sexta-feira, setembro 25, 2009

FREUD & O CASO SCHEREBER




FREUD & O CASO SCHEREBER - Ao apreciar a obra O caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos – Volume XII, de Sigmund Freud, foi solicitado que se apreciasse criticamente as questões atinentes à dinâmica da transferência, às recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, sobre o inicio do tratamento, o recordar, repetir e elaborar e às observações sobre o amor transferencial. A partir da leitura, verificou-se que a parte da obra estudada começa tratando da dinâmica da transferência, considerando o caso da relação pessoal entre o médico e o paciente, a respeito da influência que o profissional terapeuta exerce sobre o assistido, destacando o obstáculo pela perturbação que ocorre no relacionamento destes. Essas perturbações podem se tornar óbices para o êxito do trabalho psicoterapêutico. O nascimento dessas perturbações surge a partir do paciente se sentir negligenciado ou tratado com pouca atenção pelo terapeuta, ou quando os pacientes se tornam narcisistas temendo pela perda da sua autonomia ao despertar sentimentos mais profundos pelo terapeuta, ou, ainda, quando ocorre uma falsa ligação por meio e uma representação incompatível com carregamentos de afetos de autocensura, de dor ou de vergonha. Essa representação incompatível torna-se a ideia de afetos voltados para alguém do passado do paciente que representa o profissional, caracterizando o pensamento freudiano de transferência. Entende o autor que a transferência pode também surgir analogamente à imago materna ou fraterna, vividas na infância e surgindo como uma resistência poderosa ao tratamento. Para êxito no trabalho, o psicoterapeuta terá de procurar a superação pela liberação dessa atração do inconsciente, removendo a produção e repressão dos instintos conscientes. Por consequência, a resistência deve ser levada em conta pela busca da conciliação entre as forças que se opõem, até o ingresso na região em que se torne clara. A transferência ocorre, conforme o autor demonstra, quando algo no material complexivo serve para ser transferido para a figura do médico, sendo um evento que se repetirá no decurso do tratamento inúmeras vezes, razão pela qual é tratada como a mais poderosa das resistências, ou melhor, como diz o próprio Freud: “[...] o efeito e expressão da resistência”. Trata-se, portanto, de um mecanismo de prontidão da libido na conservação das imagos infantis. Nesse sentido, Freud distingue a transferência positiva da negativa. Para ele, a transferência positiva é subdividida em sentimentos amistosos ou afetuosos que são admissíveis à consciência e a transferência de prolongamentos desses sentimentos no inconsciente invariavelmente oriundo das fontes eróticas. Já a transferência negativa assume uma condição ambivalente por se encontrar atrelada à transferência positiva. Para tanto, o autor adverte para a necessidade do profissional tratar de forma clara com o paciente de que a ocorrência dessa transferência é um reflexo do passado, tomando a devida cautela para que esses processo não venha irromper sentimentos extremos de hostilidade ou de amor imoderado, não se devendo negligenciar o seu aparecimento. A partir de então, Freud passa a tratar acerca das recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, elencando como primeiro problema a tarefa do profissional de se lembrar de todos os produtos patológicos de cada paciente no decurso do tratamento, não confundindo um paciente com outro, exigindo-se a adoção de expedientes para evitar tal situação. Para esse caso, o autor apresenta a técnica da atenção uniformemente suspensa como regra fundamental da psicanálise, procedendo o profissional com a escuta sem que haja preocupação de se lembrar de alguma coisa, abandonando-se à memória inconsciente. O segundo