sexta-feira, fevereiro 03, 2017

A DANÇA TANGARÁ FESTEJA A PLETORA DO AMOR


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A DANÇA TANGARÁ FESTEJA A PLETORA DO AMOR - Imagem: foto da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. - Um clarão no céu e o amor no coração: Iaravi das manhãs, Freya da noite, qual frondosa etérea cumulada de portento fascínio, tremeluzindo alva na minha noite longa e espessa, a fazer-me emissário dos ventos no aconchego dos seus domínios. E se fez Freyaravi, deusa nua da vida, para vê-la mais de perto e sentir a precipitação vertiginosa do seu encanto exuberante com seus olhos bondosos de menina crescida e seu grácil semblante de riso de Sol e coração pulsante. Ela vinha pé ante pé e veio vindo e mais vindo pra me surpreender com seu jeito de céu às portas do paraíso, a me expor o seu corpo de mar ao convite de singrar e eu canoeiro de sempre excursionando a paradisíaca paisagem silenciosa do seu ser pro êxtase da minha chegada de viajante erradio ao sonho das águas embaladas. Senti as batidas do seu coração a me salvar o destino com seus seios dispostos feito araçás do campo pra minha boca sedenta de muito chupar e revirar suas moitas até sua fonte na baixada da vida, a crescer-me na alma inteira e intensa com suas labaredas a colorir o céu de aromáticas rosas e laivos de ouro nas nuvens rasteiras perfumadas, inundando meus desejos agarrados a sua nua carne e a não querer mais soltar e me arranchar de mansinho em seu ventre dadivoso pra saciar minha sede e me purificar dos males até tornar-me reverente a mais não poder e de nunca mais arredar o pé de perto dela e ganhar seus carinhos e sua companhia a passos largos, bailando qual tangarás, indo e vindo entre danças e abusões, festejando a pletora da vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

PAIXÃO
Imagem: The passion poet, art by Robert Gibson

Amo tua voz e tua cor e teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete, suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar
Ser feliz é tudo que se quer, ah! Esse maldito fecho ecler
De repente a gente rasga a roupa e uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar
Depois do terceiro ou quarto copo, tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo, não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém
Não quero ficar na tua vida como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme e se encharca de perfume
Faz que tenta se matar
Vou ficar até o fim do dia decorando tua geografia
E essa aventura em carne e osso deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar
Tens um não sei que de paraíso e o corpo mais preciso
Que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita e a boca mais bonita
Que a minha já tocou.
Paixão, música de Kleiton & Kledir.

