quinta-feira, março 07, 2013

LITERATURA: MODERNIDADE X PÓS-MODERNIDADE




Foto: Dimas Bezerra

LITERATURA: MODERNIDADE X PÓS-MODERNIDADE


Em razão da minha participação na mesa de debates sobre a temática “Literatura e Pós-Modernidade” durante a VIII Semana de História da Universidade Federal de Alagoas - UFAL, efetuei uma reflexão a respeito no sentido de pontuar, em primeiro lugar, a distinção entre modernidade e pós-modernidade, para, a partir daí, localizar a literatura no período compreendido pelo estudo.
Introdutoriamente, é conveniente dimensionar com base na literatura revisada sobre a questão temática, há toda uma trajetória que se dimensiona desde a era atômica até era dos bits, preferindo, então, com isso, fixar, com base em Jair Pereira dos Santos, que existem três períodos que se processaram, sendo o primeiro, cobrindo todo o século XIX, o período do capitalismo liberal; o segundo, que vai do fim do século XIX até o período após a Segunda Guerra Mundial, caracterizado pelo capitalismo organizado e, daí até o tempo presente com o neoliberalismo. Ainda é encontrado na literatura que no século recém-passado, ocorreram ao longo de todo século XX, três fases distintas identificadas, primeiramente, pela pré-modernidade assentada no Estado liberal, a modernidade assentada no Estado social e a pós-modernidade assentada no Estado neoliberal. Em razão disso, para melhor entendimento da questão temática, convém, então, distinguir modernidade de pós-modernidade.

