sexta-feira, agosto 25, 2017

PAULO MENDES CAMPOS, DEBUSSY, JESSIER, ELISEU PEREIRA, MULHER RURAL, JANILSON SALES & CÍCERO SANTOS

Livros, teatro & música infantis aqui.


DE POEMAS & ÓPERAS – (Imagem Loja Maçônica Fraternidade Palmarense, do artista Cícero Santos). - Numa certa manhã de um dia qualquer, tinha lá eu por volta dos meus 12 ou 13 anos de idade, entretido curiosamente com a audição na vitrola, de um álbum duplo com a antiópera Pelléas et Mélisande, do compositor francês Claude Debussy (1962-1918), indicação do meu primo-guru Afonso Paulo Lins, quando percebi a presença de um certo senhor na sala da minha casa. Voltei pra ele e disse: - Sim? Ao que ele insinuou: - Isso é...?!? – Debussy. -, respondi-lhe. – Sim. Você gosta de Debussy? Sim, gosto da música dele – falei com certa empáfia peculiar aos da minha idade -, mas não conhecia esta obra, nem sabia que ele compunha óperas. Já tinha ouvido outras de outros autores, como Wagner, Mozart, Berlioz, Verdi, Bizet, mas essa não. Aí ele me disse: - Vou ali conversar com seu pai e volto já. Você gostaria de ouvir algumas óperas? Tenho algumas comigo e gostaria de dividir com você, pode ser? – Sim -, disse-lhe, voltando à audição. Meia hora, mais ou menos, depois, ele retornou: - Já conversei com seu pai e acertei com ele que lhe pegaria depois no cartório pra gente fazer umas audições, está certo? Respondi positivamente e me despedi dele com um aperto de mão. Nem sabia quem era, recorri ao meu pai: - É o professor Eliseu, advogado amigo meu, cantor lírico, poeta, professor do Senai e de outras escolas daqui. Sim, sim. Tempos depois folheando a antologia organizada pelo poeta Juareiz Correya, Poetas dos Palmares, de 1973, vi dois dos seus poemas e fiquei sabendo que ele escrevia e publicava no jornal local A Notícia. Uma manhã, dias depois, ele chegava ao cartório, falando com meu pai: - Rubinho, permita que eu leve seu filho para umas audições? Sim, claro, professor. Ele, então, me levou até o carro e me conduziu para a Fazenda Cachoeira Dantas, na vizinha cidade Água Preta, enquanto me falava a respeito de uma ópera que rolava no toca-fitas do veículo. Chegando ao local, chamou-me e adentramos na casa grande da fazenda, até uma sala em que um certo senhor de idade ouvia atentamente uma ópera que eu não conhecia. Silêncio absoluto, só a música reinava até o final. Foi aí que o professor me apresentou ao deputado Joaquim Coutinho, que me olhou com surpresa com as palavras que me davam como ouvinte de ópera. – Tão jovem! -, disse ele. E entabulou uma conversa até chegar a hora do almoço, quando nos reunimos à mesa com perguntas sobre os meus compositores preferidos, ao que falei que gostava de boa música, sim, nomes, Beethoven, Mozart, Haydn, Häendel, muitos. O inquérito prosseguiu e eu tive que falar de obras pianísticas, sinfonias, mas não só, apreciando bossa-nova, xote, armorial, baião, rock, jazz, enfim, desde tenra idade eu sempre tive o ouvido colado no rádio e apreciava música de todo tipo. – Eclético -, disse o deputado pro professor, enquanto solfejavam um pro outro alguns trechos de valsas, concertos, sinfonias, algumas até eu já tinha ouvido. Depois do almoço nos despedimos e o professor me levou de volta pro expediente no trabalho. Isso se repetiu uma vez por mês ou a cada chegada do deputado à fazenda, mandando me chamar pelo professor para novas audições. Foi com isso que estreitei amizade com o professor Eliseu, com quem, tive o prazer de aprimorar meu conhecimento musical, vez que ele era integrante do elenco do Teatro de Ópera de Pernambuco, bem como dos mais diversos assuntos comprovando a sua erudição. Lembro bem da notícia do seu falecimento em 1979, fato que muito lamentei e que me trouxe à memória os últimos 6 anos, entre os quais, os momentos dos nossos encontros mensais regados à música e literatura. Lembro-me bem, certa vez, quando ele sacou um volume de folhas e recitou-me vários de seus poemas, entre eles Gênesis e Pelagia. Gostava da sua companhia, da impostação da voz ao recitar, nos solfejos e cantos à capela de trechos belíssimos de óperas, das instruções na introdução da teoria musical e, sobretudo, das brincadeiras eruditas – muitas que eu nem entendia direito o que queria dizer -, mas que me levavam às gargalhadas com o seu jeitão afetado de enfatizar determinadas palavras com o rigor prosódico que ele sabia imprimir, abrindo os olhos para flagrar o meu espanto e riso no final. Soube, durante as vezes que retornava dos nossos encontros, que ele era envolvido com política, assunto que jamais rondou nossas conversas, sempre levadas pelos prazeres da música e poesia, tão somente. Saudades de sua alegre pessoa e do seu tom professoral dedicado de instruir e esclarecer dúvidas que porventura rondassem meu olhar intrigado sobre qualquer coisa no andamento musical ou num verso, ou mesmo numa afirmação filosófica que fizesse. Saudades do professor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

