quinta-feira, fevereiro 21, 2008

PROEZAS DO BIRITOALDO - CAP XI



PROEZAS DO BIRITOALDO

XI

Quando a corda arrebenta, a covardia fica de plantão


Biritoaldo era genioso, espalha-brasas, um cabra de rede rasgada, intrépido por desconhecer limites para suas artimanhas, destemido de enfrentar muxôxos reprovadores e bote vigor para reinar nas presepadas. Era um sujeito de beiço virado, esse. É certo que não reproduzia nunca, jamais, as qualidades chaboqueiras porém decentes das figuras paternais. Ao contrário, unânimes e veementes, acentuavam-lhes os desvios peculiares às causas perdidas:
- Pau que nasce torto morre troncho com o espinhaço envergado numa coivara de cabeça pra baixo nos quintos dos infernos!
- Eita, bôba-torreiro!
Também, fez por onde ter a honra dos velachos mais desprezíveis e a repugnância dos mais achegados, distantes e desconsiderados.
- Bicho do berro bom prova que tem sustância! -, chega falava ancho, de papo cheio, ufano, defendendo-se do desdém.
Os pais não mais se deixavam levar por seus pisoteios antes graciosos e tão risíveis a ponto dos genitores quase morderem as orelhas de tão encantados com seus malabarismos endemoninhados, vendo-lhes, agora, só de esguelha, parece que já adivinhando as futuras aprontações que lhe sairia por desacerto.
Pior: o que antes era a razão maior na felicidade do casal, agora só amargava reprimendas insistentes pra ver se desentortava o rapaz que num tomava jeito maneira nenhuma.
Desapontado, Birito remoía consigo, sem platéia para afagar-lhe o ego, todos vacinados de suas estripulias.
Mãe Nega que ainda paparicava suas chochas e meleguentas artimanhas:
- Seja macho, não corte vara, sujeito! Boi sabe a rede que fura!
No entanto, sua vida tinha que mudar, sair daquele aperto encarcado. Ah, se tinha. E já quase na maioridade, pertinho de homem-feito, ora, continuar de palerma portador do maior vacilão, não empata, pula fora. Estava já com o couro esticado das suas mazelas.
- Sou ou não sou filho de Deus, caralho? Quem fica com a bunda na poltrona esperando dinheiro, é puta! Eu não, vou à luta!
E foi. Sabe como? Contorcendo-se por forçar a prontidão do anjo-da-guarda. Foi mesmo. Espremeu-se tanto do acocho espragatá-lo todo. Chamou na grande, invocou com toda fé do coração, a ponto do quengo feder a chifre queimado e a bosta incensar o ambiente.
Ora, sabia que tal entidade se escondera dele desde sua nascença, deixando-o na maior saia justa. Agora, era hoje de se ajustar tintim por tintim com recôndita entidade e acertar os ponteiros de sua aziaga vida.
- Eita gota, quase cago nas calças. Ih! Isso é coisa de corno mesmo!
A coisa foi se movimentando, um estalido meio brusco, ininterrupto. Fumaceiro brabo, fez-se. Mistério de mudar as cores das coisas, escurecer o dia, amanhecer a noite, desvirar o mundo de papo pro ar, tudo paralisado no tempo, estático, estrondos ensurdecedores, a terra escavoucada, árvores desenraizadas, água se solidificando, o mundo rangendo e Birito tremendo que só vara verde.
Um fedor de alho foi surgindo e se transformando no ar. Era ele. Verdade! Era, emergindo do oco da terra num fiapo de fumaça.
- Como é, hem? Desembaça ou fica nessa de chove num molha, hem?
E o anjo aparecera parece com defeito de imagem, ora inteiro, ora apenas a penumbra, saltitante por se livrar daquela fria de quem já perdera o prazo e corria à revelia. Pitava o fumo ofegante e repetindo com voz fanhosa...
- Mandu-sarará! Sambari! Tamaquaré! Mando-tiro-tiro-lá! Oh li-li-li-ó! Ó zarizé zariguê com sariguê! Ji-nongonongo!...
- Vôte, capiroto!
Ouvia-se um fungado intermitente deslocando-se daqui pralí, tudo muito confuso. Aí, Birito não se fez de rogado, mesmo torando o aço exigiu responsa no caso e o enquadramento dos afazeres protetores da sua pobre alma penada, botou pra fora uns xingamentos, fez fincapé nas exigências e chutou o pau da barraca na maior bronca. Um raio fulminou.
- Oxente, você é ou não é o meu anjo-da-guarda, porra?
- Mandu-sarará, sambari....
O devotado deu-lhe a impressão de um unípede invisível, enrolando dizeres, trupicando nos ares e bulindo na sua frente...
- Vôte! Isso é lá santo que se venere! Parece mais o capiroto!
- Mandu-sarará! Sambari....
- Danou-se, o cabra só tem uma vida e ter saci pererê como anjo-da-guarda, é o cúmulo dos cúmulos!
- Tem encôsto! O teu sal tá se pisando, nego!
- Se assunte, nego!
- Tem encôsto!
- Valha-me deus, que esse é empacado! Olhe, assuma seu posto e passe logo os meus desejos que quero sair dessa vida de merda, viu? Vamos, cumpra sua jornada de trabalho que o senhor só tá na moleza desde que nasci. Quero ver seu livro de ponto!
- Sou anjo-da-guarda, num sou gênio da lâmpada não, Aladim de araque!
- Não seja desatencioso comigo, seu desaforado! Tem que satisfazer meus desejos, se tem! Ou então boto advogado e vou brigar na justiça exigindo indenização, seu infeliz-das-costas-ôcas! Olhe, que eu mando você para a puta-que-pariu, santo de bosta! Duvide não, viu? Eu sou a bola que ninguém nunca chutou, sabia?
- Sem registro! Favor tentar novamente noutra oportunidade. Câmbio!
- Deixa de molecagem, isso aqui num é terrorista afegão nem desalmado imperador norte-americano, não, viu? Num cisque comigo que num tô pra jogar conversa fora!
- Tem encosto!
- Desenrole, vá!
- Ihh! Erro de soquete. A sua conexão não pode ser efetuada. Senha bloqueada. Tilti. O remoto não responde, verifique suas configurações e depois refaça sua conexão. Tilti!
- Oxe, agora deu, só me faltava essa! Ponha-se no meu lugar e veja a merda que você me deixou, seu estropiado!
- Sua solicitação encontra-se fora da área de cobertura ou a conexão está temporariamente desligada. Tente mais tarde!
- Pronto! Agora deu! Será o fim do mundo! Ora, chegou a hora da onça beber água, vamos, cumpra logo o seu papel, aloprado!
- Tem encosto!
- Desembucha! Deixe de enrolança! Arrume logo uma galegona gostosa feito a Elaine Mickeli com aquela bocona de engulir a gente todo, bote logo um Porshe, uma Ferrari, ali uma cobertura, uma conta com saldo sem limite, empregados escravos para meu bel-prazer. Bora, se avexe e recupere o tempo perdido e faça eu mandar na política, na polícia, no judiciário, o país todo babando meus ovos, passe livre para estuporar qualquer um que me enjeitar, sair na televisão todo dia, ser aplaudido nos estádios de futebol, fama para ser respeitado mais que Pelé... se avie, me tire logo dessa de cachorro sarnento... é, com isso começa a pagar o que me deve!
- Tem encosto! Você foi rebaixado para a vigésima divisão da vida!
- Tô perdendo a paciência com tua embromação, nego-duma-figa!
- Você num se compara nem com um cabrito, seu bosta fedida!
- Será que eu pisei em rastro de corno?? Só sendo.... Êta sina desastrada essa minha, até o protetor quer me lascar em bandas!
