sábado, outubro 29, 2016

POR MAIS QUE A GENTE FAÇA NUNCA SERÁ DEMAIS!


INEDITORIAL: APRENDI A VOAR NAS PÁGINAS DE UM LIVRO - Desde menino que entre as coisas que me chamava pela curiosidade, uma delas: os livros nas estantes. Presepeiro inheto, não me furtava, às escondidas, de deslizar os dedos nas páginas das enciclopédias, à procura de imagens de mulheres nuas – outra das minhas predileções, quando não eram meus olhos pregados nas fechaduras dos quartos delas, pelos combongós atrepado no que tivesse ao alcance, ou por cima do muro brechando pelas frestas do banheiro. Nem eu sei como fazia para tanto, muitas das vezes me estuporava estatelado no chão. Queda braba que me denunciava a arteirice, sempre. Quando não era isso, eram os livros. Vez em quando era surpreendido por minha mãe, tia ou parentes próximas, folheando páginas dos livros que, para o meu tamanho de criança pequena, eram bem massudos. Como eu não parava quieto, era difícil de acompanhar meus passos e, sempre que podia, furtivamente, escapulia para a biblioteca do meu pai, catando aqueles volumes bem grossos e repletos de ilustrações para lá de aprazíveis. Com dificuldade os retirava da prateleira, deitava-os no chão e me danava a conferir as figuras. Passava horas nisso. Às vezes encontrava algumas revistas e publicações para maiores de dezoito anos – inclusive descobrindo os catecismos do Zéfiro -, entre as quais havia muito por me deliciar com imagens e poses. Cresci no meio disso: livros. E quando aprendi a ler, isso por volta dos quatro ou cinco anos, não deixava de soletrar os textos, o que me levava a encher a casa toda com interrogações pros familiares, sempre com uma indagação para todos na ponta da língua. Dei trabalho ao povo lá de casa, já viu, né? Foi com isso que aprendi a voar nas páginas dos livros: tantas e quantas viagens com Homero, Dante, Cervantes, Swift, Monteiro Lobato, Melville, La Fontaine, Fedro, Esopo, muitos, menino metido a letrado. E quando apareceram os gibis, aí que viajei mesmo. Mas, o que mais adorava era o cheiro que emanava nas folhas de livros bem usados, como de uma coleção completa que meu pai me deu de Machado de Assis quando completei dez anos de idade – edição da W. M. Jackson Inc, de 1938, 41 volumes, que ainda hoje leio e guardo como relíquia. Quantas e tantas viagens maravilhosas: voos transcendentes que me fizeram de habitual ou viciado leitor. Pra mim, poucas são as coisas no mundo melhores que isso: voar nas páginas dos livros. E vamos aprumar a conversar pras novidades do dia: na edição de hoje destaque para o pensamento Carl Gustav Jung, o homem e a sociedade de Wilfred Bion, a atualidade de Georg Simmel, a escultura de Wilhelm Lehmbruck, a arte de Luiz Paulo Baravelli, a literatura de Eduardo Caballero Calderón, o teatro de Oduvaldo Vianna Filho & Helena Varvaki, o Congresso Brasileiro de História da Educação, a entrevista de Katia Velo, a arte de Tracey Emin & Karen Robinson & Samuel Szpigel, a fotografia de Rebeka Barbosa, a música de Tarita de Souza, a palestra Cidadania na Escola & a croniqueta Do que fui e o que não sou mais. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Renovação, Adalgisa Nery, Josefina Álvares de Azevedo, Patrizia Laquidara, Marina Colasanti, Liliana Cavani, Claudia Cardinale, Maria Martins, Niki de Saint Phalle & Visão holística em psicologia e educação aqui.

E mais:
Médicos deprimidos, Chico Folote & Besta Fubana, Charlie Chaplin, Estupro, Glândulas endócrinas & o poder humano aqui.
A poesia & arte de Alê Cavagna aqui.
Proezas do Biritoaldo aqui.
Fecamepa aqui.
As trelas do Doro & o escambau aqui.

