segunda-feira, julho 18, 2016

NÃO ERA PRA SER, NEM FOI


NÃO ERA PRA SER, NEM FOI – Quando Getulídio terminou o segundo grau, os pais deles bancaram a faculdade na capital pra ele ser gente na vida. Dos sosnhos deles, queriam dele doutor, ou médico, ou engenheiro, ou advogado. Nem ele sabia bem o que queria da vida. Mas foi. Foram cinco anos empunhando bandeiras da moçada, botando em dia a solidariedade com protestos em nome da democracia e da dignidade. Sentia-se cidadão do mundo engajado socialmente na luta por um país melhor. Aí fez pedágio, campanhas, passeatas, motins, barricadas, tudo combatendo o neoliberalismo, a desregulamentação, a injustiça, a privatização, a pobreza, a flexibilização, o diabo a quatro e o escambau. Fez coro com sem-teto, sem-terra, sem-saúde, sem-educação, sem-segurança; ingressou nos exercícios pra luta armada, guerrilhas e fez trocentas revoluções sem sair do lugar. A cada cervejada a comemoração da tomada do poder; no outro dia a ressaca do lema de que a luta continua. Finalmente se formou e teve que se embecar pro trampo, estava graduado pra vida, tudo seria diferente. E não foi. Ganhar dinheiro não é fácil, tinha mais é que ralar, se firmar como profissional de respeito, agora com anel no dedo. Depois de muito insistir, não deu. Voltou pra terrinha bacharel, mãos na cabeça mais que esfarrapado, morto de vergonha e pronto pra retornar pro útero do seio familiar. Precisava cuidar da vida, do bem-estar; tinha que se arrumar de forma individual, vez que o coletivo não dava sustento, nem vingava pra nada. Abriu mão de todas as ideologias ao perceber que não era igreja pra viver de caridade. Encarou, assim, de resolver seus próprios problemas, pros outros que viesse outro salvador. Tudo resolvido: reassumiu os negócios da família, maior comodidade, patrão sem ter que ralar. Pra quem não era nada, agora era o chefe do comando: trocou o direito pelo privilégio. Logo esqueceu o passado, dos cinco anos ralando com as mãos abanando. Ideais de estudante no pretérito, agora nas fileiras do empresariado seguindo a cartilha de chover-no-molhado, botar o Brasil pra frente que ninguém vai dar mais jeito, como está tudo perdido, não ia ser ele o mártir do futuro. Melhor deixar rolar e seja lá o que Deus quiser. Não era pra ser, nem foi. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do pintor e ilustrador francês Paul-Émile Chabas (1869-1937).


Curtindo o álbum Piano Sonata (ECM Records, 2014), da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006). Veja mais aqui.

PESQUISA:
Nature Aquarium Wordl & Aquarium Plant Paradise, do fotógrafo, designer e aquariofilista japonês Takashi Amano (1954-2015).

LEITURA

Um poeta não é, como a gente acredita, aquele que sabe melhor do que os outros enxergar a terra e o céu, escutar o barulho do mar, no chilrar das nascentes e dos pássaros, um poeta, você será um, meu pequeno amigo – as peças tocam, ela o cumprimenta baixinho – um poeta, dizem que é verdade, é aquele que sabe fabricar um poema com palavras.
Trecho extraído da obra Entre la vie et la mort (Gallimard, 1968), da escritora francesa Nathalie Sarraute (1900-1999), autora dosdos movimentos tropísticos, definidos por ela mesma como os movimentos que resvalam da consciência por serem ínfimos, mas que estão na origem dos gestos e, sobretudo, das palavras. Ela os define como movimentos interiores que só podem ser recuperados pela escrita num trabalho de reflexão posterior ao da experiência desses movimentos, que são anteriores às palavras.

PENSAMENTO DO DIA: 
Nós não queremos quebrar as leis. Nós queremos fazer as leis.
Frase da sufragista & ativista inglesa Emmeline Parnkhurst (1858-1928), que inspirou o longametragem As Sufragistas (2015), dirigido pela cineasta Sarah Gravon, um grito por representatividade inspirado no movimento sufragista do final do século XIX e início do XX, na Inglaterra, retratando a vida de um grupo de mulheres que resistia à opressão de forma passiva, sendo ridicularizadas e ignoradas pelos homens. A partir do momento em que começam a encarar uma crescente agressão da polícia, elas decidem se rebelar publicamente, reivindicando os direitos da mulher e a luta por sua dignidade. Destaque para a atuação da atriz inglesa Carey Mulligan.

IMAGEM DO DIA: 
Zakarella, a heroína dos quadrinhos criada pelo pintor e ilustrador português Carlos Alberto Santos.

Veja mais sobre Claude Debussy, Thomas Kuhn, Yevgeny Yevtushenko, Sandrine Piau, Tristan Corbière, Leilah Assumpção, Eric Rohmer, Hyacinthe Rigaud, Marie-Christine Barrault, Françoise Fabian, Vittorio Polidori & New Erotic Photography aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Gravuras do cartógrafo, explorador, artista e antiquário francês Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck (1766 - 1875).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



GALEANO, BOLDRIN, FLORA PURIM, CAMPBELL, JACI BEZERRA, BRAGINSKY, ADONIRAN, INGRID PITT, RESILIÊNCIA & QUIPAPÁ

A ESCRITURA DO VISINVISÍVEL – A arte do pintor ucraniano Arthur Braginsky . – O que vejo a lágrima embaça porque tudo é muito adverso e av...