problema é a anotação integral de registros durante as sessões, considerada por Freud como desfavorável na impressão dos pacientes, efetuando uma seleção prejudicial do material, razão pela qual não aconselha a realização de anotações por parte do médico. Só se recomenda tais anotações quando da realização de um estudo científico sobre o caso trabalhado. Outro problema destacado é a oposição de uma técnica exigida num caso, não servir para outro, recomendando não fazer predições nem apresentação especulativa de resultados durante o andamento do tratamento realizado, deixando-se a sua condução de avanço na expectativa atenta de casos de reviravolta, carecendo, pois, uma conduta que oscile em conformidade com a tramitação da atitude mental enquanto se encontrem em análise. Freud também não aconselha o terapeuta a manter uma atitude fria e sem a solidariedade de sentimentos, chamando atenção para a perigosa ambição de alcance do objetivo. Todas essas regras convergem para o objetivo de que se relate tudo que a auto-observação alcance ou detecte, impedindo que objeções afetivas e lógicas efetuem uma seleção, mantendo-se uma posição de interpretar e identificar o material inconsciente oculto, ajustando o seu inconsciente com o inconsciente do paciente. Outra regra apresentada é a de que em momento de impasse para superação das resistências do paciente, seria de bom alvitre que o profissional concedesse a oportunidade de revelar ao seu paciente o vislumbre de seus conflitos mentais e defeitos próprios, abrindo a oportunidade de uma interação da vida própria do profissional com o paciente, tornando-se, ambos, em condição de igualdade e sob a tutela de que uma confidência merece outra, preparando-se para a retribuição mútua de confidências. Quanto a busca pela cooperação intelectual do paciente no tratamento, Freud identifica que a personalidade deste é fator determinante, exigindo-se cautela e autodomínio do profissional médico, permitindo que o paciente fique à vontade para refletir ou se concentrar a sua atenção no que deseje e que o aprendizado pessoal da experiência dite o desenvolvimento do trabalho que será executado. É em vista disso que Freud assinala que alguém só poderá se tornar analista por meio da análise de seus próprios sonhos. E que essa análise poderá ser feita também com auxilio externo, considerando que, o verdadeiro analista deve ser analisado por alguém com conhecimento técnico. Ou seja, aquele que deseja ser analista deve primeiramente ser analisado por profissional competente. Da mesma forma deve comportar-se diante das inibições evolucionárias para determinadas inclinações, devendo-se por sensatez controlar-se e se deixar guiar pelas capacidades dos pacientes ao invés de por seus próprios entendimentos ou desejos, sendo tolerante e contentar-se com o grau de evolução do trabalho. Por essa razão o autor enfatiza que tanto as ambições sejam elas educativas quanto a terapêuticas são inócuas. Ao tratar acerca do inicio do tratamento apresentando novas recomendações sobre a técnica da psicanálise, Freud passa a considerar que a plasticidade dos processos mentais, a diversidade de constelações psíquicas envolvidas e a riqueza de fatores determinantes não admite a mecanização da técnica, uma vez que essa conduta demonstra ineficaz. Tal observação não elimina nem impede o estabelecimento de procedimentos eficazes, conduzindo-se provisoriamente por um período experimental denominado pelo autor de estádio preliminar, até que se estabeleça um vínculo de trabalho de tratamento propriamente dito. Nesse período inicial de relação entre o paciente e o terapeuta é de suma importância a adoção de um contrato acordado quanto a tempo e dinheiro. O tempo é a definição de um período que pode ser diário, semanal, quinzenal ou mensal para realização do trabalho