segunda-feira, junho 26, 2017

GILBERTO GIL, TCHELLO D’BARROS & BIRITOALDO VAI AO INFERNO

BIRITOALDO VAI AO INFERNO - Biritoaldo, como sempre, em palpos de aranha. Que coisa! Ah, se tem uma coisa líquida e certa na vida dele, só uma, é que ele é o revestrés em pessoa: consegue ser o erro do errado, incorrigível, sempre em apuros. Desta! Devotou santo de todo hagiológio, rezou e se sacrificou de todo jeito, imprimiu todo tipo de auto-sofrimento para alcançar a graça e nada. Recorreu a todo tipo de fé religiosa, até as mais heterodoxas, e deu de cara com a igreja do maldito. Oxe! Ta doido!?! Deu um carreirão danado de quase bater no fim do mundo e, sem saída, ficou sem saber pra onde ir. Chorou, esmurrou sua própria face e peito, destruiu-se e não conseguiu ver nada além de suas próprias cinzas. Amaldiçoou-se aos prantos. Quanto mais determinado em seguir adiante, ir em frente, mais parecia que andava às voltas feito parafuso de não sair do lugar de antes: oxe! Quanto mais ando, não saio do lugar. Vôte! Havia esgotado todos os recursos, tinha procurado padrinho de batizado, de crisma, de consideração, até de ocasião, voltou com as mãos abanando da casa de supostos parentes, sabia não tê-los, mas deu uma de João-sem-braço. Que é que há, hem? Quanto mais engato primeira, mais parece que estou em marcha à ré! Depois de pelejar de todo jeito, perdeu a paciência: já que por bem não saio do canto, vou pro outro lado. E seguiu todas as instruções, chegando numa encruzilhada e mandou ver na oração da cabra preta. Logo ocorreu uma transformação ao seu redor: que porra é essa, meu? Arrependeu-se e quis correr, mas foi contido por uma força superior e estranha: que droga é nova, hem? Quis dar pra trás, já era tarde; invocou, lascou. E agora? Já que está dentro, deixa rolar. E foi. Estava atento quando levou uma dedada de quase arrebentar as pregas do furico: epa! Virou-se e deu de cara com um sujeito posudo, meia idade, sisudo, embecado, risinho no canto da boca: está mangando de mim, né, desgraçado? O que você quer, inútil? O riso falso com dentes cerrados, todo engomadinho, educadíssimo na grãfinagem, era visível seu fingimento, olhar de lobo pronto para devorar a presa, um jeito assaz desconfiável. Quanto mais se aproximava e falava, mais previa a armadilha: o que você quer, ínfimo? Isso é um desacerto! Diga, alma penada, o que quer? Eu quero mudar de vida. Viu apenas um estalar de dedos e estava no centro de um caleidoscópio: tudo sucedia, cenas, lembranças, acontecimentos, tragédias, tudo que ocorrera na vida, ali repassado em um instante de nada, a vida toda em questão de segundos. Olhos arregalados, sem entender nada, de queixo caído. Tremendo, conseguiu balbuciar que a sua vida era um inferno, quero mudar de vida, quero ir pro céu. É verdade, sua vida é o inferno, veja! Êpa! E viu: isso aí sou eu e é a minha vida! Exatamente! Foi ai que ele viu que sua alma não valia nada, coisa alguma: se vivo no inferno, onde mesmo que fica o céu? O céu não existe. Quem é você? Sou o que você quiser! Sou Jesus, Drácula, Nosferatu, Cabrunco, Coisa-Ruim, Salvador, Deus, o que você quiser. Escolha. Quero mudar de vida, quero ser rico, feliz, tudo, mas você não me engana. É? É. Veja! E aquela coisa obrou milagres de todo jeito, assim do nada. Está vendo aquele aleijado, veja! Venha homem de pouca fé! Jogue fora a muleta! Não posso. Obedeça, homem de pouca fé. Temeroso, ele soltou a muleta e num instante estava curado. Viu? Sou bondoso, curo, salvo. Também sou sanguinário, veja! Apontou para baixo e a cidade aos poucos incendiava, ouvindo-se gritos e lamúrias, a fumaça com o fedor de carne queimada. Está vendo aquela mulher linda? Sim. Vou sangrá-la! Veja! E puxou a beldade pelos cabelos e, na marra, encarcou com força, ela aos gritos sangrou, desfaleceu e morreu. Agora veja! Em seguida, tocou nela com um dos dedos e ela levantou-se, ilesa, lindamente encantadora e apaixonada, beijando as mãos dele, agachando-se a beijar seus pés com lambidas, ajoelhando-se para cheirar seu sexo como uma insaciável. Viu? Estalou os dedos e ela