sábado, abril 18, 2015

LOBATO, GROTOWSKI, ANTERO, PAGU, UAKTI, DEBRET & SACUDINDO CHORO.


Imagem: Indígena & População indígena do Cantagalo (1926), do pintor e desenhista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848)



Ouvindo: Tudo e todas as coisas (1984), do grupo instrumental Uakti, formado por Marco Antônio Guimarães, Artur Andrés Ribeiro, Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos. Veja mais aqui.


HOJE É DIA DE MONTEIRO LOBATO – Quando li o livro Urupês (1918), do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), fiquei impressionado. A razão disso? Uso as palavras do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), no seu Aos trancos e barrancos (Guanabara, 1985): Monteiro Lobato alcança enorme êxito, assumindo a liderança da vida intelectual do país com o livro de Urupês – mal ilustrado por ele próprio -, ambientado nas fazendas de café de São Paulo. Retifica, aí, seu célebre retrato do caipira, admitindo que seus males vêm da falta de saúde, de instrução e de assistência: “Perdoa, pois, pobre opilado e crê no que te digo ao ouvido: tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico... és tudo isto sem tirar uma vírgula, mais ainda és a melhor coisa desta terra. Os outros, os que falam francês e, senhores de tudo, te mantêm nesta gueena infernal para que possam, a seu salvo, viver vida folgada à custa de teu dolorido trabalho, esses, meu caro Jeca Tatu, esses têm na alma todas as verminoses que tu tens no corpo. Doente por doente, antes tu, doente só de corpo”. Aí vieram as leituras de Problema Vital (1918), Cidades Mortas (1919), Ideias de Jeca Tatu (1919), Negrinha (1920), A Onda Verde (1921), Mundo da Lua (1923), O macaco que se fez homem (1923), Jeca Tatuzinho (1923), O choque das raças ou O Presidente Negro (1926), Mr. Slang e o Brasil (1927), Ferro (1931), América (1932), Na antevéspera (1933), O escândalo do Petróleo (1936), A barca de Gleyre (1944), Prefácio e entrevistas (1946) e o incrível livro Zé Brasil (1947), do qual destaco o trecho inicial: Zé Brasil era um pobre coitado. Nasceu e sempre viveu em casebres de sapé e barro, desses de chão batido e sem mobília nenhuma – só a mesa encardida, o banco duro, o mocho de três pernas, uns caixões, as cuias. Nem cama tinha. Zé Brasil sempre dormiu em esteiras de tábua. Que mais na casa? A espingardinha, o pote d´água, o caco de sela, o rabo de tatu, a arca, o facão, um santinho na parede. Livros, só folhinhas – para ver as luas e se vai chover ou não, e aquele livrinho do Fontoura com a história do Jeca Tatu. – Coitado deste Jeca! -, dizia Zé Brasil olhando para aquelas figuras. – Tal qual eu. Tudo que ele tinha, eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorrinho. Pois não é que meu cachorro também se chama Joli?... [...]. Veja mais aqui e aqui.
  

EM BUSCA DE UM TEATRO POBRE – O livro Em busca de um teatro pobre (Civilização Brasileira, 1971), do diretor de teatro polaco e figura central do teatro experimental e de vanguarda, Jerzy Grotowski (1933-1999), o autor defende que: [...] Nossos postulados não são novos. Exigimos das pessoas as mesmas coisas que todo verdadeiro trabalho de arte exige, seja a pintura, a escultura, a música, a poesia ou a literatura. Não satisfazemos o espectador que vai ao teatro para cumprir uma necessidade social de contato com a cultura: em outras palavras, para ter alguma coisa de que falar aos seus amigos e poder dizer que viu esta ou aquela peça, que foi muito interessante. Não estamos no teatro para satisfazer sua “sede cultural”. Isto é trapaça. [...] Estamos interessados que sinta uma genuína necessidade espiritual, e que realmente deseje, através de um confronto com a representação, analisar-se. Estamos interessados no espectador que não para num estágio elementar de integração psíquica, satisfeito com sua mesquinha estabilidade espiritual, geométrica, sabendo exatamente o que é bom e o que é ruim sem jamais pôr-se em dúvida. Não foi para ele que El Greco, Norwid, Thomas Mann e Dostoiévski falaram, mas para aquele que empreende um processo interminável de autodesenvolvimento, e cuja inquietação não é geral, mas dirigida para uma procura da verdade de si mesmo e da sua missão na vida. [...] O teatro deve reconhecer suas próprias limitações. Se não pode ser mais rico que o cinema, então assuma sua pobreza. Se não pode ser superabundante como a televisão, assuma seu ascetismo. Se não pode ter uma atração técnica, renuncie a qualquer pretensão técnica. Dessa forma chegamos ao ator “santo” e ao teatro pobre. [...] Portanto, o teatro deve atacar o que se chama de complexos coletivos da sociedade, o núcleo do subconsciente coletivo, ou talvez do superconsciente (não importa como seja chamado), aqueles mitos que não constituem invenções da mente, mas que são, por assim dizer, herdados através de um sangue, uma religião, uma cultura e um clima [...]. Veja mais aqui.


