sábado, maio 16, 2015

DUMITRESCU, QUINTANA, MARIA MOURA, RABELAIS, RONALD DE CARVALHO, MONICELLI, PELLAN & PRUD´HON.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Em todo momento de nossa vigília diária, nos defrontamos com escolhas que temos que fazer. Grapear primeiro isso ou arrumar? Segurar ou largar? Correr ou ir devagar? E na maioria das vezes optamos mecanicamente: é o cis do inopinado. Vai ou volta? Para ou continua? São muitas coisas que temos que decidir e não nos damos conta quando chegamos ao travesseiro na hora de dormir. Da hora que abrimos os olhos até fechá-los pro dia seguinte, nossa rotina é essa: escolhas. E a gente só toma pé mesmo disso, quando alguém nos diz: - Ninguém sabe o que diz, só se lembra do que recebe. Ou seja: a gente age tão intuitivamente que nem sequer temos consciência do que fazemos realmente, esquecendo-se que são nossos atos que falam mais altos do que aquilo que pensamos e do que queremos que os outros abstraiam de nós. É nesse dia a dia que construímos nossa personagem para que as pessoas nos vejam como queremos ser vistos. Contudo, para tragédia da nossa convicção, são exatamente as escolhas que fazemos, nossas atitudes impensadas, nossos comportamentos diante do inesperado, nossas ideias acerca daquilo, nossos insights que dizem quem realmente somos. E muitas vezes nos chocamos quando temos a constatação de que o que pensamos que somos aos olhos dos outros, é exatamente o contrário do que queríamos que vissem de nós. A máscara cai. E torna-se difícil o convívio consigo mesmo diante dessa constatação, parecendo mais que vivemos para ver os outros felizes conosco, do que a gente feliz consigo próprio. E aí? Como se diz no popular: a casa cai. E a nossa infelicidade toma corpo e, se a gente deixar levar, toma conta da gente, tudo por causa do nosso conflito entre o eu real e o eu idealizado. Isso me leva a um poema do Mário Quintana, Nada sobrou: As pessoas sem imaginação / Podem ter tido as mais imprevistas aventuras, / Podem ter visitado as terras mais estranhas, / Nada lhes ficou. / Nada lhes sobrou. / Uma vida não basta ser vivida: / Também precisa ser sonhada. Vamos aprumar a conversa! E veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: On the Beach (1945), oil on canvas, do pintor franco-canadense Alfred Pellan (1906-1988).

Curtindo o dvd The Hyperion Ensemble - do compositor romeno Iancu Dumitrescu, Ana Maria Avram e o Io Quartet, London, Conway Hall, Modern Edition – Edições Salabert, 2008.

ANARQUISTA FEMINISTA – Uma das figuras mais proeminentes do cenário político do país, é a da anarquista e feminista brasileira Maria Lacerda de Moura (1887-1945), que se notabilizou por seus escritos feministas, publicando os seus livros Em torno da Educação Renovação: a fraternidade na escola (1922), A mulher hodierna e o seu papel na sociedade (1923), A mulher é uma degenerada? (1924), Lições da Pedagogia (1925) Religião do amor e da beleza (1926), Clero e Fascismo, horda de embrutecedores (1933) O Silêncio (1944), entre outras publicações. Considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil, anticlerical e adotando uma perspectiva de luta de classes, ela denunciou a opressão exercida pela moral sexual burguesa sobre as mulheres e as camadas mais pobres, defendendo a educação sexual entre os jovens, o amor livre, o direito ao prazer sexual, o divórcio, a maternidade consciente, entre outros assuntos, contra os constrangimentos do casamento, da prostituição e da escravidão do salário. A seu respeito foi publicado o livro Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura, de Miriam Lifchitz Moreira (1984) e o documentário Trajetória de uma rebelde (2003), realizado pela equipe do Laboratório da Imagem e Som em Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP/Fapesp. Nos estudos realizados por Jussara Valéria de Miranda (UFU, 2006), encontra-se o texto Recuso-me, em que Maria Lacerda de Moura (O Combate, 1928) expressa suas ideias e propósitos em resposta às críticas ao seu posicionamento: [...] enquanto eu estiver no goso das minhas faculdades mentaes e dentro do equilíbrio das idéas em harmonia com o meu caracter, enquanto a minha consciência for o meu único juiz, a benção de luz da minha vida interior – a resposta ao despeito, ao fanatismo, ao sectarismo, ás injurias, ás calumnias, será continuar a pensar e a viver nobremente a coragem excepcional de dizer, bem alto, o que penso, o sinto, o que sonho, embora toda a covardia do rebanho humano apesar dos escribas e phariseus da moral social. As minhas armas são os meus sonhos, é a minha vida subjectiva, é a minha consciência, a minha liberdade ethica, é essa harmonia que canta dentro de mim, e toda a minha lealdade para commigo mesma; e eu não maculo a minha riqueza de vida, o meu thesouro interior, envolvendo-o na mesquinhez e na perversidade das leis dos homens ou misturando-o com dinheiro, essa cousa horrível que corrompe as consciências mais convencidas da sua fortaleza inexpugnável, e as escravisa, acorrentando-as à gehenna do industrialismo, as chocar-se umas contra as outras na engrenagem sórdida da exploração do homem pelo homem. Veja mais aqui.