sumiu. Está vendo aquele, veja! Oxe! Lá ia o sujeito caminhando na boa, de repente, agarrou-se à barriga com uma diarréia incrível, de ver-se a merda escorrer saindo pelas bocas da calça até faze uma poça de merda rala no chão, numa catinga desgraçada. Estalou o dedo, tudo sumira. Está vendo aquela rainha? Vou destroná-la e tomar o lugar dela. Veja como serei amado por todos os súditos, vou espremê-los, torcê-los, matá-los aos poucos e ainda vão me adorar, veja! Assim fez e aconteceu. E depois fez a terra girar ao contrário e vi o dia de ontem, o ano passado, tudo de novo. E fechou o céu em noite escura de breu, relâmpagos, trovões. Com um estalar dos dedos, abriu-se tudo e o sol brilhava num dia azulado sem nuvens. Tenho poder, incrédulo? Provei? Agora é a sua vez, mequetrefe. Oxe! Eu quero é mudar de vida! Ah, você quer sofrer ou ser feliz pra sempre? Escolha! O que faço? Trabalhe pra mim e me prometa a alma do primogênito. Como assim? A sua alma não serve mais pra nada, tem que ser a do primogênito. Ah, tá! Melhor, me livrei dessa! Você terá que propagar que sou o melhor, falar em meu nome sempre de bem, trabalhar pra mim e assim com um templo em meu nome você enricará, se casará, será feliz, e quando o primeiro filho nascer, ele será meu. Só isso? Prometa! Dê-me cá seu dedo, vá, um talho e o pacto de sangue, vamos! Agora prometa com seu sangue e tudo será seu! Peraí, meu sangue assim de graça? Ora, ora. Você quer ou não quer mudar de vida? Um talho no dedo e dou de cara um bilhete premiado da loteria, documentos, chaves de muitos carros e casas, palacetes, templos, reinado, súditos e mulher, muitas mulheres, quer? Se quiser, ainda faço de você um Johny Depp! Vai dar trabalho, mas nada comigo é impossível! Na vera? Ora, ora! Quer ou não quer? Assim procedeu conforme o ajustado. Fez pregação, comícios, logo arregimentou almas pro seu culto, enriqueceu, casou e viveu feliz, o tempo passava. A cada dia mais trilionário, até o dia que a mulher engravidou, o bucho cresceu e, na horagá, quase não deu tempo de chegar na maternidade, o bruguelo saindo às pressas. Na hora do parto, ele nem se lembrava mais do pacto, quando deu de cara com o cobrador: o que é que você está fazendo aqui? Hora de cumprir a sua parte do trato. Vamos. Oxe, eu já tinha me esquecido, vamos conversar que mudei de ideia. Agora é tarde. Não, rapaz, que é que isso? Vamos conversar, pra tudo tem jeito na vida. Não brinque comigo, seu traste. De repente tudo escureceu. Ao abrir os olhos, ouviu uma lorota: tomou uma, hem? Onde estou? E eu é que sei? Você toma das suas, fica variando e ainda fica perguntando onde é que está? Baixou a cabeça, mãos agitando os olhos para enxergar melhor, era uma senhora idosa, futucando com um cajado. Eita! será uma bruxa? Vai, levanta, dormir no meio da rua embriagado é coisa feia, vagabundo. Vai-te, xô! Mas Dona Véia... véia é a puta que pariu! Ufa! Escapei dessa fedendo. Será? Tenho que fazer o teste da goma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


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HUMANIDADES EXTEMPORÂNEAS: TCHELLO D’BARROS
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Especial do premiado músico, cantor, compositor e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, nomeado pela UNESCO em 1999 como Artista pela Paz. Imagem: arte da pintora, designer e cantora Leonora Weissmann. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


PS: A MÚSICA DE ALAGOAS – Foi um sucesso o Especial Música de Alagoas, no último domingo, com músicas de Hermeto Pascoal, Djavan, Íbys Maceioh, Mácleim, Júnior Almeida, Cris Braun, Naldinho Freire, João Albrecht, Elaine Kundera, Basílio Sé, Leureny Barros, Eliezer Setton & Carlos Moura. Mais de 3 mil acessos e, por isso, alcançamos a marca dos mais de 1 milhão 670 mil acessos! Obrigado aos artistas alagoanos que desfilaram e a todos vocês que prestigiaram mais uma iniciativa deste blog. Obrigado, obrigado, obrigado. Vamos sempre juntos, beijabraçãos paratodos & tataritaritatá!
 

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