segunda-feira, agosto 07, 2017

BIBLIOTECA FENELON, HERMILO, MILTON SANTOS, GILBERTO FREYRE, ROGER CHARTIER & JURANDIR FREIRE COSTA


A VIDA ENTRE LIVROS & LEITURAS – Imagem: foto da Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto - Sempre fui um menino travesso de fechaduras, brechas, postigos e combongós. Fresta que fosse, lá estava eu curioso peregrino e contumaz. Vencia buliçoso todas as dependências da casa, exceto um cômodo sempre de portas fechadas. Bastava eu me aproximar, surgia a advertência de mãe para eu me afastar dali. Vez ou outra eu esbarrava nela, sempre fechada, inheto por vencer a barreira, um interdito. Só muito depois, certa feita, estava entreaberta, invadi: lá estava meu pai entre livros e estantes. Ousei tocar um deles, logo a censura: mexa não! Tomava distância, fazendo de nem nem, só esperando momento oportuno para atacar. Doutra feita, meu pai levantou-se, remexeu nalguma coisa e me entregou um volume colorido que muito me deixou afoito no afã de descobri o segredo ali contido. Sentei-me no chão todo ancho pela posse, a folhear fisgado nas figuras. Daí a pouco minha mãe ralhava: venha, seu pai está trabalhando. Trabalho? Sim, trabalho. Maínha, trabalho. Não, seu pai está ocupado, venha. Bastava ela descuidar e eu lá mexedor ao lado dele: Maínha, trabalho. E imitava meu pai concentrado nos impressos. Eles riam. Outra vez, inadvertidamente, puxei um volume maior do que eu na estante, um desastre. Acorreram em socorro e me assustei com a aflição deles, enquanto eu repetia sem parar: trabalhar, maínha, trabalhar. Nem adiantava. Assim fui crescendo e aprendendo furtivamente a invadir aquele ambiente, vasculhando volumes e páginas às escondidas. Não sei quantas vezes fui flagrado por minha mãe enquanto eu babava com as imagens de mulheres nuas, as que mais me apeteciam. O tempo passou até aprender a ler e adquiri o hábito até hoje, tornando-me um leitor assíduo. Com essas leituras aprendi que o desejo é uma força de ação latente, somos todos seres de desejos entre escolhas, tornando-nos deuses-homens criadores de um mundo fragmentado e escravizados pelas ilusões do orgulho, da vaidade, das ambições, arrogâncias, apegos, envolvidos entre o ter e o ser. Com os livros compreendi e optei pelo ser, o ter seria uma consequência, nada mais. Com as recorrentes leituras me preparei para experimentar do sofrimento, do sacrifício, das falhas, de suportar as provas circunstanciais, enfrentando de forma reflexiva aos acontecimentos. Passei a discernir que todo sofrimento e adversidades infligidas nada mais eram que aprendizados que não careciam de explicação, apenas sentir e apreender. A despeito de todos os obstáculos, nunca me dei conta das dores e tribulações porque enriqueceram minha espiritualidade, vez que ao me harmonizar com a aflição do mundo, pude me tornar mais complacente e tolerante, e isso me fez senhor de mim mesmo: as minhas experiências me ensinaram as lições da vida. Graças a elas fortaleci meu caráter e me libertei dos apetites, disciplinando a mente para o trabalho construtivo com o estabelecimento de propósitos para uma vida útil e plena: a de um buscador sincero da verdade, com senso de moral e responsabilidade de prático e realista na direção da concretização digna do meu projeto de vida. Nunca desisti. Não me vi vencido pelas vicissitudes que serviram para promover um ideal voltado para o desenvolvimento e oportunidade para servir à humanidade. Se não venci aos olhos alheios, pouco importa, purguei falsas concepções, conheci o amor, a felicidade e a verdade da vida, a natureza humana e o propósito real da existência. Valeu a pena, só valeu a pena. Reconheci que trabalhei e sofri por um ideal: difundir a Luz em um mundo obscuro de plena barbárie. Fiz disso a minha habilitação e passei a ter a noção da força motriz pro incentivo, satisfação e entusiasmo de superar os desafios lançados na capacidade de criar oportunidades e na construção de um ideal altruístico: o acesso para todos à informação e ao conhecimento no desenvolvimento do pensamento e bem-estar humanos. Aliando as experiências vividas ao hábito da leitura para reflexão, passei a sabedor do quão importante é viver e interagir com a experiência dos outros: eu vivo porque aprendi a viver com todos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 
Imagem: com o bibliotecário João Paulo e alunos da rede pública municipal durante a Semana do Centenário de Hermilo Borba Filho, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em Palmares – Pernambuco.

