segunda-feira, outubro 16, 2017

PRIMO LEVI, ALTHUSER, OSCAR WILDE, FERNANDA MONTENGRO, SÉRGIO AUGUSTO DE ANDRADE, NEUZA PARANHOS, APOLLONIA SAINTCLAIR & PADRE BIDÃO

OS MILAGRES DO PADRE BIDIÃO - Muito se tem falado a respeito dos milagres praticados pelo Padre Bidião. Eu mesmo nunca vi um sequer, mas que falam, falam. E muito! Pois bem. Certo dia o pároco adentra meu escritório e me pede uma bebida. Qual? Pode ser uísque mesmo, vá. Abri a portinhola da estante, peguei um copo e um litro do uísque que dispunha, coloquei sobre a mesa e me levantei para ir buscar gelo no frigobar. Precisa não, vou tomar caubói mesmo, podexá. Retornei e ele me fez pegar outro copo pra mim. Vamos brindar! Brindar o quê, padre? Seguinte: você é escritor e eu estou meio enganchado com o meu Evangelho, preciso de você para concluí-lo, acertado? Padre, ora, o senhor dispõe de gente da melhor cepa, não precisa de mim reles contador de história pra isso, ainda não sou escritor gabaritado para uma empreitada dessas, é muita responsabilidade. Deixe de conversa mole, vá, encha o copo, vamos brindar e virar duma vez. Assim fiz. Brindamos, vira, vira, vira, vira, vira, vira, virou! Pronto, engoli seco, minha garganta queimou. O da batina nem careta fez. Outra, vamos lá. O mesmo ritual. Viramos e ele após ingerir a segunda dose, me puxou mais pra perto e me disse: Preciso de você antes do livro. Como assim? Seguinte: quando falei com Deus pela primeira vez, pedi poderes para curar as pessoas. Ele então me mandou pro Tibet e, chegando lá, disse que eu fosse pra Shangri-lá. Três meses enclausurado, curso intensivo, aprendi. Voltei ao mundo e consegui curar gente de todo tipo, botar cego pra enxergar, mudo pra falar, aleijado andar, enfim, tudo me era possível nisso. Porém, nunca consegui ressuscitar ninguém. Invoquei Deus e disse: Quero ressuscitar as pessoas. Jesus fazia isso, eu também quero fazer. Quero ressuscitar as pessoas, desencantar as árvores encantadas, os pássaros amaldiçoados, tudo que for possível para tonar a vida das pessoas e de todos os seres de volta ao normal. Deus então me disse: Você tem que encontrar Gô-noêno-hôdi. Vixe! E onde é que eu acho esse? Você tem que ir lá pras bandas do sul matogrossense , procurar a tribo Cadiuéu. Quando encontrar a tribo, encontrará quem estou falando. Está certo. Só tem um detalhe. Qual, Deus? Não aceite nada que ele lhe der nem olhe pra filha dele, está ouvindo? Não posso aceitar nada que ele me oferecer nem posso olhar pra filha dele. Isso mesmo. Posso perguntar por quê? Não, apenas faça o que eu mando e pronto! Certo, vou anotar isso pra não esquecer. Daí preciso de você antes do livro. Pra quê? Pra ir comigo. Ora. Ora, nada, já que você vai ser o escritor do meu Evangelho, terá de ir comigo pro Amazonas. Oxe, padre! Ora, cadê seus clones? Não importa, você será o escritor, tem que viajar comigo para poder saber tudo que faço. Além do mais, tem que me lembrar do que Deus me disse: eu não posso olhar pro... sei lá mais o nome... como é mesmo? Gô-noêno-hôdi. Isso, tá vendo? Você já aprendeu. Então, vamos tomar outra talagada desse uísque e vamos embora. Mas, padre. Mas, nada, vamos lá: virando? Slept! Isso é que é uísque bom. Agora vamos. E saímos, ele amontou no disco voador e fomos pro Amazonas. Chegando lá: Onde é que fica a tribo dos Cadiuéu? Ah, é só ir direto aqui que vai bater lá. Seguimos o indicado, uns cento e cinqüenta quilômetros depois, avistamos uma tribo. Ele aterrissou e perguntou pros assustados índios: É aqui a tribo Cadiuéu? É, sim. Onde mora Gô-noêno-hôdi? Ah, é naquela casa ali. Ainda bem que é perto, vamos. Chegando lá. Ô de casa? Sim? É você que é Gô-noêno-hôdi? Não, eu sou o cabelo dele. Ele mora lá naquela casa lá longe, está vendo? Estou. Vamos lá. E lá, ao sermos atendidos pelo morador, o padre perguntou: É você Gô-noêno-hôdi? Não, eu sou a testa dele. Ele mora lá naquela casa na colina, está vendo? Estou. Vamos lá. E fomos. Ao chegarmos: É você Gô-noêno-hôdi? Não, sou o nariz dele! Ele mora lá naquela casa ali na beira do rio, está vendo? Estou. Vamos lá. E assim fomos de casa em casa. Já tínhamos passado pela casa do queixo dele, do pescoço dele, da mão direita dele, da mão esquerda dele, do bucho dele, do umbigo dele, das catotas dele, do rego da bunda, das costas, dos colhões dele, do furico dele, da bimba dele, das coxas, pernas, andamos que só a má notícia, horas sem descanso, enfim, quando chegamos nos pés dele, um chulé da porra, foi aí que o último disse: Ah, ele mora aí em frente, pode ir que ele está lá. Aí ele se virou, bateu palmas e de lá dentro uma voz grave e potente disse: Pode entrar. Quem é? Sou padre Bidião. Ah, pode sentar. E o seu amigo? Ah, é o escritor que acompanha as minhas façanhas para concluir o meu Evangelho. Ah, tá.  Ele, então, acendeu um cachimbo: Quer uma cachimbada? Não, obrigado. Não me faça desfeita, dê uma cachimbada! Não, obrigado. Então, vamos fumar um pascaio do bom. Vamos, dê uma tragada aí no meu pascaio. Não, obrigado, não fumo. Vamos, padre, tome uma tragada que você vai ver estrelas e o céu todo, vamos! Não, obrigado. Hummmm. Você é esperto, já sei quem mandou você aqui. Diga o que quer! Quero ressuscitar as pessoas! Como? As pessoas quando morrerem, eu quero chegar nelas e ressuscitá-las! Ah, sim. Ô minha filha, traga aquele pente especial. A filha veio, o padre baixou a cabeça, olhos no chão e bateu no meu joelho para não vê-la: Está lembrado? Estou padre. Não olhe pra ela! A moça veio, entregou o pente ao padre. Ele de olhos baixos permaneceu: Obrigado. Quando ela saiu, ele agradeceu ao Gô-noêno-hôdi. O que você quer mais? Ah, quero desencantar todas as coisas encantadas, árvores, pássaros, rios, tudo! Ah, você quer desencantar tudo? Sim. Ô minha filha, traga aquela resina especial que mandei você guardar. A moça