TODA A AMERICA – O livro Toda a América (Poemas, 1925) do escritor brasileiro Ronald de Carvalho (1893-1935), reúne poemas do autor em homenagem aos países e suas paisagens do continente americano. Entre os poemas destaco o poema título Toda América: Do alto dos Andes, America, / do alto das sierras mexicanas, / de Laguna dei Inca, de Punta de Ias Vacas, de Orizaba / e Xochimilco, / eu te vejo deitada e intacta no claro músculo dos teus / cristaes, no ímpeto das tuas águas, no frêmito fresco / das tuas folhagens luminosas. / Em ti está a multiplicidade creadora do milagre, / a energia de todas as gravitações, / a massa viva de todos os volumes, / a promessa de todas as fôrmas, / America livre do terror! / America voltada para o futuro como um botão que espera / a flor e o fruto, / America assentada nas praias atlânticas e pacificas, jogando / com as ondas, as espumas e as areias, / America dos cafezaes, dos seringaes e dos cannaviaes, / America das locomotivas e das carretas de bois, dos elevadores / e dos guindastes, das porteiras de peroba e das / comportas de aço chromado de Pittsburgh, / America das usinas, dos dynamos, das válvulas e dos embolos, / America dos opprobrios e das reivindicações, dos trusts / e dos Estados insolvaveis, / America dos senhores de engenho liricos e trágicos, do / pulque e da aguardente, do tequila e da coca, / America lasciva que dansa o jarabe, o maxixe, o tango, o / fox, a cueca e a marinera, / America violenta do cavallo selvagem do caudilho, do punhal / dos generaes, da fogueira, dos lynchamentos, dos imperadores / banidos, dos Presidentes degolados, / America sophista e causidica dos Parlamentos e dos Tribunaes, / America de todas as imaginações, do azteca e do germano, / do guarani e do latino, do hispano e do inca, do aimoré / e do saxão, do slavo e do africano, / America dos barões e dos escravos, do ladrão e do capitão / mór, do santo e do heróe, / Eu vivo todas as tuas indisciplinas, a tua cultura e a tua / barbaria, as tuas pyramides e os teus arranhaceus, as / tuas pedras de sacrifício e os teus calendários, os teus / pronunciamentos e a tua boa fé puritana, / America livre do terror, / America dos meus avós guerreiros e constructores, / America do meu Pai que morreu pelo Rei! Veja mais aqui.

