quinta-feira, junho 02, 2016

BETÚLIA, A BELEZURA E OS RESTOS NOS CONFINS DO MUNDO


BETÚLIA, A BELEZURA E OS RESTOS NOS CONFINS DO MUNDO (Imagem: A Sônia, da série O sonho dos outros – da exposição da fotógrafa Claudia Andujar: No lugar do outro) – Betúlia, linda, amável, gentil, educadíssima, nascida em berço de ouro. Tão formosa e sempre na dela, não dava trela pra ninguém. Sempre terna e atenciosa com todos, índole materna, uma vistosa filantropa de assistir crianças, marmanjos, idosos. Sempre dedicada, elegante, obsequiosa e tão nobre na finura do trato com pobres e oprimidos, sempre com um sorriso deferente nos lábios, uma palavra de conforto, um abraço amigo. Uma perfeição encantadora em forma de gente. Um dia seu coração palpitou, abriu mão de tudo: riqueza, família, amigos. Enrabichou-se por um certo Jorgão Bezário, um inculto vistoso, sem eira nem beira, tosco jumento e grosso que só papel de enrolar prego, que se encontrava de passagem por sua cidade. Porte atlético, musculoso, cabeça de fósforos, homem de poucas palavras e brabeza nos gestos. Com todos esses atributos insuportáveis, fora ele responsável por ela abdicar de tudo e findar em Alagoinhanduba depois de perder os três vinténs, o juízo, a vida. Agora tinha um dono, um tosco Apolo pras vistas dela, o seu deus em carne e osso a quem estava reduzida, nada mais. Com seu ar desabrido e todo pavoneado, ele a exibia com seu jeito agreste como um troféu. De forma tarasca e com beijos arrancados na marra, exigência de bruto: - Minha quenga! E ela se ria, enamorada. Toda elegante fineza dela, ao lado do mais brucutu dos descorteses mandonistas. Não havia por ali quem não arregalasse os olhos, caísse o queixo e não cobiçasse aquela engenhosidade do Criador. Ao mesmo tempo que estranhavam como havia de uma belezura daquela, se visse atraída por bonitão tão primitivo. Coisas de catimbó, só sendo. É certo que ele já fora a perdição de muita moça donzela por onde passou. Mas daí admitir a conquista do coração de Betúlia, já era exagero da sorte. Logo ela que parece ter saído por encomenda: lindíssima das faces graciosas, formas assimétricas perfeitas, jeito fascinante, uma maravilha jamais vista de boniteza em qualquer pessoa. Aonde ele chegasse, rispidamente apresentava: - Eis minha quenga, pessoal. Respeitem sempre que sou o macho dela! E ela toda faceira, encantada de andar nas nuvens, enfeitiçada pelo amor. Anos se passaram e a cidade inteira nunca se cansara do assombro com beleza tão refulgente. Cada dia ela se tornava mais bonita. Por onde passasse era admirada, cultuada, reverenciada, invejada até. Certo dia ele chegara duma viagem sozinho e entrara no bar para tirar a poeira da garganta. Alguns desconhecidos numa mesa de perto, exaltavam a beleza de certa mulher. Ele se virou pra eles e disse sem a menor parcimônia: - É porque vocês nunca viram a minha quenga, não existe mulher mais bonita no mundo! Dito isso de peito inchado com toda soberba, tomou uma lapada da aguardente e foi ao sanitário arriar o mijo. De lá ouviu a gritaria: - É ela! É ela! Aquilo que é mulher gostosa! -, comentava um mais afoito do trio visitante. - Aquela merece o cara arriscar a vida pra botar uma gaia! -, arguiu um dos petulantes. E a risadagem corria solta. Ao retornar, Jorgão pega o copo com nova lapada da pinga e foi até a porta vê quem era que os caras estavam elogiando, enquanto degustava do aperitivo. Era ela. Virou-se pra eles e perguntou: - É aquela