quinta-feira, maio 21, 2015

POPE, SAVARY, ALLPORT, NANÁ & UAKTI, ARTUR AZEVEDO, ROUSSEAU & PORTMAN.


Imagem: The Dream – Bouquet of Flowers, do artista plástico do Modernismo Pós-Impressionista francês Henri Rousseau (1844-1910)



Curtindo o show Atracatraca que o Naná vem chegando (Recife, 1998), com Naná Vasconcelos & grupo mineiro Uakti - Marcos Antonio Guimarães, Paulo Santos, Artur Andrés e Décio Ramos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Uma frase do psicólogo estadunidense George Kelly (1905-1967) me chamou a atenção: a nossa interpretação dos eventos é mais importante do que os eventos propriamente ditos. Hem? Alguém aí? O que é isso? Fodeu. Melhor debrear com indagação: nesse tempo de instantaneidade no meio das relações líquidas dá tempo para interpretar algum evento? Ou somos passageiros deslumbrados com o colorido na boleia dos acontecimentos? Hum, pergunta difícil dá trabalho. Seria melhor arrumar outra lavagem de roupa, não? Mas pensando bem, isso me leva a uma constatação: o ser humano é um carona privilegiado pelas cores da novidade e sobrecarregado de informações por todos os lados. E ele: nem, nem. Tá nem aí pra quem pintou a zebra. Deixa a vida me levar, vida leva eu. Vamos no embalo das ondas... pensar é muito difícil. Há coisa pior que pensar, por exemplo, na miséria humana? Ih! Botando os neurônios para se organizar, dá pra gente perceber no ralo da ocasião que existem duas pobrezas? Vamos lá, miudamente: primeira, a das posses - ou seja, dos excluídos e precarizados que vivem pendurados pegando bigu na vida sob a promessa de que um dia o bolo engordará tanto que dará para repartir com todos, contrariando a ideia de causa na acumulação e o malthusianismo; e a de espírito – melhor dizendo: a dos profetas do Informe de Brodie de Jorge Luis Borges. Parece que das duas, a segunda é a pior. Porque a primeira, tendo riqueza de espírito, tem saída: a posse será relativa. A segunda, sei não, acho que inviabiliza, inclusive, qualquer saída para a primeira. Hummmmm... dá pra sacar? Ou quer que desenhe? Ou pedimos penico pros universitários? Deixe ver. Na tortura das sinapses neuronais, troco mais amiudada: parece mesmo que vivemos chafurdando na nossa miséria de espírito e adivinhando acontecimentos, como o de que uma mosca pousará logo logo no nariz. Ah, isso faz eclodir o profeta Fabo: reprodutores do óbvio. E vamos aprumar a conversa aqui.


A NATUREZA DO PRECONCEITO – O livro A natureza do preconceito (1954), do psicólogo estadunidense Gordon Allport (1897-1967), trata sobre o que é o problema do preconceito e a generalização errônea e hostilidade, a normalidade do prejulgamento, formação de in-groups e o preconceito pelo amor em oposição ao preconceito pelo ódio, a rejeição out-groups e exame dos três graus de rejeição expressa, a rejeição verbal, a discriminação, o ataque físico, entre outros assuntos. Ele é autor de uma teoria humanista da personalidade com ênfase na individualidade e da natureza dinâmica da motivação, apresentando o conceito básico de personalidade como sendo a [...] organização dinâmica daqueles sistemas psicofísicos que determinam, dentro do indivíduo, o seu comportamento e pensamento característicos. Ele definiu as sete funções do self como sendo: sentido de corpo; auto-identidade; autoestima; auto-extensão; auto-imagem; imitação(cópia) raciona; e batalhas(lutas) próprias. Tratou também acerca dos traços ou disposições da personalidade, e também definiu as características do proprium, como sendo: extensões do "self" específicas, duradouras, perenes, isto é, envolvimento; técnicas relacionadas visando um relacionamento caloroso com outros, exemplo de confiança, empatia, genuinidade, tolerância; segurança emocional e auto-aceitação; hábitos de percepção realistas (em contraposição à posição de defesa); centralizar problemas e desenvolver destreza na solução deles; auto-objetivização – visão de seu próprio comportamento, capacidade de rir de si próprio; e uma filosofia de vida unificadora, incluindo uma orientação de valor particular, sentimento religioso diferenciado e uma consciência personalizada. Veja mais desse autor aqui.


