segunda-feira, maio 23, 2016

RENASCIDO DA SEGUNDA MORTE

RENASCIDO DA SEGUNDA MORTE - (Imagem: acrílico da artista plástica Chris Cozen) – Era uma manhã nublada de julho, 1983. Uma noite mal-dormida de cansaço pelo ensaio, reuniões, debates. Álcool no sangue e a cabeça ao vento. Estava apressado, uma quase mania. Tudo no ponto, porém, a pressa, pois, pra mim deveras atrasado para o labor. Nada, inconsequência minha. Açodamento desnecessário. Impaciente de esperar a condução, prefiro, então, descer até o cruzamento e me juntar na guarita com outras pessoas. Ali aguardo o ônibus sempre muito mais atrasado que eu. Passar o tempo, conversa mole, piadas ocasionais. Era bom estar àquela hora com essa gente, logo o transporte chegaria, entraríamos todos e manteríamos a manhã agradável como precisava que fosse para mim em mais um dia estafante de trabalho. A vida não era como eu queria, levava, persistia, resistia, perseverava. Alguma coisa começava a dar certo: novas amizades, novos projetos que saiam do papel e adquiriam a prática da realização, acomodações, conjunção de objetivos. Eis que no meio do converseiro, um ruído de frenagem brusca, um abalroamento. O mundo começa a girar, uma confusão tremenda: não sei mais de mim, nem de nada. Vertigens, um coro de vozes graves e uma ascenção infinda. Subia, eu era apenas sensação, apenas: um piloto que não sabia para onde ia, seguia a ermo, elevando-me, ao que parece, a rumos estelares. Tudo muito confuso. Os dias e as noites começavam a se confundir no meio de um pé de vento que se deu num redemoinho de nuvens e, depois, num tornado, que findou num penhasco de várias montanhas em pleno solstício. Estava por vales, voando sobre depressões e já equinócio, muitas paisagens em espirais, o insólito no crepúsculo que virava alvorada, o extraordinário nas geleiras da Estrela de Neve, o incrível no encontro entre o Oriente e o Ocidente em Constantinopla: o corpo caloso da Humanidade. Instantaneamente, tudo mudava e eu sentia uma temperatura amena, nem quente, nem frio. E de repente, tudo se transformava, não sabia qual percurso, meu estado e tudo que me ocorria tornavam-se indescritíveis. Eu era apenas o que via e sentia. Vozes e vozes, algaravias. Estupefato, meu estado interior é impreciso: perturbado e, ao mesmo tempo, não sei ao certo se apaziguado. Era como se um caleidoscópio me revelasse cenas de acontecimentos, ao mesmo tempo em que me via despencando por quedas vertiginosas, ou por subidas quiméricas que me davam a impressão de que a vida, naquele momento, não fosse mais que um ninho de artrópodes: dúvidas, dívidas, tentações, miragens, intolerância, egoísmo, tudo inerente ao ser humano com seu o carma, o soçobrar ao horror da guerra e ao cataclismo, a degeneração pela catástrofe, a busca incessante pela paz. Alguma coisa me era dito por uma voz indistinguível que se sobressaía das demais, mas não conseguia decifrar, nem entender. Sabia-me quase refratário diante do visinvisivel, minha vida toda fora na ilusão do psiquismo. Sabia que aquilo tudo não era assimilado pelos sentidos, mas algo se somava ao meu sacudido vazio interior, à desordem e perplexidade, ofuscado, confundido. Não sabia nada e me sentia de repente, como se um buraco abrisse do nada e eu começasse a cair carregado de pavor. Recobro os sentidos, sou sacudido pela buraqueira do trajeto, deitado no banco traseiro de um veículo conduzido por um desconhecido. Sinto dores e a velocidade do trânsito, buzinas, motores. O meu ombro e braço esquerdos doem demais. A dor é maior na passagem entre as placas do asfalto, ou no quebra-mola. Sinto que o condutor estaciona e a porta traseira do automóvel é aberta e vários enfermeiros me arrastam para uma maca, me empurram às pressas e me jogam no meio de outras tantas macas num recinto quase insalubre de paredes úmidas desbotadas, gemidos que se misturam com o frio intenso do ar condicionado, entra e sai de gente. Sinto meus dedos engelharem com o ambiente friento, tinha só a certeza que ia logo padecer de uma pneumonia porque fiquei bem embaixo da boca do aparelho condicionador de ar. A movimentação era grande, ora cochilava, ora acordava assustado, entre a vigília e o torpor. Muito tempo ali, não conseguia nem me virar de tantas dores. Uma longa espera sem que pudesse organizar uma ideia sequer, nenhum pensamento me passava pela cabeça mergulhada nas dores e na urgência de atendimento, completamente abandonado. De repente ouvi a chegada de uma pessoa procurando por mim, quando fiquei sabendo que já era mais de meio dia. Tomei pé da situação e percebera que passei a manhã toda ali, doendo, imóvel e sem saber o que fazer. A assistente social se apresentou e providenciou que cuidassem de mim. Fui arrastado por corredores infindos. Um médico examinou-me, fui pra sala de Rio-X. Com o resultado, vi feições de reprovação. Aplicaram anestesia no meu braço direito, uma a dor a mais em tudo que já sentia. Tempos depois, ficou constatado que a medida não surtira efeito, quando o médico começou a demover as mulheres e crianças do recinto, colocou-me de cara pra parede e começou a fazer uma raspagem no lado esquerdo da minha cabeça acima da orelha. Em seguida, senti uma pontada na carne do meu crânio, gritei, berrei, resmungos e palavrões. Uma tortura interminável. Quando me vi quase morrer, ouvi que teve de fazer o curativo em carne viva, demovendo metais e tintura que se alojavam no meu couro cabeludo. Mandou que fizessem uma atadura pra minha clavícula e braço esquerdo fraturados. E que me levassem dali pra outro hospital. Correria, ambulância, trânsito, outra enfermaria. Três dias de sofrimento, a cabeça zunindo, ataques de muriçocas e pernilongos noitedia, não havia paz ali. No lado esquerdo, um paciente que só olhava, não se mexia; no outro lado, um que estava nu com uma bala na nuca em estado de coma. Abandono, mal-estares e picadas de inseto. Pedi pra ter alta, não me sentia bem, mas aquilo era o inferno. Insisti. A cada visita da família, eu implorava. Até que quatro dias depois, sob assinatura de responsabilidade familiar, tive alta, pude ir pra casa. Dali, três meses de fisioterapia: a atadura que colocaram apertava tanto que meu braço esquerdo virou ossos esverdeados. Ao cabo de quatro meses depois, estava recuperado e dentro duma delegacia depondo sobre o incidente que sequer vira. Durante todo esse tempo pude refletir sobre a vida: a importância de viver e a inutilidade. Do nada pode acontecer tudo. Mesmo não tendo a capacidade de discernir nem de conjeturar o meu destino, pude constatar que o significado dos acontecimentos me escapava à compreensão. Contudo, para meu espanto, estava encorajado a seguir em frente na aventura que me coubesse. Adquiriria a consciência de deveria estar pronto pro meu carma, porque me foi dada a oportunidade da compreensão. E com a coragem de avançar aprendi que hoje pode ser melhor que ontem, com certeza; e que amanhã será melhor que hoje. Com isso, pelo coração aprendi a indulgência com todos os temperamentos para quem, impaciente como sempre fora, jamais tivesse. Tive a consciência do livre-arbitrio: sou responsável por meu destino. Sou grato à vida por isso. E porque aprendi a não provocar os acontecimentos, deixando-me levar sereno, esperando o essencial que não seria assimilado ali, na hora, mas nalgum outro momento, outro dia, sei lá, quando for porque nenhuma certeza me apoiava, nem poderia estar certo do que quer que fosse. Só sei que a verdade chegaria e que seria além do que pudesse prever. A experiência vivida teve o teor de instantes que valem uma vida. Afinal, o acaso não existe. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Imagem: a multiarte da pintora, escultura e cineasta francesa Niki de Saint Phalle (1930-2002).Veja mais aqui

