mesmo gostava de chegar tarde da noite com bafo de álcool pra revolucionar: dar alta, remediar, prescrever exames e medicamentos emergenciais, afora sair beliscando as nádegas das enfermeiras, quando não agarrando-as e se esfregando, levantando as saias e obrigando ao sexo fosse na enfermaria, apartamento, no dormitório, onde fosse. Uma vez mesmo, numa madrugada que eu aplicava a medicação de um paciente de idade e que só mexia os olhos abertos desde que chegara, assim, de repente, esse doutor dono invadiu a enfermaria como se eu fosse a última fêmea da face da Terra. E foi logo me agarrando por trás, levantando minha saia, enfiando uma das mãos na minha vagina dentro da calcinha, a outra se enfiando dentro do meu sutiã para amolegar meus seios, grunhindo com olhos vermelhos e costumeiro bafo de bebida, apressado já abrindo a braguilha e demovendo minha calcinha, de sentir seu membro quente e rijo entre as minhas coxas e intimidades, quando o paciente moveu uma das mãos e pegou a minha, levando-a até o seu ventre, ao que gritei e se assustaram, o médico e paciente. Apressadamente me recompus e saí chorando. A minha desilusão não parou por aí nessa noite, descobri o papel de cafetina exercido pela enfermeira-chefe para se manter no cargo e no emprego, a me aconselhar simpatia e bom grado às investidas dos donos, médicos e pacientes. Não aguentei e, mesmo assim, fui ultrajada, injuriada e demitida por me recursar dessa prática. Eu me vi no olho da rua, sem horizonte, sem futuro, sem nada. O meu sonho havia sido pisado e jogado no lixo. Tive de refazer a vida, graças a um concurso público, pude conhecer o inferno de um hospital geral público. Plantões longos, intermináveis: uma criança que engoliu moedas, um marmanjo acometido de priaprisma, uma senhora em estado de choque, uma jovem suicida sofrendo o mal de amor, um ancião com fratura na espinha dorsal de uma queda, um jovem com um tiro na nuca, um casal vítima de atropelamento, um motoqueiro semimorto, um médico se entupindo de medicamentos e bebidas para suportar seu trabalho, ocorrências diversas, acidentes e fatalidades. O mundo me ensinava ainda mais. Ninguém se encosta para ajeitar na ajuda, só atraso de vida. Quando a bondade aparece, vá ver: é só tapeação. E a desilusão é uma porta que se abre constantemente para desmantelar qualquer condição de dignidade e respeito. A minha profissão me fez desumana, insensível. Procuro por mim mesmo e não me encontro: essa não sou eu. Apesar da voz melíflua, da minha maternidade latente e da ternura que carrego ao peito, a dureza do cotidiano laboral me faz ser o que não sou: um robô cumprindo ordens e tratando indiferentemente cada necessitado. Essa não sou eu. Doi-me mais o desencanto dos amores desfeitos, das paixões mal-resolvidas, da incompreensão dos homens. Agora doi mais o coração de uma mulher. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui
Imagem: A arte do escultor, performer e artista plástico alemão Joseph Beuys (1921-1986)

Curtindo o álbum Cello Music of the fin de siecle in Vienna (Camerata, 2000), com obras dos compositores Johanna Müller-Herman (1868-1941), Karl Weigl (1881-1949) e Anton Webern (1883-1945), na interpretação de Othmar Müller (cello) e Leonore Aumaier (piano).

PESQUISA
69 histoires de désir (Electa), do professor e pesquisador francês Jean-Manuel Traimond, em obras que estão na História da Arte da França, Alemanha e Espanha.

LEITURA 
A artista do corpo (Companhia das Letras, 2001), do escritor, dramaturgo e ensaísta estadunidense Don DeLillo. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
O ser humano não é somente o ser pelo qual se revela a negatividade no mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relação a si, da obra O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica (Vozes, 1997), do filósofo, escritor e crítico francês Jean-Paul Sartre (1905-1980). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais Erich Fromm, Dalton Trevisan, Plinio Marcos, Camões, Florence Nightigale, Bebel Gilberto, Dante Gabriel Rossetti, Coles Phillips, Edward Lear, Isabelle Huppert, Claude Chabrol & Katharine Hepburn aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A enfermeira Tataritaritatá!
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele ...