sexta-feira, abril 10, 2015

NERUDA, MODIGLIANI, BJÖRK, ZINAIDA, TEIXEIRA COELHO, FOLLET & RUBENS DA CUNHA.


TARDE – Entre os Cem sonetos de amor (L&PM, 2013), do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), encontrei o poema Tarde – LXVI, na tradução de Carlos Nejar: Não te quero senão porque te quero / e de querer-te a não querer-te chego / e de esperar-te quando não te espero / passa meu coração do frio ao fogo. / Te quero só porque a ti te quero, / te odeio sem-fim, e odiando-te rogo, / e a medida de meu amor viageiro / é não ver-te e amar-te como um cego. / Talvez consumirá a luz de janeiro / seu raio cruel, meu coração inteiro, / roubando-me a chave do sossego. / Nesta história só eu morro / e morrerei de amor porque te quero, / porque te quero, amor a sangue e fogo. Veja mais aqui, aqui e aqui.
Imagem: Nude, da pintora modernista russa Zinaida Evgenievna Serebriakova (1884-1967)


Ouvindo o álbum Biophilia (Universal Music, 2011) da premiada cantora, compositora, atriz e instrumentista islandesa Björk.

UMA MULHER POR CEM CABEÇAS DE GADO – Imagem: Femme agenouillée, do desenhista franco-belga René Follet. - Entre as narrativas das maravilhas do conto africano, organizada por Fernando Correia da Silva (Cultrix, 1962), encontram-se os relatos do Reino dos Homens, dos quais destaco Uma mulher por cem cabeças de gado, na tradução de Maria Adelaide Baptista Nunes: Havia uma vez um homem e uma mulher. Viveram muito tempo no país de Pata e tiveram um filho. Toda sua riqueza consistia em cem cabeças de gado. Além destas, não tinham um único vitelo; não tinham nada mais além daqueles animais. Com o passar do tempo, o filho cresceu e tornou-se um rapazinho e, quando o rapaz tinha quinze anos, o pai morreu. Alguns anos depois morreu a mãe. Assim o rapazinho herdou de ambos os pais: herdou as cem cabeças de gado que eles lhe haviam deixado. Ficou em casa e observou o período de luto pelos pais. Acabado o luto, sentiu necessidade de procurar mulher. [...] o pai respondeu-lhe, dizendo: - Ouvi as tuas palavras, mas desejo que aquele que quer casar com minha filha, me dê cem cabeças de gado como resgate da esposa. Se ele me der este resgate, eu lhe darei minha filha como mulher. [...] O rapaz baixou a cabeça e meditou, e quando a ergueu de novo, disse: - Não importa, vai dizer-lhe que aceito. Irei buscar as cem cabeças de gado e dar-lhas-ei. [...] O jovem saiu então, e sua ocupação passou a ser esta: saía todos os dias e ordenhava as vacas dos outros para receber em troca algo de comer, para ele e para a mulher. E todos os dias fazia a mesma coisa. [...] o marido da mulher não suspeitava qual o projeto do desconhecido, aquilo que ele queria na realidade. Então conversaram entre si: o pai da mulher, o marido da mulher e aquela ímpia criatura que queria perturbar a paz da casa do jovem, os três homens estavam sentados no átrio. Dentro a mulher pôs a carne no prato e levou-a para o átrio. Assim que o marido se levantou para oferecer a carne a mulher disse: - Vamos, comam, seus idiotas, que são todos três. Então começou o pai dizendo: - Pois bem, por que motivo sou um idiota? A filha respondeu-lhe dizendo: - Por favor, pai, come primeiro. Depois te direi por que és estúpido. Mas o pai disse: - Não, não quero comer; antes tens de me dizer por que sou estúpido. Depois comerei. Então a filha disse: - Meu pai, tu trocaste uma coisa cara por uma barata. O pai disse: - O que é que eu dei muito barato? Ela disse: - Aquilo que deste por preço demasiadamente barato, fui eu. Ele disse: - Por quê? Ela disse: - Pai, além de mim não tinhas outras filhas, nem outros filhos, e vendeste-me por cem cabeças de gado, embora tu tivesses seis mil canecas de gado. Achaste que cem cabeças de gado valiam mais do que eu. Eis por que te disse: Cedeste uma coisa de valor por uma barata. O pai disse: - Tens razão, minha filha, fui um estúpido. Então levantou-se o marido e disse: - E agora, por favor, diz-me qual foi a minha estupidez. A mulher disse-lhe: - Tu foste ainda mais estúpido. Ele disse: - Por quê? Ela disse: - Tu herdaste dos teus pais cem cabeças de gado; não herdaste mais um vitelo. E pegaste em todas e as deste para casares comigo, deste todas as tuas cem cabeças de gado; no entanto, na tua cidade há tantas mulheres que tu poderias ter comprado só por dez ou vinte cabeças de gado. Mas tu nem as olhaste. Pelo contrario, vieste e casaste comigo, entregando todo o teu rebanho. E agora não tens nada, nem tampouco algo para nós comermos e te tornaste o servo dos outros. Vais ordenhar as vacas dos outros, para arranjares alguma coisa para comer. E, se tivesse ficado com metade do teu rebanho e com a outra metade tivesse comprado uma mulher, terias ficado com algo para comer. Aqui está, portanto, a tua estupidez, meu querido marido. Então o grande patife perguntou: - E em que consiste a minha estupidez? Podes dizer-me? Imediatamente a mulher se levantou e disse: - Tu és ainda mais louco que os outros. E ele perguntou: - Por quê? Ela respondeu dizendo: - Tu querias obter somente com um quarto de boi o que foi comprado com cem cabeças de gado. E então, não és um louco? Ele ergueu-se de um salto e fugiu o mais rapidamente que pode. O pai da mulher ficou com eles dois dias. No terceiro diz fez os preparativos para a partida e voltou para casa. Quando chegou em casa, separou dos rebanhos as cem cabeças de gado que recebera do genro e enviou-lhas. Juntamente com aquelas mandou-lhe mais duzentas. Assim sua filha pôde viver ricamente com o marido por muitos anos. Veja mais aqui.