reapareceu, baixamos as vistas, ela entregou a resina ao padre Bidião e agradecemos. Certo, Gô-noêno-hôdi, obrigado. Mas tem uma coisa! Diga, padre. Como eu sei que está me dando as coisas certas? Vamos fazer um teste? Vamos. Ô minha filha, mande buscar aquele morto que morreu agorinha lá na esquina. A moça foi, daqui a pouco volta com vários índios trazendo um homem morto. Pronto, aí está o morto, penteie o cabelo dele pra testar. O padre foi, penteou os cabelos do defunto e logo ele abriu os olhos e os índios pularam de alegria. Está satisfeito, Bidião? E como eu sei que vou poder desencantar as coisas? Tá certo. Ô minha filha, mande buscar aquela pedra grande que está lá no meio da rodagem que quero ela aqui agora. A moça saiu, daí a pouco, voltou com um bocado de índio carregando uma enorme pedra. Pronto, está aí, passe a resina para ver o que acontece. O padre levantou-se, passou a resina e a pedra começou a se mexer, virou uma árvore que cresceu, cresceu tanto no meio da sala que arrombou o teto não parando de crescer até sumir lá nas alturas da nuvem. Pronto, Bidião, está satisfeito? Agora estou. Muito obrigado, agora preciso cumprir minhas missões. Inté mais ver. Inté. Quando saímos, ouvimos Gô-noêno-hôdi rgitar: Ô minha filha, corra atrás do padre e entregue isso a ele. Aí corremos mais, pé na bunda da poeira levantar atrás, a moça gritando, a gente mais depressa, ela mais ainda, até que o padre tropicou e viu o pé da moça: Pronto, fodeu. Ela, então, disse: Todo mundo que olha pra mim me deixa grávida e morre. E como desfaço isso? Você só se salvará se fizer amor comigo. Oxe! É mesmo? É. De verdade? É. Então, peraí. Virou-se pra mim, agora fodeu Maria-preá, vai mais pra lá que vou emprenhar de verdade essa moça lindíssima, não se vire, nem veja, viu? Certo, padre, mande ver. Aí ele foi se chegando à moça, levantou a batina, encostou-la numa árvore e mandou ferro nela, no maior gemido de ais e uis, dela gritar, berrar, se esfolar e gozar ruidosamente, dele cair duro no chão. Nessa hora corri pra socorrê-lo. Estou bem, estou bem. Foi um gozo da porra. Agora ela está prenha de verdade. É, agora você tem que morar comigo. Sim, vou morar, só que agora vou cumprir minhas missões, final do mês estarei aqui pra gente se casar de verdade e criar nossa prole. Está certo. Assim, entramos no disco voador, ele me deixou em casa e perguntei: Agora o senhor vai cumprir suas missões, boa sorte! Nada, agora não, vou voltar lá, dou outra peiada na linda cadiuéu pra depois cumprir as misssões. E assim foi. Ele ressuscitava e corria na tribo, trepava e voltava; desencantava um, retornava lá pra índia adorada, dava bimbada nela e retomava com as missões, indo e vindo, de instante em instante, a ponto de parar sobre o meu telhado e gritar: Ô meu escritor! Quando eu enjoar da indiazinha linda, eu venho aqui pra você trabalhar no meu Evangelho viu? Faz tempo que ele não aparece, deve estar salvando muita gente e se aproveitando pra dar uma sapecada boa na sua nova paixão. (Recriada a partir da lenda Gô-noêno-hôdi, extraída da obra Religião e mitologia cadiuéu (SPI, 1950), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Various pianoworks & Concerto Armorial n 2, op. 98; da cantora e compositora Leila Pinheiro: Meu segredo mais sincero, Leila Pinheiro do Brasil & álbum com seus grandes sucessos; do cantor, compositor, maestro e arranjador Francis Hime: Concerto para violão Modinha, Concerto para violão Ponteio, Fantasia para harpa e orquestra e Sinfonia para o Rio de Janeiro de São Sebastião; e da cantora Clara Redig interpretando Embarcação, Frevo nº 2 do Recife, Valsa Rancho, O amor e a rosa, Trocando em miúdos & Preconceito. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAFalta sexo. As pessoas têm levado tudo tão a sério que a maioria já se esqueceu como o cinema talvez tenha sido inventado simplesmente para que possamos assistir melhor – e mais vezes – a nossos wet dreams prediletos. Será que o máximo que merecemos é brincar de vestir Halle Barry de Mulher Gato? Por favor. Trecho do artigo Sexo (Bravo, out/2004), do jornalista Sérgio Augusto de Andrade. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO PÚBLICA - [...] até uma criança sabe que se uma formação social não reproduz as condições da produção ao mesmo tempo em que produz não conseguirá sobreviver um ano que seja. A condição última da produção é, portanto a reprodução das condições da produção. Trecho extraído da obra Aparelhos ideológicos de Estado (Graal, 1998), do filósofo francês Louis Althuser (1918-1990), que na sua obra Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado (Presença 1970), reafirma que: [...] Designamos por Aparelhos Ideológicos de Estado um certo numero de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas...(a ordem pela qual as enunciamos não tem qualquer significado particular): O AIE religioso (o sistema das diferentes Igrejas), o AIE escolar (o sistema das diferentes escolas públicas e particulares), o AIE familiar, o AIE jurídico, o AIE político (o sistema político de que fazem parte os diferentes partidos), o AIE sindical, o AIE da informação (imprensa, rádio-televisão, etc.) [...] Ora, é através da aprendizagem de alguns saberes práticos (savoir-faire) envolvidos na inculcação massiva da ideologia da classe dominante, que são em grande parte reproduzidas as relações de produção de uma formação social capitalista, isto é, as relações de explorados com exploradores e de exploradores com explorados. Os mecanismos que reproduzem este resultado vital para o regime capitalista são naturalmente envolvidos e dissimulados por uma ideologia da Escola universalmente reinante, visto que é uma das formas essenciais da ideologia burguesa dominante: uma ideologia que representa a Escola como um meio neutro [...]. Veja mais aqui e aqui.