MODERNIDADE: O PARAÍSO DE APOLO

A modernidade, para Walter Benjamin, é como viver pelo heroísmo, porque deve estar sob o signo do suicídio que sela uma vantagem heróica que nada concede à atitude que lhe é hostil e esse suicídio não é renúncia, mas paixão heróica. Acrescenta ele nas suas reflexões que o verdadeiro herói do mundo moderno é a figura do operário que, na vida diária, enquanto tem vitalidade, vive um esforço heróico.
No campo da arte moderna, segundo Octavio Paz, esta se caracteriza por ser critica de si mesma, quando é representada como uma época da aceleração que uma fusão de todos os tempos e todos os espaços que se confluíram par um aqui e um agora do tempo histórico. Inclusive, para ele a modernidade é um conceito exclusivamente ocidental e não aparece em nenhuma outra civilização. E assevera: “A modernidade é uma separação”, uma vez que se inicia como um desprendimento da sociedade cristã, sendo, pois, somente a modernidade capaz de realizar a operação de volta ao principio original, pois só ela pode negar-se a si própria no meio das tentações revolucionárias e religiosas.
Na modernidade, segundo Rogel Samuel, a reificação humana transforma o humano em objeto social, na massa, imanente ao todo, identificando uma sociedade de massas, deixando claro, pois, que o mundo da modernidade é o da imanência e do imediatismo. Para ele: “Se o moderno foi capaz de sacrificar Deus, não devemos ter dúvidas de que será capaz de sacrificar qualquer ser (...) ou de sacrificar qualquer coisa. Populações inteiras foram, dizimadas na modernidade, porque é da natureza humana o sacrifício”. Tem-se, pois, além da renúncia, do conflito e da negação, também a autodestruição como fator importante na modernidade. Tanto é que o mito moderno, para Rogel Samuel, se deu sob três modos, como um símbolo, destruindo a significação do mito considerado uma impostura e focalizando o significante do mito na totalidade sentido e forma. Esse mito é o progresso pela tecnologia, era neotécnica para construção da megamáquina como um pentágono que envolvesse energia, política/poder, propriedade, lucro e privilégio. É quando Habermas anuncia que a técnica e a ciência tornam-se ideologias, o par-sagrado para o progresso dando na tecnocracia moderna de George Orwell: a dominação técnica da natureza e do social, a partir do empirismo de Bacon e o racionalismo de Descartes, e a domesticação energética do mundo baseada em Heidegger que trazia a tekhne como poiésis. Resultado: a tecnocracia futurista e totalitária.
A partir disso, há que se considerar, então, que o paradigma cultural da modernidade, segundo Jair Pereira dos Santos, constituiu-se entre o século XVI e finais do século XVIII coincidindo, aproximadamente, com a emergência do capitalismo enquanto modo de produção dominante nos países da Europa. Ou seja, que o período correspondente à Era Moderna abarca, na história, desde o advento do Renascimento, com suas idéias racionalistas, antropocêntricas e de saber ativo e a modernidade seria aquela época a partir do século XVII, quando as idéias Iluministas foram implantadas, e a Revolução Industrial começou na Inglaterra. As idéias Iluministas expressavam uma constante busca pela razão, e isso fez com que as ciências fossem muito incentivadas. Esse fato histórico fez com que as ferramentas fossem substituídas por máquinas, tirando os homens do campo para serem trabalhadores explorados com baixos salários nas cidades. Este período, então, tem raízes na criação da imprensa por Gutenberg, em 1455, e na Reforma Protestante, em 1517, o que fez surgir o chamado Renascimento. Nas ciências exatas, Copérnico trata do heliocentrismo em lugar dos preceitos religiosos. Começa com o pilar do Estado de Hobbes, do mercado desenvolvido por Locke e o da comunidade na obra de Rousseau, este baseado na igualdade entre os homens e na organização soberana da sociedade. Na esfera política, surge uma nova concepção de Estado com a publicação de O Príncipe, de Maquiavel. Com a Revolução Francesa, surgiu um conceito novo, o de religião secular, a crença da salvação pela sociedade.
Com o existencialismo, surge Kierkegaard que vê que a vida humana é movida por suas paixões, não podendo ser reduzida a elementos rudimentares de biologia, a atividade intelectual. O próprio Albert Camus ao observar as atrocidades cometidas nos campos de concentração viu confirmada sua tese de que o mundo não fazia qualquer sentido. Já Sartre defendia que os seres humanos precisavam dar um sentido à vida, só que criado por eles próprios, afinal não existem pontos de referência previamente estabelecidos para guiar o homem. O existencialista volta para si mesmo, porque o relacionamento com o outro lhe causa "náuseas". É a partir da sua individualidade ele tenta dar sentido à vida. Na evolução desse processo Nietzche tenta transformar o ser humano em um "super-homem" como única forma de contrapor ao absurdo e à incoerência da própria existência: "Deus está morto".
Em 1905, Einstein propõe a teoria da relatividade e os conceitos de espaço e tempo são revistos, deixando de existir em si mesmos, para só existir em função de um observador, determinando que nada é igual o tempo todo e gerando uma visão relativista do universo, que deveria constituir-se no grande marco da Modernidade.
A Modernidade não chegou a todos os lugares simultaneamente. No Brasil, os primeiros contornos da Modernidade foram sentidos em meados do século XX.
Havia, pois, uma grande preocupação em ser moderno, dentro de padrões totalmente etnocêntricos construídos pelos dominantes e impostos aos dominados. Daí ocorre a dominação técnica do social, o individualismo exacerbado, a moral burguesa, a ética da acumulação, a racionalização, o paraíso de Apolo. Nasce aí o formalismo e o hermetismo que é um jogo com formas inventadas. Ocorre, então, a crise: não há mais progresso. No momento que esse padrão de progresso foi quebrado, deu-se início a pós-modernidade, época dos meios de comunicação e massa e muitos conflitos.
Segundo Teixeira Coelho, "(...) haverá tantas noções de moderno, modernismo e modernidade quantos forem os espaços e os tempos considerados. Haverá aquela e esta modernidade, uma modernidade "deles" e a "nossa" modernidade." Isto sugere que cada sociedade engajou-se na modernidade de acordo com suas especificidades e em diferentes momentos.
Uma forma de definir a chamada Modernidade seria a partir de todos os fenômenos sociais que aconteceram devido ao desfruto das pessoas nos avanços da ciência e da tecnologia; assim como, pela urbanização rápida e excesso de informações, ainda que superficiais e manipuladas. Assim, a modernidade é, portanto a realização empírica, por fim, passados tantos séculos depois, do discurso dos universais metafísicos da filosofia clássica. E não mais que isso é a globalização.
Resulta, pois, entendido que na modernidade o homem se torna histérico-paranoico, além de um especialista, lúdico, fragmentado. E no campo da arte caracterizou-se pela individuação e profissionalização do artista, autonomia da produção artística, organização do mercado da arte e de bens simbólicos.