UMA OUTRA CENA – O livro Uma outra cena: teatro radical, poética da artevida (Polis, 1983), de Teixeira Coelho, aborda temáticas como a gênese e meta do programa para teatro diverso, CPCs, estética do dever, o começo da virada, poesias aithesis catarses, projeto de Artaud, passagens de Glauber & Oficina e Macunaíma, a matéria: símbolos, ícones e apercepção; a cena do imaginário, a função simbólica, o cogito do teatror, o sentido do cogito, o teatro que vê, passagens: Artaud & Grotowski & Oficina, el teatro tiene siempre uma luz que permita ver las palavras, a palavra-muleta, a palavra da sociologia, as ideias claras, fora de cena, Fernando Peixoto, uma questão escandalosa: o labirinto nacional e mil culturas, realismo, espaço da insônia, o efeito VP, passagens de Brecht e Pirandello, poética privilegiada, a cena do sujeito, a máscara da estação ao percurso, a cena do agora, a montagem da cena, metáforas, subversões da cena, a sombra da cena eutópica, Apolo, Dionisio, palavras-olhos, palavras-mãos, o jogo do antimovimento, Bob Wilson, cena lírica, a música no fosso, Intermezzo, o Brasil padece de uma incompetência cósmica, além do Jocus, mito e rito, teatro sagrado e teatro poético, a cena do espaço, espaços homogêneos e heterogêneos, espaço de percepção, espaço de presentação, fora do teatro, a sagração da cena, o ator santo, o lugar forte, ocularidade do espaço simbólico, identidade e homogeneidade, Squat Theatre, Living Thetre, Thétre du Soleil, La Mama, o espaço anafórico, cena-produto, cena-produção, espaço percebido, espaço vivido, a cena do pré-sentido, a cena do tempo, teatro e linguagem, a prosa e a poesia, a construção do tempo, o tempo vertical, tempo de duração, a identidade impertinente, a cena restrita, cena em construção fora do circuito, o duplo da vida, falar de si, prazer e corpo, a censura, a forma interna, utopia da matéria, o conteúdo político, a cena do lógico, não ao teatro de reprodução, cena de perigo, entre outros assuntos. Veja mais aqui e aqui.