DE PROFUNDIS - [...] Chamamos a época em que vivemos de utilitária, mas a verdade é que não sabemos usar praticamente nenhuma das coisas de que dispomos. Esquecemos que a água limpa, o fogo purifica e que a Terra é a mãe de todos nós. Em consequência, nossa arte é da lua e brinca com as sombras, enquanto que a arte grega é do sol e trata diretamente com as coisas. Tenho certeza de que há pureza nas forças mais elementares e quero voltar a elas e viver em sua presença. Todos os julgamentos julgam a nossa vida, assim como todas as sentenças são sentenças de morte – e eu já fui julgado três vezes. Na primeira, saí do banco dos réus para a prisão, na segunda para retornar à prisão, na terceira para passar ainda dois anos no cárcere. A sociedade, tal como a fizemos, não tem nenhum espaço para me oferecer, mas a natureza cuja doce chuva cai tanto sobre o justo quanto sobre o injusto terá covas nos rochedos onde poderei ocultar-me e vales secretos em cujo silêncio poderei chorar sem ser perturbado. Ela encherá a noite de estrelas para que eu possa caminhar na escuridão sem tropeçar e fará com que o vento apague as minhas pegadas para que ninguém possa ferir-me. Ela me purificará em suas águas claras e curará meus males com suas ervas amargas [...]. Trecho extraído da obra De profundis & outros escritos do cárcere (L&PM, 1982), do escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui, aqui e aqui.

É ISTO UM HOMEM? – [...] Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...] Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...]. Trechos extraídos da obra É isto o homem (Rocco, 1988) do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987). Veja mais aqui.

A FOME & SUAS CONSEQUENCIAS - [...] Minha alma desceu fuindo no buraco negro de seus olhos. Eu e meus convidadeos. Eu e minha falta de assentos. Eu e minhas aspirinas. Nos meus quarenta em madeira de lei, escondida selva onde ninguém pudesse tocar. Tomaram a voltar. A cada visita, meu coração se aquietava vendo-os entrar sem licença, mas submissos. Uma noite tentei perceber se ficavam nos mesmos lugares. Não havia como, eram muito parecidos e se confundiam em uma só entidade, mas sabia, sem que ninguém tivesse me avisado. Jamais lhes dirigir a palavra, nem procurar em seus olhos sinais de humaniadde. Deveria fechar o corpo, precaver a alma, andar como um domador entre feras. Via em um conta uma mulher a enterrar bebês, outra a entregar os filhos em orfanatos. Adiante, um enforcado, um tuberculoso, um suicida, uma desonrada. E a companhia vinha espumando ódio. Indignada, nos meus quarenta anos em madeira de lei sem regra, eu mal dava conta das aspirinas. Quanto mais da marca do vinho [...]. Trecho do conto A fome (Cult, janeiro 2003), da escitora, jornalista e tradutora Neuza Paranhos.

A ARTE DE FERNANDA MONTENEGRO
Todo dia é dia da atriz Fernanda Montengro. Veja mais aqui.


