sábado, junho 24, 2017

PRA QUEM VEM OU VAI, MESMO CAMINHO, DIFERENTES VIVÊNCIAS.

PELAS RUAS ONDE ANDEI - Bom dia, não há resposta. Insisto e sou ignorado, como se o desdém não recebesse migalhas ou ninharias. Cumprimento e ouço a resposta inaudita estampada na face: eu lá te conheço, traste! Depois de muitas investidas, uma linda garota corresponde ao meu sorriso; saúdo alegremente e ela estranha: sai-te, parece mais que é doido! E se perde no meio do vaivém das pessoas. Ofereço o meu olhar de quem espera e todos se desviam como se estivessem entre o absurdo e a surpresa. Ofereço uma flor e se desvencilham. Dou minha repleta de carinho e ternura, tem esmola agora não! Abro os braços: qualé, meu? Ou desculpas pra escapulir, ou evasivas breves só por gentileza e simpatia, mais nada. Dias assim, de norte a sul, leste a oeste, será que sou invisível? Boa tarde e não me ouvem, ou fazem que. Mil dias em um instante e a teia dos anos só o nó da solidão aos sobressaltos do imprevisível pela imprecisa largura no comprimento infinito, entre a ausência e o vazio. Sou entrada franca na privação do aconchego, catando um gesto que seja pra aliviar a dor encruada pelas placas em todas as direções. E sem o menor escrúpulo procuro uma mão amiga, como se sentisse o cheiro do quintal da infância, como se ouvisse o ruído agradável das pisadas nas folhas secas pelo chão. Dia sim, dia não, quando chove ou faz sol e estou no meio da calçada de ruas vazias de gente viva, como um salão escuro entre os que passam e a saudade dos que não vejo há tempos, lembranças quase apagadas pelos que nunca botei os olhos e levadas pelo asfalto com o ronco dos motores com seus vidros fechados que passam salpicando os passantes blindados sob um véu mortuário da indiferença e sisudez, com seus receituários médicos, suas listas pra feira do supermercado, seus carnês de pagamentos, seus relógios atrasados. Lá vou eu remos às ondas, asas ao ar, com meus fantasmas galhofeiros e tagarelas que caçoam de mim entre aparições e desaparecimentos, o mundo escancarado de ponta-cabeça e os meus semelhantes estão fechados em si, sem dar confiança e a destituir qualquer afeto ao massacre da indiferença, consumindo as coisas e os outros, tudo quanto puderem levar aos bolsos e bolsas, corço fechado, alma precavida, para que ninguém perceba seus temores e clamores na ilusão das posses do que pensa ser real no efêmero da vida. Tardes assim me dão a impressão do cortejo tão sobrecarregado com as enxurradas de problemas e discussões que mofaram as faces conhecidas em estranhos que sepultaram suas lembranças e vivências no jazigo, ignorando tudo e todos, ignorando a mim e o amor que sinto pela humanidade, o que penso do ser humano. Anoitece em mim e o fogo-fátuo são os quadris parideiros da moça linda reboladeira a me chamar atenção com sua pele pálida nas pernas e coxas destacadas pela saia justa e os seios proeminentes no decote, lábios salientes nos olhos negros desconfiados, a me olhar como inoportuno por admirá-la, e sorrio e ela vira a cabeça, segue adiante como se fugisse de doença contagiosa ou de uma catástrofe, e eu sem me dar conta da minha deformidade de apenas amar o ser humano e de com ele querer a vida ao estreito do braço e coração. O máximo que consigo de meus supostos interlocutores é algum xingamento, ofensa, chega pra lá, ou oferta intrusa, custa dez reais a dúzia, quer comprar? É aqui o terminal do ônibus? Sim, ali. Tá, obrigada. Onde fica o hospital? Ali. Obrigado. Desculpe, piiiiii, sai da frente! De repente: Você viu o João? Que João? João Antônio! Se vi, não sei quem é! Ah, que pena, preciso encontrar o João. Podemos procurá-lo, como ele é? Adianta não. Adianta, sim, como é ele? Ah, vou atrás dele. Posso ir com você? Não. Ah, tá. O meu coração cada vez mais se precipita pelo buraco negro que me leva ao isolamento de outra dimensão. Queria tanto conversar, trocar ideias, abraçar, por que será que ninguém mais se dá ao bate papo espontâneo, assim surgido do nada, entre estranhos que não precisem ser apresentados por nomes, idades, profissões, conversar por conversar, sem pedir licença, sem saber qual motivo nem quando terminar. Ao contrário, mais parece que o mundo acabou e todos vão no maior vexame pela emergência de se salvar. Noites assim, não queria mais voltar pra casa, inevitável. As pessoas não me enxergam, melhor invisível no meu quarto, vou pra casa, quase abissal madrugada, o cansaço e o sono, preciso dormir e conversar comigo mesmo. É melhor, quem sabe, pelo que se diz tudo cede à luz do dia, pode ser amanhã. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.