- Tem encosto! -, e o bicho tava puxando um fogo da vista ficar neblinando, assim, carburando idéias, sacumé? Maior pasmaceira no reduto e a inhaca de marijuana se enfiando no buraco da venta do desinfeliz solicitante.
- Que enrolança é essa? Tá pegando fumo, é? Santo cheio dos braquearo já dá pra ver o tamanho da peta!
O negócio tomou prumo com a ofensa. As coisas desencarnaram e tornaram a encarnar, destrambelhando tudo até que o vuque-vuque se estatelou com o anjo preto falando sério pro seu devoto.
- Olhe: toda terça e sexta... da meia-noite.... às duas horas... você sai correndo... passa pelos sete adros de igreja... sete vilas acasteladas... sete partidas do mundo... sete outeiros... sete encruzilhadas... até regressar ao mesmo espojadouro... onde readquire sua fé. Diga três "Ave Maria"... ajoelhado e com toda fé do seu coração... haverá um grande estouro!... Rebentando!... Não afraqueje! Persista!... Depois duns cinco minutos assim... calado... passe a mão no furico e enfie o maior-de-todos com a maior força... dê um aperto na pêia dela avermelhar inchada... esbofetei-se... dê um cascudo com toda força no seu próprio quengo... se continuar acordado, diga: Valhei-me Nossa Senhora! Pronto! E some-se o encosto!... Pegue esse sino saimão... reze quatrocentos e cinqüenta e cinco Pais Nossos de cu pra cima... dois mil Creio em Deus pai sentado numa quina de pedra de ponta.... do cu ficar em carne viva... dê uma cagada... e uma mijada... coma sua própria merda... tome um copo do seu próprio mijo para tirar o gosto ruim... e depois... durma em paz, seu filho de uma porca parida... Tome, guarde direitinho, viu? Aprendeu tudo?
- Só se fosse um estrupício de decorar tudo isso num instantim assim, ora, nem a cega-dedé fuderia nessa ligeireza, ora! Bote moral e fale direito comigo, senão, senão!
- Toda terça e... - explicou tudo direitinho, com todos os pontos nos iis. - Sacou, boboca-da-cara-de-tacho?
- E o que acontece? Fico vivo ou caio morto?
- Faça isso e seu futuro nefasto vai mudar prum paraíso no céu!
- Hum, sete.... sete... sete... sete... eita! Esse negócio de merda e mijo é que tá pegando... nunca vi um despacho desse! Ô, malasombrado, tu num tá pintando o sete comigo não, num é?
- Tô te redimindo, buzuntão!
- Que é que é isso? Parece mais que tu quer me matar, desgraçado! Isso num é penitência, é pagamento de trambique com o diabo com o condenado de cabeça-pra-baixo pendurado pelos ovos e queimando pelos inferno adentro!
- Tô desentortando tua vida! Essa é tua penitência.
- "Leu, leu, leu, se eu dessa escapar nunca mais boda no céu!"
Foi aí que se deu um traque pipocado, daqueles de peido-de-véia, e o bicho sumiu talqualmente aparecera, cheio de emboança.
Tudo ao normal agora, Birito espremia as vistas para melhor apreciar a redondeza e ver no que tinha dado aquilo tudo.
- Danou-se! -, balbuciou tomando pé na situação. Caçou dos lados para ver se via alguma coisa e apenas uma voz se insinuava como a dos do outro mundo.
- Tô aqui, viu?
Birito arrudiou-se e nada vira, quase dá uma volta inteira no pescoço de dar um nó e cair duro.
- Isso é brincadeira, amolestado!?!
- Tô aqui, viu?
Investigava direitinho e nada bulia ao seu redor. Estava invisível.
Birito então, se recompondo de tudo, estufando o peito, sacudindo a coisa-ruim do corpo, enfrentando a circunstância, fez sermão de que o bode da vida havia dado uma marrada certeira no seu destino de banguela e que agora queria sua parlapassada lampeira e justa pra ficar de pernas pro ar, de catrâmbias, de colhões ao vento, só gozando das boas coisas que este mundão de meu deus tem para ofertar a qualquer ser vivente que nasce com uma estrela na testa.
