segunda-feira, agosto 22, 2016

DO QUE FUI PRO QUE SOU

DO QUE FUI PRO QUE SOU - É festa no céu, tê teteretê tê teteretê! Não fui convidado: quem é coxo parte cedo, nem pude como o sapo me esconder na viola do urubu. O passado quer falar: caretas de bumba-meu-boi e do cavalo marinho no meu repente desentoado. Menino levado, sou inteiro dentro das minhas próprias malas: sou como quem levasse o levado e como querem o pé-direito duplo, sou da queda com meu estreito convívio com a mais surda obscuridade da inquisição dos cínicos de nascença e delatores da moral e bons costumes, irresponsavelmente mentirosa na caça às bruxas – meus esgares de compaixão com as aflições ou júbilos da conduta vazia e equivocada humana com seus vícios e virtudes na minha desencontrada e a gradativa existência. Não tenho mais minha mãe para minimizar minhas travessuras e incoerências: cabra-cabiolé, Cumadre Fulosinha, saci pererê. Falam-me da oração da cabra preta, do justo juiz, de bentidos e excelenças: são todos indiferentes como a parede, porta ou chuva. Na verdade, quase não tenho mais ninguém a favor, só algozes no que faço de mim mesmo. Nem sou absolvido por mim. Sou amarelo, laranja, vermelho, verde, azul anil índigo e violeta, sem ressentimentos, ajeitando os remendos deliberados que me aparecem da tapeçaria do apocalipse entre utopias paradisíacas, medos e esperanças. Fiz até o que não quis, fiz e me odiava no dia seguinte, coisas da vida que nem sei como era e que aconteceu, como se a burrinha do padre se desfizesse do encanto e me embalasse na sua nudez. Eu vou no meu voo, futuro algum, esperança alguma, só rodeios, abatido ou eletrocutado, um precursor que errou seu próprio caminho. Todo mundo erra, só errei demais. Até quando acertei foi um erro, não era. Fui adiante e errei de novo, errei sucessivamente, cheguei tarde demais e malsucedido entre os que fraquejaram pelos cinco continentes do planeta: sou protagonista no lar do meu espólio, sou água na minha solidão sem compensações, Prometeu agrilhoado na montanha. Lá se vão o garrote Jauaraicica, o boi pintadinho, o boi Espácio, não sei mais o que perdi - Ulisses sem Ítaca, pau pra toda obra. No meio do fugaz, tudo passou: pudera, tudo é idológico, há incertezas demais – o risco, o limite – não há limites para fantasia, paciência, não se pode abusar da insensatez. Até quero crer ser possível, como Berlioz, a minha alma gêmea no Vesúvio. Sou meu próprio atelier, minha religião é a arte, tenho espiritualidade. O passado quer falar e Cascudo exorta: elevai os corações! Pra mim, tudo é continuidade. E vou voo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Curtindo o álbum Rapsódia Rock In Concert (EMI-Odeon, 1990), do guitarrista, compositor, produtor musical e arranjador Robertinho de Recife.

PESQUISA 
[...] A interdisciplinaridade aqui, particularmente pensada na relação texto e imagem, propõem-se a reforçar as possibilidades de tornar o público leitor um criador, participante das ideais apresentadas, potencializador de suas poéticas, proponente de novas questões. [...].
Trecho extraído da obra Novíssima arte brasileira: um guia de tendências (Iluminuras/MAC-USP/Fapesp, 2000), da escritora e crítica de arte, PhD em artes interdisciplinares pela UNY e professora Katia Canton.

LEITURA 
Tentarei ser os seus olhos, Jorge. Sigo o conselho quevocê me deu, quando nos despedimos: “Escribe, yrecordarás”. Tentarei recordar, com exatidão desta vez. Para que você possa enxergar o que eu vi, desvendar o mistério e chegar à verdade. Sempre escrevemos para recordar a verdade. Quando inventamos, é para recordá-la mais exatamente. [...] O corpo formava a letra V, disse eu não tinha dívida. Mas qual era a sua posição? Estava com a bunda, ou o vértice do V, encostada num dos espelhos que cobriam a parede do quarto. Era isso, a bunda contra o espelho. [...].
Trechos extraídos da obra Borges e os orangotangos eternos (Coampanhia das Letras, 2000), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luís Fernando Veríssimo. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Sempre que sinto na boca uma amargura crescente; sempre que é um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que me percebo detendo-me involuntariamente diante de empresas funerárias, ou aumentando a fila de todo funeral que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria passa a me dominar de tal forma que é preciso um sólido princípio moral para evitar que saia às ruas e passe sistematicamente a atirar ao chão os chapéus de todos que vejo – então calculo que é boa hora de fazer-me ao mar, o mais cedo possível. Com um floreio filosófico, Catão atira-se sobre uma espada, eu calmamente vou para o navio. [...]
Trecho extraído da obra Moby Dick, ou a baleia em Londres (1851), do escritor e aventureiro estadunidense Herman Melville (1819-1891). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
[...] Quem não reage, rasteja. Era o lema. O velho acreditava no barulho dos maldizeres, aí a vida ganhava um sentido mínimo, aí fazia‑se a luz, sua própria labareda bíblica, o fulgor, o barato. [...].
Trecho da obra Big Jato (Companhia das Letras, 2012), do escritor e jornalista Xico Sá, adaptado para o cinema com direção de Claúdio Assis e com a sempre excelente arte do ator e diretor Matheus Nachtergaele. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Nascente: Crônica de amor por ela, Claude Debussy, Bertrand Russel, Dorothy Parker, Antonio Callado, Angela Hewitt, Ruy Guerra, Marina Lima, Francisco Rebolo, Contos árabes, Dançaterapia, Agostino Carracci, Claudia Raia, Teatro Espontâneo & Psicodrama aqui.

DESTAQUE
Todo dia é dia da atriz e cantora Simone Gutierrez.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Arte do pintor russo Andre Kohn.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



BANDEIRA, MONTELLO, AMIEL, VIVEIROS DE CASTRO, GAL COSTA, KANDINSKY, MINAMI KEIZI, BETO GUEDES, CONFERÊNCIA DE CULTURA & CAETÉS

O QUE SEI DO QUE APRENDI - Imagem: Aviso em dois, do pintor russo Wassily Kandinsky (1866-1944) - Há muito tempo que eu estudo, gosto de ...