 Curtindo Concerto d'Amore (2016), do compositor, maestro, produtor  e professor holandês Jacob de Haan, com a Harmonie Eendracht Dronten & regência do próprio compositor.

PESQUISA
Comunicação em prosa moderna (FGV, 2004), do filólogo, linguista, ensaísta e crítico literário Othon Moacir Garcia (1912-2002), abordando acerca das sutilezas da moderna terminologia semântica e discute problemas lingüísticos e lógicos com os quais se defrontam todos aqueles que se dedicam à escrita. Veja mais aqui.

LEITURA 
João Ternura (José Olympio, 1980), do escritor, professor e homem de teatro Aníbal Machado (1894-1964). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
INCAPACIDADE DE MANTER FORMAS
Os líquidos se movem facilmente. Eles fluem, escorrem, esvaem-se, respingam, transbordam, vazam, inundam, borrifam, pingam, são filtrados, destilados, diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho. [...] A extraordinária mobilidade dos fluidos é o que os associa à ideia de leveza. [...] manter fluidos em uma forma requer muita atenção, vigilância constante e esforço perpetuo – e mesmo assim o sucesso do esforço é tudo menos inevitável.
Extraído do livro Modernidade líquida (Zahar, 2001), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em que aborda que a transição da modernidade imediata, que é leve, líquida, fluida e mais dinâmica que a modernidade sólida que suplantou e que a passagem de uma a outra acarretou mudanças em todos os aspectos da vida humana. Nesse sentido ele procurar esclarecer como se deu essa transição, audiliando a repensar os conceitos e esquemas cognitivos usados para descrever a experiência individual humana e sua história conjunta, fazendo uma análise das condições cambiantes da vida social e política. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Charge Thinker, do cartunista, desenhista e ilustrador estadunidense Andy Singer.

Veja mais sobre Primeira reunião, Pär Lagerkvist, Torquato Neto, August Strindberg, Camille Saint-Saëns, Serge Gainsbourg, Lena Nyman, Carl Heinrich Bloch, Waltraud Meier & Lucy Gordon aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.


GRAMSCI, MORIN, COMENIUS, HUIZINGA, REGINALDO OLIVEIRA, MANOCA LEÃO & POLÍTICAS EM DEBATE

Livros, teatro & música infantis aqui . POLÍTICAS EM DEBATE - A semana que passou, posso dizer agora com convicção, foi pra...