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DESTAQUE: LENDA DO ITARARÉ
Foi há muitos anos; eu era pequenino quando ouvi contar essa estória triste que fazia chorar a gente velha e encha de medo os mais valentes caçadores do jaguar. Toda a tribo vinha fugindo das margens do Paranapanema, porque os cristãos, quando chegavam a qualquer lugar, derrubavam as florestas a machados, sem pena nenhuma dos grandes troncos de árvores, onde viviam as araras e o mutum e em cujas sombras mariscava o macuco, que às vezes caía nas garras do tigre, nosso rival nas caçadas das selvas. Depois lançavam fogo à derrubada, plantavam milho e feijão e, terminada a colheita, caminhavam para diante, devastando sempre. Foi assim que esses lugares, outrora habitados por milhões de aves que nos davam, além de bom alimento, as suas plumas de belas cores para o adorno de nossas vestimentas, se transformaram pelo fogo em campos sem fim, onde só vivem a jararaca e o urutu. O peixe, batido sem tréguas pelas redes que apanhavam grandes e pequenos, sem respeito ao tempo da criação, fugiu para muito longe, ganhou as águas do Paraná e refugiou-se em lugares onde encontra calma e só é apanhado sem estragos dos cardumes que saíram da desova. À noite, quando víamos o clarão vermelho no céu enegrecido pela fumaça das fogueiras, era o sinal de que eles já vinham perto. Levantávamos as tendas, fugíamos em procura de um outro rio. Às vezes éramos surpreendidos pelos camaradas, armados até os dentes e com o peito coberto de ferro, onde não penetravam as flechas envenenadas pelo nosso curare, por mais fortes que fossem os arcos e mais certeiras as pontarias dos nossos guerreiros que nunca tinham sido batidos pelos índios da outra margem do Paraná. O chão ficava cheio de gente morta ou muito ferida, e então os prisioneiros eram amarrados de mãos para trás e levados para o cativeiro. Uma noite quando acordamos estávamos completamente cercados e só à custa e força de tacape conseguimos abrir caminho entre os nossos inimigos; mas na fuga vimos que tinha sido presa uma das mulheres mais belas e formosas da tribo. Jaíra era o seu nome, e caiu sob o poder do chefe do bando, que era homem forte e comandava muita gente. Os pajés agitaram os maracás e a núbia soou com força em todas as matas, reunindo gente que escapara da morte ou do cativeiro. Decidiu-se que convidássemos muitas tribos para guerrear os brancos barbados e, desde então, partiram os emissários e a nossa gente entrou em preparativos de guerra. Durante uma lua inteira não saímos das margens do rio, colhendo flechas, e quando tínhamos grandes montes para combater muitos dias, usando de todos os recursos empregados na caçada das feras, fizemos a festa do preparo do curare, que também se chama uirari. Era a mulher mais velha da tribo quem tinha a honra de preparar o veneno. Vestia-se com penas encarnadas, ouvia o canto dos pajés e partia para a floresta donde voltava carregada de ervas. No meio da taba erguia a fogueira e punha a panela em que fervia as plantas, mexendo sempre a mistura com um pau enfeitado de penas de tiê e de saí. Os guerreiros sentavam-se à roda da fogueira, mas tão longe que não pudessem ser apanhados pela fumaça, e passavam o tempo comendo e bebendo. Quando o curare ficava pronto, os vapores da panela subiam e a velha respirava aquele cheiro e quando chegava ao ponto ela caía morta. Vinham outras mulheres e carregavam o corpo para as festas do enterro. Desciam os pajés e o cacique se apresentava pronto para o combate, esperando que o curare esfriasse de todo. Começava então a dança e os guerreiros, os homens, mulheres e crianças, andavam em torno da panela ervando as flechas; e só paravam quando todas as flechas tinham sido embebidas, guardando-se o resto do veneno para as flechas de caça. Mas antes de chegarem os guerreiros das outras tribos, veio um velho de muito longe e entrou no conselho dos pajés. Na guerra contra os brancos que usavam armas de fogo, disse ele, não devemos esperar senão a morte; são muitos e sabem se defender, sendo raro encontra-los isolados ou perdidos na mata. O que devemos fazer é o seguinte, continuou o velho. Um dos nossos guerreiros esconderá perto do acampamento dos nossos inimigos filtros de amor que nós conhecemos, a fim de Jaíra se fazer apaixonar pelo chefe, e depois irá apresentar-se como desertor da tribo para trabalhar com eles. Assim terá ocasião de falar com Jaíra e de entregar-lhe os remédios que estiverem ocultos. O amor de Jaíra inspirará confiança; e um dia, quando todos estiverem adormecidos com o ariru servido no banquete, entraremos em massa, de tacape em punho. Os pajés ouviram o recém-chegado e o seu plano foi o plano dos pajés. No dia seguinte partiu o animoso guerreiro que devia pôr em prática o meio pelo qual seriam vingados e libertos os nossos irmãos e com eles a nossa bela Jaíra; mas em vão esperaram pelo canto da saracura três vezes em noite de lua nova. O chefe ficou apaixonado, mas infelizmente Jaíra também deixou-se apaixonar pelo moço, de forma que no fim de muito tempo voltou o guerreiro sem nada ter conseguido. O tenente Antonio de Sá, assim se chamava o chefe, era casado em Santos, e quando a mulher soube do amor de Jaíra, fez com que o pai a trouxesse aqui. Uma tarde, quando menos se esperava, chegou a senhora branca, com muitos pajens e grande cavalhada. Houve luta entre os dois e no dia seguinte, Jaíra, cheia de desgosto disse ao tenente: Parto para a beira do rio, onde fico à sua espera à noite para fugirmos pela floresta. Quando a lua for descendo pelos morros azuis cantarei três vezes como a araponga branca, e, se não for ao lugar da espera, ligarei os pés com um cipó e me lançarei ao rio. E partiu a pobre mulher, deixando em lagrimas o moço. Quando a lua recolheu-se, o canto da araponga branca ouviu-se três vezes e o moço, chefe dos brancos, não foi procurar Jaíra. Uma tempestade medonha formou-se então e os raios foram tantos, que quase todo o gado morreu queimado, reduzindo muito os animais do tenente. Quando amanheceu o dia, estava a floresta toda alagada; o chefe montou a cavalo e acompanhado por um pajem foi à pedra indicada por Jaíra, mas só encontrou a roupa da infeliz criatura com uma coroa de flores de maracujá-do-mato em cima. O homem deu um grito de desespero e ficou tão louco que se atirou na corrente para nunca mais aparecer! A senhora branca soube do caso, montou cavalo e correu ao rio onde só viu a roupa de Jaíra e o lugar em que morrera o marido, e em prantos e gritos amaldiçoou o rio em que cuspiu três vezes. Então as águas cavaram o chão e se esconderam no fundo da Terra; os peixes ficaram cegos, a floresta fanou-se e morreu. Quem à noite desceu a gruta do Itararé – da pedra maldita, veria a pobre Jaíra vestida de branco com a grinalda de flores de maracujá-do-mato, tendo ao colo o corpo do moço que morrera por ela. Às vezes, a sua sombra vinha à beira da estrada; matava os viajantes, tirava-lhes o sangue e ia ver se reanimava o seu amor. E calou-se o velho para dizer, depois de prolongado silêncio: a penitência já se acabou, e um dia, quando menos se esperar, as águas do rio subirão de novo as suas margens e se espalharão pela Terra para refletir à noite a luz de todas as estrelas do céu.
Lenda do Itararé, recolhida pelo redator do jornal El País, Oscar Guanabarino, em 1894, registrada na Corografia do Paraná, por Sebastião Paraná e publicada em Estórias e Lendas do Paraná (Edigraf, s.d.), organizada por Alceu Maynard Araujo e Vasco José Taborda. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Sem me deixar intimidar, rabisquei pra ele, mais um poema -, em completa ausência de pudor violei o silêncio da página com todos os instintos de fêmea mulher e abri as comportas do meu coração, tamanha a ânsia do meu querer. É difícil explicar os tremores, os suores, os delírios, a minha condenação, a minha alma esquartejada aos seus olhos e a harmonia do gozo. É pra ele cada verso, cada prosa, cada oração e cada gesto de um bem querer que não tem começo ou fim -, apenas é. E a história é sempre um renascer e o sonho irradia o meu amor____mais forte a cada dia e nada mais me falta, estou completa, envolvida pelos braços dele...
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