a ser executado. Nessa parte deve-se deixar evidenciado ao paciente o sacrifício e as dificuldades do processo terapêutico, podendo demandar um período longo. O dinheiro compreende ao quantum a ser acertado por honorários entre o profissional e o paciente para a realização do trabalho a ser empregado na relação entre ambos. Na parte correspondente à recordar, repetir e elaborar com novas recomendações sobre a técnica da psicanálise, Freud aborda a partir da técnica da catarse de Breuer que consistia na focalização direta do sintoma, utilizando da recordação por meio da hipnose. Com o abandono desta, procurou-se a partir das associações livres do paciente a descoberta da recordação do paciente, contornando a resistência com o trabalho de interpretação. Por fim, a psicanálise adotou a técnica sistema de abandono da tentativa em colocar por foco o momento ou problema específico, passando a estudar a presença do que surgir da mente do paciente por meio do emprego da interpretação para identificação das resistências imersas para revelação, preenchendo lacunas da memória e dinamicamente superando-as. Para se evitar a deterioração durante o tratamento, faz-se conveniente que o analista revele a resistência ao paciente para que ele possa familiarizar-se com o seu problema e elaborar. Na parte sobre o amor transferencial com novas recomendações sobre a técnica da psicanálise, Freud parte da surpresa diante da interpretação feita das associações do paciente com a reprodução do reprimido, surgindo dificuldades no manejo da transferência. Em vista disso, Freud recomenda que o profissional terapeuta não deve jamais aceitar ou retribuir sentimentos ternos que possam ser oferecidos, sendo mais apropriado que pondere acerca do assunto e apresente as exigências da ética profissional da necessidade de renúncia e moralidade social, mantendo o tratamento em completa abstinência no trabalho para as mudanças necessárias, mantendo-se firme e cuidando para o apaziguamento dessas forças por meio de substitutos. Com paciência e determinação pode-se continuar o tratamento rumo a moderação ou transformação da resistência no caso do amor transferencial caracterizado por determinados aspectos que asseguram ao caso uma posição especial, principalmente por ter sido provocado pela situação da análise realizada, intensificado pela resistência dominante da situação e menos interessado nas consequências. Esse amor evocado foi instituído pelo tratamento analítico com objetivo de cura da neurose, responsabilizando o analista para superação ética e técnica pelo entendimento de a paciente se encontra prejudicada e motivada por fixações infantis, mantendo-se digno e dentro dos limites que prescrevem à profissão. A leitura dessa parte da obra freudiana propiciou um maior entendimento entre as práticas psicanalíticas acerca da dinâmica da transferência, do caso da relação pessoal entre o médico e o paciente, da influência que o profissional terapeuta exerce sobre o assistido e das consequências disso no surgimento de perturbações e óbices que permeiam o relacionamento e tratamento dispensado pelos atuantes da área com seus pacientes. Leitura esclarecedora que permitiu realizar um melhor exame acerca do conceito tanto de transferência como de resistência no processo psicanalítico, observando-se os mecanismos de defesa e suas consequências na relação entre o profissional e seus assistidos. A análise efetuada da parte dessa obra possibilitou ter-se uma melhor visão ética, técnica e profissional no atendimento e tratamento dos que necessitam dos préstimos profissionais, para melhor condução e mais adequada intervenção nesses casos. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmundo. O caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos – Vol. XII (1911-1913). Rio de Janeiro: Imago, 1980.




