domingo, setembro 30, 2012

TERCEIRO POEMA DE AMOR PRA ELA


 TERCEIRO POEMA DE AMOR PRA ELA - (Imagem: Acervo LAM) -  O terceiro poema pra ela é como o terreiro aquarela, tudo dela que faz comigo: a cobiça, os castigos, as explorações do umbigo, tudo que nela vem pra mim. Assim: ela me tira o sono, me larga em abandono. Rouba meu sossego, se fecha em segredo; me prega uma peça, me faz de trepeça; me torra a paciência, me larga na demência do coração a pedir clemência e ela embromando, nem aí. Taí, ela me dá nos nervos, chega eu me atrevo a cobrar atenção. Ah, não! Ela me faz de desvalido, aquele que foi vencido, caso sem solução. Mas que azarão! Ah, ela come meu juízo no meio duma chuva de granizo d´eu me lascar de montão. Que desolação! Sou fritado na sua frigideira, todo meu afeto é só brincadeira na sua cavilação. E me lasco de antemão porque sou resto de comida, a data preterida, maior sujeito broco. Ela me passa por troco, me larga por descarte, nem sirvo pra estandarte porque sou mala sem alça. Não tem a menor graça ser mercadoria sem nota, feito a caçola da Maricota, ou cotoco no osso mucumbu. Que azedo angu, d´eu pular numa perna só, de num saber desatar esse nó, sem frenagem na banguela. Tô me acabando feito panela num mata-burro que me empaco, com a moleta no sovaco, a bosta do cavalo do bandido. Nessa eu tô mesmo fudido, sem valer sequer um taco, verdadeiro cara de tabaco, feito papagaio de pirata ou vassoura atrás da porta. Ela nem desentorta e me deixa chutando lata, dando a cara à tapa, ruim que só arroz de terceira. Mas que moedeira, sou pra ela farinha de Araripina, do lixo a fedentina, inda mais carne de pescoço, liso sem tostão no bolso, jogado quem nem lavagem na pia, no castigo da água fria na latrina dá descarga, que nem mesmo a mãe do guarda vem pra me salvar. É de lascar! Sou atleta de regra três, o mais otário freguês, um juiz em campo minado, um refém seqüestrado e com o ataque na banheira, com o vacilo da bobeira e a mão à palmatória. Isso é que é uma luta inglória, feito duplicata vencida, feito cata o chefe sem torcida, eita, trabalhão danado! Sou inquilino despejado sujeito mais sem noção de perder o camburão no pantim da malcriada. Pacutia incruada que no toitiço esfrega, é aí que o bicho pega, tiro logo nove horas, dou bafejo e tudo tora, ela fica então mansinha. Faz-se então toda tadinha, com a cara mais lisa, como a guerra fosse brisa, fiquei só no esculacho. Aí acendo o facho no pinguelo da priquita, dou um jeito que ela grita chega a baba a boca larga. Tomo logo a vanguarda e me aprumo na manzanza, no meio dessa bonança da menina dos seus olhos. É nela que eu me molho, quando o milagre opera, quando ela exaspera de pernas pro ar. Aí vou me arrumar, tirando ali todo proveito, de dar-se a todo respeito, nela até morrer de amar. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.


PROGRAMA DOMINGO ROMÂNTICO – O programa Domingo Romântico que vai ao ar todos os domingos, a partir das 10hs (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação deste domingo aqui. Na edição deste 30/09 do programa Domingo Romântico, uma produção da radialista e poeta Meimei Correa e apresentado por Luiz Alberto Machado, está com uma programação pra lá de especial, confira as atrações: George Gershwin, Mahatma Gandhi, Johan Svendsen, Miguel de Cervantes, Miles Davis, Machado de Assis, Alessandro Stradella, Baden Powell, Jerry Lee Lewis, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Sting, Milton Nascimento, Ronald Golias, Monica Bellucci, Mário Bortolotto, Ivan Lins, Gal Costa, Plinio Marcos, Wilson Simonal, Maria Rita, Geraldo Azevedo, Fito Paez, Johny Mathis, Alceu Valença, Tim Maia, Jorge Vercilo, Zelia Duncan e Lenine, Sonia Mello, Eliane Bastos, Thalita Carauta, Elaine Kundera, Paulinho Moska, Luciana Soler, Ozi dos Palmares, Chacrinha, Roberta Miranda, o Rei da Voz Francisco Alves, Chitãozinho & Xororó, Paulynho Duarte, Cantor Pitanga, Walter Pepê, tudo isso muito mais!! Veja mais aqui.