Veja mais:
A arte & a entrevista de Clara Redig aqui e aqui.
A saga do Padre Bidião aqui.
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INK IS MY BLOOD, APOLLONIA SAINTCLAIR
Imagens da trilogia Ink is my blood (Tinta é o meu sangue) publicada da artista, ilustradora e desenhista erótica Apollonia Saintclair. Veja mais aqui.
  

sábado, outubro 14, 2017

ÍTALO CALVINO, ARENDT, NIETZSCHE, CECÍLIA KERCHE, CUMMINGS, WOLF VOSTELL, RENATO JANINE, MAKABRESKU, O SOL & A LUA.

O SOL E A LUA - No tempo em que o Sol e a Lua eram gente, certo dia, o curumin caeté Fiietó brincava de caçar na mata, quando encontrou uma linda menina e se aproximou dela: Você está brincando de caçar? Tô não, tô perdida. Perdida? Sim, saí atrás de uma linda bobroleta e perdi o caminho de volta pra casa. Onde você mora? Não sei, estou perdida. Qual a sua tribo? Sou caingang. Nunca ouvi falar. Acho que corri demais atrás da borboleta de não perceber tão longe que fui. E você, é de qual tribo? Ah, sou caeté. Nunca ouvi falar, também. E agora? Não sei, estou perdida. Vamos brincar por ali pela lagoa, aí você, quem sabe, não encontra o caminho de de sua casa, hem? É, vamos. Como é seu nome? Iaravi. E o seu? Fiietô. Ah, tá, vamos pra lagoa? Vamos. E saíram os dois até chegarem à lagoa e ficaram brincando de mergulhar com os peixes. Pulavam, timbungavam, maior festa. Vamos ver de nós dois quem atira cipó mais longe dentro d’água? Nunca brinquei disso. Ah, porque você é menina, não sabe como é brincar coisa de menino. É, então vamos, quero aprender. E ficavam pegando gravetos e cipós no chão da mata e jogavam dentro d’água. Os peixes pulavam pra pegar as coisas jogadas no ar. Virou uma competição. Aí Fiietó gritou: Saiam, não é pra vocês pegarem, estamos apostando quem joga mais longe. Ah, os peixes nem deram conta, pulavam mesmo assim e interceptavam tudo no ar. Vocês estão atrapalhando nossa brincadeira! Ah, deixa, eles estão brincando com a gente, vamos nadar com eles? Então, vamos. E saíram nadando com os peixes e estes, para provocar os dois, ficavam apenas com o rabinho fora d’água só pra provocá-los a virem nadando atrás deles. Iaravi ia prum lado atrás dos que via, Fiietó ia pro outro com o mesmo objetivo. Tanto foram pra lados opostos que se distanciaram e, quando menos esperavam, esbarraram um no outro. Eita! Batemos com a cabeça. Foi. Estou cansada com esses peixes, eles me botaram para nadar muito. Eu também, vamos voltar pra margem? Vamos. E retornaram, ficaram olhando o brinquedo dos peixes pulando fora d’água e se riam muito com isso. Já estava escurecendo quando Iaravi ficou preocupada em voltar: E agora? Como volto pra casa? Ah, a gente se esqueceu de procurar o caminho, vamos ver se a gente encontra. Saíram, andaram, andaram, nada de Iaravi achar, quando Fêetó resolveu levá-la pra tribo dele. Lá chegando os dois se juntaram aos demais, cearam e foram dormir. No outro dia acordaram, tiraram o jejum e foram ver se achavam o caminho de volta pra casa dela. Foram pra mata e lá começaram a brincar de esconde-esconde, o que é que é, até que encontraram uns pica-paus e ele pediu um chapéu daquele cor de fogo feito os deles. Logo um dos pica-paus retirou um e deu pra ele, fazendo-o de leque. Bonito? Sim. E pra ela? Outro pica-pau deu um pra Iaravi. Eu estou bonita agora? Está. Vamos? Vamos. E ambos brincaram comos pássaros, de pula-pula e correr e voar. Lá pras tantas os pica-paus se despediram e foram embora, eles estavam felizes com os leques feitos chapéus cor de fogo na cabeça. Ah, agora você se faz de cega preu brincar de lhe guiar pela mata, tá bom. Nessa brincadeira ela muito tropicou nos galhos quebrados e secos, nas raízes e muitas pedras, a ponto de invocar-se e não querer mais brincar disso não. Ao abrir os olhos avistou uma casa de marimbondos. Vixe! Vamos embora, corre, olha ali uma casa de marimbondos. Era tarde, correram tanto que findaram mergulhados dentro da lagoa. Alguns peixes pularam e comeram alguns dos marimbondos que não resistiram e foram embora. Visse? Não fosem os peixes, a gente ia morrer afogado. Era mesmo, ainda me ferraram. E Fiietó realmente constatou inchaço nas faces e nas costas de Iaravi. Está doendo? Está. Vamos lá pra minha tribo cuidar disso. E voltaram. Chegaram lá, foram pro feiticeiro que passou uns ungüentos na pele de Iaravi e lhe deu um remédio para beber, demorou um pouquinho, a dor passou, mas continuava com a face e as costas inchadas. Ela então se deitou no chão da oca e ali adormeceu. Será que ela vai ficar boa? Vai, é só efeito do remédio que eu dei, logo ela acorda e volta a brincar com você. No outro dia