domingo, abril 29, 2012

O ALVOROÇO DO POEMA NA HORAGÁ DO AMOR

ALVOROÇO – Imagem: Los amantes, art by Oscar Sir Avendaño - Quando essa menina se volta felina e apronta outra vez, como sou seu freguês badala 12 horas. Dá prumo e é agora: doze vezes enlaçado, doze vezes amarrado pro seu capricho. É quando eu viro bicho doze vezes encarnado, doze vezes atrepado pronto pro ataque. Ela finge no baque e começa o festim, efígie querubim nua e descalça, pronta pra valsa, ciranda, cirandar. Ela me faz o seu par com beijos esmeraldas numa dança sagrada em meu corpo fadado. Sacode de lado, ajeita e desajeita, mais se espreme, mais se estreita, ela faz vulto. Aí que emerge o tumulto vergando seu dengo. Virando com jeitos, levando no peito e na raça. É quando possessa, com graça, quer que apareça quebrando a vidraça. E me sacaneia. Ainda esperneia e tudo se escancara. Ela enche a cara fica bicada, leva a minha picada, festa no meu sabugo. Ela não dá refugo nas pernas bambas. Ela quer mais samba embaixo do chuveiro – maior suadeiro! Eu me aproveitando. Tudo se esborrando doze vezes profanada, de restar estirada e ainda me colhe e tudo recolhe, doze vezes vingada com todas as honras, doze vezes aclamada no maior fausto, evento tão lauto, pra filha de rei. Seu querer é lei. E cavo sua terra, quanto mais ela berra, eu revolvo arando e sua carne azarando pra abafar o estrondo. Só resta os escombros dela ficar louca, de findar quase rouca de gritar que quer mais. É muito demais, sacudida de gestos, esfolando seus restos, me arranhando as costas, recolhendo as postas do que restou de mim. E não tem mais fim, mais furto, mais roubo, mais sigo no arroubo, dela se sacudir. E sem ter pronde ir, ela tem minha tocha que mais firme se arrocha como seu corcel alado. É quando o bocado ela chega ao demais, ela goza até a paz de arrear debruçada sobre o meu cajado. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.
 
 

PROGRAMA DOMINGO ROMÂNTICO – O programa Domingo Romântico que vai ao ar todos os domingos, a partir das 10hs (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação deste domingo aqui. Na edição deste 29/04 do programa Domingo Romântico, comandado pela radialista e poeta Meimei Correa, comemorando o Dia Internacional da Dança e, amanhã, o Dia Nacional da Mulher, apresentará Zubin Metha & Richard Strauss, Elis Regina, Belchior, Jozi Lucka, Monsyerrá Batista, Nana Caymmi, Marina Lima, Fernanda Cunha, Simone, Paula Lima, Joe Cocker, Jamiroquai, Steve Wonder, Luiz Melodia, Marcus Vianna & Marília Abduani, Marcus Caffé, Lucinha Guerra, Benito de Paula, Duke Ellington, Queen, Bon Jovi, Nella, Sonia Mello, Paulynho Duarte, Vinicius Cantuária, Bee Gees, Shalamar, João Pinheiro, Ibys Maceioh, Rosane Duá, Erasmo Carlos, Joyce, Geraldo Azevedo, Lenine, Luiz Alberto Machado, o especial 21 anos sem Gonzaguinha (1946-1991) & muito mais aqui.



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TODO DIA É DIA DE DANÇAR O AMOR



 PAS DE DEUX

Luiz Alberto Machado

No palco do meu coração sedento jamais houvera tamanha fascinação, jamais houvera, porque algo mais infrene se fizera aroma de seiva na noite fria de agosto: a presença resplendente do seu corpo de mulher.

Ah, jamais houvera tão irresistível: à meia luz seu jeito maçã desolada, cabeça pendida no ombro da solidão. Na horagá, a minha chegada de sempre: a captura. E franze o rosto, cerra as pálpebras, morde os lábios e estremece suplicante a suspirar o magnetismo do coração que palpita na sintonia que nos impele um ao outro. Nada a deter e o amor embala na rede dos devaneios quando nos píncaros da sedução se insinua num écarté para me provocar com requisições de gracejos acariciantes, a me insultar no entalhe pujante de costas com o pé na barra a dar-me todos os regalos de um ensaio fotográfico particular, ali exclusivo estourando meus sentidos.

