domingo, junho 08, 2014

AS MUITAS E TANTAS DO REI SALOMÃO


Não fosse a sabedoria eruditíssima do filósofo daquelas bandas, doutor Zé Gulu, jamais saberia eu porra nenhuma de nada sobre Salomão.

É que certa tarde, quando adentrei no bar do Doro para embeiçar uma lapada da teibei e lavar com uma lourinha suada pra amainar o cansaço da labuta e desafogar as ideias, logo ele acenou chamando para aboletar-me ao seu lado, fazendo sinal que queria tirar uns dedinhos de prosa comigo.

Ao me acomodar na cadeira, recostei-me na parede e fiquei atento à sua baforada demorada no pascaio, para irromper em riste:

- Sua pornografia só tem de boa a parte dos Cânticos de Salomão.

Logo empinei o pescoço com os olhos meio que arregalados, estranhando o tom severo da sua sapecada certeira que soou como bordoada de acertar o centro do alvo no cachaço.

Ele deu outra demorada baforada e logo prosseguiu:

- Li sua narrativa. Pornografia pura. Se foi de verdade, você lavou a jega. Tomara que a mulher tenha valido a pena pra tanta volta de andejo. Mas a literatura é sofrível. Salvo, evidente, a epígrafe e as citações dos Cânticos de Salomão.

Embaraçado com o seu topete, de um só gole virei a teibei e logo enchi o copo com cerveja para azeitar o papo.

É que ele se referia a uma narrativa que escrevi sob o título “O gosto da últimavez”, contando uma peripécia da boa com uma distinta religiosa da localidade.

- Vou lhe contar uma coisa -, disse-me em tom sardônico debulhando o causo e comparando a minha performance e a minha natureza geminiana com as muitas e tantas do rei.

Tudo começou quando o rei Davi botou mutuca na lindeza de Bethsabé. Enquanto Urias, o marido dela, prestava contas dos feitos de guerra, ele nem aí vidrado no decote dela. Nem o rol dos tesouros arrolados chamava mais atenção que a passada do pódice rebolador dela nas vistas enamoradas do reinante. E o cônjuge da distinta no maior blá blá blá de Davi encher o saco, armar tocaia e arrumar num instante uma guerra no fim do mundo.

- Na hora, majestade!

Lá ia Urias fiel ao rei na primeira linha de batalha para uma guerra arranjada para tirá-lo de campo e jogá-lo pra lá da regra três. Foi atrapalhar a vida de outro. Era ele comandando a tropa pro inferno e o imperador aos galanteios nas risadagens licenciosas da senhora dele.

Quando Urias estrebuchou ferido de agonia, a majestade cravou os dentes de se lambuzar todo nos gozos das carnes suculentas de Bethsabé. Já era.

Davi matou dois coelhos com uma lapada só: o marido foi pro saco e ele partiu pra mancebia engalanada nas entrâncias e reentrâncias cobiçadas da mulher, tomando conta da viúva.

Dessa sagrada união nasce um bruguelo.

O primeiro nome dele foi dado pelo profeta Natã: Jedid-jah, o amado de Deus.

O rei que não gostou nada dessa ideia de outro colocar o nome em filho seu, ora, ajustou logo em riba da fivela e como senhor de mando na porratoda, o menino passou-se a chamar Salomão, o filho da paz. Dito e feito. Ora, ora.

Eis que tempos depois o rei bate as botas.

O reino vira o maior cu-de-boi-na-área-do-Central: só conspirações, intrigas e disputas. Maior buruçú. Resultado: acusações, assassínios, prisões e o escambau.

No meio do pandemônio, Salomão não perdeu tempo: matou o irmão Adonia e o general Joab, destituiu o sacerdote Abiatar e mandou ver no desembaraço dos rivais e sequazes para assumir o trono, trovejando sua máxima: “A ira do rei é como o bramido do leão. Mas a sua benevolência é como o orvalho sobre a erva”.

Foi assim que assumiu geral com todo ar de déspota azedo e arrogante, esbulhando e escravizando o povo, esbanjando dinheiro e ludibriando as mulheres aos seus mandos – tal pai, tal filho; cara dum, cu de outro.

Mesmo com essa folha corrida, diz-se que ele foi agraciado por Deus com o anel de safira de Adão, o mágico anel que governa as águas do mar, os ventos do ar, os mistérios da terra e o poder da vida e da morte. Cabra sortudo, hem?

Esse anel deu-lhe o poder de saber todos os segredos e coisas ocultas em diálogo com as aves, as árvores, os ventos, os mares, rios, fogo e terra. E suas aspirações eram alcançadas: poder, glória, riqueza, belas mulheres, navios, cavalos, vida longa e tudo o que quisesse. Assim fodeu, capou, benzeu e arrotou. Empreendeu mais conquistas: fez acordos e negociatas com outros reis desposando suas filhas, formou um harém de concubinas, escravizou estrangeiros e compatriotas, impôs tributos pesados pro povo e viveu às extravagâncias. Possuía tudo o que queria e tinha plateia arrochada de babaovo e lambecus para cada um dos seus mínimos remelexos.

No meio dos achegados, estava Asmodeu. Este aproveitando o momento de um desvario etílico do rei, desafiou no mote da suspeita de inexistência que ele lhe mostrasse o anel de safira. Duvida? O intrépido Salomão exibiu vaidoso. Eis que Asmodeu se transforma no demônio que sempre foi, surrupia o anel e se agiganta até as nuvens, atirando o anel pro fundo do mar. Depois, suspendeu o rei e com toda força arremessou pro deserto. Em seguida, transformou-se no próprio Salomão e sentou-se no trono para reinar em seu lugar. Pronto, fodeu-Maria-preá.

Reza a lenda que Salomão amargou todas as vicissitudes que pode acometer um ser humano: revezes infindos carregados dos mais impensáveis infortúnios.

Depois de décadas de humilhado, mendigando, preso e desventurado, ganha a liberdade e descobre o amor. É ai que escreve o Cântico dos Cânticos. Passa a ser, então, serviçal humilde, até conseguir emprego muitos anos depois na cozinha do seu próprio reinado.

Até que um dia, preparando o repasto do rei, passou a faca para tratar de um peixe que seria servido, encontrando no seu ventre o anel de safira tomado. Retomava agora o que era de seu e deu cabo de Asmodeu que se passava por ele, descobrindo-lhe os pés de cabra, enxotando-o dali: - Arreda, satanás!

Esse o Salomão dos livros dos Reis bíblicos, do Talmude, dos contos árabes, das lendas indianas, dos romances irlandeses.

Pois é. Cada qual que pinte como convém. Para os simpatizantes, um deus, um herói, um sábio; para os nem tão desafetos assim, um poderoso estroina.


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