Iaravi acordou e foram brincar de esconde-esconde de novo, ela tanto se escondeu que Fiietó não mais encontrou. Perdeu-se, sumiu-se. Caçou ele por tantos lugares e lonjuras, não mais encontrou Iaravi. Ele ficou muito triste, estava com saudades dela. Encostou-se numa pedra perto da lagoa e logo os peixes apareceram pulando na água. Ela desapareceu, não achei mais não. Queria era crescer, ficar grande, para encontrá-la. Quem sabe, ela esteja perdida na mata. Nessa hora um peixe deu um pulo maior e com um toque de barbatanas fez Fiietó crescer, agora um rapaz forte, bonito, guerreiro. Obrigado, amigos peixes, agora vou procurar Iaravi, se vocês encontrarem me avisem, viu? Vamos. E saiu morro acima, montanha abaixo, terras distantes nunca vistas. Bem distante dali, estava Iaravi soluçando na beira de um rio distante, quando os peixes pularam foram d’água. Ah, amigos peixinhos, que bom encontrar vocês por aqui. Viram Fiietó? E um dos peixes pulou, bateu a barbatana e Iaravi cresceu, tornando-se uma linda cunhã. Os peixinhos ficaram pulando como se a chamassem para nadar. Vocês sabem onde está Fiietó? Eles mais pulavan, ela entendeu que era pra segui-los. E ela nadou dias e noites. E Fiietó procurou por ela noites e dias. Cansavam, descansavam, tornavam a procurar um pelo outro, ao cabo de uma semana, quando ambos já haviam perdido as esperanças, sentaram cada qual na beira oposta de um grande rio, extenuados e sem mais esperanças. Estavam desapontados por não reencontrarem um ao outro. Ela olhava tudo ao redor, o céu, a terra, o mato, quando percebeu os peixes pulando de novo e não entendia. Vieram os pica-paus em bandos cantando, ah, os amiguinhos pica-paus, que vocês querem? Não entendia. Da mesma forma, na outra margem do grande rio, também os peixes e os pica-paus faziam o mesmo com Fiietó e ele não entendia. O que vocês querem? Os peixes mais pulavam e os pica-paus mais bicavam no ar, como se mandando ele a segui-los. E assim foi, ele mergulhou no grande rio e pôs-se a nadar acompanhando os peixes e os pássaros. Lá longe Iaravi avistava outros pica-paus voando aos pulos dos peixes na água, enquanto os que estavam com ela aumentavam no bater das asas e nos pulos na água. Demorou pra ela perceber umas braçadas firmes de gente na água, acompanhando os pulos dos peixes e o vôo dos pássaros, vindo em sua direção. Mais um pouco os braços se aproximavam e os pica-paus que vinham se encontravam com os outros que estavam com ela e, na água, aumentou em muito os pulos com muitos peixes até a chegada dele na beira do rio. Era Fiietó. Ela ficou feliz. Fiietó? Iaravi? Era o reencontro. E se abraçaram, se beijaram e juraram nunca mais se afastarem um do outro. Tanto é que passaram a tomar conta do mundo, ele de dia passou a ser o soberano Sol brilhando do amanhecer até o final das tardes, e ela, de noite, tornou-se a radiante Lua com suas fases para iluminar o caminho dos que se perdem. (Recriação a partir das lendas indígenas amazônicas recolhidas de Notícia dos Ofaié-Xavante (Revista Museu Paulista, 1951), de Darcy Ribeiro, e Os apinajé (Boletim do Museu Paraense Emiolio Goeldi, 1956), de Curt Nimuendaju). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): O anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica & Qualquer música; a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista, músico, compositor e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o Cantador. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Houve também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras, 2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época, parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre, encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos da obra Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS & A MORAL - [...] sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? [...] Já em princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”, como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo. [...] Em toda a parte onde existe comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria comunidade. [...] Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...]. Trechos da obra Genealogia da moral: uma polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ENSINO & ESCOLHASVivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto. [...] Da cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. [...] Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. [...]. Trecho do artigo A corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão (Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro.

