quarta-feira, abril 09, 2008

TOLINHO & BESTINHA - IX



IX

Quando o mundo fica pequeno pros andejos de cabeça inchada




O clima ficou pesado. Bum! Tempo fechado de se ver o pega-prá-capar! Segura a onda! E o que é pior: comigo no meio. Mas rapaz, logo eu que sempre me esquivei de bronca, findar agora em palpos de aranha? Eita. Isso é uma camisa de trezentas mil varas com dez nós cegos no meio! Verdade. Os caras num tem o menor senso de ridículo. São capazes dos mais enlouquecidos disparates, não se dando para prever o mínimo das conseqüências, são tudo pau de dar em doido! Mexeu, vespeiro macho dá na maior urucubaca, de só se ver o enterro voltando truculentamente. O pior rebuliço dos revoltados! Destá.
O ar tão sinistro pairava com aquele bafo capaz de reunir todas as desgraças juntas, a ponto de uma tragédia braba sem precedentes na história, suspender o ritmo natural da vida ínfima dos coadjuvantes envolvidos nessa presepada. Uma bombástica situação daquelas de deixar meio mundo de gente de queixo caído. Óóóóóó.
Dava até para prever o sinal de extrema-unção, carpideiras, blém-blém, missa-de-sétimo-dia, maior atmosfera funérea. Não seria tão tosca se não fosse evidentemente da maior bizarrice.
Parecia mais que uma bomba de num sei quantos megatons estava prestes a explodir reduzindo tudo a migalhas. Ou nem isso sobrando. Deu prá sentir, num é?
Graças a intervenção salvadora do Boca-de-frô, conseguiu-se reconduzir os propósitos iniciais dessa empreitada, não antes meio mundo de recomendações condicionadas para tal. Hum!
Para maior munganga desembestada, um rol de condições, chega superar todos os dogmas, todas as bulas, todas as regras, toda a codificação, teve que ser acertada, remoída, reiterada, para que tudo pudesse prosseguir a bom termo. Bote beligerância nos acertos cuspindo desavenças, ameaças, alardes, um verdadeiro cu-de-boi! Eita! Pode? Graças, entre mortos e feridos parece que escaparam todos, pelo menos.
O pior não é nada, tratando-se de coisas tão fúteis que não vale o que priquito voa, desarrazoado desse é pinto. É cada chute no pau da barraca de só se ver os estilhaços voando feito canivete. Danou-se!
Disso, ficou acertado, para contrariedade dos muitos aficcionados das lorotas cabeludas desmedidas que estouram a maior dimensão da lógica e para não esticá-la mais que o convincente no raio do verossímil, que Tolinho e Bestinha, por fim, arribaram putos da vida, fecharam-se em copas, criando uma redoma incomunicável entre os dois e o resto do mundo, ameaçando até peticionar judicialmente, exigindo danos morais num litígio com o maior boi de fogo contra quem investisse insinuações para as bandas deles. É mole? E isso dá cabimento para as maiores maloqueragens.
Melhor deixar o dito pelo não dito, passar uma borracha em tudo e reconsiderar novas circunstâncias para o melhor andamento de nossa narrativa. Principalmente pelo fato de jamais haver acordo na peitica dos ofendidos que reclamaram exaustivamente indenização pecuniária de vulto, daquelas correspondentes a dez vezes mais o montante da dívida externa brasileira. Um exagêro, claro, mas cada qual tem o direito de atrevimento e de petulância próximas da estupidez. Notadamente para quem não tem limites nem trafega na dimensão do razoável. O que não seria nenhuma coisa do outro mundo, vez que a gente já sabe, pelo que já foi visto, que limites não existem e, se existissem, estariam usurpando até os confins dos paradoxos, excedendo contradições, sobrepujando a sensatez e a coerência. Isto quer dizer que devemos contar tudo no mundo do escandaloso, quanto mais extravagância, melhor.
Aproveitando-se disso e vingando-se propositalmente ao mesmo tempo da dupla insana, Lombreta-boca-de-frô, que não é nenhuma flor que se cheire e tem um rabo enorme para deixar queimar na fogueira das maledicências, assumiu, por sua própria conta e risco, a epopéia das toupeiras. Assim, de agora em diante, tudo correrá conforme suas informações.
Tratando-se de uma arapuca braba, entenda-se que não há o que temer, eles que são brancos que se entendam. Eu, apenas, empresto minha pena na tentativa de organizar as presepadas que aqui serão narradas, nada mais. E, para começo de conversa, introdutoriamente Lombreta fez questão veemente de deixar claro sua exacerbada formação religiosa, deixando escapar suas inclinações nazistas, sua predileção em imitar o Enéias e a desabusada mania de botar tudo no eixo do certo.
- Vamo aprumá a cunversa! -, disse, pondo todos os pontos nos iis. E, com a sua providente explanação, colocou tudo em pratos limpos para que não se pairem a menor dúvida sobre os fatos que aqui serão amiudamente relatados.