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sábado, setembro 29, 2012

CRÔNICAS PALMARENSES – O COMEÇO DAS ARTEIRICES

Imagem: foto do antigo Fórum de Palmares, capturada do blog Memória da Mata Sul.


O COMEÇO DAS ARTEIRICES




A minha vida de arteiro começou de mesmo numa certa tarde quando me surpreendi com uma encenação teatral no Ginásio. Para quem já era um inheto bruguelo das presetadas todas, foi meio caminho andado pra aprumar o rumo das ventas.

Tinha eu lá uns 12 para 13 anos de idade quando essa dramatização no Ginásio promoveu uma motivação nunca antes sentida, a ponto de reunir todas as minhas astúcias de tocador blém-blém para me dedicar a aprender na vera o violão e, com isso, me arvorar nas enxeridas poetizações com amostramentos no palco. Foi um achado.

Queria eu fazer teatro, na verdade teimava. E de tudo: não só escrever a peça, mas compor as músicas e dirigi-la, influenciado, evidentemente, por Chico Buarque desde Roda Viva.

Aí comecei logo de forma dedicada a pegar no violão com espiadas filadas das revistas de cifras e de buticão agarrado nos acordes que saltavam das demonstrações do Marco Ripe. E também do Gulu que era exímio ao violão e Ozi, que à época se chamava Ozildo e já mandava ver no violão e na minha viola de 10 cordas.

Fui ter aulas com Zito Arão, o maior violonista da cidade. Gente muito fina e educada que sacou de chapa que eu não levava jeito para tal, mandando-me embora pra casa.

No meio disso, deu-se, então, de eu conhecer o cantor e artista plástico Luiz Barreto, filho do saudoso poeta e dramaturgo Fenelon Barreto, numa outra tarde dedilhando suas canções Ambrosina e Mãos de Velho, ambas inspiradas nas poesias do seu pai.

Barretinho tocava e cantava bem com seu jeitão e repertório todo do Roberto Carlos, quando me peitou pra encenar uma das peças do seu genitor. Ele havia flagrado todo meu fascínio pela arte teatral, trazendo-me, de pronto, textos como “Adoração”, “Maldição”, “O náufrago da Mafalda”, entre outros cadernos manuscritos pelo próprio autor com as peças. Li tudo e me afeiçoei de cara com “O náufrago da Mafalda” que era uma comédia. Contudo, o Barretinho botou o pé atrás e disse que eu devia trabalhar “Adoração”, nascendo a nossa primeira lengalenga sem futuro.

Um detalhe: é que nas peças do Fenelon morriam todos os personagens, o contra-regra, o ponto, o diretor e quem mais ousasse estar no palco ou atrás dele, salvando-se somente a plateia por estar na quarta-parede.

Era verdade, constatei ao lê-las todas, além de se tornar notório e motivo de chistes amiudados.

Mas vamos lá.

Entramos num acordo depois de umas lapadas de cachaça às meiotas e lavadas por meia grade de cervejas. Enfim, seria mesmo “Adoração”, ponto final. Eu dirigia, o Barretinho coordenava e misturávamos tudo na produção. Veio a escolha do elenco. Ele conhecia quem já havia atuado tanto nas peças do seu pai e mandou ver na relação que convidei um por um: o memorável Givanilton Mendes, o Guarino, o casal Dudu e Léia e mais outros que capturei no meio das minhas enrolações.

Onde ensaiar? Eis o primeiro problema. No final das contas depois de arrastar chinelo pra cima e pra baixo, semanas a fio, consegui com o Promotor de Justiça, Laércio Dúa de Castro Pacheco, que os ensaios se realizassem na sala do júri do Fórum da Comarca. Nada mais perfeito. Reuníamos todas as noites lá.

Veio a hora da trilha sonora, ocasião que conheci Fernando Bigodinho que já me apresentou ao Ozi que por sua vez me trouxe Gulu, Célio Carneirinho, Ripe, Mauricinho e a gente começou o baticum, contando com o auxílio luxuoso e orientador de Gildásio da Farmácia, o querido Gildásio Santana, bem como com o apoio de Mauricio Melo, o tal baita também doutra Farmácia, pai de Mauricinho e tio do Fernando Bigodinho.