A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina Cecília Kerche.

Veja mais:
Fiietó & Iaravi aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio & Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.

A ARTE DE WOLF VOSTELL
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço Wolf Vostell (1932-1998).
 

sexta-feira, outubro 13, 2017

NAGUIB MAHFUZ, JOÃO MARTINS DE ATHAYDE, HELEN KELLER, STEPHEN GREENBLATT & RICHARD DIEBENKORN

SEXTA FEIRA – Imagem: arte do pintor estadunidense Richard Diebenkorn (1922-1993). - Reviro inheto na madrugada longa e meus olhos flagram agora o que já foi passado esquecido, dado por morto, sepultado, de nunca mais saber. Há dias, muitos dias, como se fantasmas forjassem vinganças deletérias, as coisas se complicam incompreensivelmente. Ao me comprromissar com o meu tempo e a minha terra, jamais soubera que emergeria agora, a contragosto, o que não se previra: andar para trás -  isso não é usual. Teimo para que em mim renasça a vida na manhã vindoura, sabendo que será outro dia, não da esperança inalcançável, mas como território para ação. Constato, contudo, que tudo é extremamente delicado, como se uma paz falsa e forasteira se instaurasse nesse instante, olvidando da hora, como se nada estivesse acontecendo, nem acontecesse ou tivesse acontecido, enquanto desenterram os desvarios de ontem e do presente. A quietude esconde as adversidades que transitam entre sabidos e incautos, como se não houvesse degradação saindo das normas para evacuar os campos de batalhas em sinal de enganoso armistício. Afinal, já é sexta-feira, a meio caminho andado pra loucura. Enquanto todos dormem, sigo de ventas acesas a livrar-me de chatos no rol dos cretinos e de temperamentais metidos a besta que se escondem por trás de togas e gravatas arbitrárias investidas pela legalidade de plantão ao arrepio da própria lei. Enquanto todos dormem, mil atos desumanos evoluem nas disfunções sistêmicas dos interesses, ninguém os vê, são invisíveis e ubíquos, assumem disfarces mil na força do engodo e pra nosso desespero. Segue a sexta-feira silenciosa e calma para mais um dia chocho como outro qualquer que se faz pela vigência da exceção, aquele que, ao contrário de todas as boas aparências, mantém subjacente a premência iminente da indignação. Hoje é sexta-feira e denuncio a mim mesmo: não há como aceitar tudo isso, não há como se omitir, nem se calar. Havia um tempo em que toda sexta, meio dia em ponto, eu traquinava solto na buraqueira, feliz da vida, rindo ao Sol, a mais do tanto. Hoje, no máximo, apenas minhas mãos para medir o tamanho da coragem de seguir adiante, retomando a direção da vida, teimando em viver, persistindo, perseverando – quase completamente inútil fora do convencional, e não me aquieto. Apesar de ser tudo muito difícil, é possível sonhar que a partir de hoje, a partir desta sexta-feira, a vida seja plena e verdadeira, senão, ao contrário dos finais felizes das telenovelas, seja como um filme que nos cobre no final, provocativamente, explicação pelo que somos, isso pra quem não tem a coragem de encarar o espelho. Vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Raimundo Fagner: O quinze, Eternas Ondas e A arte; a panista Karin Fernandes interpretando Shajarat al-Hayah tanmow fi al-Sahra Yahi, de Tatiana Catanzaro, Seresta, para piano e orquestra, de Camargo Guarnieri, Nó, de Sergio Kafejian & Concerto Romântico de Radamés Gnattali; do compositor estadunidense de música minimalista Morton Subotnick: The Last Dream of the Beast, Axolotl & Ascent into Air; e da cantora Sônia Mello: Desejo,  Aurora/Minha Voz, Começo meio e fim, Proposta & Outra vez. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAEu, que sou cega, posso dar uma sugestão aos que vêem – um conselho àqueles que deveriam fazer completo uso do dom da vida: servi-vos dos vossos olhos como se amanhã fosseis cegar. O mesmo princípio é valido para o restante dos sentidos. Ouvi a música das vozes, o canto de uma ave, os poderosos acordes de uma orquestra como se amanhã fossem vbítima de surdez. Tocai em tudo o que desejais tocar, como se amanhã viésseis a ficar privados da faculdade do tato. Aspirai o perfure das flores, sobejai com deleite os vossos alimentos, como se amanhã perdêsseis o olfato e o paladar. Pensamento da escritora, conferencista e ativista social estadunidense Helen Keller (1880-1968), ela foi a primeira pessoa surda e cega a conquistar um bacharelado. Veja mais aqui e aqui.

O POETA & O ASSOMBRO – [...] "Ninguém poderá ser chamado de poeta", escreve o influente crítico italiano Minturno na década de 1550, se não se sobressair no poder de provocar assombro" Para Aristóteles, o assombro está associado ao prazer como fim da poesia, e na Poética ele examina as estratégias pelas quais os poetas trágicos e épicos empregam o maravilhoso para provocar assombro. Também para os platônicos o assombro é um elemento essencial na arte, pois é um dos principais efeitos da beleza. Nas palavras de Plotino, "Este é o efeito que a Beleza deve sempre induzir, assombro e pasmo deleitoso, desejo e amor, e um terror que seja prazeroso." No século XVI . o neoplatônico Francesco Patrizi define o poeta como O "criador do maravilhoso", e afirma que o maravilhoso está presente quando os homens ficam "estupefatos, arrebatados em êxtase". Patrizi chega ao ponto de considerar o maravilhamento uma faculdade especial da mente, uma faculdade que na verdade é mediadora entre a capacidade de pensar e a capacidade de sentir. [...]. Trechos da obra As possessões maravilhosas (Edusp, 1996), do teórico e critico literário estadunidense Stephen Greenblatt.

MIRAMAR – [...] À minha frente, o mar sem-fim estendia-se, azul, claro e belo. As ondas calmas brincavam com as perolas que o sol lançava. Um vento agradável me envolveu. [...] Estava quase me entregando à melancolia, quando ouvi um barulho no quarto, olhei, era Zohra arrumando minha cama com lençois e cobertas. [...] Contemplei sua estonteante beleza camponesa. [...]. Trecho do romance Miramar (Berlendis e Vertecchia, 2003), do escritor egípcio & Prêmio Nobel de Literatura de 1988, Naguib Mahfuz (1911-2006), contando a história de seis personagens exilados pelas circunstancias em Alexandria, no início dos anos 1960, em hotel antes refinado, agora pobre e decadente, administrada por uma envelhecida proprietária e uma linda jovem ajudante, Zohra, cujas relação com os hóspedes refletem a realidade social e política do período e das transformações da sociedade egípcia seguida à revolução de 1952.