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sexta-feira, setembro 18, 2009

AO REDOR DA PIRA ONDE QUEIMA O AMOR




Imagem: Crucified Keeper Of The Divine Love, by Clarke Wertz.

AO REDOR DA PIRA ONDE QUEIMA O AMOR


I



O assédio de Succubus


A noite, a solidão e os devaneios. Eu lá na Montreux de Hermeto.
Do nada que sou ela surge com sua feição de mar bravio noturno, seu rosto agradável de lua cheia, seus olhos altivos de corça com as pupilas dilatadas, brilhando de excitação.
Nunca vira nada igual. Verdade, nunca!
Tinha eu a certeza de que não era um ser humano: era qualquer outra coisa próxima de um espetáculo escandaloso da natureza.
Era qualquer outra feito a mágica expressão de sensualidade e beleza: inacessível e deificada.
Cheia de graça acendeu toda minha cupidez. Quanto mistério naquela hora!
Tentei me certificar daquilo tudo: o seu jeito de quem não tarda amanhecer gozos de altruísmo, a sua memorável candura, a sua herança na aura magistral com carga de sofrimentos. Quanta majestade, elegância e realeza ao meu alcance.
Incrédulo, não conseguia desgrudar acompanhando todo seu trajeto.
Ah, quanta maravilha e satisfação essa mulher exalava para meu ser ínfimo e inútil.
Não acreditei mesmo e nem podia acreditar naquilo tudo. Só podia ser a minha sina de amar demais, de querer demais, de enlouquecer demais por amor e sempre pregando mais uma peça comigo. Não podia ser outra coisa, não podia ser. Impossível.
Eis que a cada passo ela cadenciava emanações afetuosas prometendo requebros recônditos capazes de me aprisionar na sua lascívia que saltava aos olhos.
A cada gesto havia sempre um fervor que escapava a me prometer orgasmos demolidores e loucuras estonteantes.
A cada olhar afogueado me incendiava as imediações e eu cada vez mais vítima na procela dos seus encantos.
Será possível? Não, não podia ser. Mas era.
O inacreditável é que ela me goderava circunvagando crestada com a graça do cisne e mais pronunciava o realce inesgotável de todo seu aprumo na névoa do devaneio.
O inexplicável é que ela irradiava deslizando a língua de camaleoa sobre o batom cálido dos seus lábios rubros e carnudos, oh! boca sedutora de Padmini linda e graciosa.
O inenarrável é que ela contornava o campo gravitacional para cravar nosso fuso-horário no meridiano de Greenwich.
Tudo isso para mim, eu cobaia de sua feitiçaria!
Não podia ser... não podia ser.
Não acredito em milagres, mas aquilo era algo parecido com o imensurável além da compreensão, não podia ser outra coisa. E quanto mais eu me embebedava com o seu flerte mais ela circulava no meu deslumbramento, slow motion, impune e desejada.
E quanto mais eu ensandecia mais ela me provocava insinuando avançar rente ao meu sexo.
E quanto mais eu entorpecia mais ela preparava o bote traçando uma circunferência com diâmetro entre perto e longe, ao meu redor.
E quando seu feitiço cingiu meu peito, ela aproximou-se esquiva com o hálito perfumado das deusas incorpóreas, com o suspiro dos graus de sua paixão, com o suor das querências no verdadeiro eflúvio do corpo de mulher.
Tudo névoa de devaneio.