DESTAQUE:
[...] Todo homem carrega dentro de si a eterna imagem da mulher, não a imagem desta ou daquela mulher em particular, mas uma imagem feminina definitiva. Esta imagem é... uma marca ou arquétipo de todas as experiências ancestrais do feminino, um depósito, por assim dizer, de todas as impressões já dadas pela mulher. [....] Uma vez que esta imagem é inconsciente, ela é sempre inconscientemente projetada na pessoa amada e é uma das principais razões para atrações ou aversões apaixonadas [...].
Trechos extraídos da obra O homem e seus símbolos (Nova Fronteira, 2011), o psicólogo e psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). (Imagem: Man-Woman, by Kaie 13). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DO QUE FUI E O QUE NÃO SOU MAIS (Imagem: My Journey, by Karen Robinson) A vida me deu de tudo, fez-me plural: quantos eus dialogam em mim, difícil conciliação. Adapto-me ao que posso e vou. Sei da semente, veio-me carregada, não apenas eu, muitos: o que olha pro passado e lá nostalgicamente fica; o que vive amanhã levando tudo no peito; o que se arrepende e não quer ir a lugar algum, nem ficar quieto, nem se agitar, não sonhar e nem divagar pelos pensamentos, contradições que se conflitam, tempestades, bonanças efêmeras, errâncias, vórtices, paradoxos que se incorporam em ser-me o que nem sou. Não olho pra trás, nada fiz. Vou em frente, tudo por fazer. A minha vida é estaca zero, todos os dias o começo que sequer recomeço, invento. Já perdi a noção de tudo, não sei nada. Olho pra mim e não me vejo. Apenas vivo. Se sou o que não sei, pouco importa, apenas vou. Até onde, não sei. Sigo o que prevejo da intuição, olho bem aberto para tudo, vejo luzes dentro de mim. Não sei do ar que respiro, nem da terra que piso ou das águas que me afogam, sei do fogo aceso vivo queimando minhas entranhas para que eu esteja pronto pro que der e vier. E vou com o que fui e não sou mais. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum A árvore e o vento (Independente, 2014), da cantora, compositora, regente, arranjadora e preparadora vocal, Tarita de Souza.

O HOMEM E A SOCIEDADE - [...] A sociedade ainda não foi impulsionada a buscar tratamento para suas perturbações psicológicas através de meios psicológicos porque ainda não atingiu um discernimento (insight) suficiente para apreciar a natureza de sua aflição. [...] Todos os grupos estimulam e ao mesmo tempo frustram os indivíduos que os compõem, porque o indivíduo é impelido a buscar a satisfação de suas necessidades em seu grupo e, ao mesmo tempo, é obstado neste objetivo pelos medos primitivos que o grupo desperta [...] qualquer grupo de indivíduos que se reúne para trabalhar mostra a atividade do grupo de trabalho, isto é, um funcionamento mental projetado para promover a tarefa em execução. [...] é necessário elaborar as tensões que pertencem a configurações familiais quanto as ansiedades ainda mais primitivas das relações de objeto-parcial. Na verdade, acho que essas ansiedades primitivas encerram as últimas fontes de todo o comportamento de grupo. [...]. Trechos extraídos da obra Experiências com grupos: os fundamentos da psicoterapia de grupo (Imago/EdUsp, 1975), do psicanalista britânico e pioneiro em dinâmica de grupo, Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979).


Imagens: arte do pintor, escritor, gravador, professor e artista visual Luiz Paulo Baravelli.

PENSAMENTO DO DIA: A ATUALIDADE - [...] a situação problemática, tão característica do homem moderno [...] vivemos uma espécie de auto-gozo da técnica, tendo perdido o caminho que leva aos sujeitos. [...]. Trechos extraídos da obra Diagnóstico de la tragédia de la cultura moderna (Espuela Plata, 2012), do sociólogo e professor alemão Georg Simmel (1858-1918). Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do escultor e grafista alemão Wilhelm Lehmbruck (1881-1919).

