quarta-feira, fevereiro 15, 2017

DOS REVEZES QUE NÃO POUPAM A AMIZADE E O AMOR

DOS REVEZES QUE NÃO POUPAM A AMIZADE E O AMOR – Imagem: Love and violence (1963), da artista plástica, escultora, escritora, dramaturga e roteirista Rosalyn Drexler. - Os pariceiros João e José, carne e unha, pacto de sangue, amigos à toda prova. Tudo dividiam e se completavam: goles, boias, putas e apuros. João casou-se com Maria, José com Joana: quarteto perfeito. Uns aos outros família mais que unida, necessidade de um, ação de todos. Ele, fanático de paixão, aprontava das suas: não largava um rabo de saia, Maria que não soubesse. Com José, sumiam nas capoeiras do mundo. Fora de hora chegava em casa, a mulher mãos no quarto: isso são horas? Não passava aperto, uma saída pronta na ponta da língua, ostentava maior lábia, carregado de ademanes. Ela fingia tudo bem e dormiam o sono do fica pra outra, não será dessa vez. No outro dia, a ferrenha competição: Maria ficou cabreira, e a comadre Joana? Oxe, virou mulher de bigode, nem o diabo pode. E aí? Macho é rei, faz e acontece. Assim a coisa ia por anos, até o dia, durante uma farra domingueira, embaixo da mesa os pés de Maria na virilha de José. Ele teve um baque, quase cai morto. O que é isso? O nome não faz a santa, pensou. Maria minimizou: estava cutucando Zé para mangar de Joana. A intervenção da comadre deixou tudo em pratos limpos: amigas inseparáveis, brincadeiras de casal. Desculpas esfarrapadas, sacou a mulher assustada, trêmula e hesitante; a comadre passava a mão na cabeça dela, fazia de conta pra atenuar o perigo; o amigo, olhos arregalados, balbuciava sem jeito, sem conseguir esboçar nada que explicasse aquilo. Ah, tá, ficou assim não, destá. A desconfiança descia como um réptil pelas ocasiões daí por diante, não descansava no quengo nem no coração dele: logo a sua mulher e o melhor amigo. Que coisa! Não, ele agora não era tão mais digno de sua amizade como pensara por esses anos todos. Agora, de mesmo, ele só queria flagrar ambos em intimidades e dar um fim a tudo isso. Para tanto, chegava intempestivamente em casa, dizia que ia fazer uma coisa pros dois e voltava antes do previsto, atocaiava ambos, não tinha sossego. Não fosse uma tarde inesperada o flagrante de Maria nua e aos beijos na kombi de Zedinaldo, ele manteria o amigo ainda de soslaio. Foi pior. Baixou a crista, separou-se dela e nunca mais foi o mesmo com os compadres: desconfiava conluio dos dois, ambos escondiam as safadezas dela, tinha ele certeza na sua dúvida, o último sempre a saber. Escondeu-se do mundo e de si, a insincera capa da hipocrisia denegriu sua reputação. Por conseguinte, perdeu o entusiasmo e não se importava mais com o que diziam dele, sempre pedras na sua direção. Ninguém se lembrava dele como trabalhador, o craque dos tacos e das porrinhas, o vencedor de todo vamos ver. Não, agora era outro, antes a pecha incomodava, agora não mais. Entrementes, mantinha-se cabisbaixo, exangue, buscava forças dentro de si, tentando se reencaixar ao molde como o mundo funciona, havia perdido o jeito. Não sabia o que fazer para resgatar a vitalidade, via-se indigno ou inaceitável, indesejável, suprimido, rejeitado, impotente e incapaz de retomar a vida, não sabia mais como operar o mundo conformado a padrões e modos de comportamento, os seus limites todos estreitos e insatisfatórios fizeram-no render-se à consternação da desventura, vítima de um doloroso teste, de uma lição muito amarga, o perfeito desprezo vingativo de uma mulher. Mudo e rígido, pensou seguir pelas ruas, sem paradeiro, andrajoso, o esvaziamento e a depressão. O seu inflado orgulho estava ferido, pelo menos de mãos limpas entre lamas e detritos. As coisas não são tão facilmente maravilhosas como se pensa e ele sabia que mergulhara no caos, o qual não sabia nem como dissipá-lo. Só seguia sem nem mais saber quem era, nem quem poderia ser ou para onde ir. Seguia. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns Mundo Verde Esperança (2002), A Música Livre de Hermeto Pascoal (1973), Zabumbê-bum-á (1979) e Cérebro Magnético (1980), do compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