PROJETO MUSEU DO HOMEM DO CAMPO

O Projeto Museu do Homem do Campo 2017, realiza exposição a partir de hoje na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, Palmares – PE. O projeto foi classificado no prêmio Educador Nota 10 e divulgado na revista Nova Escola (247-Nov, 2014), realizando exposições desde o ano da sua criação em 2013, na cidade de Xexéu – PE, com o objetivo de desenvolver pesquisas sobre fontes histórias da área, organizado pelo professor, psicopedagogo e poeta Janilson Sales, autor do cordel O dia em que choveu na terra dos poetas e dos livros de poesia Famosos Pés e Viver Livre.

A MULHER RURAL - A abordagem sobre a condição da mulher na sociedade envolve um vasto leque de questões e possibilidades. [...] a característica praticamente universal da desigualdade entre homens e mulheres, que se manifesta com maior ou menor intensidade segundo as condições históricas. [...] As circunstâncias que marcaram a organização das relações sociais, como a exclusão da mulher da linha de sucessão e de gestão do patrimônio da família, e as limitações impostas na área da educação, criaram condições para que as relações entre homens e mulheres fossem hierarquizadas. [...] A expansão do capitalismo no campo, particularmente na Zona da Mata, contribuiu para reduzir a agricultura familiar e as oportunidades de trabalho nesse âmbito. Em decorrência, cresce a luta pelo trabalho e se expandem as reivindicações pelos direitos sociais naquele meio, desde que o tipo de modernização adotado excluía pequenos produtores e estimulava a concentração fundiária. [...] Ao colocar-se no seio da luta pelo acesso à terra, a mulher adquire senso critico para rever princípios de vida que guiaram sua visão de mundo e dessa forma ameaçar a hegemonia da relação de gênero. [...] a luta movida para ocupar a terra tem profundo reflexo na questão de gênero. É possível introduzir mudanças nos espaços de dominação, começando pelos valores. A mulher (re)constrói a identidade de gênero no movimento de luta pelo acesso à terra. As mulheres do acampamento estão investindo na mudança de cultura e, através de sua história, estão construindo outra história de mulheres. Trechos extraídos da obra O protagonismo da mulher rural no contexto da dominação (Massangana, 2006), da pesquisadora Isaura Rufino Fischer. Veja mais aqui e aqui.

CORPO & CONSUMO -- O mundo começou sem o homem e provavelmente desaparecerá sem ele. Resultado de processos naturais, o homem é uma das manifestações do mundo. Faz parte, portanto, da natureza. Mas o homem não pode apreender o mundo tal qual ele é em sua objetividade: a percepção humana está limitada à sua humanidade, restringe-se às dimensões e ao alcance do olhar, do paladar, tato, olfato humanos... A percepção que o homem tem do mundo é irremediavelmente parcial: indissoluvelmente antropocêntrica, como é bovinocêntrica a apreensão do mundo por parte desses animais. [...] Cada cultura “modela” ou “fabrica” à sua maneira um corpo humano. Toda sociedade se preocupa em imprimir no corpo, fisicamente, determinadas transformações, mediante as quais o cultural se inscreve e se grava sobre o biológico. Arranhando, rasgando, perfurando, queimando a pele, opõem-se nos corpos cicatrizes-signos, que são formas artísticas ou indicadores rituais de posição social: mutilações do pavilhão auricular, corte ou distensão do lóbulo, perfuração do septo, dos lábios, das faces, decepamento das falanges, amputação das unhas, alongamento do pescoço, incrustações, apontamento dos dentes, extração dos mesmos, deformação cefálica, atrofiamento dos membros, musculação, obesidade ou magreza obrigatória, bronzeamento ou clareamento da pele, barbeamentos, cortes de cabelo, penteados, pinturas, tatuagens... Em suma, um sem-fim de práticas que se explicam por razões sempre sociais, de ordem ritual ou estética [...] Enfim, o meu corpo – sem que o possessivo contenha pleonasmo. Finalmente, todos com seus corpos: eis a utopia maior. Cada um com a sua originalidade, genuinidade, especialidade; cada um, então, com sua individualidade, com seus próprios limites, seu território à parte, que deve ser preservado. O direito de cada um começa onde termina o do outro: é por isso que, nas línguas das sociedades industrialmente desenvolvidas, devemos pedir desculpas ao interlocutor desconhecido, quando lhe dirigimos a palavra, quando tocamos involuntariamente em seu corpo ou em algo seu. É preciso não misturar e confundir as identidades individuais: no final do processo, não mais todos com seus corpos e suas sepulturas, mas com seus xampus, seus vestimentos, seus apartamentos, seus grilos, seus direitos, seus para-brisas, seus pneus, seus inconscientes, seus amores, seus tempos, seus, seus, seus... Enfim, o corpo meu, individual. Mas também o corpo banal, medíocre, corriqueiro, comum. O corpo “original”, da sociedade em que a originalidade, procurada por todos, banalizou-se. O corpo “extraordinário”, do mundo em que a excepcionalidade, buscada por cada um, se transformou em regra geral. O corpo “individual”, de um contexto em que a coisa mais comum e coletiva é exatamente o individualismo. [...] Trecho da obra Corpo e consumo: roteiro de estudos e pesquisas (PUC-Rio, 2012), de Everardo Rocha e José Carlos Rodrigues, destacando o pensamento do Dr. D. Hacket, acerca da saúde nos anos de 1925: [...] A saúde dos trabalhadores deve ser mantida e melhorada enquanto meio de produção... Frangos, cavalos de corrida, macacos de circo são alimentados, alojados, treinados e mantidos no mais alto nível de força física para assegurar um rendimento máximo em suas funções respectivas. O mesmo princípio se aplica aos seres humanos. Um aumento da produção só pode ser esperado dos trabalhadores se se atribuir uma grande atenção a seu ambiente físico e às suas necessidades.