O PODER OCULTO DA MULHER BONITA
[...]
Qualquer um religioso
Querendo experimentar
Fazer uma procissão,
Sem a mulher ajudar,
Chegando no meio do caminho,
O santo fica sozinho
Sem ter quem o carregar.
A mulher indo no meio,
Como é acostumada,
Anima-se todo mundo,
Ali não falta mais nada...
Da minha parte eu garanto
Que o povo carrega um santo
Que pesa uma tonelada!
Poema do poeta popular paraibano João Martins de Athayde (1880- 1959). (Xilogravura de Airton Marinho). Veja mais aqui.

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A ARTE RICHARD DIEBENKORN
A  arte do pintor estadunidense Richard Diebenkorn (1922-1993).

quinta-feira, outubro 12, 2017

FERNANDO SABINO, NISIA FLORESTA, LEON ELIACHAR, HELENA KOLODY & CRAIG RUDDY

O SONHO REVELADOR – Imagem: arte do artista australiano Craig Ruddy. - Delzuito não sabia mais o que fazer: o avençado se desmanchava; o caminho certo, topava errado; o que inventasse fazer, era desconstruído no mesmo instantinho, tudo lhe fugia entre os dedos. Nem adiantava agarrar a situação pelos cornos, soltava-se a perder de vista. Disparava em todas as direções, alvos indiferentes; nada dava liga, tudo esgarçado, aos trapos. Pergunta-se o que tinha feito para merecer tudo isso, essa vida tão miserável, não podia ser, Deus estava castigando demais e isso, para ele, era injusto, não aceitava, queria, pelo menos, saber o porquê de tanto sofrimento, tantas mazelas, tantos infortúnios encarreados pra seu suplício sem fim. Restava pegar no ronco e esperar que no dia seguinte alguma luz surgisse no fim do túnel. Depois de catar os fiapos das quedas, restava sonhar vitórias. No sonho era outra pessoa, não tinha a sua feição, mas era como se fosse ele noutro tempo, coisas de mais de século atrás. Era ele, tinha certeza, diferente do que era agora, como se outra pessoa, um notável senhor de muitas posses e serviçais. Sabia ele que já havia sido abolida a escravatura, todavia, ao seu dispor muitos escravos e aos berros: A pobreza é o mal da humanidade! Inexorável, pisava a todos, negociando vidas na defesa dos seus interesses. A qualquer obstáculo, removia desafetos do caminho como quem descarta o indesejável pra lata do lixo. Pronto, resolvido. Agora, maior do que eu só Deus! Abaixo Dele, quem manda sou eu, até aonde a vista alcançar, tudo meu. E tripudiava carrasco contra indefesos ou débeis, tirava proveito de tudo, até da inocência dos imaturos: Chapéu de otário é marreta! Quando queria, estava disposto a tudo: desmoralizar, subjugar, submeter ao mando e gosto. Quando não, atrapalhava a vida de quem ousasse medir forças. De repente acordou esbaforido: Que sonho é esse? Coisa estranha. Levantou-se aturdido e, ao fazer a micção, encarou o espelho: não era ele agora, era aquele do sonho. Como? Esfregou os olhos: isso mesmo, ele era aquele com quem sonhara. Não pode ser? Impossível isso. Virou-se do lado, passou as mãos à face, retornou ao espelho, não era mais, agora ele mesmo. Aliviou-se e voltou pra cama. Tentou dormir enquanto o que sonhara martelava na cabeça. Cochilou e já se encontrava noutro sonho. Era ele agora outra pessoa diferente da anterior, diferente dele mesmo, armado até os dentes, à caça de gente malévola, fugindo da lei, bufando com a mão no crucifixo da volta ao pescoço, mão no cabresto determinando o rumo pro cavalo e a outra na arma do coldre, vigilância de não pregar os olhos por nada, montaria extenuante de dias, cansaço no encontro do chão com o horizonte, terras sem fim. Não era ele como agora, era ele noutro tempo, uns duzentos anos atrás, seguindo estrada afora, a fuga indômita. Viu-se numa cilada, muitos cavalos, tiros, gritos, tudo vinha em sua direção, fugir. Acordou-se lavado em suor. Levantou-se até o espelho: era o mesmo do sonho. Como pode ser? Fechou os olhos, era o do sonho anterior; virou-se de lado e voltou a encarar o espelho: era ele mesmo. Olhou bem firme, ora era ele agora, ora sua face transmudava para as fisionomias dos sonhos, ele antes, ele antes do de antes, tudo era ele. Como podia ser? O que isso quer dizer, hem? Eu ser outros enquanto eu mesmo? Que coisa! Sabia, era ele nos sonhos, fisionomia diferente, porém era ele, sabia, que sonhos loucos! Será que estou endoidando? Não sei, melhor não pensar, sonho é coisa tola, invenção da cachola, só pode. Só em sonho coisas mais sem pé nem cabeça. Se pensar eu endoido, arre. Melhor cuidar da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Lenine: Acustico MTV, Live in Cité & O dia em que faremos contato; a cantora russa Sainkho Namtchylak: Stempmother city, Alpha Co & Ethno Orchestra & Delco Session & Ned Rothenberg; da cantora e pianista canadense Diana Krall: Live in Rio de Janeiro, Heineken Jazzaldia & Live@Home; do músico e compositor Edson Natale: Viajante, Toque de Fada, Pequena canção para uma mulher nua, Alfacinha, Guaimbé & Nina Maika. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O Brasil tinha já fornecido grande cópia de homens ilustrados pelos conhecimentos adquiridos em diferentes universidades da Europa, e a maior parte das brasileiras (mesmo as das primeiras cidades) não logravam a vantagem de aprender a ler. [...] Dizia-se geralmente que ensinar-lhes a ler e escrever era proporcionar-lhes os meios de entreterem correspondências amorosas, e repetia-se, sempre, que a costura e trabalhos domésticos eram as únicas ocupações próprias da mulher. Este preconceito estava de tal sorte arraigado no espírito de nossos antepassados, que qualquer pai que ousava vencê-lo e proporcionar às filhas lições que não as daqueles misteres, era para logo censurado de querer arrancar o sexo ao estado de ignorância que lhe convinha. [...]. Trechos da obra Opúsculo humanitário (M.A. da Silva Lima, 1853), da poeta, educadora e escritora Nisia Floresta (1810-1885). Veja mais aqui e aqui.