Manteve-se, então ela, eqüidistante entre o meu e o seu latente desejo, imantando a minha gula.
O seu olhar tácito ateava-me na provocação por incursões estratégicas por invadir-lhe completamente o corpo e a alma.
No sétimo movimento, a quarta esfera da criação cabalística fez-se luz na pira do amor ardente e insólito, surgida entre os nossos corpos perpétuos e mútuos de paixões avassaladoras.
As chamas do amor vinham como que aflogístico imorredouro.
A minha cabeça rodava. Ela inteira, linda e maravilhosa. Na minha frente!
E no meio dessa labareda fitamo-nos um ao outro.
Ela se encostando ao nada, por onde se elevou gradualmente uma pedra, deitando-se para que eu pudesse ficar a par de tudo, girando espalmada em decúbito dorsal.
E girando mais para maior embriagues com suas vestes se esfacelando para a nudez integral.
Enfim, num átimo estaciona toda loucura com seus pés ao meu alcance e todo corpo à minha frente.
Tomei a rédea sobre o seu corpo dúctil, plantei-me no fogo invisível de sua carne e comecei a me apossar daquilo tudo acariciando seus pés, tornozelo, tateando o seu tendão de Aquiles, tocando a sinuosidade de suas pernas longas da maturidade, depilada, refinada, impetuosa, estouvada.
Havia todo tipo de provocação na sua pele fina e íntegra de lótus, no corpo aveludado da flor de mostarda que mais se fazia uma fonte plena de prazer.
Não me contive e com os nervos excitados mordi sua coxa.
Depois rondei a vertigem das suas pernas, beijei-lhe os joelhos, lambi suas reentrâncias no anseio de explorar o aclive do seu triângulo da luxúria. Eu, limítrofe do prazer naquele rolho; ela, buliçosa e súplice no ustório da paixão.
Ah, como eu me deleitava com seus movimentos espasmódicos, seus agudos gemidos, seu estrebuchamento incontido, enquanto eu passava meus lábios e minha língua pela cobertura de suas entrepernas, pela sacada do seu yoni, do seu botão de lótus entreaberto perfumado como o lírio recém-desabrochado, aquele odor gostoso, o conteúdo atrativo para o meu apetite insaciável por seu colo rijo, cheio e ereto.
Ah, como eu saboreava o ventre achatado dos amantes, na linda anatomia de sua região pélvica-abdominal, o seu monte de Vênus desejado. E seguia insaciável para remexer nas suas entranhas, pelas suas ninfas, pelo capuz do clitóris, seu freio, o púbio, as carúnculas himenais, o períneo, o orifício, o intróito, a cavidade uterina, toda a sua plataforma orgásmica.
Ali estava enteu, a fruta boa de chupar, a sua drupa. A minha língua era o seu manzape; suas entranhas, as encubas; e o seu prazer, o bilbode.
Ah, minha cinegética ambição ali nesse repasto regalado e sobejando o fluído de sua fonte no platô do seu prazer, deflagrando o limiar na maior ebulição pelas veredas interestelares, curando seu talho com a minha prece de amor.
Era doce o seu gemido, era glorioso o seu entregar: arfante e alvoroçada até explodir violentamente e a se jogar por inteiro no meu prazer abissal.
O gozo, nossa festa.
Fez-se quieta de repente e fitou-me com uma carinha de anjo.
Presenteou-me um riso libertino de hetaira gratificada.
Aí, beijou-me a boca com a sede eterna dos mortais.