- Hum, hum -, pigarreou Boca-de-frô, afinando a goela. - Bem, falá de Tolinho e Bestinha, mi dá o maió dos prazê. Incrusivel, essa roda tá muito istreita, tem qui botá mais gente queimando nesse fogaréu. Por exemplo, mermo, o Bráulio. Num sei pruqui caiga-d´água esse molambo de gente num tá na roda! Tem qui intrar, é uma das minha ejigência.
À guisa de esclarecimento, todavia, o Bráulio-cabeça-de-pica, o rei-da-cocada-preta, é o seu maior desafeto e olhe que ainda são parentes. Deles, uma inimizade criada na base de muita lenha prá queimar e ingicada de instante a instante por causa do adiantamento do dissimulado. Tudo porque deu sopa, pimba! Marcou bobeira, num dá um prego num peido de véia mas tira vantagem de tudo.
O Zé-ruela, para o Boca-frô, é feito um soco na boca do estômago: o desregrado namorava e papava as irmãs dos dali e tomava as namoradas dos outros. Logo o Boca-de-frô que ficava no meio do maior pastoril: cinco do cordão encarnado, seis do cordão azul, tudo daquelas lindezas cobiçadas por qualquer marmanjo de sã consciência, isso batia nos nervos do sorteado dele ficar horas e mais horas xingando o atrevimento do sujeito. Sai fora!
O Bráulio era um verdadeiro bicho-papão, o verdadeiro calango fudedor, playboy, cabelo nos ombros, todo malabanhado, desbocado, cheio de nó pelas costas, desassombrado e mais desavergonhado de não temer nenhuma reprimenda de quem quer que fosse. Desse espaço, o cabra timbunga dentro com a maior cara lisa. Ôxe, o maior penetra e arregueiro das coisas impossíveis.
O mais constrangedor de tudo era quando o Bráulio se referia ao Lombroso como sendo o mais metido a besta da trupe, exaltando-se a sua mania culta de douto das ciências ocultas e letras de culturas inúteis, possuidor de apetrechos maiores que telescópio Hubble e com o fosquete com mais de 600 KV de potência, capaz de fazer a NASA pedir penico para obter suas informações exclusivistas. E mais: conciliando o trancendental ao imanente e mangando da mania hipocondríaca dele, de tudo virar uma doença braba a partir do mais leve toque de uma mosquinha de nada pousando na pele de quem quer que seja.
O bafafá entre os dois num tinha trégua. Para redimir, Lombroso contava com o Tolinho que sustentava a ira dele. Ou melhor, Tolinho gozava da amizade de ambos. Sem preferência. Na hora agá: o Bráulio que era espirituoso, espaçoso, carregava na boléia toda trupe para as piores situações. No final, só mangação.
- Tome! Num disse? Vá comê sal cum ele, vá? Só dá nisso, maió rebuceteio!
Narra, então, que no início a amizade entre ele, Bráulio e Tolinho era referendada no primado. Isto é, por serem parentes se entendiam. Mas Boca-de-frô logo percebeu as maleitas do Bráulio e partiu para as intrigas e fuxicos para tirá-lo da roda.
Assevera, assim, que nunca fizeram nada de mais, agindo como qualquer criança em fase de crescimento.
É claro, diz ele solenemente, que não se pode negar as brechadas nas portas dos banheiros femininos, o levantamento de saias para ver as bundas-ricas, a puxada nas presilhas dos sutiãs, as pedradas nos quengos alheios, as quebradas de vidraça da vizinhança, as arterices que redundavam em pisas exageradas, mas que quando um levava uma surra, os outros dois saíam do aperto depois de umas lamboradas gerais. Era assim: onde o cacete come num, come em todos.
O seu testemunho alega que não houve nada das sandices contadas sobre Tolinho com as freiras, mentira. Tudo mentira. É verdade só, que numa doidice, ele próprio decepou um colhão. Isso sim. Mas o resto é tudo invencionice. Aquelas coisas todas atribuídas ao Tolinho, na verdade, era cometida pelo Bráulio, este que tudo que dizem de Tolinho era ele quem pintava e bordava. Tolinho que levava a culpa, coitado. O Bráulio que era o sacana e para se defender dizia que foi o Tolinho quem havia praticado isso ou aquilo. Ele próprio, o Boca-de-frô, fora vítima de num sei quantas aperturas e reprimendas por causa das dedurações do Bráulio. Por isso que se afastaram do enredeiro quando conheceram Bestinha, outro vítima de inverdades. Se bem que, ressalta Boca-de-frô, de Bestinha ele não pode botar a mão no fogo, no máximo no gelo, porque é mentiroso demais e sai inventando coisas descabidas para banda de todo mundo. Na vera, só defendia mesmo o espinhaço de Tolinho, a quem tratava por irmão de sangue.
Depois de haver cochichado as considerações iniciais, Lombreta mandou passar a régua nas preliminares e pigarreou, novamente, afinando o verbo, prometendo abrir o jogo de Bestinha e Bráulio, dando por iniciada a maior enredagem que se tenha notícias sobre essas duas almas penadas. Vamos nessa.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.  



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