que vocês acham a belezura que querem foder, é? Eles se levantaram às pressas, conferiram e responderam: - É aquela gostesuda mesmo, aquilo que é uma mulher gostosa de verdade! Nem terminou a frase, o bofete comeu no centro. Jorgão estava mais brabo do que sempre fora. E em meio às tapas, deu pernadas a três por quatro, mãozadas distribuídas a granel. No meio da confusão entrou uma grossa turma do deixa disso, apartando a briga. Os três desafetos insolentes foram prum lado e Jorgão, mais que injuriado, foi pro outro. Ele fumaçava, de cabeça quente. Ruminando sua raiva, resolveu ir proutro bar encher o tampo. Entupiu-se de esborrar e foi pra casa trocando as pernas. Capenga, mal conseguiu entrar em casa aos gritos: - Cadê ele? Ele quem? O macho que tá me botando gaia! Não tem ninguém aqui, meu amor. Meu amor, uma porra! Vou matar esse macho! E saiu revirando às quedas quartos, sala, cozinha, banheiro, até escorregar no lodo do quintal e dar trabalho pra ser levado pra cama. Dormiu de roncar a noite toda e metade da manhã. Acordou-se virado num saco de pentelho arrepiado, aos palavrões e mordido do porco: - Cadê o macho? Que macho? Tô sentindo cheiro de macho! Não tem macho nenhum, meu amor. Meu amor, uma porra! E assim foi-se o dia, entrou pelo outro, uma semana, meses, quase ano, ele brigando com um e com outro, até chegar um dia em casa e fazer do inferno que virou a vida de Betúlia, um momento do mais autêntico terror. Um brilho sinistro no olhar, uma assustadora maldade nas suas faces. A culpa é sua, sua quenga! Você que é a culpada! E partiu pra cima dela, esmurrando, chutando com a fúria dos horrores. Ela se defendia como podia, ele a estapeava, dava-lhe chutes e murros em todas as partes do corpo, até ela cair, aos prantos, arriada num canto da sala. Ele então saca de uma faca peixeira e dá-lhe um talho na face esquerda, na perna direita, na coxa esquerda, numa das mãos. Quanto mais ela tentava se desvencilhar dos golpes, mais o sangue espirrava. E sussurrava irado, vingativo: - Esse é um sangue amaldiçoado! E mais desferia golpes, ela cada vez mais encolhida no canto da sala, não sabia o que fazer. Ele arreou de cócoras para fitar bem seus olhos e bafejou maledicência na sua cara, enquanto deslizava a faca amolada na pele dela, abrindo a carne aos poucos nos braços, pernas, passando a esmurrá-la até cravar várias peixeiradas no dorso, no ventre, nas faces, pescoço, nos seios e membros, arrancar-lhe um a um dos olhos, retalhar os seios, até deixá-la completamente desfigurada. Insatisfeito, saiu arrancando a pele dela, até deixá-la em carne viva. Depois saiu esquartejando, quebrando os ossos, reduzindo-a a pequenos pedaços. Uma calma estranha se apoderava dele, parecendo mais que abatia o mais feroz e odiado animal. Começou a ensacar os pedaços dela: mãos, pés, crânio, tripas e carne. Acomodou tudo num saco grande e depositou ao pé da cama, enquanto foi tomar banho e remover toda a sujeira de sangue. Completamente restabelecido, vestiu-se da domingueira, perfumou-se, armou-se do saco com os restos delas e partiu assobiando como se nada tivesse acontecido para nunca mais ser visto dali. Dezesseis anos depois reaparece ele pelas bandas de Alagoinhanduba, multimilionário, impune e sorridente, adquirindo terras e outras posses, acoloiado de uma tuia de baba-ovo que o endeusa até hoje. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Mujeres, do pintor cubano Federico Beltrán Massés (1885 - 1949)