Ah jamais houvera e nossos corpos fremem de desejos e já me precipito envolvê-la para o embalo íntimo de um atittude libidinoso, colados um no outro a inalar o incenso dos nossos laços de sentimentos transpassados. Mas judia de mim a rodopiar com seu magnetismo. Rodopia incólume na noite enquanto eu afio os dentes. E rodopia mais o seu bailado sem fim, até que possessa, de repente, me leva ao nocaute num grand decárt sobre meu corpo.

Ah, Cinderela exata do meu tope, Loba certa do meu querer. E eu sou todo delírio nessa festa que jamais houvera. E na agonia dos quereres imponho poder nas minhas mãos que se acercam de sua feição, alisam seu rosto, se apossam de sua feitura para arrancá-la ao beijo, nos enroscando na dança. E aos solavancos murmuramos arrastados pelo tapete de pétalas no assoalho da pulsação vital, atrás da porta, das cortinas, esgotando calcinados nosso parque de diversão que traz o repique dos sinos no júbilo, crepitando a nossa fogueira de ímpeto selvagem nas alturas das suas nuvens para chover meu amor, na invasão da sua selva com todos os segredos de entrega e felicidade.

Ah jamais houvera e ofegantes usufruímos a vida e com ela nossos turbilhões mais que enlouquecidos derrubando colunas, grilhões, capitéis, pedestais, leis e limites, até alcançar o podium do grand finale a nos fartar embriagados da sidra dos nossos corpos desforrados.

Ah, jamais houvera pas de deux como devaneio do amor na noite fria de agosto, jamais houvera. © Luiz Alberto Machado.



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sábado, abril 28, 2012

PASSANDO A LIMPO



PASSANDO A LIMPO - Lembro bem, mas nem tanto que foi um dia lá de não sei quando dos anos 1970 – na verdade, cá pra nós, eu não tinha tirado ainda a catinga do mijo -, do momento em que se deu a minha primeira arteirice pública no palco da quadra do Colégio Diocesano.

Foi neste espaço que eu me apresentei na III Feira de Música, promovida pelo Fernando Pinras, cantando duas tranqueiras que denominei de músicas e que ousei ser da minha própria autoria: Escalavros e outra que nem sei nem mesmo o título que tinha, nem me peçam pra tocar por que eram garranchuras de tons e versos que nem eu mesmo sei como tive coragem de inscrever e, ainda, me apresentar. Valha-me.

Pronto, foi nesse exato momento que bati o centro levado por toda bola cheia que eu estava pela publicação dos meus poeminhas fajutos de infância, todo sábado no suplemento infantil Junior, do Diário de Pernambuco.

Na minha cabeça eu era o autor mais famoso do planeta, hehehehe, quando não passava de um ilustríssimo desconhecido que não era nem levado em consideração nem mesmo dentro de casa, avalie. Entretanto, esse foi o momento que me consagrou para mim mesmo. Verdade.

Até então, eu só tocava de fato uma guitarra invisível no bucho, vociferando sucessos do momento e solando ao mesmo tempo, enquanto desafinava na música e rasgava os solos vocais como se fosse o mais exímio dos guitarristas.

Nesse tempo a plateia era grande: a namorada e uns dois ou três gatos pingados pacientes e mangadores.

Ah, lembrei da Biuzinha, uma já senhora que servia na casa da namorada, que ficava batendo palma e apoiando as minhas baboseiras artísticas. Na verdade, ela era muito paciente para ver no que ia dar aquele despropósito e depois caía na maior das gargalhadas.

Enquanto eu pensava comigo mesmo que estava abafando, imaginando estar num palco engalanado e cheio do glamour para uma plateia duns dois milhões de gente (tudo isso na minha cabeça, ora), a namorada se ria, a Biuzinha mangava e outros iam embora mandando eu me lascar.

Mesmo assim, isso tudo era um incentivo.

Tanto que aprendi na marra amontado no meu bigodin ralo de dez anos de idade, a mandar ver blem-blem telengotengo no violão, até compondo algumas coisas que eu chamava de música sem mesmo ainda saber dominar o instrumento.

A determinação foi tanta que aprendi os acordes, saí ajeitando um ao outro numa coisa que se podia chamar de ritmo e danava-me a abrir o peito e soltar a voz de qualquer jeito. Dias, tardes e noites até ficar rouco mesmo. Mas, tá!