ASSOMBRAÇÕES -- [...] Quando o tempo melhorou, algumas horas mais tarde, Santos tomou o caminho de seu rancho, e eu fiquei só, na casa silenciosa. O mundo exterior afastava-se subitamente de mim, e, então, o meu corpo caía em uma vertiginosa profundidade, em que era muito doce tombar. Mas, de repente, sobressaltou-me o latido dos cães na horta. E uma rajada fria de vento açoitou-se o rosto, como se a mulher de saia rodada deslizasse junto de mim, tão perto que me pareceu ouvir o ruído furtivo de seus passos no ladrilho. Tive medo – e pensei que, àquela hora, a procissão dos frades devia desfilar pelo pátio da capela. Sim, posso jurar que, naquele momento, encontrava-se ao meu lado a velha de anáguas engomadas. [...]. Trecho extraído do conto Assombrações (Cultrix, 1968), do escritor e jornalista colombiano Eduardo Caballero Calderón (1910-1993). 


MÃO NA LUVA – A peça teatral Mão na luva (1966), do dramaturgo, ator e diretor Oduvaldo Vianna Filho -  o Vianinha (1936-1974), conta a história de um casal que está em processo de rompimento de uma relação de nove anos, entre uma mulher artista plástica frustrada e seu marido jornalista. Dá-se uma conversa derradeira entre os dois, com ação em flashbacks, onde ambos viajam no tempo entre o passado e o presente, com revelações, traições veladas, mágoas expostas nas feridas abertas e busca de uma razão específica para o término da união. Tive oportunidade de ver a montagem de 1998, dirigida por Dudu Sandroni, no Teatro Ziembinski, no Rio de Janeiro, com destaque para atuação da atriz, diretora e fisioterapeuta Helena Varvaki. A peça foi adaptada para o cinema com direção de José Joffily, em 2014. Veja mais aqui e aqui.

Imagens: a arte da pintora, escultora, fotógrafa, professora e cineasta inglesa Tracey Emin.

AGENDA: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO - Acontecerá entre os dias 15 e 18 de agosto de 2017, em João Pessoa (PB), o IX Congresso Brasileiro de História da Educação (IX CBHE), promovido pela Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE), com eixos temáticos voltados para políticas e instituições educativas, formação e profissão docente, teoria da história e historiografia da educação, educação profissional, movimentos sociais,etnias e gênero, entre outros temas. Mais informações: http://www.sbhe.org.br/eventos/1-chamada-ix-cbhe Veja mais aqui e aqui.


ENTREVISTA: KATIA VELO - A artista plástica, fotógrafa, colunista cultural e professora Katia Velo, alguns anos atrás, gentilmente me concedeu uma entrevista falando sobre sua trajetória artística e suas múltiplas atividades. Confira a entrevista aqui e mais aqui.

REGISTRO: PALESTRA – O DIREITO DE VIVER E DEIXAR VIVER
Entre os anos de 2009 e 2012, ministrei em diversas escolas, instituições e eventos, a palestra-espetáculo O direito de viver e deixar viver: a arte pela cidadania, ética e meio ambiente. Essa palestra tinha por base apresentar poemas, textos e músicas autorais que dessem relevo às questões atinentes à promoção do princípio da dignidade da pessoa humana, o exercício da cidadania, a ética, o respeito às diferenças e as questões ambientais, possibilitando o desenvolvimento do projeto Cidadania nas Escolas. Veja detalhes aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens: a arte da fotógrafa Rebeka Barbosa.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Yes nós temos (1965) by Samuel Szpigel.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


ARIANO, LYA LUFT, WALLON, AS VEIAS DE GALEANO, FECAMEPA, JOÃO DE CASTRO, RIVAIL, POLÍTICAS EM DEBATE & MANOCA LEÃO

A VIDA NA JANELA – Imagem: conversando com alunos do Ginásio Municipal dos Palmares - Ainda ontem flores reluziam no jardim ornando muros...