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Dos bichos de todas as feras e mansas, O romance da Besta Fubana de Luiz Berto, Cantadores de Leonardo Mota, a escultura de Antoni Gaudí, a música do Duo Backer, a militância de Brigitte Mohnhaupt, a arte de Natalia Fabia & a xilogravura de J. Borges aqui.

E mais:
Entre nós, vivo você, Cancão de fogo de Jairo Lima, as gravuras de Lasar Segall, a música de Sivuca, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, a arte de Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Pechisbeque, A realidade das coisas de Tales de Mileto, 1984 de George Orwell, Legado & Grito de Renata Pallottini, a música de Bach & João Carlos Martins, O País de Cucanha, As casadas solteiras de Martins Pena, o cinema de Sidney Lumet & Sophia Loren, a arte de Antoni Gaudí & Jean-Jacques Henner, a pintura de Sam Francis & Theo Tobiasse aqui.
A chegada dela pro prazer da tarde, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, o teatro de Nelson Rodrigues, O discurso e a cidade de Antonio Cândido, a arte de Betty Lago, Disco Voador – OVNI & Programa Tataritaritatá aqui.
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A paixão, uso & abuso aqui.
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Orçamento & finanças públicas, Os quadrinhos de Sandro Marcelo & Campana aqui.
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Primeira Reunião: Espera, Glosas críticas de Karl Marx, Sóror Saudade de Florbela Espanca, a música de Maki Ishii, Teatro Pedagógico de Arthur Kaufman, Musicoterapia de Rolando Benezon, o cinema de Silvio Soldini & Licia Maglietta, João do Pulo & a pintura de Carl Larsson aqui.
Vamos aprumar a conversa: Entrega, A metamorfose de Franz Kafka, O individuo na sociedade de Emma Goldman, Auto da barca do inferno de Gil Vicente, a música de Isaac Albéniz, a pintura de Fritz von Uhde, a fotografia de Freddy Martins, o cinema de Sam Mendes & Annette Bening aqui.
Desejo & cantora Sônia Mello, Deus & o Estado de Mikhail Bakunin, Reflexos ouvindo insetos de Po Chu Yi, Os Museus de Bertha Lutz, a música Paulo Bellinati, Teatro Espontâneo & Psicodrama, Mata Hari, a pintura de Murilo La Greca & a arte de Melinda Gebbie aqui.
Canto a mim mesmo de Walt Whitiman aqui.
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Andejo da noite e do dia, A poesia de Mayakovsky, A era dos extremos de Eric Hobsbawm, A felicidade paradoxal de Gilles Lipovetsky, a escultura de Nguyen Tuan, a música de Caetano Veloso & Gal Costa, O amor é tudo de Martha Medeiros, a pintura de Shanna Bruschi & Jeremy Lipking, a poesia de Gisele Sant'Ana Lemos & Diana Balis aqui.
Perfume da inocência, O amor & o matrimônio de Carmichael Stopes, Epigrama de Automédon de Cízico, a literatura de Robert A. Johnson, a fotografia de Beth Sanders, a arte de Chris Buzelli & Rebeca Matta, a pintura de Peter Blake & a música de Maria Leite aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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RÁDIO TATARITARITATÁ
Neste sábado, 24/06:
Gal Costa, Chico Buiarque, Geraldo Azevedo, Caetano Veloso, Lenine, Milton Nascimento, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Alceu Valença, Ivan Lins & Elza Soares.

A MÚSICA DE ALAGOAS
Neste domingo, 25/06:
Hermeto Pascoal, Djavan, Íbys Maceioh, Mácleim, Júnior Almeida, Cris Braun, Naldinho Freire, João Albrecht, Elaine Kundera, Basílio Sé, Leureni Barbosa & Carlos Moura.
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Viva São João!
 

QUINTANA, BUKOWSKI, ESPINOZA, CARLOS NEJAR, OTTO FRIEDRICH, SUZANNE VALADON, ARTUR GOMES & O FIM DO MUNDO

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