DE ELOISA PARA ABELARDO – O poema De Eloisa para Abelardo (1717), do poeta inglês Alexander Pope (1688-1744) reúne seus poemas de caráter filosófico e estético, defendendo seu ponto de vista sobre a verdadeira poesia e discute a possibilidade de reconciliação dos males do mundo com a crença no criador justo e misericordioso, tornando-se depois um satirista que ridiculariza a delicadeza da corte da Inglaterra. Destaco da obra o fragmento traduzido pelo professor Jorge Luis Gutiérrez: [...] Nesta profunda solidão e terrível cela, / Onde a contemplação celestial do pensamento habita, / E sempre reina a meditação melancólica; / Que significa esta agitação nas veias de uma virgem? /Por que meus pensamentos se aventuram além do último retiro? / Por que sente meu coração este amplo e esquecido calor? / Ainda, ainda eu amo! De Abelardo veio, / E Eloisa ainda deve beijar seu nome. / Querido fatal nome! Restos nunca confessados, / Nunca passarão estes lábios no sagrado silêncio selado. / Ocultá-lo, meu coração, dentro desse disfarce fechado, / Quando se funde com Deus, sua falsa idéia amada: / Ó mesmo não o escrevendo, minha mão - o nome aparece / Logo escrito – a purificação acabo com minhas lágrimas! / Em vão a perdida Eloisa chora e reza, / Seu coração ainda manda, e a mão obedece. / Inexoráveis paredes! cuja obscura ronda contém / arrependidos suspiros, e amarguras voluntárias: / Vós rochas fortes! Que santos joelhos desgastaram; / Vós grutas e cavernas inalcançáveis com horrível espinhas / Santuários! onde as virgens mantiveram seus pálidos olhos, / E a tristeza dos santos, cujas estátuas aprenderam a chorar! / Embora frio como você, imóvel, em silêncio crescente, / Eu ainda não esqueci-me como pedra. / Nem tudo está no céu enquanto Abelardo tem parte, / Ainda a natureza rebelde mantém a metade de meu coração; / Nem a oração nem os jejuns acalmaram seus impulsos persistentes, / Nem as lágrimas, ou a idade, o ensinaram a fluir em vão. [...] Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa. / Esquecendo o mundo e o mundo esquecendo-a. / Eterno resplendor de uma mente sem lembranças! / Cada oração aceita e cada desejo realizado;/ Trabalho e descanso mantidos em iguais períodos; / Obedientes sonhos dos quais podemos acordar e chorar; / Calmos desejos, afetos sempre furiosos. / Deliciosas lágrimas, e suspiros que bóiam no paraíso. / Graça que brilha a seu arredor com raios serenos. / O murmúrio dos anjos arrulha seus sonhos dourados. / Por sua eterna rosa que floresceu no Éden. / E as asas dos serafins derramam perfumes divinos, / Para ela, o esposo prepara o anel nupcial, / para ela as brancas virgens cantam a canção da boda, / e ao som das harpas celestiais ela morre / e se desfaz em visões do dia eterno [...]. Veja mais aqui e aqui.