...E MIGUEL FUGIU COM O VENTO – No livro Aço e nada (Design, 2007), do escritor catarinense Rubens da Cunha, destaco a narrativa ...E Miguel fugiu com o vento: Era bem de manhã. De repente, Miguel saiu correndo de casa, sem abotoar a camisa ou amarrar os cadarços. Perguntado sobre o que estava fazendo, respondeu: - Vou-me embora de carona com o vento, não volto mais. Abismados, pais, irmãos, vizinhos ficaram especulando o porquê dessa fuga repentina e justamente com o vento. “Tanta estada, tanto chão seguro”, murmurou a mãe, “e esse menino vai por aí, agarrado ao vento!”. O pai fez um gesto de reprovação, mas em segredo invejou o filho. Baixou a cabeça, fechou os olhos para não denunciar a contenteza. “Meu filho arranjou um jeito meio espetaculoso de ir embora, mas foi, é isso que importa, ele foi”. Os vizinhos admiraram-se da coragem de Miguel. O vento sempre fora volúvel, pouco confiável. Já tinha prometido a muitos uma carona e descumprido a promessa. Todos ali sabiam do caso de Arnaldo, uma crueldade ímpar: o vento o levou até certa altura e depois o largou. Arnaldo caiu sobre uns pinheiros. Aleijou-se, o pobre. Miguel que já ia longe feito pandorga sem fio, deixou uma curiosidade em todos que o viram fugir: qual parte da vida prometeu ao vento para ser levado embora? De todos, quem ficou mais perplexa foi Francisca, vizinha e prometida de Miguel. Na tarde anterior ela tinha recebido juras de amor e durante toda a noite sonhou com véus e grinaldas. Acordou com o falatório embaixo de sua janela. Todos apontavam o céu. Francisca percebeu apenas um ponto preto, “É Miguel! É Miguel, que fugiu com o vento!”, gritavam. O mundo de Francisca desabou. E o amor prometido? E o casamento antevisto? Miguel tinha esquecido a promessa. Francisca voltou para cama dizendo jamais se levantar de novo. Até onde se sabe, nunca traiu a palavra. Lá do alto, Miguel avistava todos, cada vez menores. Sabia o preço que pagaria: a memória-lâmina na cabeça, o coração doido por mentir à Francisca. Sentiria falta das benesses da mãe, do silêncio respeitoso do pai, das folias com os irmãos, no entanto, ali não poderia ficar. Aquele chão gadunhando seus pés, aquela vida cercada de olhares, aqueles limites. Poderia ir oficialmente, dizendo: “Adeus, eu vou para outras terras, pois eu nasci com a mancha, aqui não posso ficar”. Se fizesse isso, haveria sempre a possibilidade de refazer o caminho para casa com a espinha dobrada. Miguel não arriscou. Empunhando uma coragem não se sabe de onde, ele agarrou o vento e desmanchou-se céu afora. Veja mais aqui e aqui.

PAIXÃO PELA VIDA – O filme Modigliani: a paixão pela vida (2004), dirigido por Mick Davis e música de Guy Farley, conta a história do artista plástico e escultor italiano Amedeo Clemente Modigliani (1884-1920), no período compreendido entre 1918-1919, na Paris do pós-guerra, iniciando com a cena da personagem Jeanne, o grande amor do artista, inquirindo: Você sabe o que é o amor? Amor de verdade? Você já amou tanto que se condenou à eternidade no Inferno. Eu amei. E ele mergulhado na bebida com todos os goles do abandono, desamparo, solidão: A luta travada com a morte é dada através dos mesmos gestos contidamente torturados e não obstantes cheios de força. Poético, belíssimo, o filme transcorre com o convívio de todas as dores e o amor de Jeanne Hébuterne. Destaque para o papel desempenhado pela atriz francesa Elsa Zylberstein. Veja mais aqui e aqui.