DELICIOSA: AVENTURAS GALANTES – O livro Aventuras galantes (Tinta da China, 2011), de Rabelais, um dos pseudônimos do jornalista e romancista pornógrafo português Alfredo Gallis (1859-1910), reúne uma serie de narrativas, entre as quais destaco Deliciosa: [...] Se me perguntassem se essa mulher era bonita ou feia, declarolhes que me encontraria em graves embaraços para dar uma resposta rapida, definitiva e precisa. Não era formosa, mas tambem não era feia. - Então em que ficamos?, dirá por certo o leitor. Tentarei explicarme e fazerme compreender. Não era formosa, porque lhe faltavam esses tracos excepcionais que constituem a formosura das mulheres; e não era feia, porque o brilho diamantino dos seus grandes olhos negros, profundos e excitantes, e o vermelho carmim dos seus labios frescos e sensuais davamlhe a fisionomia picante e sugestiva uma expressão singular que despertava interesse. Era levemente morena a sua tez e abundantes e revoltos os opulentos cabelos, que ela enrolava com uma deliciosa e voluptuosa negligencia, na qual pairava uma pontinha de coquetterie muito expressiva. De mediana estatura, mais alta do que baixa, era franzina de formas, magra mesmo. Dava nas vistas a maneira aprimorada como ela se calçava. Sempre meias de seda e sapatos ou botinhas da mais fina qualidade e do mais elegante e bonito talhe. Contavam os que de perto a conheciam que as suas ligas eram verdadeiros bijous de rendas e combinações de cores, e que as camisas que usava se singularizavam pela arrojada fantasia que expressavam. Uns depreciavamna dizendo que ela não era merecedora de que lhe rendessem culto. Outros elogiavamna afirmando que ela era uma histerica dotada de um temperamento de fogo, que se interessava excessivamente pelas lutas de Venus e que possuia segredos quase maravilhosos para elevar as regiões de inenarráveis gozos as mais insensiveis e cristalizadas decadências, gastas no abuso dos prazeres da deusa. Aos primeiros respondia ela triunfantemente com as suas toilettes de preço, as suas joias, os seus chapeus, as carruagens em que andava e toda essa bagagem de luxo que custa sempre muito caro e exige elevados reditos para se poder manter. Eu fui sempre da opiniao dos segundos. [...] Mas… achavalhe um não sei que, um tic, uma nota irritante e expressiva que me mordia a carne como um estilete de fogo, pois me segredava que aquela mulher devia possuir verdadeiros tesouros de volúpia quando a ardencia do seu temperamento, expressa no seu olhar quente e singular, a levasse a interessarse pelo homem que a possuísse. [...] Veja mais aqui.

PELE DE LOBO – A comédia em um ato Pele de Lobo (1875), do dramaturgo, poeta e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), é uma divertida sátira ao sistema de policiamento do império. Da obra destaco a cena X: [...] Cena X (Os mesmos e um Soldado) Soldado (a Cardoso.) Trouxeram este ofício e esta carta para Vossa Senhoria. (Entrega a carta e o ofício e sai.) Cardoso De cá. (Abrindo a carta.) Com licença. (Lê.) É um bilhete em que o oficial do gabinete do ministro me participa haver sido outro nomeado para a vaga do Cantidiano... E metam-se! Perdigão Hein? Cardoso E metam-se a servir o país! (Abrindo o ofício.) Com licença! (Depois de ler o ofício.) Sabem o que é? Minha demissão. Perdigão e Amália Demissão? Cardoso Á vista do que a meu respeito tem aparecido na imprensa periódica! Perdigão Não falemos mais nisso! Vamos embora. Cardoso Poupou-me o trabalho de pedi-la. Amália Quem não quiser ser lobo... Perdigão Mas o compadre acaba de despir a pele do lobo. (Apanhando o fitão.) Ei-la! Cardoso Atxim! (Saem tos os três e cai o pano.) (Cai o pano). Veja mais aqui.


ROSY LA BOURRASQUE – A comédia Rosy la bourrasque (Rosy Furacão, 1980), do cineasta e roteirista italiano Mario Monicelli (1915-2010), conta a história de uma grave lesão sofrida por um pugilista que se junta a uma equipe de luta livre feminina, na qual conhece a imponente Rosy, com quem se casa, acompanhando o crescimento estonteante da carreira dela e a decadência até o esquecimento da sua carreira, tornando-os amantes adversários. É uma adaptação livre de um romance de Carlo Brizzolara, no qual traz como destaque a atriz estadunidente Faith Minton. Veja mais aqui.