Quando eu via o Marco Ripe tocando no banco da praça, eu ficava de mutuca espiando cada detalhe dos dedos dele em cada corda do violão. Filei, copiei, imitei, fiz de tudo e na minha cabeça eu já era um astro quando, pra meu desencanto, era um dos mais estrondosos desastres em qualquer hora que eu quisesse mostrar que eu sabia tocar violão.

Por meus próprios esforços, enfim, tropeçando nas notas, desafinando na voz, trejeitando o tempo todo, aos trancos e barrancos, vai que ia, voltava que não fui, meio lá e meio cá, enfim, dei por composta a primeira música.

Oxe, fiquei mais que envaidecido e queria mostrá-la de qualquer jeito. Ninguém queria ouvir, pois quando eu começava a trastejar no violão e destabocar a voz, a turma botava o rabo entre as pernas e se danava para conversar, nem aí pro meu grandioso sucesso universal. Destá.

Não me abati e dessa mesma atrapalhada forma, compus a segunda coisa que denominei de música. Juntei palavras mesmo que desarrumadas, ajustei tons mesmo que jamais harmônicos, e disse pra mim mesmo: - Essa está melhor que a outra. Um horror.

Foi aí que ouvi o anúncio no som volante de Help Baterista, dando conta da abertura de inscrições para uma Feira de Música que iria acontecer dali uns dias. Na hora corri para encontrar o parceiramigo Fernandinho Melo e o primartista Marquinhos Cabral que me deixaram a par de tudo. Oxe, era a hora.

Apois, providenciei tudo e como não tinha banda com coragem suficiente para se apresentar comigo (claro, os caras não eram bestas de levar vaia na cara assim de graça), acertei na inscrição que seria apresentação solo. Arrepara só.

Na minha cabeça eu era um violonista maior que Paulinho Nogueira e Laurindo Almeida juntos. Também era um cantor maior que Nelson Gonçalves e Luis Gonzaga. Claro, depois que ouvi João Gilberto e o estouro do sucesso de Roberto Carlos, nossa, eu disse pra mim mesmo: - Oxe, isso eu também faço. Chegou a minha hora. Insana ignorância.

Na verdade, o que me deu mais entusiasmo foi ouvir Desafinado com João Gilberto. Não sabia eu, na minha mais aguda ingenuidade de bestão do mijado fedido, que pra arte precisa ser bom. E eu me tinha como o bom dos bons, danou-se! Pois inventei de tentar executar essa música Desafinado, resultado: fui pro palco sem ainda saber nem pra onde iam os acordes dessa magistral canção.

Mas como desafinado descarado que se preze não corre da raia, chegou o dia da apresentação e eu lá: sozinho no palco, violão na caixa dos peitos (imitando, claro, Chico Buarque), tremendo que só vara verde, abri a boca, mandei no recado e num instante terminei. Pronto: esperei a vaia comer no centro. A minha surpresa foi que aplaudiram, claro, plateia generosa, todo mundo conhecido. Mesmo assim, saí mais vermelho que morango maduro no galho do pé do quintal. Queria era me esconder, mas tinha que esperar para a segunda apresentação. Ué, nunca fui covarde!

Lá estou eu de novo sendo anunciado, subindo ao palco, sem nem olhar pro júri nem pra plateia, tasquei os dedos na corda e abri o berreiro. Tão rapidamente começou, assim mesmo terminou. Outros aplausos e eu procurando um buraco no chão pra me socar de morto de vergonha.

Pronto, tirei o cabaço. Nem esperei o resultado nem sei até hoje que classificação ficaram as músicas (acredito que viraram lanternas na lista, arengando as duas músicas para qual ficaria no último lugar). O que valia de mesmo era que eu tinha tirado o cabaço e a culpa é do Pinras que permitiu que músicas tão trejeituosas fossem apresentadas, e da plateia que ainda tiveram o desplante e a complacência de aplaudir o que não deveria ser nem executado. O júri está poupado do meu escárnio porque, claro, devidamente deram a nota acertada para que eu desistisse de ter a cara de pau de inventar de cantar um dia. Mas como não tomei conhecimento da manifestação do júri, sigo incólume até hoje abusando da paciência e da boa vontade alheia. Ainda hoje passo por esse vexame.

Depois disso, todo dia é uma surpresa para mim. Até mesmo hoje, a querida Meimei Corrêa acha de fazer um registro de comemoração desses meus trinta e dois anos de tentativa, contando, ainda, com a generosidade dos amigos Ricardo Machado e da Mônica Brandão. Mesmo sabendo quem sou, obrigado. Minha gratidão eterna procês.



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