Veja mais sobre:
Dois quentes & um fervendo, a poesia de James Joyce, A música viva de Koellreutter & Carlos Kater, a pintura de Jan Sluijters, a arte de Karel Appel, a música de Brahms & Giorgia Tomassi aqui.

E mais:
Exercício de admiração de Emil Cioran, Abril despedaçado de Ismail Kadaré, o teatro de Meyerhold, a arte de Fridha Khalo, a música de Badi Assad, a pintura de Karel Appel, o cinema de Carla Camurati & Marieta Severo, Carlota Joaquina & Clube Caiubi de Compositores aqui.
Doro na Caixa do Fecamepa aqui.
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Literatura Infantil, a poesia de Hermann Hesse, o teatro de Constantin Stanislavski, Leviatã de Thomas Hobbes, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Juliette Binoche, a música de Tom Jobim & Lee Ritenour, Tiquê: a deusa da fortuna, a arte de Bette Davis, a pintura de Jean-Honoré Fragonard & Alexey Tarasovich Markov aqui.
O lado fatal de Lya Luft, a literatura de Marcia Tiburi, Afrodite & o julgamento de Páris, a música de Diana Kral, o teatro de Cacilda Becker & José Celso Martinez Corrêa, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Julie Delpys, a arte de Jeanne Hébuterne, a pintura de Débora Arango & Enrique Simonet aqui.
A salvação bidiônica depois da bronca, o pensamento de István Mészarós, Mal de amores de Ángeles Mastretta, Horror econômico de Viviane Forrester, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a pintura de Auguste Chabaud, a música de Tatjana Vassiljeva, a arte de Lia Chaia & Wesley Duke Lee aqui.
Colocando os pingos nos iiiiis, A teoria da viagem de Michel Onfray, Discurso & argumentação de Débora Massmann, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, Neurofilosofia & Neurociência, a música de Natalia Gutman, a poesia de Viviane Mosé, a fotografia de Cris Bierrenbach, a arte de Mira Schendel, Conversa de bar & filho não reconhece pai & Quando se pensa que está abafando, das duas, uma: ou contraria ou se expõe ao ridículo. Cadê o simancol, meu aqui.
A gente tem é que fazer, nunca esperar que façam por nós, O enigma do artista de Ernest Kris & Otto Kurz, Os catadores de conchas de Rosamunde Pilcher, As viagens de Marco Polo, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, Respeito aos idosos, a música de Silke Avenhaus, a arte de Beth Moyses & Antonio Saura, Os passos desembaraçados nos emaranhados caminhos & Quando os ventos sopram a favor, tudo fica mais fácil aqui.
Que coisa! Quando eu ia, todos já voltavam, a poesia de Sylvia Plath, Estruturas sociais da economia de Pierre Bourdieu, Rede e movimentos sociais de Maria Ceci Misoczky, Gravidez na adolescência de Laura Maria Pedrosa de Almeida, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Coeur de Pirate, a arte de Luciah Lopez, O feitiço do amor & Quando algo der errado, não adianta chilique: cada um aprende mesmo é com suas escolhas aqui.
No reino da competição todo mundo tem de ser super-homem – o ser humano não é nada, As causas da pobreza de Simon Schwatzman, A crise da educação de Hannah Arendt, a literatura de Abraham B. Yehoshua, Aprender e suportar o equivoco de Clemencia Baraldi, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, A primeira paixão de Ximênia, a música de Ernesto Nazareth & Maria Teresa Madeira, a pintura de Arturo Souto & Mikalojus Konstantinas Ciurlionis aqui.
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