quarta-feira, agosto 17, 2016

AS MULHERES MANDAM VER NAS OLIMPÍADAS


AS MULHERES MANDAM VER NAS OLIMPÍADAS - Alagoinhanduba estava em festa. Não era pra menos. No começo a coisa era chocha: uns poucos gatos pingados peruando nas disputas. Mas depois de muita macacada nas provas da macharia, a cidade em peso resolveu não perder a mangação. Tinha gente até de um olho só a se embolar de rir com a presepada. E o negócio pegou fogo mesmo quando as mulheres denunciaram machismo nas competições por terem apenas provas pros cuecas, deixando-as escanteadas do evento. Vuque-vuque da pega, coisa de envolver polícia e Judiciário para acalmar os ânimos. O pandemônio foi ao ápice quando elas deram conta que os organizadores faziam ouvidos de moucos das suas reivindicações. Com o litígio estourando os limites da sensatez, a peleja ficou séria: a caçarolada no quengo comeu no centro. Algumas armadas de panelas, outras de mão-de-pilão, umas com rolos de massa – aquele conhecidíssimo amansa corno -, e mais magueira de fogão, prateleiras, vassouras, rodos, batedor de carne, brebores e o escambau. Pronto, resolveram a parada: os machos tudo murchos, logo entraram no o que é que é, o que é que é isso, e teitei pra lá e pra cá, e tudo entrando nos conformes, não antes uma assadeira ou penico voar para ditar o rumo da coisa. Nem polícia, juiz, prefeito, bispo ou promotor, autoridade que fosse para acalmar os ânimos das valentes senhoras e senhoritas que já ameaçavam sacudir os próprios filhos para revidar os pantins dos maridos que queriam enrolá-las com regulamentos inventados de última hora. Lá pras tantas, de tão irredutíveis que se apresentavam, tiveram que aquiescer na apresentação delas durante as olimpíadas.

A ABERTURA – Dias atrás a coisa começou de qualquer jeito, afinal, macho que se preze prima pela desorganização. Vai de qualquer jeito, só passar um risco no chão e pronto. O argumento era de que ninguém ali era biba pra está cum frescurites. Bastava dar um pipoco qualquer e o trupé comia ineivado. Assim a coisa ia. E quando Zé Peiúdo foi anunciar a primeira prova feminina, a Vera adiantou-se e logo tascou: - Num é assim não, violão! Foi um vexame. Pronto, segundo a comissão organizadora, as mocreias botavam o divertimento a perder. Novas altercações: assim, assado, vai e volta, puxa-encolhe. Lá pras tantas, como sempre, elas venceram e fizeram uma abertura digna de respeito – pelo menos pra elas, né? Desfile, balizas, evoluções, bombos, marchas, maiôs, biquínis, bustiês – as mais recatadas de tomara-que-caia no joelho - coisa lá com delicado toque feminino, coisa de se vê mesmo, vez que não era aquela mundiça de marmanjo fedido. A turma da ceroula na maior ovação. Um sunga gritou: - É hoje, dia de bronha! – Que nada, tem cada catraia trem virado que não dá nem pra botar o pingolim em pé, quanto mais em dia! -, advertiu outro. A turma do oba-oba não deixou por menos com aplausos acalorados: - Agora sim, colírio desse digno de nota, isso é coisa que se apresente de verdade! Enquanto as moças e moçoilas caprichavam nos requebros de deixar nego de queixo caído e olhos trocados, as senhoras damas donas-de-casa ficavam no máximo no passo do elefantinho, gingando comedidas, com seus bruguelos nos braços ou agarrados no cós da saia. E deram voltas pela cidade todinha umas três vezes, até resolverem parar e chamar na grande para dar início às provas da competição.