CONTINHO – Era uma vez um menino triste, magro e barrigudinho, do sertão de Pernambuco. Na soalheira danada de meio-dia, ele estava sentado na poeira do caminho, imaginando bobagem, quando passou um gordo vigário a cavalo: - Você aí, menino, para onde vai essa estrada? – Ela não vai não: nós é que vamos nela. – Engraçadinho duma figa! Como você se chama? – Eu não me chamo não, os outros é que me chamam de Zé. Conto extraído da obra Crônica (Ática, 2002), do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui.

GARANTO QUE FOI POR ELA QUE O MEU JUMENTO RINCHOU - Jumentinha viajada / de andar esquipador / melhor que égua baixeira / ou de andar andador / de trote baixo ou xotão / pelo rudado ou cardão / parece ruça na cor / é jumentinha donzela... / garanto que foi ela / que meu jumento rinchou! Poema extraído da obra Agruras da lata d’água (Bagaço, 2012), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino, autor de excelentes livros como Paisagem do interior (1998), Além de Paisagem do Interior (1998), Prosa Morena (2001), Política de Pé de Muro (2002), Bandeira Nordestina (2006), Berro Novo (2010), Papel de Bodega (2013), além dos infantis Chapéu Mau e Lobinho Vermelho e Miudinha, entre outros CDs e DVDs, acompanhado dos filhos que são os músicos Vitor Quirino (no violão) e Matheus Quirino (percussão).

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DOIS POEMAS DE ELISEU PEREIRA DE MELO
GÊNESIS
Crise de paroxismos de luz / ofuscando seres vivos e inermes / cegando brilhos eternos de estrelas candentes, / espargindo reflexos de prata fundente. / Tudo é luz que se liberta de prisões hélias; / tudo é luz que fecunda coisas e gentes; / tudo é luz que germina óvulos dormentes; tudo é luz que amplia células viventes. / Uma vez te vi no clarão ofuscante / e eras uma intenção sem brilho e cor. / Toquei de leve o teu seio. / E foste envolvida pelas luzes ; de todos os arco-íris das regiões conhecidas e ignotas / e mais um mundo foi criado.
PELAGIA
Quando te conheci foi diante do mar. / A água no vai e vem da maré vazante / beijou os nossos pés nus aprovando o nosso amor / e retirou-se para observar e suspirar conosco. / Uma gaivota solitária passou sobre nossas cabeças / e grasnou desaprovando o nosso idílio / - por inveja ou ciúme talvez - / compreendi que fora traído por amor. / Depois o mar voltou em revolta / pois lá já não estávamos; / restava somente a forma do teu corpo sobre a areia. / Em fúria apagou a lembrança da tua presença / e voltou ao seu leito para repousar, / enquanto minha alma absorvia todo o seu desespero.
Poemas extraídos da antologia Poetas de Palmares (Palmares, 1973), organizada por pelo poeta e editor Juareiz Correya. Veja mais aqui.

A ARTE DE CÍCERO SANTOS



QUINTANA, BUKOWSKI, ESPINOZA, CARLOS NEJAR, OTTO FRIEDRICH, SUZANNE VALADON, ARTUR GOMES & O FIM DO MUNDO

SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE! - Pra todo lado que eu me virasse, a conversa era uma só. Bastou eu botar a cara na rua logo cedo, apar...