- Tô vendo, tô aqui, viu?
E que ele num tratasse aquilo por gungunhana não, que ele tava definhando a olhos visto e por ser valetudinário merecia, agora, depois de tanta apertura e sofrência, o seu velocino de ouro, porque era devoto cagado e mijado do Frei Damião Bozzano, e tava na hora de minimizar seus aperreios, suas mandingas e bafafás.
Sabia ele que havia perdido a hora porque não matou o galo na primeira noite, que nem davam um píris de doce para o seu dicomer, e já matutavam traição para esgoelá-lo na primeira esquina, ensinando o que ele já sabia, tomando o que ele possuía, que corria da coisa ruim com os bofes saindo pela boca, tudo se acabando pra banda dele. Agora, não, entendia do riscado e estava certo que mereceria benesses muitas com mulheres bonitas lambendo o solado dos seus pés, homens para carregá-lo nas costas, prazeres diversos ao seu dispor com mesas lautas e acepipes delicados e abundantes no meio da arrumação de garrafas das bebidas mais finas e do melhor quilate para se esbaldar e causar inveja nos de olho grande, dos seca-pimenteira e dos mau-olhado.
- Tô vendo, tô aqui, viu?
Nessa hora Birito foi se esfolando e se comovendo, chegando a passar na sua cabeça a figura paterna, Manuel Bertulino, homem probo de riscar em cima da linha e num desinretar um só milímetro do exato. Também da materna afeição de Táquia, sempre com afagos nas suas maiores empioradas acometidas nas horas mais estreitas. Da mãe Nega, a avó com todas as guloseimas juninas saboreadas desde tenra idade. Da tia Nevinha, sempre a bola da vez nas horas de aperto na safadeza, esfregando-lhe o pingulim no meio dos carões. E rememorava que namorou com ela, a tia desconfiada, reprovava a encenação do bicho. E se lembrou do bule quente do batizado, o ódio do sacristão que era também vizinho, amigo do pai dele, inventando, numa doidice, de sair construindo igreja pelos bairros. Do casal quasímodo, tanto o Ancheta, um velhaco chato, quanto Ternência, gostosona feito tanajura que se ensaboava toda tarde nua no quintal da casa para seu brechado por cima do muro e das quedas que levou amolegando a pêia enquanto ela se banhava. Lembrou-se da lapada da infância, doendo no quengo quando viu o piruliteiro de novo e queria se vingar. O dinheiro surrupiado da gaveta do balcão dos avós paternos era o seu bem-bom. As maleitas que lhe consumiam junto com os aniversários em anos bissextos, num tinha ungüento que salvasse do quebranto maldito, ficando arriado meses na cama. O pai que não achava mais graça no seu pisoteio. Era reclamo só. A mãe, coitada, imaginou um honrado médico, via-lhe, decepcionada, um traste. O tio Nestoldo era quem dava um certo apoio, também era outro perdido, botava o menino em maus caminhos. Sabia que se safara de tudo até agora, que ninguém ousara meter-lhe uma pisa, só a vida madrasta enganchava o destino numa roda-viva de recaídas enfermidades e contratempos.
- Tô vendo, tô aqui, viu?
- Porra! Cê só diz, tô vendo, tô aqui, viu? Mais nada? Resolva logo que quero enricar da noite pro dia!
Foi aí que Birito acordou-se com o azáfama que faziam Penisvaldo e Rolivânio.
- Dormindo meio dia em ponto no meio da rua, abestalhado? -, mangou Penisvaldo.
- Que foi? Que foi? -, aturdido Birito estava mais pra cego em meio de tiroteio que pra vivo!
- Tu tá com jeito que desmaiasse assim, sem mais nem menos e o cachorro lambendo a tua cara para te acordar, bicho-ruim! -, explicou Rolivânio.
- Cês tão rindo da minha cara, né?
- Héhéhéhéhé!!!!!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.



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