CONFIDENCIAL

Fenelon Barreto

... E agora é a gente vil nos censurando! É o riso
Das amantes que eu tive e das mulheres feias.
Meia dúzia de maus, de cérebros sem juízo,
Que desejam colher aquilo que semeias.
Querem mesmo findar o sonho que idealizo.
Gostam também de entrar nas relações alheias,
Tão cínicas enfim, que às vezes é preciso
Mostrarmos o rancor que ferve em nossas veias.
Crê em minha afeição, minha jovem rosada!
E longe dessa turba estúpida e maldita
Teremos algum dia a paz desejada!
E após ouvir-me assim, ei-la a sorrir... repleta
Desse orgulho que tem toda mulher bonita
Convicta de possuir o coração de um poeta.
Poema extraído da antologia Poetas de Palmares (Palmares, 1973), seleção e introdução de Juareiz Correya.

FENELON BARRETO – O dramaturgo, advogado, professor e poeta palmarense Fenelon Barreto, colaborou em diversos jornais e revistas, deixando inéditos uma gramática portuguesa e um livro sobre contabilidade. Autor de peças teatrais como Adoração, O náufrago da Mafalda, entre outras tantas tragédias que foram encenadas. Veja mais aqui.

A BIBLIOTECADesde Alexandria, o sonho da biblioteca universal excita as imaginações ocidentais. [...] a leitura pública supõe que a biblioteca saia dos seus muros, vá ao encontro dos leitores, com ônibus-bibliotecas, as bibliotecas circulantes instaladas nos bairros, as bibliotecas nas empresas. [...] É um movimento cuja inspiração continua sendo útil. Neste mesmo momento em que estamos conversando, está ocorrendo uma revolução técnica, com o que ela tem de promissor e temerário. É por isso que se deve conservar, no interior do debate sobre a biblioteca eletrônica, senão as fórmulas ou os instrumentos da leitura pública, ao menos o espírito que ela possuía. [...] as bibliotecas, sejam elas nacionais, públicas, ou universitárias, tornam-se um recurso absolutamente indispensável [...]. Trechos extraídos da obra Aventura do livro: do leitor ao navegador (Unesp, 1998), de Roger Chartier. Veja mais aqui & aqui.

OS AMBULANTES DE DEUS – [...] O período foi de calamidade: houve um carnaval triste porque tudo o que ia acontecer estava pairando no ar, na cidade e no rio [...] é, houve um carnaval triste, com uns pobres caboclinhos descendo a ladeira, arcos e flechas na batida monótona e sem gosto, penas descoloridas, cocares desbotados, dançava prum lado e outro pra nem-te-ligo, mal acertava, o passo, assim mesmo persistiram na beira do rio os três dias convencionais, mas os da jangada nem bem nem mal prestavam atenção, não prestavam, estavam mesmo encafifados, havia coisa no ar, estava para acontecer, aconteceu. Houve um golpe militar, um tritíssimo golpe militar em nome da liberdade; e nesse golpe militar viam-se cabeça rolando no meio da rua, pernas penduradas nos fios elétricos, testículos nos açougues, intestinos enlaçados; e houve a morte lenta, conseguida depois de cada centímetro de dor; e houve um morto em cada casa e os homens se transformaram em inimigos dos homens e houve paradas militares e os civis se refugiaram em tocas de bichos; e a jangada teve de permanecer parada à espera de ordens; e houve viúvas puxando pelos cabelos os cadáveres dos maridos no meio da rua; e houve mortos que mesmo depois de mortos vinham passear no meio da rua, as feridas abertas, de cara triste, e os soldados passavam e atiravam neles e abriam novas feridas e riam e bebiam; e houve quem dissesse que ia chegar um vaso de guerra para bloquear a fuga dos subversivos pelo rio e as patrulhas passaram a policiar as margens e vez por outra, por desfastio, davam rajadas de metralhadoras nos viajantes da jangada; e houve mais: missas negras, necrofilia, torturas do coração, luto perene, lágrimas de sangue, empalamentos, pesadelos revividos, interrogatórios indolores, fornos de cremação, hinos nacionais, oratória democrática e desfiles. [...] De há muito já não eram mais eles mesmos, também ninguem o era na cidade, mas disto não sabiam; e quem era nos antigamentes  gente humana podia ser agora uma pedra, uma partícula de pó, um fruto podre, ou no vice-versa, quem fora um torrão de areia, nos presentes podia ser um homem que gritava ou uma mulher que chorava, uma criança que engatinhava, descangotada a certeza, tudo nos arrevesados da sorte e do destino, cidade quase vaia de tão culposa, a galiqueira campeando pelos males da fornicação e por mui fermosas que ainda fossem as adolescentes a sustança dos tutanos aquosa era, o que as tornava umas desinfelizes com olhos-de-peixe-morto, a alegria ida [...]. Trechos extraídos da obra Os ambulantes de deus (Civilização Brasileira, 1976), do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976). Veja mais aqui.