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DESTAQUE: O MORRO DE MAMBIALA
[...] Havia alguns dias, que o negro e os seus se deitavam sem nada comer, e naquela manhã que foi a de um Domingo de Ramos, Serápio despertou lembrando-se que sonhara estar metido dentro de uma abóbora, da mesma maneira que a criatura ainda não nascida, no ventre materno: e com todos os dentes intactos mordia-lhe na polpa, e a abóbora saltava e corria, aflita, gritando: “Socorro! Socorro!” – que lhe faziam cócegas; que acabaria louca... – Será um aviso do céu: - conjeturou o negro, persignando-se. – Se encontrasse hoje na Mambiala essa abóbora! E depois de contar – muito alegre – o sonho á família, subiu para o alto da ladeira, e esteve muito tempo procurando-a com grande afinco. Folhas,. Talos, e mais folhas! Em todo o denso, peludo e entrançado aboboral, não havia uma só abóbora minguada: e não ficou lugar onde não procurasse. De procura em procura, soaram as doze horas do dia; a hora em que outros homens se estavam sentando para almoçar. Serápio chorou, implorando a Deus e a Mambiala. Voltou pacientemente a explorar, canto por canto, de ponta a ponta, o aboboral. [...] Já estava caído, mas antes de abandonar a última esperança, postou-se de joelhos e ergueu os braços para o céu. Lembrou-se de uma estampa sagrada que contava um milagre, e se pôs a invocá-la. O céu não lhe fez o menor caso. Não choveu sobre a sua cabeça nenhuma abóbora. No auge da aflição, caiu de bruços. Quando, depois de haver chorado todas as lágrimas dos seus olhos, levantou-se para ir embora, viu ao seu lado uma panelinha de barro vermelho, em cujas extremidades o sol brilhava como um ouro úmido. A mais fresca e graciosa que saiu jamais das mãos de um artífice. Tão simpática, que sentiu alegria e um desejo de acariciá-la... Como se fosse natual que ela o pudesse entender, e ainda mais natural que o pudesse consolar, assim falou: - Ah, como é tão bonita, e como é redonda e novinha! Quem a trouxe para cá? Algum desgraçado como eu, procurando uma abóbora? – perguntou-lhe, suspirando: - Como se chama, negrinha gorda? A panelinha, movendo-se sobre as suas bordas, com justa garridice, respondeu: - Eu me chamo Panelinha Cozinha Bem. – A fome me faz ouvir disparates – pensou Serápio – Como se chama? É você quem fala, ou sou eu mesmo que sou dois, um em bom juízo e outro louco, e os dois famintos? – Panelinha Cozinha Bem. – Pois cozinhe para mim. A panela fez uma volta no ar. Sobre a relva apareceu uma branquíssima toalha de mesa, e em vasilha fina, faca e garfos de prata, foi servido um almoço delicioso, ao desgraçado, que não sabia usar de outros talheres que não fossem os seus próprios dedos; mas ele comeu até dizer não posso mais, e bebeu até sentir que o morro de Mambiala começava a bambolear... [...].
O morro de Mambiala, conto extraído da obra Contos negros de Cuba (Cuentos negros de Cuba – Universal, 1986), da antropóloga e escritora cubana Lydia Cabrera (1899-1991).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor neoclássico estadunidense Hiram Powers (1805-1873).
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Yoga Mudras I (Carved stone Spiritual Hands sculptures), da escultora inglesa Nicola Axe.
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HERMILO, JESSIE BOUCHERETT, LUIZ BERTO, PINTANDO NA PRAÇA & SERRA DO QUATI – CAPOEIRAS

SERRA DO QUATI, CAPOEIRAS - Imagem: Serra do Quati/Capoeiras/Raimundo Lourenço. - Nasci na beira do Una, andejo do dia singrando na vida. ...