AS PROVAS DA COMPETIÇÃO – Por completa sacanagem, os bundões organizadores segredaram, de propósito, as provas femininas, anunciando apenas na hora qual a que se realizaria no momento. A cada anúncio a cidade em peso caía no estardalhaço da torcida no maior óóóóóóóóóóóóóóó! Pois é, maior dos ardis digno das sociedades mais secretas, deu-se o anúncio uma a uma. A primeira foi subir no salto. – Isso não é salto, é perna-de-pau -, comentavam. Depois rodar a baiana e chutar o pau da barraca: - Vixe, a cumade lá de casa tá perdendo! Só Xantipas e bote fé. Outra foi a de borrar a maquiagem: - Sacanagem, meu! Tudo na base de cosméticos inventados na hora por maquiadores ad hoc só para ver o resultado depois duma briga de mulheres. Já viu, né? Maior barangada. Chegou a vez da prova do cabelo armado! Tudo tratada por anunciantes cabeleireiros que queriam fazer seu mercandising nas chapinhas delas. Depois de tudo pronto um ventiladorzão tamanho do mundo, ganhava a que ficasse com o cabelo mais em pé: - Isso não é prova, é assombração! A do xixi na calcinha foi o maior vexame: é que botavam elas para encher o bucho com litros e mais litros d’água, vestiam-nas com uma meia-calça e, o resultado, consistia na carreira pro mictório, quem se lembrava de tirar a calcinha. – Maior mijadeiro. Acontece, porém, que inventaram de botar no meio do aguaceiro tomado, um chá pra emagrecimento com noz da Índia, aí já viu: no meio do mijo, caganeira da porra! A antepenúltima gerou polêmica: relando a cheba na sela! Muitas inscritas desistiram na hora: - Isso é lá coisa que se faça?! As mais afoitas passaram as pernas com seus saiotes nas bicicletas com selins altos e às pedaladas com rebolado a toda carreira só de ver a calcinha no movimento da bunda, acompanhadas pelos Zé-roelas que seguiram na poeira porque não queriam perder um mínimo lance do espetáculo, filmando tudo. A penúltima foi só reclamo: arranco de pentelho. Vixe! A bronca era o fato de ter de fazer a depilação das virilhas delas, além do adesivo puxador e pra todo mundo ver! –Desgraceira dessa, só pra mulé-macho mermo! Oxe, não faltou corajosa! Por fim, a última: queimando o arroz. O escândalo foi a denúncia: - Traveco não pode competir! Pode, num pode, findou tudo no balaio. Aí foi a maior torcida: um festival de estrias e celulites. As beldades foram aplaudidas e ovacionadas! Vivaaaaa!!!

A PREMIAÇÃO – Ao término da peleja, era chegada a hora de anunciar o prêmio. Ninguém sabia nem se dera conta da premiação. O mistério envolveu toda população que se viu diante de um corpo de jurados catados a dedo – o juiz, o promotor, o prefeito, o delegado, o comandante da polícia, gerentes de repartições públicas, ricaços e outras autoridades que nem eram graduadas, mas que foram convocadas para dar moral ao evento, devido desistência já ao final do bispo e do padre da paróquia porque acharam aquilo tudo uma pouca vergonha. Até que participaram, tanto eles como pastores protestantes, espíritas e pais de santo, depois foi que eles, já com mais da metade do certame corrido, arribaram. Nessa hora os caras capricharam na organização, anunciando a inauguração de um monumento para registrar a ocasião que seria marcada na história para sempre. Se pros apaideguados o prêmio era um tolote de ouro, o que seria para s teteias? Aí, com o suspense no ar – todo mundo queria ver como terminaria essa papagaiada -, tangeram o povo pro final duma rua lá não sei onde e depois da maior discurseira dos organizadores, juntamente com as autoridades presentes, cortaram a fita e descerraram a placa, sobre a qual estava assentada a obra de arte: a escultura gigante de um pênis. Após a inauguração, muito bate-boca e desentendimentos a fole, porém, ao final, findaram desfilando a estátua fálica por todas as ruas, até o local da entrega dos prêmios, no qual estavam deliberadamente organizados os troféus da primeira à décima colocada: a piroca de pau. Muitas atletas ao tomarem conhecimento da premiação, abriram mão e renunciaram da condecoração, enquanto outras, não menos orgulhosas, empunhavam o galardão vitorioso. Isso significa que sobrou piroca pra distribuir pro povo na maior festa. Ora, ora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.



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