Meio mundo de ensaio mais no voluntarismo que por domínio da arte, chegou a hora de marcar o dia da estreia. Parecia que ia, mas não foi. Nessa empolgação, eis que surge um porém que virou trupé ineivado.

Acontece que o distinto Fenelon tinha filhos como a praga e eles queriam das peças do pai fazer fortuna. E o que era pra ser um espetáculo teatral virou um nó cego ineivado de não ter Alexandre nos céus e na terra que desatasse esse górdio. Virou teitei e a coisa gorou.

Anos e anos peiticando para encenar Fenelon até que um dia, o Barretinho me levou em Gravatá para conhecer um dos seus irmãos, o também poeta e artista plástico, Fernando Barreto. Não parecia conversa fiada, pois que ficou apalavrado que a gente encenaria qualquer peça do pai deles, optando eu pelo “Náufrago da Mafalda”, entretanto, mal tinha eu balbuciado que iria reunir o elenco, nova pendenga nasceu e a filharada mandou ver caroço no angu. Resultado: não deu nessa nem na outra.

Desapontado com o insucesso na empreitada do Fenelon, eis que surge a queridíssima professora Jessiva Sabino de Oliveira e me dispõe toda obra com técnicas de direção e encenação de Hermilo Borba Filho e com a indicação para eu encenar outro autor palmarense, o Lelé Correa, que era pai da minha primeira professora formal, Hilda Galindo Correa, aquela mesma que foi responsável por meus primeiros cometimentos poéticos de rabiscar versinhos em quadrinhas que foram publicados ainda na minha infância, no suplemento infantil Júnior, do Diário de Pernambuco. Ainda mais a Jessiva não só me dispôs todo acervo teatral da Biblioteca Pública Municipal, como me iniciou nas obras de Shakespeare, Moliére, Gil Vicente, todo teatro grego antigo, Brecht, Oduvaldo Viana Filho, Nelson Rodrigues e Gianfrancesco Guarnieri.

Imagem: foto da Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, capturada do blog Minha Palmares.

Estava eu, então, solto feito pinto no lixo, anos seguindo e eu lendo tudo imoderadamente.

Mil e uma ideias rodopiavam na cabeça quando, eureka, veio a vontade de escrever o meu primeiro texto teatral. E em três dias, no final do ano de 1976, estava eu com um texto prontinho: “Em busca de um lugar ao sol sob a especulação imobiliária” – que anos mais tarde, sacando o despropósito, mudei o título para simplesmente “O prêmio”. Um traste, mas eu estava empolgado. Era uma sátira ao bipartidarismo reinante: era só Arena e MDB. Quer dizer, o poder da ditadura dos militares de um lado, e, no outro, a mundiçada num balaio só. Não tinha quem identificasse joio de trigo, uma misturada só. Pois bem. Chamei a moçada da música pra gente fazer a trilha sonora, não vingou nada. Aí caiu às minhas mãos o disco Zabumbê Bum-Á, do Hermeto Pascoal que deu certinho no que eu queria. Depois apareceu o ator Mano Germano, sobrinho do grande Claudionor Germano, que capturei para dirigir e, também, integrar o elenco. Não deu outra: ensaiávamos ora lá em casa, ora numa sala do Colégio Diocesano dos Palmares, cedido pelo bispo Dom Acácio Rodrigues Alves e pelo então diretor do educandário, José Duran y Duran.

Estávamos de vento em popa quando marcamos a estreia da peça e em março de 1977, encenávamos na quadra do Colégio Diocesano com uma plateia grandiosa e sob apresentação do poeta Juarez Correya.

Antes da peça fizemos um show com participação de Ozi dos Palmares, Luiz Gulu Santos Braga, Célio Carneirinho, Marco Ripe, Zé Ripe e eu fechando. Depois, a zona da peça que tinha no elenco Du Rego, eu, Mano e uma penca de adolescentes doidos pra aparecer. Uma comédia que virou isso mesmo mais pelas trapalhadas da gente do que pelo propósito do texto. Não deu outra: sucesso retumbante. Uma festa. Por causa disso não larguei mais a literatura, o teatro e a música.




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