URBANIZAÇÃO BRASILEIRA - [...] Em nosso país, já conhecemos desde muito uma flexibilização tropical do trabalho, que é o mecanismo pelo qual se criam tantos empregos urbanos, evitando a explosão das cidades. A forma como se dá o processo de involução urbana assegura trabalho para centenas de milhares de pessoas dentro das cidades. Essa é uma pergunta crucial: como será o trabalho nos próximos anos? Da forma como ele for, dependerá a forma como a urbanização se dará, também, porque aí pode estar a semente de nova consciência política. Ora, a vontade política é o fator por excelência das transfursões sociais. Nesse particular, as tendências que a urbanização assume neste fim, de século aparecem como dado fundamental para admitirmos que o processo irá adquirir dinâmica política própria, estrutural, apontando para uma evolução que poderá ser positiva se não for brutalmente interrompida. Trecho extraído da obra A urbanização brasileira (EdUsp, 2009), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001. Veja mais aqui.

A MULHER - [...] Mas através de toda a época patriarcal – época de mulheres franzinas o dia inteiro dentro da casa, cosendo, embalando-se na rede, tomando o ponto dos doces, gritando para as mulecas, brincando com os periquitos, espiando os homens estranhos pela frincha das portas, fumando cigarro e às vezes charuto, parindo, morrendo de parto; através de toda a época patriarcal, houve mulheres, sobretudo senhoras de engenho, em quem explodiu uma energia social, e não simplesmente domesrtica, maior que a do comum dos homens. Energia para administrar fazendas, como as Donas Joaquinas do Pompeu; energia para dirigir a política partidária da família, em toda uma região,c Omo as donas Franciscas do Rio Formoso; energia guerreira, como a das matronas pernambucanas que se distinguiram durante a guerra contra os holandeses, não só nas duas marchas, para as Alagoas e para a Bahia, pelo meio das matas e atravessando rios fundos, como em Tejecupapo, onde é tradição que elas lutaram bravamente contra os hereges. Trecho do estudo socioantropologico A mulher e o homem, extraído da obra Sobrados e mocambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano (José Olympio, 1968), do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987). Veja mais aqui.

O AMOR HOJE - [...] O amor romântico, ameaçado de perder o que lhe dava vitalidade – os atrativos do sentimento, da privacidade e da formação da identidade -, parece cada dia mais restrito aos episódios de êxtase sentimental e sexual. Seu estatuto é semelhante ao dos ideais emocionais arcaicos: belos e luminosos no passado ou em recintos fechados; frágeis e desbotados no presente e ao ar livre. Resta, portanto, como aconselha Solomon, procurar inventar um “neo-romantismo” mais comprometido com o mundo e, até lá, “ser humildes quanto a nosso entusiasmo” pelo amor erótico. Sem isso, o declínio do amor-paixão pode deixar um vazio identitário que não sabemos como ocupar. Durante séculos, a metáfora amorosa nos ensinou a buscar a felicidade na companhia do outro e a acreditar que esse ideal era imortal. Hoje, trata-se de pensar no que significa “outro”, “companhia”, “felicidade” e “ideal imortal”, para não termos de nos perguntar, como a Macabéa de Clarice Lispector, para que serve a felicidade. Trecho extraído da obra Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico (Rocco, 1998), do psicanalista e professor Jurandir Freire Costa. Veja mais aqui.

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