PÓS-MODERNIDADE: O TEATRO DE DIONISO – DO BOOM AO BIT E AO BLIP

Rogel Samuel traz que a pós-modernidade é um nome genérico dado para formas culturais de um período que aparece desde os anos 60, abrangendo certas características como reflexão, ironia e um tipo de arte que mistura o popular e o erudito. É vista como uma continuação dos aspectos mais radicais da modernidade, ora ao contrário, como marcador de uma ruptura com ela. Este período uniu a lógica cultural do capitalismo tardio, a condição hera de conhecimento em tempos de tecnologia da informação, substituição de um foco da epistemologia modernista por uma ontologia, e a substituição do simulacro pela realidade. Para ele, a sociedade pós-moderna é uma sociedade pós-industrial capitalista.
Mediante isso, vê-se que a pós-modernidade desenvolve tendências opostas à modernidade, começando com a cibernética em 1948, a inteligência artificial em 1956, a teoria da auto-organização e sistemas, em 1960; a tecnologia de comunicação de massa (radio, TV e telefone) e a telemática, em 1950. É a partir da década de 50 que novas expressões nas artes começaram a dar indicações de que havia uma mudança em vários âmbitos da sociedade que estariam configurando uma nova etapa da humanidade, com características que não condiziam mais com as idéias e as sociedades modernas. As análises de teóricos como Baudrillard sobre o simulacro e os questionamentos de Derrida e Lyotard, criaram bases para o surgimento de uma teoria da pós-modernidade. Por isso, foi a partir dos anos 50, que surgiu a sociedade de consumo, os mass media, o fim das ideologias, o pós-industrialismo, a contracultura, a revolução verde, a informatização da sociedade, a globalização do local e a localização do global, o caos, a física quântica, as vanguardas anárquicas, o passado virando pastiche, a performática participativa, a esquizofrenia, as combinações, as colagens, os happenings, as tribos, a cultura do excremento, do pânico, do hiperprimitivo e do hipertecnologico. Surgem Andy Warhol, Roy Litchtenstein, James Rosenquint, Claes Oldenburg e Tom Weaaelmann, o bode entrópico, os cerebráticos, bit balance, o barulho maquínico e eletrônico, a abolição do espaço/tempo, as paralogias: o heterogêneo, a diferença, o ciberespaço, as tecnoanarquias, a tecnociência se defronta com a imitação, o mimetismo e os simulacros; o tempo das retroações, recorrências e dialógica não dialéticas; o antagonismo, a interdisciplinaridade, o politeísmo, hedonismo e presenteísmo; a ruptura e continuísmo, miniaturização e onipresença; o presenteísmo, o visionarismo, a instantaneidade, a ubiqüidade, a noosfera, a omnivisão e o inconcluso; a finitude, o saber, o hedonismo e a responsabilidade; a sinergia, a união da mecânica, eletricidade e microeletrônica à nanotecnlogia e o pensamento complexo de Morim.
Passa-se a entender que a chamada pós-modernidade aconteceu também na esfera sociológica levando à secularização e à privatização, o que alterou os pilares básicos da sociedade: o convívio, as relações pessoais e a ética. Na realidade, o pós-modernismo prometeu liberdade, mas lançou o homem na pior das escravidões: a solidão. É nos anos 60 que se começa a ver a utopia da modernidade ruir, quando o pós-moderno passa a ser a ruptura com as metanarrativas na sociedade Frankstein com o seu tautismo, que reúne a tautologia com o autismo.
Daí o homem pós-moderno ser caracterizado pelo apego ao materialismo, ao hedonismo, à permissividade, à revolução sem finalidade, ao relativismo e ao consumismo desenfreado, o ideal asséptico e light, desorientado e sem referências porque perdeu seus objetivos na revolução sem projeto nem finalidade; um de animal descontente que procura a liberdade perdida na sua alienação de que a moda é o eixo da conduta no meio de uma sexualidade vazia, sem rumo e sem amor, zapeando a cultura do tédio, à deriva, cansado da vida fracassada ou drogada e de costas pra morte. É o que se detecta do homem esquizo-conformista de Baudrillard, ou o esquizo-anarquista de Deleuze: um homem amador que cultua o pastiche porque se apropria do passado e realiza o seu rito de passagem perguntando onde os ideais e as causas, num isolamento total no meio da permeabilidade, multiculturalidade e hibridismo.
