sábado, julho 16, 2016

A RODAGEM DE BADALEJO, A BODEGA DE ÁGUA PRETA

A RODAGEM DE BADALEJO, A BODEGA DE ÁGUA PRETA – Quando minha irmã nasceu, tinha eu apenas dois anos de idade e já era os pés da doida: um fabricante do passaporte da minha mãe pro hospício, de tão treloso inheto a virar tudo de cabeça pra baixo. Por conta das minhas travessuras, fui gentilmente separado do meu lar, indo pro maior município do estado, Água Preta. Quando lá cheguei, a primeira constatação: se era o maior município, como todos diziam, lá só tinha uma rua só: a que entrava e saía; e com um detalhe: a que entrava era a mesma que saía; tanto que uma placa dava ao visitante o pé da situação: de um lado, seja bem-vindo; do outro, volte sempre. Ninguém se perdia lá. Nem eu. E lá, entre meus avós paternos, Arlindo e Benita, dei de cara com o paraíso: a bodega e o engenho. Na verdade, como primeiro neto da família e centro de todas as atenções, eu estava onde meu avô Arlindo estivesse: uns dias da semana no engenho Badalejo, no qual tive a primeira noção do reino encantado de todas as coisas; os outros, na bodega com minha avó Benita, pela qual tive acesso a fabrica de todos os brinquedos. Pronde meu avô fosse, lá estava eu reinando impune. No engenho, era o dia todo para futucar os animais na estrebaria – bois, vacas, cavalos, éguas não tinham sossego comigo, armado de fiapos de vassoura, enfiava na venta deles -, e os curaus por plateia pras invencionices de tagarela: bebedor de água de chocalho, parecia mais que eu contava as mil e uma noites reinventada ali na hora, reencarnando Sherazade pra peãozada, isso do início da tarde mormaçada até cair de sono num canto. Entrava eu pela perna de pinto, saía pela perna de pato e num tinha fim que desse na historia emendada com tantas outras, dos cabras todos ficarem tudo admirado com meu blábláblá. Quando não, esgueirava pela rodagem pegando bigu no carro de boi pra cima e pra baixo. Só parava mesmo quando meu avô me colocava na garupa da sela do cavalo e, atravessando rios e morros, dava na bodega da minha avó: nunca o mundo fora tão generoso comigo. Dos refrigerantes de todos os tipos, aos lanches de todos os sabores: rapadura, confeitos, pirulitos, biscoitos, bolos, doces e salgados. Era a hora que eu parava no tamarelado, ocupando a boca em provar de tudo quanto fosse guloseima. Enfim, foi no trâmite duns dois ou três anos de infância passados por lá, que aprendi a mentir imitando os violeiros e repentistas que apareciam na quinta que era o dia da feira, até o domingo, entretido com as glosadas no improviso dos motes; que senti a dor da lapada do chicote no toitiço pela compra desproposital de um tabuleiro de pirulito – a dor que nunca me saiu da alma; que, tantas vezes, quase morri afogado no brejo do quintal, no meio de pitus e cundudas no maior espalhafato; que levei uma carreira dum boi brabo no meio da festa da padroeira de quase não parar nunca pé na bunda até o fim do mundo – e ele atrás de mim; que conheci a força de cascudos, beliscadas e outros puxavanques, por ter a mania de querer me enfiar embaixo da toalha das tias quando elas saíam seminuas do banho; e a confundir o dia pela noite no arrepiado dos tremores com as histórias de trancoso, crimes, lendas e envultamentos do povinho bom daquelas paragens. A vida valia tanto que eu não perdi mais a graça do jeito infantil de ver todas as coisas e tudo, e ter desse tudo além da conta ajustada: é com o coração que se vive o tanto que possa o prazer de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor Robert Luciano.

 Curtindo o álbum Songs of Ascension (ECM, 2011), da compositora, performer, diretora, vocalista, cineasta, e coreógrafa estadunidense Meredith Monk.

PESQUISA:
[...] Por enquanto, o desejo de um bom teatro confunde-se com o propósito de uma vida digna para a humanidade e, num e noutro caso, há os que obedecem à risca ao imperativo da vocação, mesmo que as circunstancias exteriores não sejam favoráveis. O empenho pela afirmação do bom teatro identifica-se ao esforço por um mundo melhor.
Trecho da obra Iniciação ao teatro (Ática, 1985), do crítico teatral, teatrólogo, jornalista, professor, ensaísta e historiador Sábato Magaldi (1927-2016). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA
[...] O tocador de tuba e o violoncelista atracam-se. Os outros membros do quarteto entram na briga. A platéia agora grita e pula. É o caos! Simbolizando, talvez, a falência final de todo o sistema de valores que teve inicio com o Iluminismo europeu ou o triunfo do instinto sobre a razão ou, ainda, uma pane mental do autor. Sobre o palco, um dos resultados da brigam é que agora quem está com o bigode ruivo é a violista. Vendo-a assim, o tocador de tuba para de morder a perna do segundo violinista, abre os braços e grita: “Mamãe!”. Nisso, entra no palco uma manda de zebus.
Trecho de O recital, extraído da obra O analista de Bagé (Círculo de Livro), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA: ENREDO
[...] No ritual de se pegar um livro para ler ou de se sentar à volta ou diante de um narrador, uma tela de cinema ou de TV, para ler/ver/ouvir contar-se uma história, desenrolar-se um enredo, tal como no exercicio do jogo, há a busca do prazer, há tensão, competição, há a máscara, a simulação, pode haver até vertigem.
Trecho de Narração e narrativas, extraído do livro O enredo (Ática, 1986), de Samira Nahid Mesquita, apresentando conceitos teóricos e aspectos técnicos acerca do enredo de forma didática.

IMAGEM DO DIA: 
Cartazes de alguns filmes do cineasta argentino radicado no Brasil, Hector Babenco (1946-2016). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre Cantando às margens do Una – Primeira Reunião, Heitor Villa-Lobos, Alexander Luria, Mayana Zatz, Reinaldo Arenas, Arthur Moreira Lima, Luchino Visconti, Joshua Reynolds, Ana Paula Arósio, Alida Valli, Marcella Mariani, Ginger Rogers, Carl Larsson & Líria Porto aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Reclining Nude (1887), do pintor croata Vlaho Bukovac (1855-1922).
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Arte da artista plástica e escritora Vanice Zimerman.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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GALEANO, BOLDRIN, FLORA PURIM, CAMPBELL, JACI BEZERRA, BRAGINSKY, ADONIRAN, INGRID PITT, RESILIÊNCIA & QUIPAPÁ

A ESCRITURA DO VISINVISÍVEL – A arte do pintor ucraniano Arthur Braginsky . – O que vejo a lágrima embaça porque tudo é muito adverso e av...