SONETOS DE ANTERO – Do livro Sonetos Completos (Portuense, 1886), do escritor português Antero de Quental (1842-1891), destaco, primeiramente, Mors amor: Esse negro corcel, cujas passadas /Escuto em sonhos, quando a sombra desce, / E, passando a galope, me aparece / Da noite nas fantásticas estradas, Donde vem ele? Que regiões sagradas / E terríveis cruzou, que assim parece / Tenebroso e sublime, e lhe estremece / Não sei que horror nas crinas agitadas? / Um cavaleiro de expressão potente, / Formidável, mas plácido, no porte, / Vestido de armadura reluzente, / Cavalga a fera estranha sem temor: / E o corcel negro diz: “Eu sou a morte! / “Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”. Também da sua lavra, destaco Mors liberatriz: Na tua mão, sombrio cavaleiro, / Cavaleiro vestido de armas pretas, / Brilha uma espada feita de cometas, / Que rasga a escuridão, como um luzeiro. / Caminhas no teu curso aventureiro, / Todo envolto na noite que projectas... / Só o gládio de luz com fulvas betas / Emerge do sinistro nevoeiro. / - «Se esta espada que empunho é coruscante / (Responde o negro cavaleiro andante), / É porque esta é a espada da Verdade: / Firo mas salvo... Prostro e desbarato, / Mas consolo... Subverto, mas resgato... / E, sendo a Morte, sou a liberdade. Veja mais aqui.  

PAGU – No livro Parque Industrial (José Olympio, 2006), a escritora, diretora de teatro, desenhista, jornalista, militante comunista e musa do Modernismo brasileiro, Patrícia Galvão, ou simplesmente Pagu (1910-1962), encontro para destaque os seguintes textos: [...] As seis têm olhos diferentes. Corina, com dentes que nunca viram dentista, sorri lindo, satisfeita. É a mulata do atelier. Pensa no amor da baratinha que vai passar para encontrá-la de novo à hora da saída. Otávia trabalha como um autômato. Georgina cobiça uma vida melhor. Uma delas, numa crispação de dedos picados de agulha que amarrotam a fazenda. – Depois dizem que não somos escravas. [...] - Você pensa que vou desgostar mademoiselle por causa de umas preguiçosas! Hoje haverá serão até uma hora. – Eu não posso, madame, ficar de noite! Mamãe está doente. Eu preciso dar remédio pra ela! – Você fica! Sua mãe não morre por esperar umas horas. – Mas eu preciso! – Absolutamente. Se você for é de uma vez. A proletária volta para seu lugar entre as companheiras. Estremece à ideia de perder o emprego que lhe custara tanto arranjar. [...] - O voto para as mulheres está conseguido! É um triunfo! – E as operárias? – Essas são analfabetas. Excluídas por natureza. [...]. Para se ter uma ideia da importância dessa mulher, o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), no seu Aos trancos e barrancos (Guanabara, 1985), diz dela: Patrícia Galvão – Pagu -, moderna, bela, assanhada, a brasileira mais inteligente de sua geração, escreve e desenha, menina ainda, seu primeiro livro: Pagu. Um caderninho sacaníssino. Sua vida foi contada no filme Eternamente Pagu (1987), direção de Norma Benguel, protagonizado por Carla Camurati, afora ter sido tema de dois documentários: Patrícia Galvão – livre na imaginação no espaço e no tempo (Unisanta, 1988) de Lúcia Maria Teixeira Furlani, dirigido por Rudá de Andrade e Marcelo Tasara, e Eh, Pagu!, Eh!, do cineasta Ivo Branco. Também tema-título de uma parceria musical entre Rita Lee & Zélia Duncan, afora ter sido tema nos palcos teatrais, a exemplo do espetáculo Dos Escombros de Pagu, baseado no livro homônimo assinado por Tereza Freire, além da fotobiografia Viva Pagu, de Lúcia Maria Teixeira Furlani e Geraldo Galvão Ferraz. Veja mais aqui.





CHORO: APOIO AO PROJETO QUEBRA CABEÇA
O grupo instrumental Sacudindo Choro, formado por Bruno Vinci (Violão 7 Cordas), Rafael Mota Rodrigues (Percussão), Rafael Nascimento (Violão 6 Cordas) e Fabrício Rosil (Cavaquinho), está lançando o seu primeiro disco Quebra Cabeça, com composições autorais e voltado para difusão do choro. Confira e apoie o projeto aqui.


Veja mais no MCLAM.