domingo, julho 17, 2016

O DONO DA RAZÃO


O DONO DA RAZÃO - Sergidio asseverava conforme seus próprios critérios: o que era certo segundo suas convicções de gosto e simpatias; o errado, tudo aquilo que antipatizasse. No geral discordava de tudo. Solteirão, preferia a companhia do cachorro a qualquer ser humano para encher seu saco. Era sempre do contra, feliz por ser o advogado do diabo e botar gosto ruim em qualquer festividade alegre. Orgulho ferido, rancores transbordantes, implicâncias, ciúmes. Pro mundo, os seus paradoxos nos ombros. Firme, defendia com unhas e dentes o que era de seu, irredutível, inexorável. A felicidade dos outros era sempre tratada com desprezo; pra ele o riso precede o choro; os desejos, as dores. Alguém falasse uma vantagem, ele previa engodo; anunciasse perigo, arrazoava improcedência Para justificar seus pontos de vista, ou mesmo suas teimas que beiravam o injustificável, batia o pé, dava curva na idéia, ou tudo ou tudo. Se admitisse algo, comprava briga, nem precisava de motivo ou razão, bastava simpatizar. O que achava bom era bonito. O que não entendia era inutilidade, por isso odiava a ciência, ficções inúteis; a filosofia, só a da vida, ditado por sua experiência. E tinha hora que achava até Jesus um chato de galocha ou retardado mental. Tudo existia para servi-lo; não tivesse essa serventia, valia nada. Quem concordasse estava no rol das suas afeições; discordasse, o inferno da maledicência. Quisesse sua amizade teria de respeitar sua perfeição – o único ser perfeito da humanidade. Só ele o próprio deus e toda verdade. Tratava o resto de tudo e de todos como excrescência, só ele e o que admitia como probas perfeições. Mediano de altura e senso, motejava tanto incultos como intelectuais: ambos fabricantes de bosta, nada mais. Azedo repugnante criticava o que lhe caísse nas atenções e quando desferia seu escárnio, destronava quem tivesse por oponente. Assim, era tido como uma muralha de segurança, correto, feliz, infalível, a excelência da firmeza. Em casa, sozinho, a tortura da solidão. Luzes apagadas, chorava aos largos prantos suas fraquezas, infelicidades, angustias. O tédio e a frustração corroíam seu íntimo. Não sabia administrar a felicidade alheia, nem a realização exitosa de ninguém. Odiava o espelho, não conseguia fechar os olhos, muito menos dormir. Pra pegar no sono, só com muito álcool. Pensar, jamais; evitava rever sua vida na memória e isso ele não queria saber, não suportava a si mesmo. Vivia só pra viver pela superfície. Cada qual sua insanidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do pintor e escultor portorriquenho Francisco Zúñiga (1912-1998).


Curtindo a arte da cantora & compositora Ju Martins.

PESQUISA:
[...] Analisar a escola como instituição social e as suas relações com a comunidade e a família implica compreender a cultura e a diversidade, bem como a pluralidade cultural, como elementos constitutivos das sociedades humanas. [...]
Trecho do livro Fundamentos socioantropológicos da educação (Ibpex, 2008), do sociólogo e antropólogo Maria Sérgio Michaliszyn.

LEITURA
Minha terra tem macieira da California / onde cantam gaturamos de Veneza / Os poetas da minha terra / são pretos que vivem em torres de ametista, / os sargentos do exercito são monistas, cubistas, / os filósofos são polacos vendendo a prestações. / A gente não pode dormir / com os oradores e os pernilongos, / os sururus em família têm por testemunha a Gioconda. / Eu morro sufocado / em terra estrangeira. / Nossas flores são mais bonitas, nossas frutas mais gostosas / mas custam cem mil reis a dúzia. / Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade / e ouvir um sabiá com certidão de idade.
Canção do exílio, extraído da Antologia poética (Cosac Nayf, 2014), do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: EU & O OUTRO, RESPEITO ÀS DIFERENÇAS
O reconhecimento da diferença é a consciência da alteridade: a descoberta do sentimento que se arma dos símbolos da cultura para dizer que nem tudo é o que eu sou e nem todos são como eu sou... o outro sugere ser diferenciado, para que os lados mais difíceis do meu eu, do meu mundo, da minha cultura sejam traduzidos também através dele, de seu mundo e de sua cultura. Através do que há de meu nele, quando, então, o outro reflete a minha imagem espelhada e às vezes ali onde eu melhor me vejo. Através do que ele afirma e torna claro em mim, na diferença que há entre ele e eu.
Trecho do livro Identidade e etnia: construção da pessoa e resistência cultural (Brasiliense, 1986), do antropólogo e educador Carlos Rodrigues Brandão.

IMAGEM DO DIA: 
A arte da artista plástica e artesã Mônica Alves Torres.

Veja mais sobre O culto da rosa, Emmanuel Lévinas, Bráulio Tavares, Wojciech Kilar, Edward Gordon Craig, Jess Franco, Paul Delaroche, Susan Hemingway, Paul-Émile Bécat, Ísis Nefelibata, Meimei Corrêa & Fernanda Guimarães aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Brune au collier bleu, do pintor búlgaro Jules Pascin.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.


GALEANO, BOLDRIN, FLORA PURIM, CAMPBELL, JACI BEZERRA, BRAGINSKY, ADONIRAN, INGRID PITT, RESILIÊNCIA & QUIPAPÁ

A ESCRITURA DO VISINVISÍVEL – A arte do pintor ucraniano Arthur Braginsky . – O que vejo a lágrima embaça porque tudo é muito adverso e av...