O MELHOR AMIGO – [...] Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável: – Vamos, chega! Leva esse cachorro embora. – Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais ninguém nesta vida. – E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe? – Mãe e cachorro não é a mesma coisa. – Deixa de conversa: obedece sua mãe. Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa. – Pronto, mamãe! E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros. – Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo. Trecho da crônica extraído da obra A vitória da infância (Ática, 1995), do escritor e jornalista mineiro Fernando Sabino (1923-2004). Veja mais aqui e aqui.

AS DEZ MÃES DO ANO & COQUETEL FASCINATION - As dez mães do ano: Mãe moderna é a que faz da filha uma amiga, da amiga uma irmã,do marido um filho, do filho um pai e do pai, pai mesmo, porque pai é pai. Mãe frustrada é a que tenta dezoito vezes ter um filho e tem dezoito filhas. Mãe ingênua é a que sempre diz às suas amigas: "Felizmente, a minha filha foi criada de outra maneira". Mãe aflita é a que espera sua filha chegar do baile do sábado, mas que diabo, hoje já é segunda. Mãe caxias é a que faz tricô de ouvido: passa a noite inteira mexendo com as mãos, mas não tira o olho do noivo. Mãe zelosa é a que vai jogar cartas e se lembra que esqueceu de dar a mamadeira pro menino, pára de jogar, vai lá, depois volta. Mãe vaidosa é a que vive diminuindo a idade da filha, só para poder diminuir a sua, e só não diminui mais senão acaba perdendo a filha. Mãe indecisa é a que tem dois filhos gêmeos e não sabe qual vai se chamar Ricardo, se este ou aquele. Mãe orgulhosa é a que mostra a fotografia do filho no jornal e diz: "Este é meu filho", sem perceber que a seção é policial. Mãe realizada é a que põe seu filhinho no colo e diz: "Agora você já pode casar, meu filho, hoje você completa noventa aninhos". Coquetel fascination: Arranje uma loura de dezoito a 25 anos. Nem menos, nem mais. Que seja bonita e esteja de biquíni. Depois peça a ela pra segurar o copo e comece a despejar, na seguinte ordem: duas azeitonas, duas cerejas, um pouco de cinzano, um pouco de gim, um pouco de martini, um pouco de uísque, um pouco de vodca, um pouco de vinho branco, um pouco de Coca-Cola. Ao abrir a Coca-Cola, verifique se não ganhou um Volkswagen. Se ganhou, largue tudo no chão e vá buscar o prêmio. Mas o mais certo é que não ganhe, pois esses concursos quase levaram à falência a indústria automobilística, tanto que acabaram. Os concursos, digo. Então deixe de fazer divagações, largue a chapinha da Coca-Cola e veja se a loura ainda está segurando o copo. Se não está, bobeou — porque sujeito que tem uma loura de dezoito anos na sua frente, de biquíni, e insiste em preparar coquetel, vou te contar. Extraídos da obra O homem ao cubo (Francisco Alves, 1979), do escritor e jornalista Leon Eliachar (1922-1987). Veja mais aqui e aqui.

SONHAR
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo
.
Poema extraído da obra Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos (Criar, 2001), da poeta Helena Kolody (1912-2004). Veja mais aqui.

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LÁGRIMA DE UM CAETÉ
Lá, quando no Ocidente o sol havia
Seus raios mergulhado, e a noite triste
Denso-ebânico véu já começava
Vagarosa a estender por sobre a terra;
Pelas margens do fresco Beberibe,
Em seus mais melancólicos lugares,
Azados para a dor de quem se apraz
Sobre a dor meditar que a Pátria enluta!
Vagava solitário um vulto de homem,
De quando em quando ao céu levando os olhos,
Sobre a terra depois triste os volvendo...
Poema da poeta, educadora e escritora Nísia Floresta (1810-1885). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE CRAIG RUDDY
A arte do artista australiano Craig Ruddy.
 

PRIMO LEVI, ALTHUSER, OSCAR WILDE, FERNANDA MONTENGRO, SÉRGIO AUGUSTO DE ANDRADE, NEUZA PARANHOS, APOLLONIA SAINTCLAIR & PADRE BIDÃO

OS MILAGRES DO PADRE BIDIÃO - Muito se tem falado a respeito dos milagres praticados pelo Padre Bidião. Eu mesmo nunca vi um sequer, mas...