IMAGEM DO DIA

Nude black and white, do pintor e desenhista do Romantismo francês Pierre-Paul Prud'Hon (1758-1823)


Veja mais sobre:
Ética e moral aqui.

E mais:
Ética a Nicômaco de Aristóteles, a poesia de John Donne, Casa das bonecas de Henrik Ibsen, Justine de Marquês de Sade, O anjo exterminador de Luis Buñuel, a arte de Darel Valença Lins, a música de Antonio Carlos Nóbrega, a pintura de Hieronymus Bosch & A maneira de ser de Marilene Alagia Azevedo aqui.
As drogas & as campanhas antidrogas, Ética, A droga é só um pretexto de Francis Curtet, o pensamento de Milton Friedman, Pé na estrada de Jack Kerouac, a música do Yes, a pintura de Félicien Rops & Carlos Schwabe aqui.
A educação na sociologia de Émile Durkheim aqui.
A poesia de Virgílio aqui e aqui.
O pensamento de Paulo Freire aqui, aqui e aqui.
O teatro de Augusto Boal aqui, aqui, aqui e aqui.
Diário da guerra do porco de Adolfo Bioy Casares, A canção de Guillaume de Poictiers, a música de Charles Mingus, Cabra marcado para morrer, a pintura de Pierre Bonard, Estética Teatral, a fotografia de John Watson & a arte de Louise Cardoso aqui.
A literatura de Monteiro Lobato, o teatro de Jerzy Grotowski, a poesia de Antero de Quental, a arte de Patrícia Galvã – Pagu, a pintura de Jean-Baptiste Debret, a música de Uakti & Sacudindo Choro aqui.
A festa das olimpíadas do Big Shit Bôbras, Nietzsche & a modernidade de Oswaldo Giacoia Junior, a poesia de Gregory Corso, Intelectuais à brasileira de Sergio Miceli, a música de Wanda Sá, a pintura de Augusta Stylianou, o grafite de Banksy, a arte de Nancy L Jolicoeur & Nádia Gal Stabile aqui.
O sonho do amor, a literatura de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, a Gestalt de Afonso Lisboa da Fonseca, a arte de Ana Maia Nobre, As ventanias de Ana Viera Pereira, a pintura de Sandra Hiromoto, Luciah Lopez & Ana Cascardo aqui.
Andejo da noite e do dia, A era dos extremos de Eric Hobsbawm, A felicidade paradoxal de Gilles Lipovetsky, O amor de Martha Medeiros, a música de Gal Costa, a escultura de Nguyen Tuan, a pintura de Jeremy Lipking, a arte de Shanna Bruschi & Conto&Cena de Gisele Sant'Ana Lemos aqui.
Perfume da inocência, O amor e o matrimônio de Carmichael Stopes, a poesia de Automédon de Cízico, A psicologia do amor romântico de Robert A. Johnson, a fotografia de Beth Sanders, a pintura de Peter Blake, a arte de Chris Buzelli, a música de Maria Leite & Rebeca Matta aqui.
Do que fui pro que sou, Borges e os orangotangos de Luís Fernando Veríssimo, Moby Dick de Herman Melville, Novíssima arte brasileira de Katia Canton, o Big Jato de Xico Sá & Matheus Nachtergaele, a música de Robertinho de Recife, a coreografia de Simone Gutierrez & a pintura de Andre Kohn aqui.
Da inocência e da injustiça milenar, As aventuras da dialética de Maurice Merleau-Ponty, Histórias do tempo de Lya Luft, a poesia de Ilya Kabakov, a música de Yo-Yo Ma, a arte de Deise Furlani, a pintura de Oswaldo Guayasamin & Patrick Palmer, o cinema de Milos Forman & Natalie Portman aqui.
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