Para Teixeira Coelho a pós-modernidade abarca uma multiplicidade de aspectos da vida contemporânea, desponjando-se da idéia de identidade permanente, da estabilidade e rege-se primordialmente pela aceitação das instabilidades, da heterogeneidade, da relativização dos marcos referenciais e de doutrinas totalizantes. Diferentemente do que ocorreu até os anos 60, a negação das instituições é substituída pela contestação logo em seguida. Isto significa que o pensamento pós-moderno passou a admitir a existência de posições contrárias e seus adeptos, porém, procura engajamento em outras esferas, integrando as contradições. É neste ínterim que ocorrem a queda das grandes ideologias e dos meta-discursos iluministas, o fracasso dos sistemas políticos, a desconfiança no progresso tecnológico e cientifico, a indiferença com relação a geração X e Y, o novo tribalismo, o fracasso do projeto individualista, descrença no futuro, desafios das manipulações genéticas, AIDS, drogas e cibercultura. Daí, segundo, Enrique Rojas, vai se caracterizando por um período representado como o fim de uma civilização e apontando as soluções do homem pós-moderno na recuperação do humanismo, do amor, do trabalho, da cultura e a volta aos valores, eliminando o cinismo, cultuando a intimidade, sendo coerente para alcançar a felicidade.
É nesse contexto que surge a cibercultura que, segundo Pierre Lévy, vem com o sentido grego de arte do controle, pilotagem, telepresença, prolongando a oralidade e a escrita, e o sistema ecológico do mundo das idéias. Vem unindo informática e cibernética, o digital, o imediato, multimodal, rizomatico, requerendo transversalidade, descentralização e interatividade. Com ela desaparece o social com implosão do individualismo moderno, criando isomorfismo simbióticos, indeferenciados e construindo cibersocialidades. Se a modernidade valorizava a presença, a pós-modernidade só vê ausência, anunciando a desintegração das sociedades com um sentimento de abandono, um cínico fatalismo, o desaparecimento de qualquer idealismo, deixando-se se levar pelas circunstâncias lançando-se nos modismo, deixando de existir quaisquer tipo de mobilizações, crescendo a culpa devido ao abandono moral e uma aceitação de tudo, um ecletismo e uma tolerância acrítica da ética. A resposta pós-moderna ao moderno consiste em reconhecer que o passado, já que não pode ser destruído porque sua destruição leva ao silêncio, deve ser revisitado: com ironia, de maneira não inocente. No entanto, para que a pós-modernidade em seu caráter niilista possa realizar-se, o homem e o ser devem ser repensados à luz de um modelo não-positivista, não-metafísico.
A pós-modernidade, ao mesmo que tempo que representa uma ruptura com a modernidade, representa também a continuação de uma série de transformações que começaram com ela. Com isso, a arte não se desenvolve mais isolada da ciência, da tecnologia e da indústria e ao invés de cada linguagem constituir um texto único, a arte caminha no sentido da intertextualidade, na medida em que diferentes linguagens se aproximam para constituir sentido, e que o público é encarado como agente ativo na construção da obra. E, considerando-se o universo artístico, pode-se dizer que se desenvolveram duas correntes avaliando as mudanças ocorridas na segunda metade do século XX. Dentro de uma postura pessimista há os que prevêem a morte da arte, nos moldes da arte como é conhecida. Por outro lado, muitos críticos consideram a interatividade como uma forma de democratização de meios e mensagens em substituição a formas autoritárias de pensar, que privilegiavam a harmonia, a linearidade e a lógica. Alegam que em outros campos da atuação humana, como na arte e nos sonhos, estas formas de pensar tornam-se totalmente disformes e desarmônicas.
Este é o cenário pós-moderno carente ainda duma reflexão mais aprofundada, não cabível, certamente, num modesto texto. Até depois.

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