II


O amor comungando o misterioso encanto da paixão


Após a iniciação de seu beijo eu me sentia confirmado na minha sina de menino que gosta de sonhar.
Foi quando pude rever todas as instâncias de minha formação pelo amor, desde a professora da infância, das paqueras tímidas juvenis, da figura da mãe sempre presente, das paixões idealizadas e não correspondidas, de todas as redes sentimentais que me vira envolvido por toda minha existência.
Como soubera? Poderes de deusa.
Nossa! Como era firme e como deixava claro que tudo que eu pensava, ela percebia.
E como sempre fora tímido, era difícil fitar seus olhos firmes e acesos mostrando-me as coisas dos sonhos e da vida.
Era de arrepiar.
E quando dei por mim, ela fitava cada milímetro de mim no enleio do "Sonho de amor" de Liszt.
Quanta manifestação interagindo entre o meu e o seu desejo.
Foi assim, percebendo o meu ar indefeso, que ela alisou meus cabelos, beijou meus olhos, tateou meu rosto e os detalhes da minha fisionomia, até encostar seus lábios nos meus, passando sua língua faceira a se esfregar na entrega de todos os seus segredos mais remotos desde a longínqua infância, da passageira adolescência e dos amores que vertera por noites sangradas de infinitas solidões.
Se ela sabia de mim, queria que soubesse dela.
E naquele beijo contara-me como tudo se passara com ela.
Eu chorei, choramos juntos, recolhi suas lágrimas e nos dissemos de amor eterno enquanto a minha carne se via doendo com a sua sofrência.
Por um instante temi perdê-la depois desse encontro.
Como me apavorei com esta idéia.
Ela percebeu e jurou-me, com um simples olhar candente, um amor eterno.
E beijou minhas faces como quem mostra o vôo dos pássaros, a fundura oceânica, a semente da vida, o rumo dos ventos em todas as direções.
Remexera minhas idéias, demovendo o temor que infligira de sua partida depois daquele encontro, restituindo uma esperança nunca tida e possível mais adiante.
Mas insistia no meu temor e ela beijou-me os ouvidos como quem semeia a raiz de dulcamara para o elixir do amor de nossa paixão endovenosa.
Foi quando se apossou do meu dedo anular direito, mordiscou, no começo, levemente, depois insistiu até brotar meu sangue vivo.
Fez o mesmo no dela e depois emendou, um ao outro, como se consumasse uma união, o anel de nossas vidas.
E com sua mão rojadora foi puindo a carícia de sua táctil habilidade pela minha nuca, pelo pescoço, tórax, muque, braços, pulsos, mãos, dedos, coxas, pernas e pés como quem se apropria de todos os meus músculos relaxados, todos os meus nervos em polvorosa, toda a minha carne incendiada, acedendo uma vitalidade rediviva nunca dantes possuída.
Com isso, ela reiterava que estaria nua ao meu lado em qualquer circunstância.
E eu jamais acreditaria nisso, saberia sempre que seria mais um desses momentos perfunctórios pela recompensa da entrega efêmera a que nos submetíamos naquele momento.
Ela parecia jurar com seu olhar fixo em mim. Percebia a minha descrença, por isso beijou-me novamente a boca com o desejo no enroscamento do réptil no afã de escalar uma árvore, à mistura de arroz com a semente de sésamo - os manjares do amor -, com a mescla de leite e água e a ciência das sessenta e quatro artes do Kama Sutra.
Nesse beijo pude ter ciência do ácido, do amargo, do doce, do salgado, do que nasce e do que agoniza.
Ela queria que eu soubesse que o nosso amor de agora não seria apenas de hoje, mas de todo o sempre.
E para melhor persuadir-me dessa loucura, mostrou-me do fogo de Minarã e do Urubu-rei na lareira dos caingangues, se dizendo Iaravi pelas cintilantes labaredas da magnifíca luz de sua aura vestal ameríndia, os seus fulgores deslumbrantes que propagava o incêndio na minha pirexia, incitando-me a ser Fiietô, um Caiucucrê capaz de roubar o fogo de todas as coisas, me fazendo acreditar ser o único homem do universo.
Quanto privilégio me fora dado naquele momento com a sua nudez radiante, a ponto de me bestificar com sua figura longílinea, incendiária, ah, minha la Belle!
Ela surpreendia a pequena área do meu coração, deixando-me as defesas orgânicas desguarnecidas, escamoteando minhas certezas e deixando-me babando por um contato de quarto ou quintos graus exagerados na sua beleza ostensiva e me levando desmiolado à custa de seus truques sobre a mendicância dos meus quereres.
Por mais que soubesse de mim, eu estava rendido, permitindo que me levasse onde quisesse com a sua astúcia adorável.
Nesse instante me olhou terna, adernando os olhos, ih! Algo aconteceria.
E ao levantá-los lentamente com seu olhar voraz, aproximou a mão direita ao meu peito e sentindo o circuito que descarregava em meu corpo, cravou os dedos, rasgou-me a carne apossando-se do meu coração rendido.
Arrancou-me do tronco, bruscamente, levando o pulsante motor da minha vida até a boca para beijá-lo imensamente, venerando minha vida.
E enquanto eu desfalecia, ela ritualizava uma paixão sórdida sobre a minha dor iniciada.
Quando então, fitando-me ainda mais severa, com a outra mão sobre o seu próprio peito, cravou os dedos, rasgou as carnes e arrancou com a mesma voracidade o seu coração e trouxe até a minha boca, exigindo-me beijá-lo, ao que, obediente, depositei toda minha terna veneração.
Logo após, colocou seu coração no meu peito e cerziu minha carne com um carinho de deusa mágica, e colocou o meu no seu peito, mostrando-me, unidos por sentimentos e destinos.
E devolveu-me a vida e a esperança e pude enternecer com seu gesto de amor.
A partir de então, meu coração passou a ser seu; e o seu, meu, ambos, mutuamente, na capacidade total de amar.