Curtindo o álbum Dança das rosas (Tratore, 2006), da cantora e compositora Consuelo de Paula. Veja mais aqui.

PESQUISA
Evolução e sentido do teatro (Zahar, 1964), do educador, professor e crítico de teatro e mitologia Francis Fergusson (1904-1986), tratando sobre o ritmo trágico da ação, o teatro da razão, o teatro da paixão, o teatro moderno, a poesia e o poeta no teatro, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

LEITURA 
 Foi na proa da Boa Paisagem que apareceu pela primeira vez a figura de uma mulher mirando o rio. Xico Baquiba me disse: amigo Cipriano, tenho encomenda do capitão Zé Custódio, de Juazeiro, de uma carranca diferente. Penso em muitos assucedidos e um me vem na cabeça. Era a estória de Siana Branca. Foi numa noite no Alto do Menino Deus, eu maginava olhando pro céu: oo que irá acontecer no dia em que a arca de Noé, navegando, for se aprotar nas Tres Marias? De repente – e me benzi – uma cuereira veio por cima da minha cabeça e foi sentar-se no cruzeiro. Apagaram-se as luzes do firmamento e tudo ficou escuro. Foi quando um resplendor se abriu e vi o desencantamento. A ave virou uma mulher e veio rezar por seus pecados. Vi suas feições e elas ficaram direitinhas nos meus olhos tal qual Xico Biquiba fez a cabeça da Boa Paisagem. Subiu mais um degrau da escada e continuava, arrebatado: - Nunca vouve por todo o São Francisco e os corghos mulher tão bonita como esta Siana Branca de Correntina. Desgraçada, por si nunca aceitou um homem por mais rico e poderoso que fosse e, só aos remeiros dava seu amor. Um belo dia vinha chegando uma barca embalada na cantiga de quem chega sorrindo. Neste tempo passava uma menina com uma rosa para o altar de Nossa Senhora e Siana Branca lhe disse: - Menina, me vende essas rosas... – Não vendo, não. É promessa de minha mãe... Se dava; as mulheres nos porotos enfeitavam a cabeça com flores no dia em que chegavam os seus amigos, e Siana Branca entrou na igreja e roubou as rosas para botar nos seus cabelos castanhos. Quando a barca encostou foram para sua casa e estava vazia. Por mais que procurassem nunca mais foi vista. Nem na Barra, nem em Juazeiro, nem em Januária e por aqui, e tudo se esclareceu. Siana Branca, pelo seu pecado, tinha virado uma cuereira. E entrando por um bico de pinto e saindo por um bico de pato, eu lhes digo meus meninos: deste dia em diante as cuereiras que eram brancas, acordam cedo para tingirem na madrugada suas penas com a cor das rosas. Agora, nas noites de lua, a Boa Paisagem, na parada dos pousos, se ouve a modinha de eu sou como a garça triste e a tripulação acorda chorando com saudade de alguém [...].
Trecho do romance Pôrto Calendário: romance do São Francisco (Francisco Alves, 1961), do romancista, alfaiate e militante comunista Osório Alves de Castro (1898-1978). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Eu, de qualquer forma, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez – isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dento no final – embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro a alma em nós, ah! Oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança – pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio, pelado, costela quebrada, pele rasgada, implacabilidade Ai, ai! Cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte deixou-a fora, a Morte teve piedade, você passou pelo século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – finalmente passou por você mesma – pura – de volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo – lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Seu para onde foi, tudo bem. [...]
Trecho do poema Kadish da obra Uivo, Kadish & outros poemas (1953-1960 - L&PM, 1984), do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Estátua de Iemanjá, Mãe D’Água, Rio São Francisco – Petrolina – PE. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Allen Ginsberg, José Lins do Rego, Alain Resnais, Catherine Deneuve, Raoul Dufy, Charles Lecocq, Signo Teatral & O Choque das Civilizações aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Klimt plus Fayga, da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

HERMILO, MARCEL PROUST, FRANÇOIS CHESNAIS, GIORGIO DE CHIRICO, DOWBOR, MAWU, LUCIAH LOPEZ & XEXÉU

CONVERSA DE SINAL – Imagem: La barca dei bagni misteriosi , do pintor italiano Giorgio de Chirico (1888-1978) - Lá vou eu entre avistad...