CAPITAL FEDERAL – A comédia Capital Federal (1907), do dramaturgo, escritor e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), traz a visão critica do autor sobre o crescimento urbano e suas contradições por meio de personagens estigmatizados e os costumes urbanos do final do século XIX. Da obra destaco o trecho final: [...] Cena V - LOLA, MERCEDES, DOLORES, BLANCHETTE, RODRIGUES, Pessoas do povo. LOLA.- Então? O Gouveia? Não lhes disse? Bem me arrependi de o ter deixado ficar! Não teve mão em si e lá se foi para o jogo! MERCEDES.- Que tratante! DOLORES.- Que malcriado! BLANCHETTE.- Que grosseirão! LOLA.- E nada de bondes! MERCEDES.- Que fizeste do teu carro? LOLA.- Pois não te disse já que o meu cocheiro, o Lourenço, amanheceu hoje com uma pontinha de dor de cabeça? BLANCHETTE.- (Maliciosa.) Poupas muito o teu cocheiro. LOLA.- Coitado! é tão bom rapaz! (Vendo RODRIGUES que se tem aproximado aos poucos.) Olá, como vai você? RODRIGUES.- (Disfarçando.) Vou indo, vou indo... Mas que bonito ramilhete franco-espanhol! A Dolores... a Mercedes... a Blanchette... Viva la gracia! LOLA.- (Às outras.) Uma idéia, uma fantasia: vamos levar este tipo para jantar conosco? AS OUTRAS.- Vamos! Vamos! BLANCHETTE.- Substituirá o Gouveia! Bravo! LOLA.- (A RODRIGUES.) Você faz-nos um favor? Venha jantar com ramilhete franco-espanhol! RODRIGUES.- Eu?! Não posso, filha: tenho a família à minha espera. LOLA.- Manda-se um portador à casa com esses embrulhos. MERCEDES.- Os embrulhos ficam, se é coisa que se coma. RODRIGUES.- Vocês estão me tentando, seus demônios! LOLA.- Vamos! anda! um dia não são dias! RODRIGUES.- Eu sou um chefe de família! TODAS.- Não faz mal! RODRIGUES.- Ora, adeus! Vamos! (Olhando para a esquerda.) Ali está um carro. O próprio cocheiro levará depois um recado à minha santa esposa... disfarcemos... Vou alugar o carro. (Sai.) TODAS.- Vamos! (Acompanham-no.) PESSOAS DO POVO.- Lá vem afinal um bonde! Tomemo-lo! Avança! (Correm todos. Música na orquestra até o fim do ato. Mutação.) Quadro IV A passagem de um bonde elétrico sobre os arcos. Vão dentro do bonde entre outros passageiros, EUSÉBIO, GOUVEIA, D. FORTUNATA, QUINOTA e JUQUINHA. Ao passar o bonde em frente ao público, EUSÉBIO levanta-se entusiasmado pela beleza do panorama. EUSÉBIO.- Oh! a capitá federá! a capitá federá!... PANO. Veja mais aqui e aqui.


REPERTÓRIO SELVAGEM – O livro Repertório selvagem: obra reunida (BN/UMG/MultiMais, 1998), da escritora paraense Olga Savary reúne seus dose livros de poesia publicados na sua trajetória poética, entre os quais destaco inicialmente Insônia: Quero escrever um poema irritado. / Quero vingar meu sono dividido / (busco palavras que interroguem essa alquimia / do poema, que vire a noite em fogo vário / e a lua em pegada escondida atrás do muro / — vagaroso desmoronar de extinto vôo ). / Quero um poema ainda não pensado, / que inquiete as marés de silêncio da palavra / ainda não escrita nem pronunciada, / que vergue o ferruginoso canto do oceano / e reviva a ruína que são as poças d’água. / Quero um poema para vingar minha insônia. Meritório de destaque o seu Geminiana: Esta quase sempre correu, fugiu da armadilha, / De ser prendida descobre o encanto. Amor / Que faz desta que sendo caça é caçador / E ama de maneira clara porque pertence aos ares. Também o seu belo poema Enquanto: Sou inconstante como o vento / sou inconstante como a vaga / por isso fica / enquanto estou desvelada / enquanto eu não for / vento ou vaga. Também merece o seu Amanhã: Se devoras teus sonhos / quando se ensaiam apenas / e secamente represas / essa linguagem de flores / e teu desejo de asas / que restam subterrâneas, / quem serás tu, depois / do grande sono, amanhã? Outro dos seus belos poemas é Fogo: Dar-me toda este verão / urdideiros de rio, é ser / serpente de prata. Verão, / foi feita mais uma vítima / Sou um ser marcado, natureza. / A tarde crava em meu magma / o selo de sua secreta pata. Veja mais aqui e aqui.


CLOSER – O drama Closer (Perto demais, 2004), do diretor Mike Nicholson é baseada na peça teatral homônima e autor do roteiro do filme Patrick Marber, utilizando vários trechos da ópera Cosi fan tutte, de Mozart, como música, contando a história de uma fotografa bem sucedida que conhece e seduz um jornalista fracassado que tenta lançar um livro, acabando por se envolverem num relacionamento e se casam, quando ele passa a manter um caso com uma stripper como musa inspiradora. O destaque vai para a atriz, produtora e diretora estadunidense Natalie Portman que ganhou o Prêmio Globo de Ouro como Melhor Atriz Coadjuvante em Cinema. Veja mais aqui, aqui e aqui.















IMAGEM DO DIA
A bailarina e atriz Ana Botafogo em ensaio no Theatro Municipal: Quebra Nozes, em 2007 (Foto: Ivo Foto: Ivo González/Agência O Globo).


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do Programa SuperNova, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre emocionante de Meimei Corrêa. Para conferir ao vivo e online ligue o som e clique aqui.

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