III



O pacto do casulo na metamorfose mútua


Era devaneio demais na grande nuvem de Magalhães: abraço terno de paixão indomável.
Nossos corpos ardiam: faíscas na tempestade de nossos desejos. E mais as labaredas de nossas vontades inextinguíveis, de nossos frêmitos mais açodados, de nossas ardências na temperatura de ignição.
Era o enleio dos nossos sussurros mais selvagens por todo cardápio de nossas juras de amor mais exaltadas.
Era a terra prometida: seu ventre desejado.
Havia de fincar-lhe o estandarte rijo tomando posse definitiva de todo o seu território: domar aquela maravilha toda estirada perseguida pelo meu faro, acossada pelas minhas carícias no bote certeiro aprisionando seu corpo à minha sanha, sem se permitir rejeição ou o menor esboço da mínima reação contrária, até deixá-la completamente rendida.
Era chegada a hora: o prólogo de tudo ao toque da mão no pescoço, pele fina, jeito grácil, face linda, mandíbula, orelhas, cabelos, rosto, tudo um espetáculo! E em riste.
Um beijo ardorosamente apaixonado no seu ombro. Célere lambida no aclive da nuca. Lambuzada de ouvidos sob o aranzel insano do amor maior que todas as coisas existentes entre o firmamento e a terra. Até os lábios de céu apropriados, boca carnuda, língua fresca e solícita, todo despudor e provocação.
Eu crescia no beijo e me danava a crescer exaustivamente.
A iniciação buliçosa: copular. E mais atiçava provando da fúria insaciável.
Ah, como enlouquecia de prazer nos mínimos detalhes: o olhar, os seios cheios e admiráveis, o plexo solar, as entranhas pela alma, tudo na esporrada do privilégio de tê-la domada. A entrega, o oxigênio, as mesmas emoções, verdades e arrebatados gozos: órgãos, veias, nervos e músculos, tudo um só.
E nossos corpos, um só na paixão desenfreada, lançados ao fogo de nossas vontades. Tão unos sem extremos nem limites. E ao mesmo tempo, no extremo de todos os limites, pois éramos os extremos dos extremos, o limite dos limites.
Amava e essa era a minha recompensa de escravo. E mais mergulhos na sua areia movediça, seus fulgores deslumbrantes, seu incêndio corporal que se propagava nas minhas loucuras e vísceras, dando azo à minha fantasia e disso tirando o máximo de proveito.
Ah, o seu cheiro do mais puro perfume búlgaro de rosas!
Como eu me lançava na tocha acesa do seu olhar inebriante que ardia com o prazer de sua carne saborosa e fervia com a sede do seu comprazimento.
Ah, como eu delirava com o fogaréu envolvente de suas carências a levar-me cego e louco de tesão ao epicentro do seu terremoto corporal, e dando-me a possibilidade de explorar todas as formas do nosso concúbito incoercível.
E mais desengançava.
E mais zampava o seu insaciável talante, onde sei que repousa perspícua a nossa felicidade.
Ah, eu jamais poderia largar sua boca bem desenhada e seu corpo perfumado e provocante onde eu depositava a experiência de experimentar todas as maneiras de apego e afeto para usufruir intensamente da minha linga a jogar a larva tórrida derretida no seu yoni que abarcava o auge da atração dos nossos corpos rejuvenescidos prodigiosamente.
Ah, cada vez mais o gosto de sua intimidade na minha boca e, só de lembrar, a saliva abundante querendo matar a vontade de comer lautamente o alimento mais aprazível de degustação.
Ah, quanto prazer imenso privilegiando um mortal!
A unificação prazenteira, sem se dar conta do futuro incerto, das possibilidades de existir e da maneira mais livre de amar.
Nossas cabeças nos ombros, um do outro, no centro da nossa felicidade perpétua: nós somos um, o pacto do casulo na metamorfose mútua do amor.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.





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